Hoje saí à noite com uma amiga. Estivémos um bom par de horas na conversa. E foi redentor. Há conversas que só dá para ter com mulheres. Descrever umas sandálias que vimos há três semanas, por exemplo, até ao pormenor mais ridículo, sem que a outra perca o interesse, muito pelo contrário, dar toda a minúcia dos detalhes e a tua ouvinte acenar, de olhos arregalados, e fazer perguntas do género “salto agulha?” e tu, não, pá “stilletos”, é “stilletos” que se diz… já foste ao site do Louboutin? Do quê? Ai, a minha vida "melher"… do Louboutin, o Deus dos Sapatos, mas tu não vês televisão? Não lês a Elle? E ela, ai, caneco, ando desactualizada, logo eu que adoro sapatos… e eu, e das Melissas, já ouviste falar? E da colecção de havaianas da Bündchen? E ela, conta, conta, conta-me tudo!
Vá lá, ela já sabia que as pochettes agora se chamam “clutch”, mas ensinei-lhes que os macacos ou macacões dão actualmente pelo nome solene de “all-in-one”. E voltámos às sandálias, comigo a dizer-lhe: não eram umas Louboutin, mas custavam cem euros, cacete… cem euros! E ela, olha, estas, foi o que custaram, e eu: são giríssimas, mas repara, as outras seriam para usar uma vez ao ano, com sorte, e ela, pois, e estas também não fui eu que as paguei...
Quem lhas deu, na altura, foi o namorado. Suspirei. Apre, tenho mesmo dedinho para homens mão-de-vaca. Só me oferecem, e já vou com sorte e é raro, livros e filmes em DVD. Ou gadgets. Gadgets, a mim, que embirro solenemente com tecnologias, só uso o telefone para chamadas e sms, e não faço puto de ideia de como as músicas vão parar dentro do MP3. Suspirei de novo. Não sei que raio de ideia passo eu aos namorados, caneco. Está bem que sou um bocadinho a dar para o arrogante-intelectual, mas o que é que passa pela cabeça de um homem para oferecer um livro a uma namorada? Ou a porra de um MP4, ainda por cima feio, porque “não consegui arranjar o cor-de-rosa que tu querias…” (quando a única coisa a que eu acharia piada no dito objecto seria, precisamente, a cor)
Ando com a pontaria muito aquém do desejável. Os gajos acham que eu vou lá com poemas. Que me desfaço de amores com presentes simbólicos. Que suspiro por cartas de amor. Que sou doida por livros, músicas e filmes. E sou. Mas esses escolho eu, compro, peço emprestado, leio compulsivamente nas livrarias, viro a Fnac do avesso, passo a pente fino a Almedina. Isso lá é romantismo?
Flores, também… dispenso. A não ser que seja um girassol no timing certo, murcham e deitam-se fora. Agora, a minha amiga, essa sim, fez-me inveja. Só um homem que sabe bem o que faz oferece à namorada um par de sandálias de cair para o lado. Ou a carteira que ela anda a namorar. Ou um perfume maravilhoso. Ou “aquele” relógio que a faz babar vezes sem conta em frente à montra. Ou roupa, pulseiras, anéis, brincos, écharpes, havaianas, gorros... enfim, a parafernália é infinita e não é preciso serem coisas caras por aí além. Há que ter pinta e dar-nos graxa à futilidade, somos mulheres, caramba!
Daquela vez que o meu namorado me ofereceu o MP4, estive para enrolar os phones à volta do braço para me servir de pulseira (mas era tão feio...). Quando me ofereceram pela vigésima-sétima vez uns poemas (eram sempre de autores diferentes, mas enfim), considerei fazer uns furos nos livros para os prender às orelhas, tipo brincos (mas faltava-lhes um je-ne-sais-quoi de fashion). Uma mulher gosta de presentes que possa usar, que a enfeitem, que possa trazer consigo de amuleto, e dizer "foi o meu rapaz que me deu, não é tão liiiindo?" Tentem fazer isso com um DVD.
Por isso, enquanto hoje se falou de moda e eu dizia à minha amiga: "tu actualiza-te, que estás na Cidade de Deus, e podes estar de patas na lama… desde que estejas calçada de Blahniks…", pensava, de mim para mim, na intimidade do mais profundo ser que, da próxima vez que um namorado me ofereça um presente a que eu não ache graça, hei-de arranjar maneira de o meter (ao presente, não ao namorado) na minha Pandora. Oxalá não seja um aspirador, que ele há gajos para tudo.