Na natureza a selecção é feita pela lei do mais forte. Nós, seres racionais e pensantes, presumimos arrogantemente que já pouca coisa em nós resta de natural, tão habituados estamos aos esquemas do raciocínio, da análise, da previsão e do cálculo. Lembramo-nos que somos animais quando, por qualquer situação-limite, perdemos as estribeiras e o controle. Eu viro bicho poucas vezes. Raríssimas. E não tenho dúvidas de que é muito por isso que tenho tanta tendência para andar deprimida, subjugada que estou às convenções, e mortinha que ando sempre por lhes escapar, sem ter como.
Na sexta-feira, depois da publicação do texto anterior, detive-me muito tempo a pensar na vida. Estou num período-chave de novas definições, tenho que tomar decisões em breve, fazer opções e escolher caminhos. É o fim de um processo que venho a amadurecer há meses, o tal final de ciclo, sem conseguir chegar a uma conclusão que me agrade a cem por cento, tentando descortinar o mal menor, fazendo listas de prós e contras, e angustiando com a falta de resultados. E agora, é hora.
Por isso, deixei-me afundar na tal hopelessness que só conhece e entende quem, como eu, é sozinha e dona de tudo o que acontece na sua vida, e não presta contas a ninguém. É tudo muito bonito, é muito gira a liberdade, mas depois também não se partilham consequências, sejam elas felizes ou desastrosas.
Na sexta, depois de publicar o post, e como vinha inquieta, estive horas a escrever. A pensar. A tentar perceber o que se passa comigo, o que de facto quero, o que decididamente não quero, as coisas e pessoas que eu deixo que me lixem a vida ou me empatem os planos, os erros cometidos em função de seres alheios. Depois, tive a sorte de ser convidada para dois jantares, um na sexta, outro no sábado, em casa de duas amigas diferentes. Com vidas a anos-luz da minha. Boas conselheiras, como são todas as pessoas felizes e de auto-estima sólida. Gosto muito de as ouvir.
E, num dos jantares, falou-se de selecção natural e de sobrevivência. Disseram-me, tens que pensar somente em ti, porque mais ninguém, neste momento, o vai fazer. Vive para ti. Pensa em função absoluta do teu prazer. Liberta-te do que fulano ou sicrano deveriam fazer para tu seres mais feliz, vê o que podes fazer tu por isso. E eu perguntei, achas que alguém é feliz vivendo em função do seu umbigo? Responderam-me, sim. Porque, quando vives em função do teu umbigo, seleccionas para ter ao teu lado pessoas que te fazem bem, que te puxam para cima, que te retribuem carinho, preocupação e ajuda. Quando fazes dos outros uma prioridade, estás a pôr-te num patamar inferior. E só atrais gente medíocre que gosta de aparentar algum conteúdo sem o ter. É a selecção natural das coisas, a lei do mais forte, e tu já começas em desvantagem.
A conversa evoluíu, por consequência, para a questão das almas-gémeas, e tive que ouvir o seguinte: não consigo perceber como chamas alma-gémea a uma pessoa destituída de compaixão e de afectos genuínos. Como podes chamar alma-gémea a tamanho egoísta, a tão profundo calculista? Alma-gémea em quê? Nos interesses, na cultura, no facto de ler livros e escrever textos sem erros? Alma-gémea, uma grande treta. Uma alma-gémea tua, minha querida, tem que ser inteligente e culta, sim, mas se me perguntares, nem são essas as tuas qualidades-chave. As tuas maiores qualidades são seres apaixonada, generosa e genuína. Dá-me uma destas, apenas uma, que esse senhor também tenha. Não tem nenhuma. Alma-gémea, o cacete. O que não faltam por aí são gajos a ler livros e a escrever bem. E tu limitaste-te a parar no primeiro que encontraste, és uma grande parva. Se queres idolatrar alguém, ao menos encontra alguém ao teu nível, vai-te lixar.
E, se bem que as coisas não sejam exactamente assim, há muita verdade em tudo isto.
Porque, realmente, condiciono a minha vida aos outros, àqueles de quem gosto, que são poucos, e mesmo assim, às vezes mal-escolhidos, por falhas na selecção natural causadas pela fraca auto-estima.
E a verdade é que ontem e hoje foram dias diferentes. Hoje, por exemplo, levantei-me cedo, fui caminhar com uma amiga e disse-lhe "estou mesmo bem-disposta". E é verdade, estou. Senti um prazer que já não sentia há meses, enquanto deambulávamos pelos arredores da Cidade-de-Deus, a olhar os campos e as casas, com o sol a bater no corpo e a conversa amena. Voltei a sentir-me alegre sem razão aparente. Voltei a achar piada a uma manhã. Voltei a sentir o choque das endorfinas pós-exercício físico. Não é que os problemas estejam resolvidos, longe disso. É, como me dizia ontem um amigo, uma questão de estrutura mental e emocional. Uma epifania controlada. Um instante em que páras e pensas, acorda, rapariga, que é Verão, e tens mais o que fazer.