terça-feira, 8 de setembro de 2009

É Oficial

... encontro-me em estado de negação.
Só um estado de negação absoluta justifica que esteja toda a gente prestes a cortar os pulsos com o trabalho de arranque do ano lectivo e eu me apresente de ar blasé em tudo o que é reunião. Como se nada fosse e aquele filme não me dissesse respeito.
E depois, porque ainda há escolas com algum bom senso, a minha colega de casa tem o descaramento de dizer que esta semana não põe cá os pés, já que as horas que tem de escola são tão poucas e concentradas que justificam fazer a viagem de regresso ao lar paterno.
E eu, sem Mzinha a trabalhar e a inspirar-me a fazer o mesmo, não faço ponta de chavelho. E nem sequer me pesa a consciência, de verdade.
Em vez disso, vou jantar fora. Ou arranjo quem venha jantar comigo. Ou vou caminhar e espairecer. Ou voluntario-me para fazer traduções literárias que me dão um gozo desmedido(basicamente como se estivesse de férias, e me pudesse entregar a actividades lúdicas, a hobbies, às paixões de sempre). Ou vou tomar cafezinhos sempre que sou desafiada. (já devo ter o sangue da cor da cafeína). Ou vejo as temporadas das minhas séries favoritas que me chegam de surpresa à caixa de correio. Ou falo horas ao telefone com os que estão longe.
Ando ocupadíssima. Num virote. Parece é que estou num filme surrealista. Só num filme surrealista eu poderia ser a personagem-zen quando o resto do Mundo está a alucinar histericamente. Por isso, acredito mesmo, e declaro solenemente, que é oficial, estou em negação, e não tarda sou despedida da função pública.
Claro que a culpa será, em último caso, dos meus amigos. Ou deste calor que não me deixa pensar, processo que mesmo em dias frios já é suficientemente raro e doloroso...
E agora vou ali já venho, deitar-me e dormir, que estar ao computador lembra-me das coisas que tenho que fazer... ou melhor, teria, se acreditasse mesmo nisso.

domingo, 30 de agosto de 2009

Friendly Month

Agosto foi um mês amigo.
Em Agosto recolhi-me ao carinho maternal, expresso em quatro refeições diárias, muitas sobremesas e risos, muitas séries de culto a duas, algumas idas ao cinema, infindáveis cafezinhos, horas perdidas em shoppings, muita brincadeira com as mascotes da família. Em Agosto apaziguei saudades da cidade-berço, sem as matar, que as saudades do que está longe são imortais. Vagueei pelas ruas a pé, senti o cheiro próprio do metro, ouvi os ruídos familiares do trânsito, dos aviões, das ambulâncias, sons que não se ouvem por aqui. Os sabores da fast-food, e daquele bitoque específico, dos melhores croquetes do Mundo, dos pastéis de nata verdadeiros. Porque será que os sabores que nos marcam a infância jamais são superados por nada de novo que apareça?
Agosto foi um mês amigo.
Reconciliei-me com as minhas paixões. Li até ter que ir ao optometrista comprar uns óculos fashion por me doer a cabeça de modo infernal. Li, e li coisas brilhantes. Redescobri Marguerite Duras. Fui apresentada a Siri Hustvedt. Emocionei-me com o deserto do Miguel Sousa Tavares. Voltei a dar sonoras gargalhadas com o perspicaz Bryson. Entrei em vários mundos desconhecidos, fiz amizades com personagens estranhas e neuróticas, aventurei-me em estranhas paisagens e outros tempos. E vi filmes, fui ao cinema, abandonei-me ao DVD. Vi dois de que gostei muitíssimo, nenhum no cinema: “Seven Pounds” e “Into the Wild”. Sobre eles nem vou falar, por achar que qualquer coisa que diga fica aquém. Aconselho ambos vivamente, e a banda sonora de “Into the Wild” a duplicar.
Agosto foi um mês amigo.
Depois de sair da escola do ano passado zangadíssima com muita gente e decepcionadíssima com outra tanta, depois de ser testemunha e vítima de deslealdades que não consigo adjectivar de outra forma senão nojentas, e de ter ficado literalmente doente à conta do que a personagem de “Into the Wild” chama “Sociedade” ou a tendência que o ser humano tem de fazer mal aos outros naquilo que pensa, iludido, ser para benefício próprio e só o diminui, empobrece e apodrece, eis que, em Agosto-Amigo, um amigo com quem me tinha desentendido umas semanas antes, me dá provas da sua lealdade e integridade, num momento em que não tinha que o fazer nem eu o esperava. Saiu das suas férias e do seu mundinho, para me defender por escrito e em relatório, de uma acusação pouco justa a uma nota por mim atribuída. E depois de tanta traição, facadinha nas costas ou silêncio desleal por parte de tantos, o meu mundo emocional esboçou um sorriso. Não, nada está perdido enquanto não for eu a única a defender aqueles de quem gosto e houver outros a fazer o mesmo por mim sem precisar de lhes pedir.
Agosto foi um mês amigo.
E foi um mês de amigos. Depois de quase dois anos sem falar ao melhor de todos, depois de muito empenho e luta da minha parte, que sou uma tipa pouco dada a orgulhos e preconceitos, quando os fins são bens maiores, consegui o meu melhor amigo de volta, incondicionalmente. E parte do meu prédio, aquela parte que se assemelhava à Torre de Pisa, a vergar de um dos lados, endireitou, quando o alicerce que lhe faltava se reconstruiu e solidificou. Todo este blogue foi escrito na sua ausência e foi espelho dela, da falta que ele me fez em períodos difíceis. Apesar dos pesares, considero que, por muito errado que seja projectar o nosso equilíbrio em seres extrínsecos à nossa essência, a felicidade só é real quando partilhada, outra frase do “Into the Wild”. E a minha vida é mais colorida e muito mais saborosa com o seu sorriso familiar, o seu mau humor cáustico e a sua visão céptica do mundo e das pessoas, características essas que encontro decalcadas em mim e abolem o meu permanente sentimento de otherness, de alienação.
E foi um mês de amigos. Passei uma semana no Algarve com uma das melhores amigas que tenho, e toda a sua família. Convivi com crianças e adolescentes num plano distinto do ambiente escola. Fez-me bem à sensibilidade, à capacidade de sonhar, à imaginação e ao riso espontâneo, aquele que não tem laivos de ironia ou amargura, e que foi meu companheiro exclusivo durante tanto tempo.
E foi um mês de amigos. E against all odds, saiu-me o euromilhões nos concursos de professores. A Mzinha está de volta a casa. Quem diria? Se cada um tem o que merece, eu devo ser uma gaja mesmo especial.
Agosto foi um mês amigo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

What Makes my World Go Around

Dizem que o amor move montanhas, mas eu nunca vi. As que conheço estão, desde sempre, no mesmo sítio, e agradeço que por lá se mantenham que tenho um verdadeiro horror a terramotos e falhas tectónicas.
O que faz girar o meu mundo é o permanente (des)equilíbrio entre duas das minhas principais características, a inércia e a impaciência. Uma impaciência a que os ingleses chamam restlessness, um tipo peculiar de desassossego para o qual agora não consigo encontrar tradução à altura.
E, se bem que a minha inércia me diga, fica, estás aqui tão bem, no meio da tua cidade, na casa onde nasceste e cresceste, com a pessoa que mais te é familiar e mais te ama e mima, no meio dos teus livros e dos teus shoppings, e dos restaurantes de que sentes tanta falta na província, e dos cinemas e das livrarias, a verdade é que, de há uns dias para cá, a outra voz começou a ser mais insistente. A murmurar praia, noitadas, amigos.
E pronto, do nada, vou para o Algarve e até Setembro não haverá novas por estas bandas, que já andam, de resto, abandonadas quanto baste que, como escrevi ainda hoje numa sms que enviei a um amigo, "tenho lido muito e escrito muito pouco".
Espero voltar revigorada. Gostaria de voltar com uma noção mais tangível àcerca do vocábulo férias. É que as férias ainda não tiveram grande sabor, este ano. Parece que ainda estou em ressaca e já lá vai um mês. Acho que vai ser caso para dizer que quando me estiver a habituar ao ritmo, ei-lo que acaba.
Até ao meu regresso, deixo-vos as palavras queridíssimas do Solnado: façam o favor de ser felizes. Cá estarei para dar notícias na rentrée.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Bilhete Postal para a Sôdôna Gripe A (e não só)

Eu quero que você me ESQUEÇA neste Inverno...

... e que TUDO MAIS vá p'ró Inferno!!!

sábado, 1 de agosto de 2009

How to... (2)

... fight for your memory.
Cá estamos de volta ao consultório da Jade onde se dão dicas (que eu cá não aconselho ninguém), apontam estratégias e apresentam truques para lidar com "things that suck"; e quem sou eu para me achar digna de tal rubrica? Alguém que ganhou legitimidade em desastres inerentes à experiência própria.
O tema de hoje interessará mais a quem levar, anualmente, uma anestesia geral nas ventas e pesar, na maior parte do seu tempo, menos de cinquenta quilos. Soa-vos familiar? Pois.
Se há coisa de que me orgulho é da minha memória. Não é fotográfica, mas é muito boa. Excelente, diria mesmo, para tudo o que é não verbal, imagens, cheiros, caras, atitudes, sorrisos, reacções. Quando se metem as palavras à mistura, a minha memória passa a ser, apenas, muitíssimo aceitável (é a memória e a modéstia). Tenho um vocabulário bastante razoável em duas línguas distintas e jamais esqueço palavras ditas ou escritas que me tenham emocionado ou tocado de algum modo. Contudo, por exemplo, há mais de dez anos que sou incapaz de memorizar um poema, troco-me toda, e com as letras das músicas vai acontecendo o mesmo, de forma gradual.
E esta é a parte da rubrica que toca a todos, meus amigos, que a idade não perdoa ninguém.
Irrita-me solenemente saber perfeitamente qualquer coisa e não a conseguir lembrar. Seja um nome, uma situação, um facto ou uma data, tira-me do sério. De que serve um arquivo se não soubermos em que dossier procurar a informação? A anestesia geral dá-me cabo do juízo, e como sou magrita, as drogas devem subsistir mais tempo no meu sistema. Ando meses à nora, a balbuciar disparates, a calar-me a meio de uma frase, a parar a meio dos corredores, a ausentar-me em corpo presente. Pathetic.
Ao longo destes anos, tentei de tudo para recuperar o meu estado normal o mais rapidamente possível: ampolas, comprimidos, horas de sono-extra, caminhadas, exercício físico. Nada funcionou com a brevidade desejada.
Desta vez, a solução surgiu por acaso, por um daqueles acasos que em nada está ligado ao problema subjacente. Quando regressei a Lisboa, olhei a Moleskine e, no meu registo de leituras, dei conta, escandalizada, que tinha lido dois livros este ano. Dois livros. Ia-me dando uma coisa, e fiquei a olhar para aquilo, estupefacta. Isto nem parece teu... és uma grandessíssima anormal. É claro que sei bem como o desleixo chegou a este ponto. E isso ainda me irrita mais, ao contrário de entrar numa de auto-indulgência parola. Não há justificação possível para isto, para não se fazer o que mais se gosta, a troco de coisa nenhuma. Claro que sei que li imensa coisa avulsa, poemas, textos, histórias, entradas de blogues. Mas eu gosto é de livros, pá...
E deu-me a febre da leitura. Por vergonha, por castigo, por vingança, por afirmação própria... e por puro prazer, fui-me a eles. Em duas semanas li quase quatro vezes o que li o resto do ano inteiro. E não li só para dizer que sim, li MESMO.
Ao fim da primeira semana, comecei a escrever, depois de acabar a minha leitura, as impressões que me ficavam da obra na minha Moleskine. E vi que, à medida que ia lendo mais, ia lendo mais depressa e fixando mais detalhes. Ia fazendo mais associações e intertextualidades. E a concentração chegava por maiores períodos de tempo. Como me disse a Carolina, "estás a criar novas sinapses".
Para além disso, jogo mahjong todos os dias. Todos. Vários jogos. E durmo mais de oito horas. Digo-vos, está a funcionar. E eu estou muito aliviada, porque se há coisa que me deixa muitíssimo insegura é sentir-me intelectualmente diminuída. A memória é o que nos define, o raciocínio, o que nos distingue.
How to fight for your memory? Work out as if you were in a gym, but do it sitting down in a library.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Decadente

Não me tem apetecido escrever. Por inúmeras razões que até viriam ao caso se as soubesse enumerar, mas não sei. Sei, contudo, que há sempre motivos subjacentes a tudo, especialmente à falta de vontade para fazer as coisas de que habitualmente gostamos.
É a decadência, diria eu à minha amiga Carolina, com o meu ar indiferente ou melodramático.
E foi exactamente isso que lhe disse hoje, ao almoço, sobre determinada atitude minha. E esse comentário en passant deu um post brilhante, dos dela. Aliás, deu dois, que inspirada no dela, aqui vai o meu.
Acho decadente... tudo aquilo que escrevi no comentário que lhe fiz ao post e que espero que ela aceite; se não o aceitar, é a decadência absoluta. Ide lá ver, não me vou repetir. E também acho decadente...
  • trabalhar quando está meio-mundo de férias, e estar de férias quando a maior parte dos teus amigos está a trabalhar;
  • ouvir música pimba à pressão porque o teu vizinho de baixo adora, e ainda por cima deve ser surdo;
  • ver horóscopos todos os dias apenas para poderes dizer mal da astróloga ou da tua vida;
  • comeres o que te dão quatro canais porque não te apetece levantar do sofá para pôr um DVD;
  • apetecer-te um bruto bife e comeres uma taça de cereais porque não foste às compras;

e também acho decadente, e aí não tenho culpas no cartório, pronto, são coisas que existem e não posso fazer nada contra elas, a não ser pegar na bazuca imaginária e disparar uns quantos balázios,

  • trash-media;
  • eleições à portuguesa (adoro a democracia e detesto não ter em quem votar por achar cretina 100% da nossa classe política);
  • música pimba;
  • o salário mínimo;
  • pessoas como eu a perder quatro horas diárias em transportes para alimentar os filhos, e ainda terem que ouvir chefes déspotas que guiam BMs descapotáveis a dizer parvoíces e a achar que são o máximo;
  • malta toda contente nos santos populares, sem se poder mexer e a trincar uma sardinha ao preço do quilo delas;
  • discussões intermináveis sobre futebol;
  • pedidos de amizade no hi5 feitos por gente que nunca vi mais gorda;
  • manter as aparências, sejam elas quais forem;
  • gente que se gaba de conduzir lindamente porque infringe todos os limites de velocidade e acha que isso é heróico;
  • comentários racistas, xenófobos, machistas e que tais;
  • gente que cheira a cerveja ou a vinho (quando não sou eu, claro, que jamais cheiraria a cerveja, já a vinho... tem noites);
  • preencher o IRS;
  • ser funcionária do estado e ainda pagar IRS por cima, depois de preencher a declaração e saber o que se descontou;
  • não ver nada feito de jeito neste país, depois dos dois pontos anteriores;
  • ouvir gente a atender telemóveis no meio de uma sessão de cinema;
  • discussões aos gritos em público, vulgo, peixeiradas;

Pronto, acho decadente.

Mas como dizia à Carolina, decadence is my middle-name, nowadays. Embora isso não seja, de todo, verdade, e mentir seja, de facto, o cúmulo da decadência.

sábado, 18 de julho de 2009

À Verdadeira Chefe

Against all odds, e todos os que dizem que tenho muito mau feitio, e a minha própria opinião acerca de mim mesma, o acaso tem ditado a partilha de casa com colegas de há dez anos para cá, e a verdade é que nunca tive stresses com nenhum. Também é verdade que nunca partilhei casa com ninguém por mais de ano e meio.
Excepto contigo.
Foram quatro anos de convivência, e nos últimos três, ela foi praticamente diária. E dado que toda a gente diz que sou insuportável, devo-te com certeza a ti, o facto de jamais nos termos chateado, nem ao de leve.
Por isso, eu que escrevo tão bem, nem sei que te hei-de dizer.
Digo-te que fiz um esforço sobrehumano para tentar não pensar no dia de hoje, em que te ia abraçar sem a certeza de que voltes em Setembro a habitar estas paredes que te respiram e não fazem muito sentido sem ti aqui. Digo-te que me recusei a aprender as tuas receitas deliciosas, entre jantares, sobremesas e caipirinhas, com medo que desse azar, e saber fazê-las significasse que não ias ser tu a continuar a cozinhar. Digo-te que me faz uma confusão enorme esta sala só ter coisas minhas. Digo-te que, a primeira coisa que fiz quando cheguei a casa, foi fechar a porta do teu quarto e recusar-me a acreditar que não és tu quem a vai abrir. Digo-te que tentei com muita força não chorar e não consegui. Digo-te que não sei como vou sobreviver à nova escola, se vier para cá morar alguém que não conheço de lado nenhum, e eu não puder dizer os meus palavrões mais cabeludos. Digo-te que ainda agora vais em viagem e já sinto a falta do teu riso, ris tanto e tantas vezes que acabas por viciar as pessoas. Digo-te que sei que jamais te vou perder, e te vou ver muitas vezes, e ainda assim estou de rastos, cheia de medo pelo teu próprio futuro, sobre o que vão ditar estes cabrões destes concursos. Tenho medo que vás parar a uma escola em que não te conheçam nem reconheçam a pessoa rara, única, que tu és. Tenho medo que abusem da tua boa-vontade infinita, sem que eu esteja lá para te defender, já que jamais abres a boca para agredir seja quem for. Mas também tenho medo por mim. Tenho medo de não conseguir conviver com outra pessoa nesta casa, que é tua. Tenho medo da minha vida sem os nossos hábitos, sem ti ao meu lado no carro para ir comprar tabaco às bombas, ou uma garrafa de Monte Velho ao Modelo, seja que horas forem. Tenho medo da minha vida sem ti a preencher-me o IRS cheia de pachorra, com aquela merda a crashar de cinco em cinco minutos. Tenho medo da minha vida sem ti a aguentar até à meia-noite, para ver o que a Maya diz do dia seguinte, só para a poder desancar, “que estúpida, já viste isto? Deve estar com os copos”. Tenho medo da minha vida sem o habitual “Vamos comer à praça?”, “E se encomendássemos uma pizza?”, “’Bora convidar o pessoal para jantar cá em casa?”. Tenho medo da minha vida sem o “acho que vou fazer uma sestinha”, sem ti de volta dos puzzles ou das mini-fichas, a resmungar contra os irresponsáveis dos nossos alunos de nono ano. Tenho medo da minha vida sem as perguntas do costume, a sair de casa, “Tens a chave? Vamos no meu carro ou no teu?”
Bolas, pá, tenho medo da minha vida sem ti.
Mas desejo-te o melhor, o que mais te fizer feliz. Se isso for um sítio mais perto de casa e da família impecável que tens e amas, seja. Se isso significar ver-te apenas de quinze em quinze dias ou nem isso, seja. Se isso significar contas astronómicas de telefone, paciência. Longe ou perto, estarás para sempre no meu ventrículo esquerdo. E és espaçosa, que pouca gente se pode gabar de dizer que a Jade, tão crítica, tão má, tão insatisfeita, não lhe consegue encontrar um defeito que seja. Tu, minha amiga, és um ser de tal maneira único, que os teus defeitos são, apenas, as tuas melhores qualidades. Porque fazem de ti um ser de quem é muito fácil abusar.
Cuida-te. Estou sempre aqui de prevenção. Para tudo o que precisares. Tudo.
És a verdadeira chefe. E se há coisa que me ensinaste nesta vida é que há MESMO gente SEMPRE ALERTA. Assim estarei também, ainda que só para ti.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Será que saí no jornal?

Hoje ao almoço encontrei um amigo meu com um encarregado de educação de uns alunos a quem dei aulas este ano. Cumprimentei-os, e o meu amigo disse-me a piada do costume, então, ainda por cá? Gostas mais disto que de chocolate! e eu, vou agora à escola, esvaziar o cacifo e entregar chaves, que estou de partida desta para uma melhor...
(gosto de vestir a camisola do sítio onde trabalho, por mais contrafeita que esteja, a lealdade acima de tudo).
E o encarregado de educação, que também é professor, "olhe que essa escola tem má fama..."
E eu, acto-contínuo,"há que ser positivo: eu também tenho má fama e sou boa rapariga..."
(risos. Ele lá me fez o favorzinho de dizer que, na parte que lhe toca, o meu trabalho com os seus educandos tinha sido irrepreensível).
Um quarto de hora mais tarde, já à pendura no carro da Mzinha, cai-me a ficha: ouve lá, eu não disse em que escola fiquei colocada, pois não? Como é que um encarregado de educação, com quem eu troquei umas ideias duas ou três vezes, me fala da escola onde fiquei efectiva sem eu lhe dizer qual foi? Terei saído no jornal?
É por estas e por outras que quem me tira Lisboa, na grande maioria das vezes, tira-me tudo... qualquer dia nem a minha lingerie é assunto do domínio privado, apre! (o que vale é que a minha corda da roupa dá para as traseiras do prédio, senão o exagero seria uma possibilidade não tão remota quanto isso...)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

E esta, hein?


Fiz um questionário do BuddyTV, "What Grey's Anatomy character are you?". De modo muito honesto e genuíno. E não é que me calha uma das minhas personagens favoritas? Vou ali já venho, fazer uns muffins, a ver se me aparece o Denny.
(O questionário vale o que vale, e nada me tira da ideia que, de facto, quem eu sou mesmo é a Bailey...)

Vamos a Contas?

Um dia como o de hoje (o de ontem, que já passa da meia-noite) enchia-me a Pandora de contas, cada uma por cada momento inesquecível, por cada mudança de estado de espírito. Uma conta com um CD, um presente de despedida que um amigo me ofereceu; uma conta com uma boneca, pelas vezes em que o Pastorinho me disse, por causa da minha saia nova, "pareces uma bonequinha, és uma menininha... só te faltam os tótós!"; uma conta em forma de acta, que já nem as via bem, de tal forma este trabalho estava esquecido no baú do Tico e do Teco; uma conta em forma de lágrima, outra em forma de saudade, outra em forma de esplanada; uma conta em forma de neura daqui até ao Japão, como disse uma blogger amiga minha, que isto das escolas em fim de ano tem muito que se lhe diga, e muito, sobretudo, que é melhor calar; uma conta em forma de computador, por trás do qual me refugio e me distraio da vida real a passar lá fora; e uma conta em forma de adeus, a maior de todas, em cristal de murano azul. Pesada. Essa não a vou usar que a trago entalada na garganta. Por lapso, engoli-a.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Pergunta Retórica

Jade (depois de ouvir a enésima peripécia das matrículas dos nonos anos): Mas esta gente é toda estúpida ou nós é que somos as anormais?
Colegas em coro: essa pergunta é MESMO para responder?

Frase de Ontem

Há uma hora atrás, era ontem. E eu estava num barzinho onde se pode fumar, com uma amiga. E resumi o meu adeus à escola com a seguinte frase lapidar, que me define a alma esquizofrénica e contraditória, e vai ficar para a minha história pessoal como uma das baboseiras mais brilhantes de que sou autora:
"Não sei o que idealizei, mas ainda assim foi decepcionante"
Esta frase define-me. Passo horas a "empreender" nos assuntos, como diz um velho amigo. Crio cenários ou expectativas. Normalmente negras. E ainda assim, fico angustiada quando as coisas correm tal como previ, ou ainda pior, o que também acontece. Por exemplo, hoje. Depois de me despedir da escola e dos colegas, num misto decepcionante de emoções confusas emolduradas por um vazio apático, chega a Mzinha a casa e diz, tu que vais ler as actas... e eu, hã? e ela, pois, vais ler as actas...
Maldita anestesia geral. Então não é que me esquecia que ainda tenho serviço na escola? Agora é ver em que horário o vou fazer, para não dar de focinhos com ninguém de quem já me tenha despedido, que má onda!
Enfim. Ainda assim reitero, relativamente à despedida, não sei o que idealizei, não sei mesmo, nem me lembro de passar muito tempo ou algum, sequer, a pensar nisso. Mas que foi decepcionante, lá isso...

terça-feira, 14 de julho de 2009

Looking Back...

...over my shoulder, dei com o último Conselho de Turma da escola onde estive por três anos. É uma sensação estranha, saber que não me vou sentar mais naquelas cadeiras com aquelas pessoas. Saber que não vou partilhar mais aquele ambiente de trabalho, aquele modo de fazer as coisas, aquela sala de professores e o bar, em cafezinhos rápidos ou lanches mais demorados. Olhar para aquela gente e pensar, como tantas vezes hoje, "não vais ter nunca mais o prazer de trabalhar comigo" ou "já te livraste de mim, já viste que conveniente, até pareces mais leve, à despedida..."
Detesto despedidas. Mesmo quando, como o Pan, me dizem "de ti jamais me vou despedir" e eu sei que é verdade, também é verdade que há coisas que se perdem para sempre, quando duas pessoas deixam de ser colegas. Porque há coisas de colegas que mesmo os amigos jamais partilham. E há colegas que jamais serão amigos mas que, ainda assim, são pessoas com quem gostamos de estar.
E eu estou muito aliviada por não ficar na mesma escola e sei que é sítio onde não quero regressar. E esta convicção faz-me ter, então, a tal certeza de que há pessoas com quem não vai haver mais conversas casuais, mais partilha de trivialidades ou má-língua pura, há pessoas que, muito provavelmente, não voltarei a ver a não ser por um ou dois minutos, numa fila de supermercado. E embora esta sensação seja, no geral, muito gratificante, que cheguei a ter pesadelos com a hipótese remota de ir parar à mesma escola, tem também um timbre de saudade, quando as caras em questão mudam.
Apesar de tudo, e saltando para outra canção, o meu objectivo hoje, que saí mesmo de lá, é cumprir o conselho daquela banda "But don't look back in anger..."
Não está fácil, mas lá chegarei.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Querias...

... Foi o que Deus me disse, quando arregalei os olhos ao saber onde fiquei efectiva, e Lhe perguntei "What the f*ck is wrong with you? I said ALLgarve! I prayed ALLgarve!"
Não cuspo no prato que me alimenta, e estou grata por estar efectiva. (Sempre posso levantar o nariz em frente às pessoas que me conhecem, e percebem a ironia, e dizer "respeitinho, que eu agora sou uma professora a sério...") Mas, caramba... concorri de Aveiro ao Algarve e fiquei a vinte quilómetros da Cidade de Deus! Fiquei no Bunker! Não saí do Ghetto! Não tive a experiência agri-doce de ver a placa desta cidade, tão linda que fica, pelo espelho retrovisor, pela última vez. Não pude dizer, à meia-dúzia de seres que interessam aqui, "eu depois venho visitar-vos, num dia de sol a nevar...".
Deus, o supra-sumo da ironia.
E eu estou-lhe muito grata, enquanto o insulto a olhar para o meu futuro, que queria um virar de página e foi, apenas, um ponto final, parágrafo.
(suspiro)
Já fui à nova escola. Alguém surpreendente disse, lá, a apresentar-me a um colega. "Esta é a fulana-de-tal. Já cá deu aulas há uns anos e é muito fixe. É minha amiga". E pronto, caíu-me muito bem. Normalmente sou eu a dizer isso dos outros. Há muito que ninguém dizia de mim, "é minha amiga". Coisinha simples, mas de tanto valor, uma fogueirinha íntima a aquecer a essência da Jade. Por isso, vou dar umas tréguas a Deus até Setembro. Depois se vê como é que corre a mudança de parágrafo.
E Ele: ALLgarve, ALLgarve, queres não queres? Querias...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Jade, from A to Z

Apaixonada. Sempre. Nem que seja apenas pelas suas convicções, valores e ideias, que defende, apaixonadamente, até ao fim, sem olhar ao preço que invariavelmente por eles tem que pagar.
Brilhante. Faz questão de ser brilhante todos os dias, nem que seja só no gloss dos lábios.
Carismática. Involuntariamente. Adoraria ser consensual. Seria mais fácil encontrar-se em opiniões alheias sobre si que não fossem tão díspares, mas enfim, ou é amada ou odiada e o meio termo anda pela rua da amargura.
Determinada. Decidida. Drástica. Há coisas que empastela anos a fio. No dia em que acorda com a decisão tomada, venha o Papa, venha quem vier, não há volta a dar.
Enervante. Elegante. Tira quem lhe apetece do sério. Mas sempre com elegância. Até a dizer palavrões de all-stars surrados.
Felina. Em tudo. Frontal. É o seu pior defeito e não há meio de se livrar dele, por mais que a vida lhe mostre que assim não vai longe. Ainda está a pensar “tem calma contigo” e a sua verdade mais profunda já lhe saiu boca fora. Temos pena.
Gira. E boa. Como os helicópteros. Genuína. Até doer.
Humilde, não se nota? E honesta, sempre. Principalmente consigo própria que não tem feitio nem paciência para auto-violentações.
Inteligente. Muito Inteligente. Inteligentíssima. Até quando é burra e parva a dar com um pau. Infantil. Impaciente. Idiota todos os dias. Porque tem ideias todos os dias. São é parvas.
Jovial. Dia sim, dia não, dia não, dia não, dia não, dia sim. A tentar inverter a mé(r)dia do seu feitiozinho peculiar.
Livre. De preconceitos, pelo menos.
Má como as cobras. Melodramática. Mulher. Menininha.
Natural, pouco dada a artificialismos. Exceptuam-se a maquilhagem e os soutiens pull-up, que uma mulher também não tem que assustar ninguém, nem tem culpa de sair ao pai nos peitorais.
Opá, não sei. Com “O”… Otária. Frequentemente.
Parva. É muito parva, a Jade, a começar pelo sentido de humor e a acabar no altruísmo que só lhe traz dissabores.
Querida. Muito querida. Pelo menos é o que diz quem gosta dela, e os outros… who gives a damn?
Resmungona. Resingona. Respondona. Acho que não são precisos mais sinónimos, nem fazer um boneco…
Solidária. Sincera. E simpática. Com quem merece e muito de vez em quando, mas ainda assim.
Tolerante. Até ao ponto de se tornar uma perfeita anormal. Ou uma autêntica banana, como afirma a sua mãe, sempre que pode.
Um por todos e todos por Um. É o seu lema.
Valente. Era o que o avô queria que ela fosse. Voluntariosa, é o que ela é.
X. é a sua letra inicial. Marca-lhe a identidade para os amigos e família. Não responde por outro nome, na intimidade. Identifica-se desde pequena com este X. X marks the spot. O X marca o tesouro.
Zzzzz. Adora dormir. Zen. O estado que não alcança por mais que tente.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Reconhecimento Póstumo


Hoje, estava no bar depois da reunião de departamento a deitar, literalmente, conversa fora com uma colega de Espanhol que acumula horário noutra escola, precisamente a primeira em que dei aulas quando vim parar à Cidade de Deus. Já lá vão dez anos ou quase.
Estive nessa escola apenas um ano e entrei lá com um tal aspecto que muitas vezes os funcionários olhavam para mim confusos, tentando avaliar se era professora ou aluna. Ora tendo em conta que os alunos mais velhos têm 15 anos, tal não abonaria muito a meu favor. O Presidente do Executivo tratava-me por "cachopa" ou "cachopita". Os senhores da secretaria falavam comigo como se eu fosse uma miúda com Necessidades Educativas Especiais. Quando de lá saí, e rumei ao Norte, nas vezes em que me recordava desses tempos, achava sempre que tinha feito a maior figura de parva da história da docência em Portugal.
E hoje a minha colega que lá dá aulas, e que foi colocada na nossa escola já tarde, e pouco lá parou, sempre de um lado para o outro, e que por isso mal me conhece pelo nome, saiu-se com esta pérola: “Pois, tu chamas-te não-sei-quantas... agora é que estou a associar, fulano-de-tal (meu antigo coordenador de Departamento, e nessa altura Presidente do Pedagógico e membro do Executivo) é teu amigo?”, e eu, "Amigo? Não diria amigo, já não falo com ele há anos… mas sim, damo-nos bem”. E ela “é que ele disse-me, quando lá entrei e ele soube que também dava aulas aqui, que tu eras espectacular, muitíssimo competente e uma excelente colega. Para eu não me deixar impressionar com o teu ar (presumo eu, um ar arrogante, antipático e temível), que te dissesse duas ou três larachas, ou pedisse ajuda frontalmente, que tu tinhas a mania que eras má mas só não fazias pelos outros aquilo que não pudesses mesmo!”
Há ironias filhas-da-puta. Não pude deixar de sorrir e de agendar um telefonema ao cromo que me anda a descobrir a careca pela Cidade-de-Deus. Mas não deixa de ter muita graça ver o meu trabalho reconhecido dez anos depois, por colegas da primeira escola alentejana em que dei aulas, quando rezo, todos os dias, para que a presente seja a última e, diga-se de passagem, não me sinto por ela lá muito bem tratadinha, ah pois não.
Todos os génios são homenageados, de facto, postumamente.

domingo, 28 de junho de 2009

The Final Countdown

Europe, anos 80. Ou terá sido já nos 90? Anyway. I'm thrilled. It's almost over. E ando à procura daquele pingente com a mala de viagem, para a minha Pandora. Já que NINGUÉM me oferece daqueles românticos, acho que está na hora de oferecer um irmãozinho à pérola que a minha mãe me deu. Só rezo, rezo, rezo, para que seja o da mala de viagem. And God Speed...