quarta-feira, 27 de maio de 2009
Auto-Retrato
terça-feira, 26 de maio de 2009
Não me leves a mal, mas...
Detesto gente sonsa que se ri para ti e te desanca mal viras costas. Há quem chame a isto ser agradável, saber viver. Eu chamo-lhe hipocrisia, e abomino gente hipócrita. Respeito as pessoas de que não gosto e que não gostam de mim. Respeito-as por serem genuínas e consigo discernir-lhes qualidades positivas. Uma amiga minha diz que “quando conheces alguém tempo suficiente, ninguém é tão bom que nunca te desiluda, ou tão mau que nunca te surpreenda positivamente.” É um facto. Não é por não gostar das pessoas que digo que são burras se são inteligentes, feias se são bonitas, ou incompetentes se são cumpridoras.
Para além destes dois grupos, os genuínos que não me suportam, e os hipócritas que fingem que sim, há um grupo, o pior de todos, que não tem perdão. É um grupo restrito, mas o mais perigoso de todos. Os que acham que têm confiança suficiente contigo para, em nome de uma amizade que te cobram e jamais te dão, te poderem dizer de sua justiça tudo o que lhes apetece e lhes passa pela cabeça, tendo tu a obrigação de reagir, sempre, a bem. Não. Não me venham com sorrisos, não me mandem boquinhas dúbias que me deixem na dúvida se me estão a insultar ou a brincar, não me venham com boas intenções para me poder agredir. E não me digam
“Não me leves a mal aquilo que te vou dizer, mas…”
Ui, se me querem ver furiosa, é espetar-me com uma frase destas para início de discurso. Primeiro, porque a gente já sabe que não vai gostar do que vai ouvir. Depois, porque revela premeditação nas coisas desagradáveis que se sucedem ao mas... Finalmente, porque quem começa assim uma frase está, desde logo, a atribuir uma verdade incontestável à sua opinião, e a implicar que se nos chatearmos estamos a ser pouco razoáveis. É o sermãozinho paternalista, o abrir de olhos “bem-intencionado”, o chamar à razão sem direito a contestação. Isso é que era bom…
Jamais um amigo diz a outro “Não me leves a mal…” As verdades são para ser ditas, claro, mas de forma construtiva e de boa fé. Falem-me de coisas específicas, o que não faltam são atitudes minhas em que estive mal, em que fui injusta, em que descarreguei o meu mau-humor em pessoas inocentes, em que fui inconveniente. E agradeço que ninguém se chateie comigo sem antes me dizer porquê, para eu poder pedir desculpas, se for caso disso, para poder remediar as coisas, se for a tempo. Mas façam-no com lealdade. Na altura e espaço próprios. Sem rodeios, generalizações e mesquinharias.
Quem me vem com “Não me leves a mal, mas…” não me quer ouvir. Quer apenas despejar a sua verdade, os seus juízos de valor, as suas acusações, as suas raivas fermentadas. Pedir para não ser levado a mal é, logo à partida, dar-me todas as razões do mundo para achar que as coisas são ditas, de facto, com má intenção. É um convite ao monólogo, a execução sumária de qualquer possibilidade de diálogo aberto comigo. Nada. Encerram-se logo ali os trabalhos, sem mais confianças.
E hoje vim para casa irritada a pensar nisto. E, nem de propósito, porque o dia só acaba no fim, recebo uma sms a dizer “já foste à caixa do correio?”. Quando abro a dita caixa, em envelope de Correio Verde, dou com a quinta temporada da Anatomia de Grey. Com vários filmes que queria ver há séculos. E com um porta-chaves da Nici, um gatito preto sem um olho. E exulto de alegria. Ao telefone com o remetente, este pergunta-me se preciso de um desenho sobre o significado do Gato, logo baptizado de Luisinho. E diz-me: “É que em terra de cegos, quem tem olho é rei” (não deixa de ser mirolho… mas é rei).
Passou-me logo tudo, fui dos zero aos cem num micro-segundo e, por isso, tenho que dar a mão à palmatória: "não levo nada a mal", môri, sou mesmo bipolar. Tenho altos e baixos por dá cá aquela palha e quando tenho baixos “trato mal gente que não merece”. Sobra para todo o lado, desanco meio mundo e a outra metade, é tipo hobby, cada um escolhe o que melhor vai com o seu tom de pele, e o meu é este. Sou louca-furiosa, de repente, sem motivo, pum! Haverá razões tangíveis? Problemas concretos? Bocas foleiras? Comentários infelizes? Nada! Isso são meros detalhes com que se preocupa apenas gente com poucos estudos, gente dada a pormenores extra-umbigo, fora da realidade de mundos de que é rei e senhor. Quais motivos? Não há razão nenhuma: é tontinha... e espalha o terror entre vítimas inocentes. Ola-ri-la!
Pois sou. E, sendo assim, vou procurar ajuda médica urgente. Estou seriamente preocupada com a minha influência no mundo que me rodeia, à mercê da minha loucura. Credo... como é que ainda não houve um motim? Gente acomodada a sofrer, este povo tuga...
E ainda me deixam presentes e mimos na caixa do correio... por isso,“não me levem a mal, mas…” vamos papar a quinta temporada da Anatomia de Grey. Eu e a outra, a tal que trata mal toda a gente, e ainda assim, tem amigos à maneira. Fenomenais. Para os quais tudo vem com o pacote, o bom e o mau. A Jade-Jekyll e a Jade-Hyde. Amigos cinco-estrelas. Ou seja, amigos, ponto final. O resto é redundante.
Mas há algo a que não resisto: mudar de ideias, que sou bipolar, esquecer a ajuda médica e assumir em vez disso o papel confortável da tontinha transviada, que se há coisa que toda a gente sabe é que os malucos não são para contrariar. E isso agrada-me muito. Não me contrariem que eu flipei, tá? Vou treinar ao espelho tiques nervosos e frases absurdas. Um olhar alucinado. Esgares. Reivindicar esse direito, para poder dizer, de minha justiça: "Honey, go fuck yourself and blame it on my insanity".
sábado, 23 de maio de 2009
Sessão da Tarde
Estes discursos são tão "munitos...", que só dão resultado nos filmes. Ou então é da língua, "A língua inglesa fica sempre bem, e nunca atraiçoa ninguém..."
Gotta Be
No bar do costume, quase sem voz, ainda houve tempo e lugar a dois dedos de conversa, comigo a queixar-me (claro!), ai, pela tua rica saúde, qual praça, qual quê, 'tou de rastos, levei uma sova de todo o tamanho, eu quero é sentar-me, beber um copo e que ninguém me chateie, lá tenho pachorra para esplanadas cheias de gente...
Mas, afinal, era mentira, não estava assim tão cansada, porque, de regresso a casa, ao volante do JadeMobile, a rádio de repente passa isto...
E foi ver sôdôna Jade a cantar um dueto com a Des'ree, e a deixar-se ficar no carro, um bom bocado depois de o ter estacionado em segurança, sozinha no parque de estacionamento, a dançar toda contente a música até ao fim. Mesmo até ao fim.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Tácticas e Estratégias
(O título do post vem do poema do Benedetti, que adorei, e que vem ao encontro do que acabei de dizer. Não há nada a fazer. Não depende do eu. Depende do nós, cinquenta-cinquenta)
quarta-feira, 20 de maio de 2009
A Fuckin' Roller-Coaster
terça-feira, 19 de maio de 2009
Beggin'
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Mário Benedetti
Amor de Tarde
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.
É, de facto uma pena. E eu tenho pena de não saber expressar as minhas assim.
Corazón coraza
Porque te tengo y no
porque te pienso
porque la noche está de ojos abiertos
porque la noche pasa y digo amor
porque has venido a recoger tu imagen
y eres mejor que todas tus imágenes
porque eres linda desde el pie hasta el alma
porque eres buena desde el alma a mí
porque te escondes dulce en el orgullo
pequeña y dulce
corazón coraza
porque eres mía
porque no eres mía
porque te miro y muero
y peor que muero
si no te miro amor
si no te miro
porque tú siempre existes dondequiera
pero existes mejor donde te quiero
porque tu boca es sangre
y tienes frío
tengo que amarte amor
tengo que amarte
aunque esta herida duela como dos
aunque te busque y no te encuentre
y aunque
la noche pase y yo te tenga
y no.
Rostro de vos
Tengo una soledad
tan concurrida
tan llena de nostalgias
y de rostros de vos
de adioses hace tiempo
y besos bienvenidos
de primeras de cambio
y de último vagón.
Tengo una soledad
tan concurrida
que puedo organizarla
como una procesión
por colores
tamaños
y promesas
por época
por tacto
y por sabor.
Sin temblor de más
me abrazo a tus ausencias
que asisten y me asisten
con mi rostro de vos.
Estoy lleno de sombras
de noches y deseos
de risas y de alguna
maldición.
Mis huéspedes concurren
concurren como sueños
con sus rencores nuevos
su falta de candor
yo les pongo una escoba
tras la puerta
porque quiero estar solo
con mi rostro de vos.
Pero el rostro de vos
mira a otra parte
con sus ojos de amor
que ya no aman
como víveres
que buscan su hambre
miran y miran
y apagan mi jornada.
Las paredes se van
queda la noche
las nostalgias se van
no queda nada.
Ya mi rostro de vos
cierra los ojos
y es una soledad
tan desolada
Aquele que eu escreveria, se tivesse arte para isso:
Táctica y estrategia
Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos.
Mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible.
Mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos.
Mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos.
Mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple.
Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.
E o meu favorito,
Viceversa
Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte.
Tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte.
Tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte.
o sea,
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.
Eu deixei-me seduzir, mesmo sem perceber tudo, que tenho fraco castelhano. Mas as emoções são, de facto, universais.
Preservativos nas Escolas
É só a mim que escandaliza que isto possa acontecer num futuro próximo?
Quem me conhece bem, sabe: sou completamente alérgica ao que chamo “a moral e os bons costumes”. A maior parte das vezes, um chorrilho de parvoíces hipócritas que as pessoas usam para ser infelizes e dizer mal da conduta alheia. Sou uma pessoa muito bem resolvida a nível sexual, sempre fui. Tão bem resolvida que sou olhada de lado muitas vezes, porque não me culpo, não me arrependo, não me ruborizo, não me desconforto, não me impressiono com outras preferências, não critico ninguém que seja feliz nas suas escolhas. E isto porquê? Porque tive a sorte de ter uma família impecável. Porque sempre pude recorrer à minha mãe em caso de dúvida e jamais uma pergunta minha ficou sem resposta. Porque foi por ela, e não por amigas da mesma idade, que obtive todos os esclarecimentos pedidos no mesmo tom natural que ela usa para falar do jantar ou do trabalho.
O que está errado é fazer da sexualidade assunto tabu em casa. Se os adolescentes puderem falar de sexo com os pais, porque raio precisarão de preservativos antes de ter idade para largar as Barbies? Não percebo. Não será preferível falar-se de auto-estima, respeito pelo corpo enquanto templo sagrado, descobertas graduais? Não será preferível discutir-se tudo o que está subjacente ao sexo, coisas que demoram, em qualquer idade, tempo, bastante tempo, a consolidar? Arrepia-me pensar que, se tivesse um filho no Ensino Básico, este poderia já estar a pensar em deitar-se com alguém. Que noção tem um adolescente, com a vida inteira pela frente, da responsabilidade que é poder engravidar, do trauma que é ter que abortar, do que poderá ser ficar incapaz de voltar a ter filhos ou ter que os criar numa altura em que devia estar a divertir-se, a namorar, a estudar, a preparar um futuro, a sonhar? Não devia ser por aí, a Educação Sexual?
Comigo foi. Lembro-me de optar por não correr qualquer risco até bem tarde na minha vida. Lembro-me de preservar o meu corpo, de não ceder a tentações pela simples evocação da imagem do que seria ter que dizer em casa “Estou grávida”. Lembro-me de ter um medo horrível, depois disso, e depois de já ser sexualmente activa, de engravidar e optar por um aborto que, correndo bem ou mal, seria sempre uma catástrofe emocional. Só já bem mais tarde, depois dos vinte e cinco, esses medos passaram todos. Agora, neste momento, seria mãe na maior das calmas. Mas continuo e continuarei a não estar preparada para ter HIV ou Hepatite B.
A Escola não pode banalizar o acto sexual adolescente simplesmente porque a sociedade, a televisão, a publicidade, tudo, enfim, se erotizou. Tem que se incutir responsabilidade aos miúdos. Fazê-los perceber que podem estragar as suas vidas inutilmente, com algo que, a seu tempo e bem vivido, será uma das partes mais bonitas da sua existência. Ensiná-los a esperar. Mostrar-lhes as alternativas. Avisá-los das consequências, não só de uma gravidez, mas de doenças mortais, avassaladoras, estigmatizantes. E deixá-los, depois, escolher. Se escolherem arriscar, então que comprem eles os preservativos. Não são senhores para arranjar tabaco? Não são senhores para conseguir todo o tipo de substâncias ilícitas?
Todo o ser humano, moldado de forma coerente e consciente, sabe parar quando o instinto é sobreviver. Não deveria ser por aí que a Educação Sexual deveria ir? Sou contra o facilitismo quando se trata de coisas sérias. Os meus alunos sabem disto. Os meus filhos sabê-lo-iam também. Em vez de dar preservativos às meninas de treze anos, devia-se-lhes perguntar: estás preparada para ser mãe? Achas que tens idade para casar, arranjar um emprego, ir viver sozinha, levantar-te três e quatro vezes por noite? Não? Bem-vinda ao mundo dos adultos. Tem juízo e vai estudar.
domingo, 17 de maio de 2009
En Passant
Depois, num barzinho semi-vazio, num sábado à noite intimista entre amigos, ouvimos, "en passant", ao fundo, lá bem ao fundo da conversa, o seguinte,
e suspiramos. Relembramos. Damo-nos ao luxo de sonhar. E de ter saudades do futuro. Continuo a deixar-me seduzir pela simplicidade das coisas. Pela luz dos olhos teus ou, à falta dela, a perfeição duma canção simples.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Restless
quarta-feira, 13 de maio de 2009
The Mentalist
Para já, o rapazito, embora louro, é bem apessoado. Não é o Derrick, nem o Alex, nem o Mark, mas é suficiente. Depois, é uma série, tal como era a Grey, cheia de tiradas que se arriscam a tornar-se epígrafes, coisas lapidares e emblemáticas. Eu e o Pan repetimos até à náusea a palavrinha “Seriously!”, por exemplo. Sempre da mesma forma, sempre com a mesma intenção. Ontem achei muita piada a um diálogo, em que The Mentalist respondeu deste modo, a uma mulher que lhe perguntava “are you a psychic?”, “No. I just pay attention to small details.”. Claro que já deu para perceber que o senhor, de facto, tem poderes extrasensoriais e telecinéticos, entre outros. Mas ainda assim...
Hoje, ao entrar na escola, vinha com alguns problemas pessoais bem pesados dentro da mochila metafórica que trago às costas. Coisas sérias. E a seriedade é algo de que faço troça a maior parte do tempo; quando não faço, mal vai o barco. Mas vinha também expectante, com alguma esperança que o trabalho me distraísse e os amigos me animassem. E se há pessoas que sofrem de umbiguidade (não, não quero dizer ambiguidade, quero dizer mesmo o que disse, referindo-me às pessoas que só se preocupam com o seu UMBIGO e por isso se tornam ambíguas nas atitudes, tratando os outros na razão directa dos seus próprios humores, nunca se sabendo se simpatizam ou não connosco, se nos falam ou não, oscilando permanente e esquizofrenicamente nos dois pólos), e são completamente herméticas aos problemas alheios, há outras a quem uma carinha laroca, bem maquilhada e ainda de cabelo esticado pelo cabeleireiro, não engana.
What’s up, doc? E eu, nada, ‘tá-se. ‘Tá tudo bem.
Queres enganar quem? Vens a sorrir só com os lábios. Tremem-te as mãos. Abriste e fechaste a carteira três vezes sem tirar de lá nada. E estás silenciosa há mais de cinco minutos. (Acho que a este ponto do discurso, sorri com os olhos). Are you a psychic?
terça-feira, 12 de maio de 2009
Tempo Perdido
Não percas o teu tempo, disse eu hoje a alguém que me é muito querido. Eu nunca perco tempo, respondeu-me.
Fiquei a pensar naquilo. Até o tempo, e a forma de melhor o aproveitar, é discutível nesta vida. Perder tempo aflige-me. E eu perco tempo demais. Mas o que é perder tempo? Perder tempo é pôr a vida em modo pause, com a consciência de que isso é impossível. Não perdes tempo quando dormes se estás exausto, mas perde-lo quando te deitas a dormir no sofá porque não tens coragem de procurar melhor que fazer, mesmo sozinho. Não perdes tempo se choras porque te magoaram, porque te fizeram mal, porque te morreu alguém, porque falhaste uma coisa importante, porque o teu trabalho de horas se evaporou num vírus informático. Mas perde-lo quando choras demais. E sabes que choras demais quando as tuas lágrimas têm o mesmo propósito again and again, e o seu destino é algo que não tens o poder de alterar. Todos os problemas que não têm solução estão, à partida, resolvidos. Não perdes tempo quando fazes coisas que te dão prazer, mas perde-lo se não cumpres as tuas obrigações por causa delas. Não perdes tempo quando deixas de falar com pessoas a quem não reconheces valor ou interesse, mas perde-lo quando te zangas com as que amas. Não perdes tempo quando te dedicas a uma causa em que acreditas, mas perde-lo quando insistes nela, depois de deixares de acreditar. Não perdes tempo a lutar pelas tuas convicções, mas perde-lo quando teimas por capricho, por orgulho, por recusa em dar o braço a torcer.
Tudo isto, como disse, é discutível. Mas eu sou acérrima defensora de fazer o melhor com o tempo que nos resta, e que a gente nunca sabe quanto é, e pródiga em deitá-lo, ainda assim, janela fora, prisioneira que sou de detalhes que não interessam nada. Apesar disso, recuso-me a aceitar que estou a perder tempo a amar seja quem for: tudo o que nos faz melhores pessoas torna o nosso tempo por cá útil. E o que faz de nós pessoas úteis é sempre tempo bem empregue.
Hoje, todavia, sinto-me muito triste, o que é, na grande maioria das vezes, uma perda de tempo. Li assim, num blogue amigo:
"... Cada noite
assinalo na parede do tempo.
... o último dia..."
(António Osório, O lugar do amor e Décima aurora (Obra Poética II))
O próprio passar do tempo, esse implacável, naquela eterna metáfora, escorre-me entre os dedos e angustia-me. Os risos e os sorrisos estancam os grãos de quando em vez. E a contradição oscila sempre entre a angústia de o ver passar e a tendência suicida de o antecipar de vez, como se a ansiedade e a dor se desvanecessem com a palavra fim, quando sei de cor que esse fim vai ser apenas o princípio de outra luta titânica com a vida.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Call me House
Hoje lá levei para a escola o meu melhor sorriso. Durante várias alturas do dia tive, literalmente, que o algemar ao rosto, que o sacanita esperneou que se fartou, deserto que estava de dar à sola e ir meter-se na cama. Mas quem é que manda aqui? Até ver, eu.
Agora também vos digo… isto dá muito trabalho. Começo a admirar genuinamente os sonsos e os hipócritas, que isto de fingir que se está nas sete quintas, quando só nos apetece esbofetear quem temos à frente, é uma arte. E eu cá de artista tenho pouco. Por isso, a primeira coisa que fiz quando cheguei ao lar doce lar, foi atirar com o sorriso para casa do carago, tipo sapatos que nos apertaram o dia inteiro, e dizer em voz alta uma data de palavrões. E depois disto, mas só depois disto, lá aceitei que o estuporado regressasse, mansinho, a colar-se-me à cara. Desta vez, de forma natural e genuína.
Tenho que dar a mão à palmatória: Call me House. Dr. Jade House.
(Alguém viu o House hoje? Pois é, eu estou a ver... e a rir-me que nem uma idiota: então não é que o gajo hoje está mansinho, mansinho, que parece a Jade com o sorrisinho na cara? Claro que acabou de cair para o lado, com uma doença desconhecida. Amanhã, à cautela, vou levar o telemóvel com ligação directa para o INEM...)
domingo, 10 de maio de 2009
Dragão
Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos são naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fonte incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.
Miguel Torga
A maratona de poesia, à laia de Sherlock Holmes de que tu foste Dr. Watson paciente e céptico, havia de deixar mais frutos que olhos vermelhos e sonos trocados...
"Precisa-se de um amante"
Há também as que não têm, e as que tinham e perderam. Geralmente são estas últimas que vêem ao meu consultório para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insónia, apatia, pessimismo, crises de choro, ou as mais diversas dores.
Elas contam-me que as suas vidas correm de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar o tempo livre.
Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente a perder a esperança.
Antes de me contarem tudo isto, já tinham estado noutros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: "Depressão"... além da inevitável receita do anti-depressivo do momento.
Assim, depois de as ouvir atentamente, eu digo-lhes que elas não precisam de nenhum anti-depressivo. Digo-lhes que o que elas precisam é de um Amante!
É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem o meu conselho.
Há as que pensam: "Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa destas?!".
Há também as que, chocadas e escandalizadas, despedem-se e não voltam nunca mais.
Às que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico-lhes o seguinte: Amante é "aquilo que nos apaixona". É o que toma conta do nosso pensamento antes de adormecermos, e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir.
O nosso Amante é o que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida.
Às vezes encontramos o nosso amante no nosso parceiro, outras vezes, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis.
Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no desporto, no trabalho, na necessidade de nos transcendermos espiritualmente, numa boa refeição, no estudo, ou no prazer obsessivo do nosso passatempo preferido...
Enfim, Amante é "alguém" ou "algo" que nos faz "namorar" a vida e nos afasta do triste destino de "ir vivendo". E o que é "ir vivendo"?
"Ir vivendo" é ter medo de viver. É vigiar a forma como os outros vivem, é o deixarmo-nos dominar pela pressão, andar por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastarmo-nos do que é gratificante, observar decepcionados cada ruga nova que o espelho nos mostra, é aborrecermo-nos com o calor ou com o frio, com a humidade, com o sol ou com a chuva.
"Ir vivendo" é adiar a possibilidade de viver o hoje, fingindo contentarmo-nos com a incerta e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã.
Por favor, não se contentem com "ir vivendo". Procurem um amante, sejam também um amante e um protagonista da vossa vida...
Acreditem que o trágico não é morrer, porque afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver, por isso, e sem mais delongas, procurem um amante.
A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental:
"Para se estar satisfeito, activo, e sentirem-se jovens e felizes, é preciso namorar a vida". "
Texto: Dr. Jorge Bucay
Livro: "Hay que buscarse un Amante"
E é agora que os meus leitores anónimos me vão encher a caixa de comentários dos insultos do costume, em que me chamam oferecida, desesperada, ressabiada, mal-amada. Porque esses leitores nunca vão ao fundo das coisas, às verdadeiras necessidades e à busca do amor. Esses anónimos reduzem tudo ao sexo e ao animalesco. Por isso, vão-se ficar pelo título e partir para o insulto. Como fizeram com o texto "Klimt". A todos os outros, àqueles que leram tudo, só pergunto, retoricamente, "tens um amante?", desejando, do fundo do coração, que todos eles, todos, me respondam, em silêncio e em verdade, numa verdade vinda do mais profundo das suas essências, que sim. E àqueles que, suspirando, afirmarem de si para si que "não", o meu voto é que o dia de hoje, que ainda agora vai a meio, lhes ofereça um de presente.
Hoje levantei-me e calcei o futuro. Estava ao lado da minha cama, a olhar para mim, como umas pantufas confortáveis e quentes. Lavei roupas, fui ao supermercado e cheirei as maçãs. Ajudei um senhor velhinho com as compras. Antes de sair de casa, vi se tinha as chaves, a carteira e, antes de abrir a porta, agarrei o meu melhor sorriso, que tantas vezes ficou esquecido em casa. Arranjei-lhe um lugar cativo, pendurado no puxador na porta da rua. Não voltarei a sair sem ele. Porque é preciso namorar a vida, passear com ela de mãos dadas, sem vergonha. Ser pirilampo, se esse é o nosso destino. Brilhar, mesmo que incomode. E viver, sempre.
Pseudónimo
Li a minha vida toda em palavras alheias. Li a tua vida toda também nessas palavras. E o que dói é isso, essa falta de significado a que se dá um sentido que é só nosso, e que julgamos ser único. Enquanto divagava por palavras alheias, e fazia corresponder datas a poemas escolhidos, e vinha aqui ao blogue para confirmar o que me acontecera na mesma data, e verificava que as palavras alheias surgiam como se tivessem sido escritas por alguém sentado no meu ombro, ou, pior, deitado no sofá da minha alma, enquanto isso acontecia, pensava que estava a perder o pé no mar de mim própria.
Passei a noite a ler poemas que pareciam ter sido escolhidos a dedo para mim. E esse sentido que eu lhes dava, que me fazia tremer, que mexia profundamente com o meu maior cepticismo, a certa altura da madrugada, começou a tornar-se muito pesado. Os meus ombros começaram a vergar.
Confundi o tempo. Vivi os dois últimos anos da minha vida pela segunda vez, esta noite, por palavras alheias de poetas consagrados. Vivi todas as emoções, as minhas e as do meu amor perdido, passo a passo, dia a dia. Entrei numa twilight zone, tive uma noite digna de um livro do Stephen King, ou do retrato de Dorian Grey. Cada texto fazia sentido com as minhas vivências, com as minhas emoções. E depois de atribuir a alguns dos blogues autorias, do género, isto só pode ser escrito por fulano ou fulana de tal, isto, nesta data, só pode ter sido postado por alguém que me conhece bem, que sabe que passei por esta ou aquela conversa neste preciso dia. E eriçavam-se-me os cabelos na nuca.
Até que dormi sobre o assunto, confundindo o tempo. Deitei-me quando o meu prédio já tinha todos os sons próprios da manhã, os duches, os passos. Dormi enquanto toda a gente vivia o seu Sábado. Slept my Day Away.
E quando acordei, acordei para a realidade céptica do costume, para conversas com amigos que me abrem sempre os olhos e me mostram que há coincidências que não passam disso, e a vida é outra coisa. E que os poemas que li, horas a fio noite adentro, madrugada afora, cabem em mim porque, de facto, cabem em muita gente, falam com muita gente, tocam muita gente. Por isso são bons poetas, por isso são bons textos. Por isso confundi o tempo durante um fim-de-semana, mas no meio da confusão e da repetição, dos acasos e das coincidências, mal posso esperar, acreditem, e acreditem que este desejo em mim é uma novidade, mal posso esperar pelo dia de amanhã, para esquecer tudo. Tudo o que me cansa, e me obceca, e me algema, e me oprime. Esquecer tudo o que acho que me acontece só a mim e viver o que, de facto, toda a gente vive e eu me recuso a fazê-lo. Estou deserta de acordar cedo, de pôr roupa a lavar, de limpar a casa ao som de um CD aos berros, de falar ao telefone com os meus amigos, de voltar a olhar para o telemóvel sem asco por ele não tocar como eu quero, de ver testes a comer gomas, de cozinhar.
Depois de confundir o tempo, estou deserta de começar a vivê-lo.