terça-feira, 26 de maio de 2009

Não me leves a mal, mas...

Ninguém agrada a gregos e a troianos. Eu, com o feitiozinho que tenho, aprendi há muito tempo a viver tranquilamente com este facto. Mas se há coisa de que gosto, gosto mesmo a sério, é de saber distingui-los, os gregos dos troianos, bem visto.

Detesto gente sonsa que se ri para ti e te desanca mal viras costas. Há quem chame a isto ser agradável, saber viver. Eu chamo-lhe hipocrisia, e abomino gente hipócrita. Respeito as pessoas de que não gosto e que não gostam de mim. Respeito-as por serem genuínas e consigo discernir-lhes qualidades positivas. Uma amiga minha diz que “quando conheces alguém tempo suficiente, ninguém é tão bom que nunca te desiluda, ou tão mau que nunca te surpreenda positivamente.” É um facto. Não é por não gostar das pessoas que digo que são burras se são inteligentes, feias se são bonitas, ou incompetentes se são cumpridoras.

Para além destes dois grupos, os genuínos que não me suportam, e os hipócritas que fingem que sim, há um grupo, o pior de todos, que não tem perdão. É um grupo restrito, mas o mais perigoso de todos. Os que acham que têm confiança suficiente contigo para, em nome de uma amizade que te cobram e jamais te dão, te poderem dizer de sua justiça tudo o que lhes apetece e lhes passa pela cabeça, tendo tu a obrigação de reagir, sempre, a bem. Não. Não me venham com sorrisos, não me mandem boquinhas dúbias que me deixem na dúvida se me estão a insultar ou a brincar, não me venham com boas intenções para me poder agredir. E não me digam

“Não me leves a mal aquilo que te vou dizer, mas…”

Ui, se me querem ver furiosa, é espetar-me com uma frase destas para início de discurso. Primeiro, porque a gente já sabe que não vai gostar do que vai ouvir. Depois, porque revela premeditação nas coisas desagradáveis que se sucedem ao mas... Finalmente, porque quem começa assim uma frase está, desde logo, a atribuir uma verdade incontestável à sua opinião, e a implicar que se nos chatearmos estamos a ser pouco razoáveis. É o sermãozinho paternalista, o abrir de olhos “bem-intencionado”, o chamar à razão sem direito a contestação. Isso é que era bom…

Jamais um amigo diz a outro “Não me leves a mal…” As verdades são para ser ditas, claro, mas de forma construtiva e de boa fé. Falem-me de coisas específicas, o que não faltam são atitudes minhas em que estive mal, em que fui injusta, em que descarreguei o meu mau-humor em pessoas inocentes, em que fui inconveniente. E agradeço que ninguém se chateie comigo sem antes me dizer porquê, para eu poder pedir desculpas, se for caso disso, para poder remediar as coisas, se for a tempo. Mas façam-no com lealdade. Na altura e espaço próprios. Sem rodeios, generalizações e mesquinharias.

Quem me vem com “Não me leves a mal, mas…” não me quer ouvir. Quer apenas despejar a sua verdade, os seus juízos de valor, as suas acusações, as suas raivas fermentadas. Pedir para não ser levado a mal é, logo à partida, dar-me todas as razões do mundo para achar que as coisas são ditas, de facto, com má intenção. É um convite ao monólogo, a execução sumária de qualquer possibilidade de diálogo aberto comigo. Nada. Encerram-se logo ali os trabalhos, sem mais confianças.

E hoje vim para casa irritada a pensar nisto. E, nem de propósito, porque o dia só acaba no fim, recebo uma sms a dizer “já foste à caixa do correio?”. Quando abro a dita caixa, em envelope de Correio Verde, dou com a quinta temporada da Anatomia de Grey. Com vários filmes que queria ver há séculos. E com um porta-chaves da Nici, um gatito preto sem um olho. E exulto de alegria. Ao telefone com o remetente, este pergunta-me se preciso de um desenho sobre o significado do Gato, logo baptizado de Luisinho. E diz-me: “É que em terra de cegos, quem tem olho é rei” (não deixa de ser mirolho… mas é rei).

Passou-me logo tudo, fui dos zero aos cem num micro-segundo e, por isso, tenho que dar a mão à palmatória: "não levo nada a mal", môri, sou mesmo bipolar. Tenho altos e baixos por dá cá aquela palha e quando tenho baixos “trato mal gente que não merece”. Sobra para todo o lado, desanco meio mundo e a outra metade, é tipo hobby, cada um escolhe o que melhor vai com o seu tom de pele, e o meu é este. Sou louca-furiosa, de repente, sem motivo, pum! Haverá razões tangíveis? Problemas concretos? Bocas foleiras? Comentários infelizes? Nada! Isso são meros detalhes com que se preocupa apenas gente com poucos estudos, gente dada a pormenores extra-umbigo, fora da realidade de mundos de que é rei e senhor. Quais motivos? Não há razão nenhuma: é tontinha... e espalha o terror entre vítimas inocentes. Ola-ri-la!

Pois sou. E, sendo assim, vou procurar ajuda médica urgente. Estou seriamente preocupada com a minha influência no mundo que me rodeia, à mercê da minha loucura. Credo... como é que ainda não houve um motim? Gente acomodada a sofrer, este povo tuga...

E ainda me deixam presentes e mimos na caixa do correio... por isso,“não me levem a mal, mas…” vamos papar a quinta temporada da Anatomia de Grey. Eu e a outra, a tal que trata mal toda a gente, e ainda assim, tem amigos à maneira. Fenomenais. Para os quais tudo vem com o pacote, o bom e o mau. A Jade-Jekyll e a Jade-Hyde. Amigos cinco-estrelas. Ou seja, amigos, ponto final. O resto é redundante.

Mas há algo a que não resisto: mudar de ideias, que sou bipolar, esquecer a ajuda médica e assumir em vez disso o papel confortável da tontinha transviada, que se há coisa que toda a gente sabe é que os malucos não são para contrariar. E isso agrada-me muito. Não me contrariem que eu flipei, tá? Vou treinar ao espelho tiques nervosos e frases absurdas. Um olhar alucinado. Esgares. Reivindicar esse direito, para poder dizer, de minha justiça: "Honey, go fuck yourself and blame it on my insanity".

sábado, 23 de maio de 2009

Sessão da Tarde

Sábado muito preguiçoso. Força de vontade, zero.
Apanho uma sessão da tarde no canal 1. Uma comédia romântica que nunca tinha visto. Casticinha, como todas as que não chegam ao insuportavelmente mau. Não ao nível daquelas raras, em que a Julia Roberts ou o Hugh Grant brilham quase sempre.
Mas gostei muito de uma das deixas da personagem masculina:

"After our fight last night, I thought it was over. I decided to get away and leave you here alone. But then I realized I'd rather fight with you than to make love to anyone else"


Estes discursos são tão "munitos...", que só dão resultado nos filmes. Ou então é da língua, "A língua inglesa fica sempre bem, e nunca atraiçoa ninguém..."
Poderia, agora, ficar o resto da tarde a remoer o raio do filme. Em vez disso, vou lanchar a casa de uma amiga, passar em casa de outros dois, e corrigir testes. Porque a Sessão da Tarde não passa disso, e há fases, na vida das pessoas, em que a nostalgia e a reclusão deixam, de repente, de fazer qualquer sentido.

Gotta Be

Ora, hoje houve efeméride na Cidade de Deus. Os Xutos encheram o estádio e eu estive lá: mocinha de cidade grande, habituada a concertos de estádio, a mares de gente, a estrelas pop/ rock, pasmei. Muito estranho, mesmo muito estranho, veres um estádio de futebol cheio de gente conhecida. Super engraçado, nunca tal me tinha acontecido. E se bem que tenha passado por um estado inicial de inibição, coincidente com a altura em que a banda tocou músicas do novo álbum, que desconheço, depressa me passou a vergonha na cara, com o "Mundo ao Contrário", o "Homem do Leme", o "Quero-te Tanto", o "Chuva Dissolvente", o "À Minha Maneira". Dancei como a condenada que não foi à discoteca com os alunos esta semana, cantei a plenos pulmões, saltei como uma transviada e marimbei em alunos, colegas, ex-alunos e ex-colegas. Mas o encore partiu tudo. Tocaram a minha música favorita. E eu não esperava, confesso. Quando ouço os primeiros acordes, deixei o Pastorinho para trás com a F. e desembestei para a frente. E o Tim cantou só para mim "O nosso amor de sempre, ficará... para sempre. Ai, meu amor, o que eu já chorei por ti... mas sempre, para sempre, gostar de ti". E caíram-me lágrimas cara abaixo, rumo a um sorriso que me dava a volta à nuca. Muito simples, a letra. Mas muito poderosa. O solo de guitarra... lindo. E eu, ganhei a noite.
No bar do costume, quase sem voz, ainda houve tempo e lugar a dois dedos de conversa, comigo a queixar-me (claro!), ai, pela tua rica saúde, qual praça, qual quê, 'tou de rastos, levei uma sova de todo o tamanho, eu quero é sentar-me, beber um copo e que ninguém me chateie, lá tenho pachorra para esplanadas cheias de gente...
Mas, afinal, era mentira, não estava assim tão cansada, porque, de regresso a casa, ao volante do JadeMobile, a rádio de repente passa isto...




E foi ver sôdôna Jade a cantar um dueto com a Des'ree, e a deixar-se ficar no carro, um bom bocado depois de o ter estacionado em segurança, sozinha no parque de estacionamento, a dançar toda contente a música até ao fim. Mesmo até ao fim.
E ainda galguei três lanços de escadas a trautear baixinho a melodia e a abanar a anquita, a subir dois ou três degraus e a recuar um, a ondular ao som de uma musiquinha quase inaudível aos vizinhos, (ou assim o espero) mas a pulsar forte no íntimo: "Love will Save the Day!"

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Tácticas e Estratégias

Hoje pus em dia as minhas leituras na blogosfera. Não ia à procura de nada, a não ser dos sorrisos que me arrancam sempre os meus bloggers favoritos. Confesso que, embora este blogue seja um muro de lamentações, os meus favoritos são os boa-onda, aqueles que me divertem, que me relaxam, que me fazem rir. Há por aí muito boa gente a escrever com sentido de humor e perspicácia acutilantes. E hoje dei com um post masculino de um blogger da minha faixa etária cujo tema era "Quanto mais me bates... mais gosto de ti". Fartei-me de rir, com o post e os comentários.
Mas deixem-me aproveitar o tema para dizer o seguinte: acredito piamente que o amor acontece. Ou não. Ou só de uma das partes. E das três, uma, sem mais hipóteses. Não acredito na conquista quando não há centelha de interesse. Não acredito na estratégia, no calculismo, na táctica, agora dou-te com os pés. depois sorrio-te, depois ignoro-te e a seguir toco-te no braço. Isso só resulta se a vítima já é sensível ao predador. (esta linguagem National Geographic é muito imagética, mas pronto, é o que dá viver só com quatro canais).
Agora a conquista, a conquista... a conquista não existe. Jamais podemos fazer com que o amor aconteça. A sério que acredito nisto. Acredito, embora, como toda a gente (incluindo o blogger de que falava e os seus comentadores), tal constatação me irrite ou desespere, quando as coisas não correm de feição. Mas a verdade é que, quando correm bem, mesmo bem, nunca sabemos explicar exactamente como aconteceu. E raramente faz parte de um processo mental ou físico de identificação, perseguição, estratégia, argumentação. É um reconhecimento. Um instante. Uma epifania. Acontece.


(O título do post vem do poema do Benedetti, que adorei, e que vem ao encontro do que acabei de dizer. Não há nada a fazer. Não depende do eu. Depende do nós, cinquenta-cinquenta)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Fuckin' Roller-Coaster

Gostam de montanhas-russas? Eu adoro. Gosto de emoções fortes, de adrenalina, do salto no vazio, do abismo. Gosto do medo, quando sobes a pique e imaginas a queda vertiginosa, a velocidade, a impotência, a entrega do corpo ao risco que a nossa intuição animal não identifica como calculado. No instante em que cais, não raciocinas, o grito sai involuntário, o instante parece a eternidade elevada ao expoente do infinito. Depois vêm a calma, a segurança, o alívio e, de repente, outra subida. E as tuas emoções, controladas pela tua razão, não têm tempo de assimilar estados. É tudo efémero como um floco de neve ao sol, uma sucessão de highs and lows, de medos e alívios, de subidas e descidas e curvas e rectas. E quando pões os pés no chão, a cambalear como se tivesses bebido demais, o sentimento contraditório que te aflora o espírito é igualzinho ao que acabaste de passar, uma variação entre um "foi fantástico" e um "nunca mais me apanham ali, cacete!"
Adoro montanhas-russas.
Já quando não se trata de carrosseis mas de emoções, quando não se trata de parques de diversão mas de relações entre pessoas, quando não se trata já de feiras populares mas da forma como tratas os outros e esperas ser tratado, o pior inferno existente "is a fucking roller-coaster".
Aí, o melhor a fazer, se fores a tempo, é oferecer o bilhete, mesmo que já pago, à vítima do lado.
Se não fores a tempo, e fores inteligente, não repetes a viagem. Se teimares, por capricho ou estupidez, em fazeres do abismo e da altura o teu modo de vida, não te queixes depois de passares o teu precioso tempo a vomitar as entranhas. Porque uma coisa é certa: um dia, a viagem corre mal. Dá para o torto. A engrenagem falha e tu despenhas-te a alta velocidade, embates no chão e desintegras-te. Não sobra nada de ti. Trocaste-te por meia-dúzia de emoções tão fortes quanto fraudulentas. A tua coragem e persistência resumem-se à palavra idiotia.
A vida é para viajar em velocidade cruzeiro, a apreciar a paisagem. De preferência, a pé.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Beggin'

Estou super desapontada por amanhã ir vigiar uma prova de aferição enquanto outros, mais afortunados que eu, vão levar os gaiatos dos restantes anos à discoteca local. No ano passado também fui, e foi divertidíssimo. Por isso, já disse aos meus que quero toda a gente na pista quando tocarem isto. Porque sim. Porque não consigo ouvir esta música sossegadinha, sem começar logo a bater o pé (ou com as mãos no volante que, a conduzir, bater com os pés pode tornar-se catastrófico... por experiência própria) e a abanar a anca (tenho sangue africano, dá nisto). E porque sou incapaz de "beggin'". Se não fosse, tinha chateado o executivo, "beggin'"... para me deixarem ir dançar com os meus meninos...


segunda-feira, 18 de maio de 2009

Mário Benedetti

Disseram-me hoje que morreu ontem. Conhecia-o só de nome, fiz uma pesquisa na net e, ainda assim, consegui ler poucos textos, protegidos que devem estar todos por copyright. Mas li muitos elogios, uma extensa biografia que impõe respeito, e dadas as circunstâncias, seleccionei, dos que li traduzidos, embora em Português do Brasil, este poema:

Amor de Tarde
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.


É, de facto uma pena. E eu tenho pena de não saber expressar as minhas assim.
Na língua original, comoveram-me estes:


Corazón coraza
Porque te tengo y no
porque te pienso
porque la noche está de ojos abiertos
porque la noche pasa y digo amor
porque has venido a recoger tu imagen
y eres mejor que todas tus imágenes
porque eres linda desde el pie hasta el alma
porque eres buena desde el alma a mí
porque te escondes dulce en el orgullo
pequeña y dulce
corazón coraza

porque eres mía
porque no eres mía
porque te miro y muero
y peor que muero
si no te miro amor
si no te miro

porque tú siempre existes dondequiera
pero existes mejor donde te quiero
porque tu boca es sangre
y tienes frío
tengo que amarte amor
tengo que amarte
aunque esta herida duela como dos
aunque te busque y no te encuentre
y aunque
la noche pase y yo te tenga
y no.


Rostro de vos
Tengo una soledad
tan concurrida
tan llena de nostalgias
y de rostros de vos
de adioses hace tiempo
y besos bienvenidos
de primeras de cambio
y de último vagón.

Tengo una soledad
tan concurrida
que puedo organizarla
como una procesión
por colores
tamaños
y promesas
por época
por tacto
y por sabor.

Sin temblor de más
me abrazo a tus ausencias
que asisten y me asisten
con mi rostro de vos.

Estoy lleno de sombras
de noches y deseos
de risas y de alguna
maldición.

Mis huéspedes concurren
concurren como sueños
con sus rencores nuevos
su falta de candor
yo les pongo una escoba
tras la puerta
porque quiero estar solo
con mi rostro de vos.

Pero el rostro de vos
mira a otra parte
con sus ojos de amor
que ya no aman
como víveres
que buscan su hambre
miran y miran
y apagan mi jornada.

Las paredes se van
queda la noche
las nostalgias se van
no queda nada.

Ya mi rostro de vos
cierra los ojos
y es una soledad
tan desolada

Aquele que eu escreveria, se tivesse arte para isso:


Táctica y estrategia
Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos.

Mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible.

Mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos.

Mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos

no haya telón
ni abismos.

Mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple.

Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

E o meu favorito,


Viceversa
Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte.
Tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte.
Tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte.
o sea,
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.


Eu deixei-me seduzir, mesmo sem perceber tudo, que tenho fraco castelhano. Mas as emoções são, de facto, universais.

Preservativos nas Escolas

Sou só eu que acho sinistro que haja a possibilidade de que as escolas, no âmbito da Educação Sexual, passem a distribuir preservativos aos adolescentes?
É só a mim que escandaliza que isto possa acontecer num futuro próximo?
Quem me conhece bem, sabe: sou completamente alérgica ao que chamo “a moral e os bons costumes”. A maior parte das vezes, um chorrilho de parvoíces hipócritas que as pessoas usam para ser infelizes e dizer mal da conduta alheia. Sou uma pessoa muito bem resolvida a nível sexual, sempre fui. Tão bem resolvida que sou olhada de lado muitas vezes, porque não me culpo, não me arrependo, não me ruborizo, não me desconforto, não me impressiono com outras preferências, não critico ninguém que seja feliz nas suas escolhas. E isto porquê? Porque tive a sorte de ter uma família impecável. Porque sempre pude recorrer à minha mãe em caso de dúvida e jamais uma pergunta minha ficou sem resposta. Porque foi por ela, e não por amigas da mesma idade, que obtive todos os esclarecimentos pedidos no mesmo tom natural que ela usa para falar do jantar ou do trabalho.
O que está errado é fazer da sexualidade assunto tabu em casa. Se os adolescentes puderem falar de sexo com os pais, porque raio precisarão de preservativos antes de ter idade para largar as Barbies? Não percebo. Não será preferível falar-se de auto-estima, respeito pelo corpo enquanto templo sagrado, descobertas graduais? Não será preferível discutir-se tudo o que está subjacente ao sexo, coisas que demoram, em qualquer idade, tempo, bastante tempo, a consolidar? Arrepia-me pensar que, se tivesse um filho no Ensino Básico, este poderia já estar a pensar em deitar-se com alguém. Que noção tem um adolescente, com a vida inteira pela frente, da responsabilidade que é poder engravidar, do trauma que é ter que abortar, do que poderá ser ficar incapaz de voltar a ter filhos ou ter que os criar numa altura em que devia estar a divertir-se, a namorar, a estudar, a preparar um futuro, a sonhar? Não devia ser por aí, a Educação Sexual?
Comigo foi. Lembro-me de optar por não correr qualquer risco até bem tarde na minha vida. Lembro-me de preservar o meu corpo, de não ceder a tentações pela simples evocação da imagem do que seria ter que dizer em casa “Estou grávida”. Lembro-me de ter um medo horrível, depois disso, e depois de já ser sexualmente activa, de engravidar e optar por um aborto que, correndo bem ou mal, seria sempre uma catástrofe emocional. Só já bem mais tarde, depois dos vinte e cinco, esses medos passaram todos. Agora, neste momento, seria mãe na maior das calmas. Mas continuo e continuarei a não estar preparada para ter HIV ou Hepatite B.
A Escola não pode banalizar o acto sexual adolescente simplesmente porque a sociedade, a televisão, a publicidade, tudo, enfim, se erotizou. Tem que se incutir responsabilidade aos miúdos. Fazê-los perceber que podem estragar as suas vidas inutilmente, com algo que, a seu tempo e bem vivido, será uma das partes mais bonitas da sua existência. Ensiná-los a esperar. Mostrar-lhes as alternativas. Avisá-los das consequências, não só de uma gravidez, mas de doenças mortais, avassaladoras, estigmatizantes. E deixá-los, depois, escolher. Se escolherem arriscar, então que comprem eles os preservativos. Não são senhores para arranjar tabaco? Não são senhores para conseguir todo o tipo de substâncias ilícitas?
Todo o ser humano, moldado de forma coerente e consciente, sabe parar quando o instinto é sobreviver. Não deveria ser por aí que a Educação Sexual deveria ir? Sou contra o facilitismo quando se trata de coisas sérias. Os meus alunos sabem disto. Os meus filhos sabê-lo-iam também. Em vez de dar preservativos às meninas de treze anos, devia-se-lhes perguntar: estás preparada para ser mãe? Achas que tens idade para casar, arranjar um emprego, ir viver sozinha, levantar-te três e quatro vezes por noite? Não? Bem-vinda ao mundo dos adultos. Tem juízo e vai estudar.

domingo, 17 de maio de 2009

En Passant

Tantas coisas se ouvem "en passant" que não interessam a ninguém. Tanta coisa se ouve contrafeito. Tanta gente nos confidencia segredos que preferiríamos não saber. Apanhamos no ar tantos comentários que seríamos tão mais felizes sem ouvir. Enfim, os acasos a conspirar para nos tornar um bocadinho mais tristes, quando informação nenhuma seria infinitamente preferível à que nos cai no colo.
Depois, num barzinho semi-vazio, num sábado à noite intimista entre amigos, ouvimos, "en passant", ao fundo, lá bem ao fundo da conversa, o seguinte,




e suspiramos. Relembramos. Damo-nos ao luxo de sonhar. E de ter saudades do futuro. Continuo a deixar-me seduzir pela simplicidade das coisas. Pela luz dos olhos teus ou, à falta dela, a perfeição duma canção simples.
(e até podem dizer que o vídeo é piroso, foleiro, o que quiserem. Para mim, é lindo. Lindo. Há imagens que enchem o coração de esperança, enquanto a alma trauteia "Quero a luz dos olhos meus na luz dos olhos teus sem mais la-ra-ra-ra...". Para Tom Jobim, sempre o mesmo aplauso.)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Restless

Exactamente há uma semana atrás, tive uma conversa com uma amiga que durou das quatro e meia da tarde à meia-noite. Eu estava numa onda de chorar todos os males do Mundo incluindo os meus, que desabafo, desabafo, mas choro muito pouco, cada vez menos. Nessa tarde, mais uma vez, convocada que foi pelo telefone a amiga para me limpar as lágrimas, acabei por não conseguir vertê-las. Em vez disso, apresentei-lhe todas as mágoas, frustrações e medos, de forma fria, objectiva e específica.
A certa altura, disse-lhe, tenho saudades do ano passado. Nestes três anos foi sempre a perder. Ela abriu-me os olhos: jovem, no ano passado, por esta altura, já tinhas sido operada duas vezes e ias ser mais uma. A tua vida amorosa estava muito pior, que nem se te podia dizer nada sem começares a fazer beicinho e a tremer por todos os lados. Choravas todas as noites. Estás parva?
E é claro que ela, em certa medida, tem razão, mas no ano passado tinha, ou achava que tinha, um grupo de amigos sólido, sempre ali. Como tive uma crise séria de saúde, tive também a contrapartida de gerar carinho e solidariedade, e à minha volta congregou-se um grupinho algo extenso. Pessoas boa-onda, gente "sorrisos, galhofa, remungos e bom-humor". E eu tenho saudades, se não das pessoas, do ambiente. Da prática de sairmos da escola para beber cervejas e comer caracóis (e eu que nem gosto de cerveja, nunca mais bebi um panaché). Passávamos horas a torrar ao sol até ele se pôr. Fazíamos patuscadas. Víamos o tempo passar devagar. E sabíamos que, no ano vindouro, estaríamos todos juntos.
Mas não estamos. Um a um, fomos voltando costas, uns saíram da escola, outros perderam os rituais, alguns seguiram caminhos opostos. E eu nunca, nunca, vou esquecer o terror que é estar convencida de que me vão diagnosticar um cancro. Nunca mais vou esquecer as últimas semanas de Maio e as primeiras de Junho. Está tudo documentado neste blogue, para memória futura, se a minha falhar. Mas também nunca mais vou esquecer as pessoas que lá estiveram e, principalmente, a paz sentida, o alívio posterior, e a verdadeira celebração da vida entre caras risonhas.
E disse-lhe, o ano passado foi muito mau, mas divertimo-nos muito mais. Saímos muito mais. Rimos com muito mais vontade. Convivemos muito mais. E não sentíamos o tempo passar, o fim a aproximar-se, o dia em que tudo vai mudar definitivamente para um "antes" e um "depois".
E nesta sexta-feira de sol, nesta tarde bonita, dava tudo pela mensagem costumeira do ano passado, "Nos Gémeos, às cinco". Claro que, como toda a gente normal, preferiria estar num qualquer sítio, de olhos nos olhos do meu rapaz, mas as pessoas sentem sempre mais falta do que lhes é mais recente, e eu sinto muita falta da seita do ano passado, que agora só existe na memória das tardes de sol. Sinto falta da seita, e de não saber o que é um countdown. De saber exactamente onde ia estar e com quem, num tempo que, achava eu, era a perder de vista.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

The Mentalist

Tendo em conta que Grey’s Anatomy era a missa das terças, posso dizer que a substituição, não correndo o risco de se tornar série de culto, daquelas em que uma pessoa até se irrita de ir jantar fora ou de ter aniversários e festas que a impeçam de estar aquela hora de olhos colados ao écran, a substituição, dizia eu, não está mal, não senhor.
Para já, o rapazito, embora louro, é bem apessoado. Não é o Derrick, nem o Alex, nem o Mark, mas é suficiente. Depois, é uma série, tal como era a Grey, cheia de tiradas que se arriscam a tornar-se epígrafes, coisas lapidares e emblemáticas. Eu e o Pan repetimos até à náusea a palavrinha “Seriously!”, por exemplo. Sempre da mesma forma, sempre com a mesma intenção. Ontem achei muita piada a um diálogo, em que The Mentalist respondeu deste modo, a uma mulher que lhe perguntava “are you a psychic?”, “No. I just pay attention to small details.”. Claro que já deu para perceber que o senhor, de facto, tem poderes extrasensoriais e telecinéticos, entre outros. Mas ainda assim...
A verdade é que surpreendemos as pessoas quando lhes damos atenção. Verdadeira atenção. Quando nos lembramos do que alguém disse há anos atrás. Quando oferecemos a alguém aquele presente que mencionou uma vez en passant à nossa frente. Quando perguntamos a alguém se está bem, porque sabemos que faz anos que lhe morreu alguém querido, ou lhe damos os parabéns pelo aniversário de um filho. Ou quando está em baixo e lhe escrevemos, num papelinho, um verso do seu poema favorito. Também tenho em mim algo de psychic. Dou muita importância aos pormenores, e tenho facilidade em memorizar detalhes relativos às pessoas de quem gosto.
Hoje, ao entrar na escola, vinha com alguns problemas pessoais bem pesados dentro da mochila metafórica que trago às costas. Coisas sérias. E a seriedade é algo de que faço troça a maior parte do tempo; quando não faço, mal vai o barco. Mas vinha também expectante, com alguma esperança que o trabalho me distraísse e os amigos me animassem. E se há pessoas que sofrem de umbiguidade (não, não quero dizer ambiguidade, quero dizer mesmo o que disse, referindo-me às pessoas que só se preocupam com o seu UMBIGO e por isso se tornam ambíguas nas atitudes, tratando os outros na razão directa dos seus próprios humores, nunca se sabendo se simpatizam ou não connosco, se nos falam ou não, oscilando permanente e esquizofrenicamente nos dois pólos), e são completamente herméticas aos problemas alheios, há outras a quem uma carinha laroca, bem maquilhada e ainda de cabelo esticado pelo cabeleireiro, não engana.
What’s up, doc? E eu, nada, ‘tá-se. ‘Tá tudo bem.
Queres enganar quem? Vens a sorrir só com os lábios. Tremem-te as mãos. Abriste e fechaste a carteira três vezes sem tirar de lá nada. E estás silenciosa há mais de cinco minutos. (Acho que a este ponto do discurso, sorri com os olhos). Are you a psychic?
No, I just pay attention to small details. And your favourite colour is blue. (and so it is, at least today.)
Quando chegar a casa vou ter mesmo que me meter na cama a sopas e descanso, para ver se o corpo aguenta sem faltar até sexta-feira, que os tais problemas que trago na mochila são, para variar, de saúde. Mas deixo aqui o meu sentido obrigada aos psychic do costume. Gosto que me adivinhem as dores por baixo da maquilhagem. Gosto que me ofereçam ajuda sem que tenha que a pedir. Gosto que me ouçam as queixas, sem que eu as faça. Gosto que se ponham à minha frente e me obriguem a parar, que se me atravessem no caminho e me façam tropeçar. Gosto. Para variar, já que esse papel costuma ser o meu.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Tempo Perdido


Não percas o teu tempo, disse eu hoje a alguém que me é muito querido. Eu nunca perco tempo, respondeu-me.
Fiquei a pensar naquilo. Até o tempo, e a forma de melhor o aproveitar, é discutível nesta vida. Perder tempo aflige-me. E eu perco tempo demais. Mas o que é perder tempo? Perder tempo é pôr a vida em modo pause, com a consciência de que isso é impossível. Não perdes tempo quando dormes se estás exausto, mas perde-lo quando te deitas a dormir no sofá porque não tens coragem de procurar melhor que fazer, mesmo sozinho. Não perdes tempo se choras porque te magoaram, porque te fizeram mal, porque te morreu alguém, porque falhaste uma coisa importante, porque o teu trabalho de horas se evaporou num vírus informático. Mas perde-lo quando choras demais. E sabes que choras demais quando as tuas lágrimas têm o mesmo propósito again and again, e o seu destino é algo que não tens o poder de alterar. Todos os problemas que não têm solução estão, à partida, resolvidos. Não perdes tempo quando fazes coisas que te dão prazer, mas perde-lo se não cumpres as tuas obrigações por causa delas. Não perdes tempo quando deixas de falar com pessoas a quem não reconheces valor ou interesse, mas perde-lo quando te zangas com as que amas. Não perdes tempo quando te dedicas a uma causa em que acreditas, mas perde-lo quando insistes nela, depois de deixares de acreditar. Não perdes tempo a lutar pelas tuas convicções, mas perde-lo quando teimas por capricho, por orgulho, por recusa em dar o braço a torcer.
E jamais perdes tempo quando amas. Mesmo que não sejas correspondido, mesmo que te digam que a pessoa não merece. Porque se a pessoa não merece, o sentimento per se merece-o. O amor jamais é inútil, na medida em que nos torna pessoas mais altruístas, mais generosas, mais abnegadas, melhores. Quem ama, supera-se todos os dias. Surpreende-se todos os dias. Dá o melhor de si todos os dias. Faz, todos os dias, bem a alguém. O amor, por si só, não é (auto-)destrutivo. É (auto-)construtivo. Há sempre uma ponta de esperança no amor e, quando ela desaparece, ele desaparece com ela. E o tempo que passou não foi perdido. Foi vivido intensamente, cheio de emoções fortes.
Tudo isto, como disse, é discutível. Mas eu sou acérrima defensora de fazer o melhor com o tempo que nos resta, e que a gente nunca sabe quanto é, e pródiga em deitá-lo, ainda assim, janela fora, prisioneira que sou de detalhes que não interessam nada. Apesar disso, recuso-me a aceitar que estou a perder tempo a amar seja quem for: tudo o que nos faz melhores pessoas torna o nosso tempo por cá útil. E o que faz de nós pessoas úteis é sempre tempo bem empregue.



Hoje, todavia, sinto-me muito triste, o que é, na grande maioria das vezes, uma perda de tempo. Li assim, num blogue amigo:

"... Cada noite
assinalo na parede do tempo.
... o último dia..."
(António Osório, O lugar do amor e Décima aurora (Obra Poética II))

O próprio passar do tempo, esse implacável, naquela eterna metáfora, escorre-me entre os dedos e angustia-me. Os risos e os sorrisos estancam os grãos de quando em vez. E a contradição oscila sempre entre a angústia de o ver passar e a tendência suicida de o antecipar de vez, como se a ansiedade e a dor se desvanecessem com a palavra fim, quando sei de cor que esse fim vai ser apenas o princípio de outra luta titânica com a vida.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Call me House

Sentadita no sofá da sala, já enjoada de tanta goma de morango, que não sossego enquanto não vir o fundo ao pacote, penso no que me ensinaram há uns dias: “Quando te perguntarem se estás bem, faz um grande sorriso e responde, estou óptima!”. Tenho uma amiga muito irritante que faz sempre isso e só dá vontade de lhe bater. Mas hoje um colega meu disse-me que eu era a pessoa da escola mais parecida com o Dr. House e, embora eu adore o médico ficcional, não achei grande piada à comparação. Serei eu uma sociopata? É verdade que tenho o meu feitio peculiar. Que a minha forma de estar bem, e de deixar toda a gente sossegada a meu respeito, é a barafustar e a resmungar. Tudo isso é verdade mas, caramba, serei assim tão parecida com o fulanito arrogante que trata toda a gente abaixo de cão e não se compadece de ninguém? Fiquei irritada. Mas contei até dez, sorri e respondi “se tu achas…”
Hoje lá levei para a escola o meu melhor sorriso. Durante várias alturas do dia tive, literalmente, que o algemar ao rosto, que o sacanita esperneou que se fartou, deserto que estava de dar à sola e ir meter-se na cama. Mas quem é que manda aqui? Até ver, eu.
Agora também vos digo… isto dá muito trabalho. Começo a admirar genuinamente os sonsos e os hipócritas, que isto de fingir que se está nas sete quintas, quando só nos apetece esbofetear quem temos à frente, é uma arte. E eu cá de artista tenho pouco. Por isso, a primeira coisa que fiz quando cheguei ao lar doce lar, foi atirar com o sorriso para casa do carago, tipo sapatos que nos apertaram o dia inteiro, e dizer em voz alta uma data de palavrões. E depois disto, mas só depois disto, lá aceitei que o estuporado regressasse, mansinho, a colar-se-me à cara. Desta vez, de forma natural e genuína.
Tenho que dar a mão à palmatória: Call me House. Dr. Jade House.



(Alguém viu o House hoje? Pois é, eu estou a ver... e a rir-me que nem uma idiota: então não é que o gajo hoje está mansinho, mansinho, que parece a Jade com o sorrisinho na cara? Claro que acabou de cair para o lado, com uma doença desconhecida. Amanhã, à cautela, vou levar o telemóvel com ligação directa para o INEM...)

domingo, 10 de maio de 2009

Dragão

Telefonei a um dragão. Telefonei-lhe e fui eu que cuspi fogo pelas ventas. Que lhe chamei de tudo um pouco. Porque eu tenho mau perder. E irrita-me a soberba. E não posso com estas noites a azul e branco. Mas como podia ser pior, e aqui, na Cidade de Deus, quem nos lixa mesmo a cabeça são os Lampiões, esses, sim, são de facto desagradáveis e armados em Chico-Espertos, e não perdem uma oportunidade de meter nojo e se armar ao pingarelho, como esses é que são mesmo insuportáveis e arrogantes e, coitadinhos, vão mesmo ficar atrás de nós no campeonato... por isso tudo, e porque eu sou uma leoa porreira, toma lá, draganito, o tal post que pediste.
Dedico-te um poeta de que gostas muito, num poema que eu adoro... por seres tu, por ser para ti, e porque me recuso a publicar o Régio que vais sempre ler a ecoar a voz do Pinto da Costa, e isso é que não, carago!


Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos são naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fonte incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.

Miguel Torga


A maratona de poesia, à laia de Sherlock Holmes de que tu foste Dr. Watson paciente e céptico, havia de deixar mais frutos que olhos vermelhos e sonos trocados...

"Precisa-se de um amante"

"Muitas pessoas têm um amante, e outras gostariam de ter um.
Há também as que não têm, e as que tinham e perderam. Geralmente são estas últimas que vêem ao meu consultório para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insónia, apatia, pessimismo, crises de choro, ou as mais diversas dores.

Elas contam-me que as suas vidas correm de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar o tempo livre.
Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente a perder a esperança.
Antes de me contarem tudo isto, já tinham estado noutros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: "Depressão"... além da inevitável receita do anti-depressivo do momento.
Assim, depois de as ouvir atentamente, eu digo-lhes que elas não precisam de nenhum anti-depressivo. Digo-lhes que o que elas precisam é de um Amante!

É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem o meu conselho.
Há as que pensam: "Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa destas?!".
Há também as que, chocadas e escandalizadas, despedem-se e não voltam nunca mais.
Às que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico-lhes o seguinte: Amante é "aquilo que nos apaixona". É o que toma conta do nosso pensamento antes de adormecermos, e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir.

O nosso Amante é o que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida.

Às vezes encontramos o nosso amante no nosso parceiro, outras vezes, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis.
Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no desporto, no trabalho, na necessidade de nos transcendermos espiritualmente, numa boa refeição, no estudo, ou no prazer obsessivo do nosso passatempo preferido...

Enfim, Amante é "alguém" ou "algo" que nos faz "namorar" a vida e nos afasta do triste destino de "ir vivendo". E o que é "ir vivendo"?
"Ir vivendo" é ter medo de viver. É vigiar a forma como os outros vivem, é o deixarmo-nos dominar pela pressão, andar por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastarmo-nos do que é gratificante, observar decepcionados cada ruga nova que o espelho nos mostra, é aborrecermo-nos com o calor ou com o frio, com a humidade, com o sol ou com a chuva.
"Ir vivendo" é adiar a possibilidade de viver o hoje, fingindo contentarmo-nos com a incerta e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã.
Por favor, não se contentem com "ir vivendo". Procurem um amante, sejam também um amante e um protagonista da vossa vida...

Acreditem que o trágico não é morrer, porque afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver, por isso, e sem mais delongas, procurem um amante.
A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental:
"Para se estar satisfeito, activo, e sentirem-se jovens e felizes, é preciso namorar a vida". "

Texto: Dr. Jorge Bucay
Livro: "Hay que buscarse un Amante"


E é agora que os meus leitores anónimos me vão encher a caixa de comentários dos insultos do costume, em que me chamam oferecida, desesperada, ressabiada, mal-amada. Porque esses leitores nunca vão ao fundo das coisas, às verdadeiras necessidades e à busca do amor. Esses anónimos reduzem tudo ao sexo e ao animalesco. Por isso, vão-se ficar pelo título e partir para o insulto. Como fizeram com o texto "Klimt". A todos os outros, àqueles que leram tudo, só pergunto, retoricamente, "tens um amante?", desejando, do fundo do coração, que todos eles, todos, me respondam, em silêncio e em verdade, numa verdade vinda do mais profundo das suas essências, que sim. E àqueles que, suspirando, afirmarem de si para si que "não", o meu voto é que o dia de hoje, que ainda agora vai a meio, lhes ofereça um de presente.
Porque eu andei muito tempo sem nenhum, limitando-me a "ir vivendo", e acordei um dia achando que era, apenas, mais uma. E, depois, esse achar colou-se à minha pele e ao meu rosto, fez desaparecer o sorriso e tudo me começou a correr mal. Acontece que, nos entretantos, pedi ajuda aos amigos, os psicólogos da alma. E eles vieram em meu socorro e lembraram-me que:
1- Sou alta, magra, linda e muito boa;
2- O sol é quente, a relva é verde e... (a terceira permanência da vida é a melhor) eles gostam de mim;
3- A vida é para celebrar.
4- "E que especial e destrambelhada tu és..."

Hoje levantei-me e calcei o futuro. Estava ao lado da minha cama, a olhar para mim, como umas pantufas confortáveis e quentes. Lavei roupas, fui ao supermercado e cheirei as maçãs. Ajudei um senhor velhinho com as compras. Antes de sair de casa, vi se tinha as chaves, a carteira e, antes de abrir a porta, agarrei o meu melhor sorriso, que tantas vezes ficou esquecido em casa. Arranjei-lhe um lugar cativo, pendurado no puxador na porta da rua. Não voltarei a sair sem ele. Porque é preciso namorar a vida, passear com ela de mãos dadas, sem vergonha. Ser pirilampo, se esse é o nosso destino. Brilhar, mesmo que incomode. E viver, sempre.
Tens um/a amante?

Pseudónimo

E confundi então o tempo, porque o acaso se cruzou comigo pouco depois do relógio dos homens marcar a meia-noite. E a noite a começar virou manhã, e passei horas a fio imersa em poemas e citações e fotografias e palavras e imagens. E disse, milhares de vezes, é só mais este, deixa cá ver só mais isto.
Li a minha vida toda em palavras alheias. Li a tua vida toda também nessas palavras. E o que dói é isso, essa falta de significado a que se dá um sentido que é só nosso, e que julgamos ser único. Enquanto divagava por palavras alheias, e fazia corresponder datas a poemas escolhidos, e vinha aqui ao blogue para confirmar o que me acontecera na mesma data, e verificava que as palavras alheias surgiam como se tivessem sido escritas por alguém sentado no meu ombro, ou, pior, deitado no sofá da minha alma, enquanto isso acontecia, pensava que estava a perder o pé no mar de mim própria.
Passei a noite a ler poemas que pareciam ter sido escolhidos a dedo para mim. E esse sentido que eu lhes dava, que me fazia tremer, que mexia profundamente com o meu maior cepticismo, a certa altura da madrugada, começou a tornar-se muito pesado. Os meus ombros começaram a vergar.
Confundi o tempo. Vivi os dois últimos anos da minha vida pela segunda vez, esta noite, por palavras alheias de poetas consagrados. Vivi todas as emoções, as minhas e as do meu amor perdido, passo a passo, dia a dia. Entrei numa twilight zone, tive uma noite digna de um livro do Stephen King, ou do retrato de Dorian Grey. Cada texto fazia sentido com as minhas vivências, com as minhas emoções. E depois de atribuir a alguns dos blogues autorias, do género, isto só pode ser escrito por fulano ou fulana de tal, isto, nesta data, só pode ter sido postado por alguém que me conhece bem, que sabe que passei por esta ou aquela conversa neste preciso dia. E eriçavam-se-me os cabelos na nuca.
Até que dormi sobre o assunto, confundindo o tempo. Deitei-me quando o meu prédio já tinha todos os sons próprios da manhã, os duches, os passos. Dormi enquanto toda a gente vivia o seu Sábado. Slept my Day Away.
E quando acordei, acordei para a realidade céptica do costume, para conversas com amigos que me abrem sempre os olhos e me mostram que há coincidências que não passam disso, e a vida é outra coisa. E que os poemas que li, horas a fio noite adentro, madrugada afora, cabem em mim porque, de facto, cabem em muita gente, falam com muita gente, tocam muita gente. Por isso são bons poetas, por isso são bons textos. Por isso confundi o tempo durante um fim-de-semana, mas no meio da confusão e da repetição, dos acasos e das coincidências, mal posso esperar, acreditem, e acreditem que este desejo em mim é uma novidade, mal posso esperar pelo dia de amanhã, para esquecer tudo. Tudo o que me cansa, e me obceca, e me algema, e me oprime. Esquecer tudo o que acho que me acontece só a mim e viver o que, de facto, toda a gente vive e eu me recuso a fazê-lo. Estou deserta de acordar cedo, de pôr roupa a lavar, de limpar a casa ao som de um CD aos berros, de falar ao telefone com os meus amigos, de voltar a olhar para o telemóvel sem asco por ele não tocar como eu quero, de ver testes a comer gomas, de cozinhar.
Depois de confundir o tempo, estou deserta de começar a vivê-lo.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A Estratégia do Espelho

“A professora para o ano fica connosco?”
Nó na garganta, dor no estômago, lágrimas a aflorar aos olhos, tudo sensações que começam a ser frequentes e banais, como tudo o resto que em mim se repete e banaliza.
“Não, meus amores, o mais provável é ir-me embora. Houve concursos, estou à espera”
“E quem é que lhe deu autorização para concorrer e ir-se embora, diga lá?”
“É a vida… se tivesse escolha, gostava de ficar”
“Vai para o liceu?”
“Nem sei se fico na cidade. É provável que nem isso. Mas mesmo das escolas da cidade onde estive, e só não estive numa, vocês são os alunos de que mais gosto”
“Mentira. A professora não gosta nada de mim…”
“Gonçalo, eu não disse que gosto de todos… estou a generalizar” E lá me ri quando ele escondeu a cara entre as mãos, a fingir tristeza profunda. Um dos meus alunos favoritos de todos os tempos, o Gonçalo.
O irmão saiu em sua defesa: "A professora trata-nos abaixo de cão. É má. É velhaca. Se há pessoa que toda a gente sabe que até sonha com as maiores patifarias para nos fazer, é a professora de Inglês." E toda a gente se riu, incluindo eu.
É verdade. Parto-lhes a cabeça. Chamo-lhes ignorantes, preguiçosos, marretas, totós, estarolas, nabos, tristes, trastes, insuportáveis, de tudo um pouco. No outro dia o Gonçalo dizia que eu lhe tinha chamado “boi”. E eu, estás parvo? Não chamei nada! Nunca chamo nomes de animais aos meus alunos. E ele, não? A stôra disse, "Gonçalo deita a pastilha ao lixo que não gosto de ensinar Inglês a ruminantes!" Tudo a rir, para variar, e eu, isso foi poético, foi uma metáfora! E ele, e a professora também já disse, "Gonçalo, as patinhas não são para pôr em cima da cadeira da frente!" e quando eu respondi que não tinha patas a professora disse, "tens razão, desculpa, Gonçalo, os cascos não são para pôr em cima da cadeira da frente, mesmo com ferraduras All-Star cor-de-rosa!" Acha bem???? Toda a gente a rir, novamente. E eu a insistir… mas não te chamei nenhum nome de animal directamente. Ainda na mesma aula, digo-lhe qualquer coisa rematada com a bela expressão “meu grande urso”, ao que ele me responde “urso não é um nome de um animal?” e eu, a rir, não, é de um brinquedo… eu ia dizer “de peluche", mas tu não me deixaste acabar…”
Hoje, durante a conversa sobre tratá-los mal, lá houve duas ou três alminhas iluminadas que disseram “A stôra adora-nos. Gosta mais de nós que de chocolate”
E é verdade. E por causa de alguns atritos recorrentes na minha vida, infelizmente com adultos, e não com adolescentes, fiquei a pensar que, na verdade, temos que ter muito mais cuidado com o que dizemos às pessoas crescidas que aos cachopitos de palmo e meio. Talvez por estarem naquela fase das hormonas à flor da pele e sensibilidades ao rubro, os miúdos têm mais discernimento emocional que os adultos, quando se trata de fazer-lhes ver que, muitas vezes, a melhor forma que há de dizer “adoro-te, quero que sejas alguém, quero que tenhas sucesso, quero tudo de bom para ti” é dizendo-lhes “Não chega. Falhaste. Erraste. Estás a ser mal-educado e eu não te mereço isso. A tua atitude desagrada-me sobremaneira. Assim não vais longe. Em vez de acusares o teu colega, cala-te, pede desculpa e olha para ti”.
Não sei se só eu procedo desta forma, mas nunca tive amargos dissabores com alunos por ser crua, directa, precisa nas críticas, incisiva nas necessidades que quero ver satisfeitas. Eles irritam-se, barafustam, protestam, argumentam, mas jamais nenhum me disse, a sério e em verdade, “A professora ofendeu-me. A professora não gosta mesmo nada de mim. A professora quer apenas humilhar-me”.
Quando trato com adultos de quem gosto, e embora sejam raras as vezes em que imponho as minhas vontades e necessidades usando como estratégia a do espelho, “Olha lá para ti… achas que estás a agir bem? Achas que te mereço isto ou aquilo?”, o resultado é quase sempre catastrófico. As pessoas zangam-se seriamente. As defesas são muito superiores ao senso comum, à ponderação e ao razoável. Parte-se logo do princípio que quem nos fala é um agressor, um adversário, alguém que não nos quer bem.
Até tremo, quando tenho que dizer a alguém de quem gosto muito “fizeste mal”, "foste injusto e incorrecto" ou, simplesmente, “não concordo contigo”. Gera-se um mau ambiente que pode ser definitivo e que, em última instância, acaba por me magoar a mim, por achar que, cada vez mais, devo entrar no status quo e só abrir a boca para dizer o que os outros querem ouvir. Ou calar-me, e deixar que as pessoas insistam em fazer de mim o que lhes apetece, vez após vez, sem reacção. Porque a verdade e que, quando crescemos, aprendemos muita coisa. Mas esquecemos a humildade.
E agora vou ali já venho, buscar um espelho e ver se, quando é ao contrário, também estrago tudo o que de bom existe, por ouvir verdades dolorosas e achar que, por doerem tanto, foram ditas sem qualquer espécie de amor.