Detesto gente sonsa que se ri para ti e te desanca mal viras costas. Há quem chame a isto ser agradável, saber viver. Eu chamo-lhe hipocrisia, e abomino gente hipócrita. Respeito as pessoas de que não gosto e que não gostam de mim. Respeito-as por serem genuínas e consigo discernir-lhes qualidades positivas. Uma amiga minha diz que “quando conheces alguém tempo suficiente, ninguém é tão bom que nunca te desiluda, ou tão mau que nunca te surpreenda positivamente.” É um facto. Não é por não gostar das pessoas que digo que são burras se são inteligentes, feias se são bonitas, ou incompetentes se são cumpridoras.
Para além destes dois grupos, os genuínos que não me suportam, e os hipócritas que fingem que sim, há um grupo, o pior de todos, que não tem perdão. É um grupo restrito, mas o mais perigoso de todos. Os que acham que têm confiança suficiente contigo para, em nome de uma amizade que te cobram e jamais te dão, te poderem dizer de sua justiça tudo o que lhes apetece e lhes passa pela cabeça, tendo tu a obrigação de reagir, sempre, a bem. Não. Não me venham com sorrisos, não me mandem boquinhas dúbias que me deixem na dúvida se me estão a insultar ou a brincar, não me venham com boas intenções para me poder agredir. E não me digam
“Não me leves a mal aquilo que te vou dizer, mas…”
Ui, se me querem ver furiosa, é espetar-me com uma frase destas para início de discurso. Primeiro, porque a gente já sabe que não vai gostar do que vai ouvir. Depois, porque revela premeditação nas coisas desagradáveis que se sucedem ao mas... Finalmente, porque quem começa assim uma frase está, desde logo, a atribuir uma verdade incontestável à sua opinião, e a implicar que se nos chatearmos estamos a ser pouco razoáveis. É o sermãozinho paternalista, o abrir de olhos “bem-intencionado”, o chamar à razão sem direito a contestação. Isso é que era bom…
Jamais um amigo diz a outro “Não me leves a mal…” As verdades são para ser ditas, claro, mas de forma construtiva e de boa fé. Falem-me de coisas específicas, o que não faltam são atitudes minhas em que estive mal, em que fui injusta, em que descarreguei o meu mau-humor em pessoas inocentes, em que fui inconveniente. E agradeço que ninguém se chateie comigo sem antes me dizer porquê, para eu poder pedir desculpas, se for caso disso, para poder remediar as coisas, se for a tempo. Mas façam-no com lealdade. Na altura e espaço próprios. Sem rodeios, generalizações e mesquinharias.
Quem me vem com “Não me leves a mal, mas…” não me quer ouvir. Quer apenas despejar a sua verdade, os seus juízos de valor, as suas acusações, as suas raivas fermentadas. Pedir para não ser levado a mal é, logo à partida, dar-me todas as razões do mundo para achar que as coisas são ditas, de facto, com má intenção. É um convite ao monólogo, a execução sumária de qualquer possibilidade de diálogo aberto comigo. Nada. Encerram-se logo ali os trabalhos, sem mais confianças.
E hoje vim para casa irritada a pensar nisto. E, nem de propósito, porque o dia só acaba no fim, recebo uma sms a dizer “já foste à caixa do correio?”. Quando abro a dita caixa, em envelope de Correio Verde, dou com a quinta temporada da Anatomia de Grey. Com vários filmes que queria ver há séculos. E com um porta-chaves da Nici, um gatito preto sem um olho. E exulto de alegria. Ao telefone com o remetente, este pergunta-me se preciso de um desenho sobre o significado do Gato, logo baptizado de Luisinho. E diz-me: “É que em terra de cegos, quem tem olho é rei” (não deixa de ser mirolho… mas é rei).
Passou-me logo tudo, fui dos zero aos cem num micro-segundo e, por isso, tenho que dar a mão à palmatória: "não levo nada a mal", môri, sou mesmo bipolar. Tenho altos e baixos por dá cá aquela palha e quando tenho baixos “trato mal gente que não merece”. Sobra para todo o lado, desanco meio mundo e a outra metade, é tipo hobby, cada um escolhe o que melhor vai com o seu tom de pele, e o meu é este. Sou louca-furiosa, de repente, sem motivo, pum! Haverá razões tangíveis? Problemas concretos? Bocas foleiras? Comentários infelizes? Nada! Isso são meros detalhes com que se preocupa apenas gente com poucos estudos, gente dada a pormenores extra-umbigo, fora da realidade de mundos de que é rei e senhor. Quais motivos? Não há razão nenhuma: é tontinha... e espalha o terror entre vítimas inocentes. Ola-ri-la!
Pois sou. E, sendo assim, vou procurar ajuda médica urgente. Estou seriamente preocupada com a minha influência no mundo que me rodeia, à mercê da minha loucura. Credo... como é que ainda não houve um motim? Gente acomodada a sofrer, este povo tuga...
E ainda me deixam presentes e mimos na caixa do correio... por isso,“não me levem a mal, mas…” vamos papar a quinta temporada da Anatomia de Grey. Eu e a outra, a tal que trata mal toda a gente, e ainda assim, tem amigos à maneira. Fenomenais. Para os quais tudo vem com o pacote, o bom e o mau. A Jade-Jekyll e a Jade-Hyde. Amigos cinco-estrelas. Ou seja, amigos, ponto final. O resto é redundante.
Mas há algo a que não resisto: mudar de ideias, que sou bipolar, esquecer a ajuda médica e assumir em vez disso o papel confortável da tontinha transviada, que se há coisa que toda a gente sabe é que os malucos não são para contrariar. E isso agrada-me muito. Não me contrariem que eu flipei, tá? Vou treinar ao espelho tiques nervosos e frases absurdas. Um olhar alucinado. Esgares. Reivindicar esse direito, para poder dizer, de minha justiça: "Honey, go fuck yourself and blame it on my insanity".