... que quando abro um blogue amigo mais de três vezes em dias diferentes, e está sempre igual, penso: p*ta-que-pariu!!!???
(e o desabafo é fruto de uma dupla frustração: o de não haver novidades e o de pensar que o meu, de tão produtivo, só pode querer dizer que há gente, como a Jade, que não tem mesmo mais nada que fazer... Get a F*cking Life!!!)
terça-feira, 17 de março de 2009
Sou só eu...
... que me sinto uma atrasada mental nos blogues com comentários moderados, quando chega aquela parte de, depois de escrever o meu comentário todo bonitinho, me pedirem para copiar uns caracteres tipo menino-do-primeiro-ciclo-no-primeiro-dia-de-aulas, e aquela merda dar irremediavelmente erro???
... Dasssss!!!!
domingo, 15 de março de 2009
A Selecção Natural
Na natureza a selecção é feita pela lei do mais forte. Nós, seres racionais e pensantes, presumimos arrogantemente que já pouca coisa em nós resta de natural, tão habituados estamos aos esquemas do raciocínio, da análise, da previsão e do cálculo. Lembramo-nos que somos animais quando, por qualquer situação-limite, perdemos as estribeiras e o controle. Eu viro bicho poucas vezes. Raríssimas. E não tenho dúvidas de que é muito por isso que tenho tanta tendência para andar deprimida, subjugada que estou às convenções, e mortinha que ando sempre por lhes escapar, sem ter como.
Na sexta-feira, depois da publicação do texto anterior, detive-me muito tempo a pensar na vida. Estou num período-chave de novas definições, tenho que tomar decisões em breve, fazer opções e escolher caminhos. É o fim de um processo que venho a amadurecer há meses, o tal final de ciclo, sem conseguir chegar a uma conclusão que me agrade a cem por cento, tentando descortinar o mal menor, fazendo listas de prós e contras, e angustiando com a falta de resultados. E agora, é hora.
Por isso, deixei-me afundar na tal hopelessness que só conhece e entende quem, como eu, é sozinha e dona de tudo o que acontece na sua vida, e não presta contas a ninguém. É tudo muito bonito, é muito gira a liberdade, mas depois também não se partilham consequências, sejam elas felizes ou desastrosas.
Na sexta, depois de publicar o post, e como vinha inquieta, estive horas a escrever. A pensar. A tentar perceber o que se passa comigo, o que de facto quero, o que decididamente não quero, as coisas e pessoas que eu deixo que me lixem a vida ou me empatem os planos, os erros cometidos em função de seres alheios. Depois, tive a sorte de ser convidada para dois jantares, um na sexta, outro no sábado, em casa de duas amigas diferentes. Com vidas a anos-luz da minha. Boas conselheiras, como são todas as pessoas felizes e de auto-estima sólida. Gosto muito de as ouvir.
E, num dos jantares, falou-se de selecção natural e de sobrevivência. Disseram-me, tens que pensar somente em ti, porque mais ninguém, neste momento, o vai fazer. Vive para ti. Pensa em função absoluta do teu prazer. Liberta-te do que fulano ou sicrano deveriam fazer para tu seres mais feliz, vê o que podes fazer tu por isso. E eu perguntei, achas que alguém é feliz vivendo em função do seu umbigo? Responderam-me, sim. Porque, quando vives em função do teu umbigo, seleccionas para ter ao teu lado pessoas que te fazem bem, que te puxam para cima, que te retribuem carinho, preocupação e ajuda. Quando fazes dos outros uma prioridade, estás a pôr-te num patamar inferior. E só atrais gente medíocre que gosta de aparentar algum conteúdo sem o ter. É a selecção natural das coisas, a lei do mais forte, e tu já começas em desvantagem.
A conversa evoluíu, por consequência, para a questão das almas-gémeas, e tive que ouvir o seguinte: não consigo perceber como chamas alma-gémea a uma pessoa destituída de compaixão e de afectos genuínos. Como podes chamar alma-gémea a tamanho egoísta, a tão profundo calculista? Alma-gémea em quê? Nos interesses, na cultura, no facto de ler livros e escrever textos sem erros? Alma-gémea, uma grande treta. Uma alma-gémea tua, minha querida, tem que ser inteligente e culta, sim, mas se me perguntares, nem são essas as tuas qualidades-chave. As tuas maiores qualidades são seres apaixonada, generosa e genuína. Dá-me uma destas, apenas uma, que esse senhor também tenha. Não tem nenhuma. Alma-gémea, o cacete. O que não faltam por aí são gajos a ler livros e a escrever bem. E tu limitaste-te a parar no primeiro que encontraste, és uma grande parva. Se queres idolatrar alguém, ao menos encontra alguém ao teu nível, vai-te lixar.
E, se bem que as coisas não sejam exactamente assim, há muita verdade em tudo isto.
Porque, realmente, condiciono a minha vida aos outros, àqueles de quem gosto, que são poucos, e mesmo assim, às vezes mal-escolhidos, por falhas na selecção natural causadas pela fraca auto-estima.
E a verdade é que ontem e hoje foram dias diferentes. Hoje, por exemplo, levantei-me cedo, fui caminhar com uma amiga e disse-lhe "estou mesmo bem-disposta". E é verdade, estou. Senti um prazer que já não sentia há meses, enquanto deambulávamos pelos arredores da Cidade-de-Deus, a olhar os campos e as casas, com o sol a bater no corpo e a conversa amena. Voltei a sentir-me alegre sem razão aparente. Voltei a achar piada a uma manhã. Voltei a sentir o choque das endorfinas pós-exercício físico. Não é que os problemas estejam resolvidos, longe disso. É, como me dizia ontem um amigo, uma questão de estrutura mental e emocional. Uma epifania controlada. Um instante em que páras e pensas, acorda, rapariga, que é Verão, e tens mais o que fazer.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Cartas a um Morto
"As minhas palavras, amor,
Naufragam no teu silêncio"
Diz-se que a morte é a curva da estrada. Os que vão atrás deixam de ver os que se adiantam, por um breve instante, até fazerem, eles próprios, a mesma curva. É, apenas, um até breve.
Eu acho que, além disso, a morte é a derradeira quebra na comunicação. Não é a questão do não estar, do não ver, do não tocar. Sentimos a falta dos amigos emigrados noutros países, ou noutras cidades, ou noutras vidas, mas eles estão sempre a um passo de ti, a um telefonema, a um e-mail, a duas ou três horas de carro ou de avião. E não choras a sua ausência como se tivessem morrido, porque eles estão lá. Não os vês, não lhes tocas, mas podes falar-lhes, ouvi-los, comunicar.
Contigo, amor, não é assim. Por isso choro-te tantas vezes. Choro-te como se estivesses morto, embora de quando em vez me apareças à frente, tipo espectro. E, ainda assim, é um fantasma silencioso, o que me encara.
E isso incomoda-me sempre, sempre, mas há dias em que é gritante. Todas as sextas-feiras à tarde na Cidade de Deus são horrorosas. Tenha ou não o que fazer, há sempre aquele instante em que me recordo que poderia estar a fazer muito melhor. Hoje, com este sol, com esta luz, com este cheiro a Verão só me apetece uma esplanada. Mas não sozinha, contigo, como há muito tempo atrás.
Tenho tanto para te dizer, amor. Tenho tanto para te contar. Preciso tanto de desabafar os meus medos, este estúpido concurso que já começou, este vazio imenso que trago em mim. Peço-te tantas vezes ajuda, suplico-te permanentemente uma lembrança, uma palavra, um "estás bem? precisas de alguma coisa?" que nunca vem, nunca.
Escrevo para ninguém, jamais obtenho resposta. Hoje apetecia-me uma esplanada e a tua voz adulta a guiar-me pela mão. Apetecia-me também dar-te um ombro, mostrar-te que não tens que estar obrigatoriamente só, que há possibilidades infinitas entre o preto e o branco, que posso trazer alguma luz às sombras das tuas obsessões, que tenho pontos de vista claros e precisos sobre tanto do que te atormenta, que conseguiria desembaraçar o novelo das tuas preocupações se tu o permitisses. É típico. Eu, cheia de problemas e dúvidas, a desejar-te numa esplanada comigo com o principal intuito de te ouvir, de te ajudar, mimar, acarinhar.
Porque tenho a certeza de que continuas a falar pouco. O mínimo indispensável para conviveres com o resto do Mundo que te é desconfortável como um sapato abaixo do teu número. Para mim, morreste, eu sei. Mas, se morreste para mim, se não me falas, não me respondes, não desabafas, como conseguirás não explodir com tudo o que te vai na alma, o teu whirlpool costumeiro de fantasmas e contradições pessoais?
Dir-me-ás, havia vida antes de te conhecer, haverá vida sem ti. Aceito. Mas é uma vida tão solitária, a tua... muito mais solitária que a minha que já assim dá comigo em doida tantas vezes.
Eu sempre vou falando, tenho um livro escrito de cartas ao morto, vou encontrando modos de expressão, vou lançando mensagens. Vou desabafando. Custa-me horrores o teu silêncio, mas custa-me muito mais por ti que por mim,dei hoje conta disso. Porque hoje acordei com o pressentimento de que estás a precisar bem mais de atenção do que eu. É um pressentimento e vale o que vale, que é nada.
Mas ainda assim, e embora saiba que aqui não vens, disponho-me aqui a ouvir-te. Porque estou inquieta e desconfortável. Preocupada sem saber bem porquê. É assim, o sexto sentido. E venho aqui, à minha publicação privada, que tu não lês, dizer que estou às ordens. Afinal, aqui, ou no ficheiro de computador que guarda tudo o que te escrevo, vai dar ao mesmo, e pode ser que alguém comente, já que tu nunca o fazes, do outro lado da curva.
Este blogue faz hoje um ano. Deveria estar de parabéns. Mas eu acredito que os parabéns se dão pelos sucessos obtidos, pelos objectivos alcançados, pelas vitórias conquistadas. E a verdade é que, passado um ano, a minha vida está exactamente na mesma. Igualzinha. Por isso, em vez de parabéns, desejo ao meu próprio blogue muita saúde e as maiores felicidades. Já que ele é um espelho (distorcido e fosco, mas ainda assim um espelho) da minha própria vida. Ao longo deste ano, o que de melhor aconteceu foi conquistar leitores assíduos e amizades virtuais, mas acarinhadas. Os comentadores fazem subsistir a vontade da escrita. Eu, que escrevo tantas vezes a destinatários silenciosos, aprecio e agradeço todas as vossas intervenções. Sou grata pela vossa presença, e por poder contar com todos vós deste lado da curva. Beijinhos
Naufragam no teu silêncio"
Diz-se que a morte é a curva da estrada. Os que vão atrás deixam de ver os que se adiantam, por um breve instante, até fazerem, eles próprios, a mesma curva. É, apenas, um até breve.
Eu acho que, além disso, a morte é a derradeira quebra na comunicação. Não é a questão do não estar, do não ver, do não tocar. Sentimos a falta dos amigos emigrados noutros países, ou noutras cidades, ou noutras vidas, mas eles estão sempre a um passo de ti, a um telefonema, a um e-mail, a duas ou três horas de carro ou de avião. E não choras a sua ausência como se tivessem morrido, porque eles estão lá. Não os vês, não lhes tocas, mas podes falar-lhes, ouvi-los, comunicar.
Contigo, amor, não é assim. Por isso choro-te tantas vezes. Choro-te como se estivesses morto, embora de quando em vez me apareças à frente, tipo espectro. E, ainda assim, é um fantasma silencioso, o que me encara.
E isso incomoda-me sempre, sempre, mas há dias em que é gritante. Todas as sextas-feiras à tarde na Cidade de Deus são horrorosas. Tenha ou não o que fazer, há sempre aquele instante em que me recordo que poderia estar a fazer muito melhor. Hoje, com este sol, com esta luz, com este cheiro a Verão só me apetece uma esplanada. Mas não sozinha, contigo, como há muito tempo atrás.
Tenho tanto para te dizer, amor. Tenho tanto para te contar. Preciso tanto de desabafar os meus medos, este estúpido concurso que já começou, este vazio imenso que trago em mim. Peço-te tantas vezes ajuda, suplico-te permanentemente uma lembrança, uma palavra, um "estás bem? precisas de alguma coisa?" que nunca vem, nunca.
Escrevo para ninguém, jamais obtenho resposta. Hoje apetecia-me uma esplanada e a tua voz adulta a guiar-me pela mão. Apetecia-me também dar-te um ombro, mostrar-te que não tens que estar obrigatoriamente só, que há possibilidades infinitas entre o preto e o branco, que posso trazer alguma luz às sombras das tuas obsessões, que tenho pontos de vista claros e precisos sobre tanto do que te atormenta, que conseguiria desembaraçar o novelo das tuas preocupações se tu o permitisses. É típico. Eu, cheia de problemas e dúvidas, a desejar-te numa esplanada comigo com o principal intuito de te ouvir, de te ajudar, mimar, acarinhar.
Porque tenho a certeza de que continuas a falar pouco. O mínimo indispensável para conviveres com o resto do Mundo que te é desconfortável como um sapato abaixo do teu número. Para mim, morreste, eu sei. Mas, se morreste para mim, se não me falas, não me respondes, não desabafas, como conseguirás não explodir com tudo o que te vai na alma, o teu whirlpool costumeiro de fantasmas e contradições pessoais?
Dir-me-ás, havia vida antes de te conhecer, haverá vida sem ti. Aceito. Mas é uma vida tão solitária, a tua... muito mais solitária que a minha que já assim dá comigo em doida tantas vezes.
Eu sempre vou falando, tenho um livro escrito de cartas ao morto, vou encontrando modos de expressão, vou lançando mensagens. Vou desabafando. Custa-me horrores o teu silêncio, mas custa-me muito mais por ti que por mim,dei hoje conta disso. Porque hoje acordei com o pressentimento de que estás a precisar bem mais de atenção do que eu. É um pressentimento e vale o que vale, que é nada.
Mas ainda assim, e embora saiba que aqui não vens, disponho-me aqui a ouvir-te. Porque estou inquieta e desconfortável. Preocupada sem saber bem porquê. É assim, o sexto sentido. E venho aqui, à minha publicação privada, que tu não lês, dizer que estou às ordens. Afinal, aqui, ou no ficheiro de computador que guarda tudo o que te escrevo, vai dar ao mesmo, e pode ser que alguém comente, já que tu nunca o fazes, do outro lado da curva.
Este blogue faz hoje um ano. Deveria estar de parabéns. Mas eu acredito que os parabéns se dão pelos sucessos obtidos, pelos objectivos alcançados, pelas vitórias conquistadas. E a verdade é que, passado um ano, a minha vida está exactamente na mesma. Igualzinha. Por isso, em vez de parabéns, desejo ao meu próprio blogue muita saúde e as maiores felicidades. Já que ele é um espelho (distorcido e fosco, mas ainda assim um espelho) da minha própria vida. Ao longo deste ano, o que de melhor aconteceu foi conquistar leitores assíduos e amizades virtuais, mas acarinhadas. Os comentadores fazem subsistir a vontade da escrita. Eu, que escrevo tantas vezes a destinatários silenciosos, aprecio e agradeço todas as vossas intervenções. Sou grata pela vossa presença, e por poder contar com todos vós deste lado da curva. Beijinhos
Cortesia da Shadow, que não poderia vir mais a propósito. Beijos
quinta-feira, 12 de março de 2009
Atónita
Hoje fiquei siderada. Pasmei.
Vejamos, não é que seja arrogante ao ponto de considerar que já nada me surpreende, eu sei que a vida é cheia de surpresas, e são quase todas más. Quando as expectativas são altas, as decepções são duras, e eu decepciono-me muitas vezes. Já há é pouca coisa que me choque. Sim, as pessoas surpreendem-me com frequência mas chocam-me pouco.
Hoje, não foi a questão da surpresa. Foi a questão do completamente imprevisível consubstanciado numa atitude grupal.
Tenho uma turma CEF de Serralharia. Todos rapazes. A maioria corrécios incorrigíveis. Casos perdidos (eu sei que é muito feio dizer isto, desculpem, mas é a minha mais profunda convicção). Quase adultos, cheios de problemas sociais e familiares de toda a ordem e mais alguma. Insolentes, mal-educados, violentos. Enfim, uma turma de que é difícil gostar e à qual é impossível ensinar seja o que for, a não ser maneiras. E ainda assim, não aprendem.
Como estou farta de dizer, ando doente. E com mau feitio. Ora esses meninos têm que ser levados "a bem". E no meu estado de espírito... a coisa vai sempre "a mal". Acontece que desde ontem, e por puro cansaço, a minha irritabilidade se transformou numa enorme tristeza. A chegada dos concursos não é indiferente a tal mudança. Ontem e hoje foram dias muito tristes, daqueles em que te levantas já com vontade de te voltares a deitar, te apetece estar sozinha e que ninguém te chateie, só queres estar deitada no sofá em posição fetal agarrada à boneca de trapos que tem o cheiro da tua mãe, e só te apetece abraçar a nova reencarnação que nesta tens a convicção de que já aprendeste as lições que tinhas a aprender, e estás inocente das culpas que continuas a expiar todos os dias. Tudo em ti é tristeza, fragilidade, cansaço, falta de reacção. (isto é muito desconfortável e raro em alguém que, como eu, reaje sempre, nem que seja ao coice, a tudo o que vai acontecendo).
Bom, a nuvenzinha negra acompanhou-me do acordar até à escola, pairou sobre mim no primeiro bloco e, por altura do intervalo da manhã, começou a chover. Primeiro ao de leve. Abri um guarda-chuva mágico e aguentei-me do bar até à casa-de-banho. A casa-de-banho é a melhor amiga de uma muher triste e fragilizada. A maquilhagem é a segunda melhor amiga dessa mesma mulher.
Quando tocou para a entrada, respirei fundo e fui enfrentar as feras. Fui sem agressividade, sem defesas, sem rede. Fui quase sem conseguir articular uma palavra, tal era o nó na garganta, o tremor na voz e o cansaço espelhado na alma. Lembro-me de subir as escadas a pensar, vais ser trucidada. Vão dar cabo de ti.
E foi então que pasmei.
Estiveram onze rapazes dentro da sala. Foram chegando aos poucos, com a atitude displicente do costume. Um a um, à medida que me olhavam com mais atenção, foram falando mais baixo, abrindo os cadernos, tirando as canetas, perguntando pelo sumário. Lá lhes fui respondendo, a aula foi avançando no meio de um silêncio pouco habitual. Olhavam uns para os outros, e desviaram sempre os olhos de mim, quando uma ou duas lágrimas solitárias me riscaram acidentalmente o rosto.
Nenhum deles, nenhum, me perguntou o que se passava. Nenhum fez qualquer comentário em voz alta. Nenhum me confrontou com os meus olhos vermelhos e inchados, com a minha voz baixa, com as vezes em que o meu espírito se ausentou daquela sala, com as vezes em que me sentei em silêncio à secretária, exausta.
Hoje pasmei, porque uma turma de onze rapazes de fugir me deu a primeira prova de saber ser homenzinhos sensíveis. Fiquei estupefacta com a opção deles, a de fingir não se passava nada, traídos apenas pelo excelente comportamento, do princípio ao fim da aula, tão pouco habitual.
No fim dos noventa minutos, despediram-se "Bom fim-de-semana". E eu agradeci. Estou-lhes grata até agora, por muito mais que o tal bom fim-de-semana.
Não podia ter chorado, afinal, numa turma melhor. Qualquer outra teria feito uma feira de atropelos, e perguntas, e consolos, e abraços. Estes limitaram-se a fingir que não viam e a portar-se no seu melhor. E ensinaram-me que até miúdos sem instrução, casos perdidos, têm momentos de iluminada sabedoria humana. E a última lágrima que chorei hoje foi naquela aula. E acreditem que me senti consolada e me vim embora para casa com a sensação quentinha de quem foi alvo do tipo de solidariedade mais rara de todas, aquela oferecida pela pior turma da escola que infernizas duas vezes por semana e com a qual nunca consegues comunicar.
quarta-feira, 11 de março de 2009
O que a Maya devia ter dito
Sagitário
Esta semana, os nativos deste signo estarão sujeitos a uma conjuntura astrológica rara. São esperadas muitas surpresas. Surpresas de ordem física, por exemplo: alguns nativos poderão descobrir que têm amígdalas do tamanho de melões e que a sua traqueia é um tubo que, se doer, aumenta de tamanho e se expande até aos pés em coices permanentes conntra o externo.
Amor: os nativos deste signo, durante esta semana, deverão dedicar-se em exclusividade aos filhos, que são as únicas relações sentimentais protegidas e agraciadas. Terão momentos de grande recompensa emocional com a sua prole. Disfrute!
Trabalho: o sagitariano é, por definição, um procrastinador. Esta semana não será diferente. Se não tiver filhos, dedique-se à sua carreira. Veja testes, por exemplo, ou trate de procurar o seu número de candidato ao concurso, porque sem emprego ficará sem hipóteses de adiar para amanhã o que pode fazer hoje.
Saúde: Complicações decorrentes de doenças sazonais e falta de sono, seja por insónias, seja por borgas a meio da semana. A irresponsabilidade paga-se com o corpinho, já dizia o António Variações, que era Capricórnio.
Mensagem especial aos que nasceram a 10 de Dezembro: Jovens, não saiam de casa, a não ser direitinhos a um avião que vos leve às Bermudas de bermudas. Se correrem esse risco, pode acontecer de tudo um pouco, desde espetarem o vosso carro contra outro estacionado atrás e a uma boa distância de segurança, até perderem todo o tipo de objectos, os mesmos, quinhentas vezes ao dia, até aturarem desaforos, bocas foleiras, e atitudes incompreensíveis como faltas de respeito de alunos bem-comportados; poderão ainda incorrer na ingestão abusiva de bebidas alcoólicas: mas, meus amigos, pelas minhas previsões semanais... essa ingestão será completamente justificável e, até, passível de recomendação médica. Fique em casa, se não puder ir para as Bermudas, e beba até cair para o lado.
Esta semana, os nativos deste signo estarão sujeitos a uma conjuntura astrológica rara. São esperadas muitas surpresas. Surpresas de ordem física, por exemplo: alguns nativos poderão descobrir que têm amígdalas do tamanho de melões e que a sua traqueia é um tubo que, se doer, aumenta de tamanho e se expande até aos pés em coices permanentes conntra o externo.
Amor: os nativos deste signo, durante esta semana, deverão dedicar-se em exclusividade aos filhos, que são as únicas relações sentimentais protegidas e agraciadas. Terão momentos de grande recompensa emocional com a sua prole. Disfrute!
Trabalho: o sagitariano é, por definição, um procrastinador. Esta semana não será diferente. Se não tiver filhos, dedique-se à sua carreira. Veja testes, por exemplo, ou trate de procurar o seu número de candidato ao concurso, porque sem emprego ficará sem hipóteses de adiar para amanhã o que pode fazer hoje.
Saúde: Complicações decorrentes de doenças sazonais e falta de sono, seja por insónias, seja por borgas a meio da semana. A irresponsabilidade paga-se com o corpinho, já dizia o António Variações, que era Capricórnio.
Mensagem especial aos que nasceram a 10 de Dezembro: Jovens, não saiam de casa, a não ser direitinhos a um avião que vos leve às Bermudas de bermudas. Se correrem esse risco, pode acontecer de tudo um pouco, desde espetarem o vosso carro contra outro estacionado atrás e a uma boa distância de segurança, até perderem todo o tipo de objectos, os mesmos, quinhentas vezes ao dia, até aturarem desaforos, bocas foleiras, e atitudes incompreensíveis como faltas de respeito de alunos bem-comportados; poderão ainda incorrer na ingestão abusiva de bebidas alcoólicas: mas, meus amigos, pelas minhas previsões semanais... essa ingestão será completamente justificável e, até, passível de recomendação médica. Fique em casa, se não puder ir para as Bermudas, e beba até cair para o lado.
Foi de Elite
Houve um jantar cá em casa.
Restrito.
De elite.
Para Altas Esferas que, não parece, mas eu e a Mzinha damo-nos mesmo bem é com o jet-set. Estiveram presentes os mais dignos representantes da nobreza. E do clero, já agora. Do terceiro estado pseudo-burguês, só mesmo eu e a Mzinha. Que nos esmerámos, há que confessar.
Ela acordou a sonhar com o tempo em que uma enxaqueca alucinante dava direito a um artigo 102. Eu acordei a sonhar com a hora de me vir embora da escola. Ela melhorou durante o dia. Eu, aquando da última reunião, estive vai-não-vai para meter o tal 102, desmarcar jantar e vir para casa anhar em frente à missa das terças, hipnotizar, dormir, qualquer coisa que não fosse dar de caras com a realidade. Ao volante, carro desligado, hesitei entre "já estou a sair, vai ter comigo ao Modelo" e "desmarca tudo que eu quero enfiar-me na cama e fingir que morri."
Optei pela primeira, e sempre houve jantar.
E correu bem.
Correu melhor que a encomenda.
Os convidados foram-se embora satisfeitos, a conversa foi agradável, a malta riu-se e, mais importante que tudo o resto, falou-se de tudo excepto da última semana. E de concursos, vagas e opções. E de futuro.
Hoje, cá em casa, entre a elite (Jade, você é de elite? Não? Então não tem convite), não se falou de futuro. Não se falou de Julho. Não se equacionou o próximo Setembro. Não se perspectivou o amanhã.
E a Jade, que está em countdown há tanto tempo que só lhe apetece chorar ou fugir, agradece.
Jade, és da elite? Então toma lá um convite.
(gostava de poder ser livre para poder dizer tudo. ambicionava a liberdade de não me sentir claustrofóbica na minha pele. desejava a independência dos loucos, de gritar ao vento, com palavras silenciadas pelo som de um comboio que passa. porque o que calo, os meus medos e desesperos, o tempo que me flui entre os dedos sem que o consiga agarrar, a espera pelo momento final, tudo isso, está a dar cabo de mim. queria poder agarrar o momento. queria poder partilhá-lo e fruí-lo com todos os que amo. devo sentir-me grata por poder fazê-lo, ainda que apenas com alguns. mas os ausentes são lembrados pelo nome. Eu e a Mzinha costumamos comentar que nos estamos a habituar à derradeira despedida desde que M. virou costas. mas hoje soube que as vagas do concurso saem na sexta-feira. e no meio de uma reunião pós-laboral que já estava a correr suficientemente mal, o sol pôs-se de vez. e nada mais voltou a ser igual. nem num jantar de elite, que não podia ter corrido melhor)
terça-feira, 10 de março de 2009
Onomatopeias
Hoje é Terça e fez no Sábado uma semana que fiquei doente. Doente é uma forma de expressão, que a gripe anda literalmente a gozar comigo. Como quando estou bem já tenho que tomar uma lista de medicamentos que impõe respeito, não sou lá muito adepta de me envenenar com mais químicos que os que têm que ser. Por isso, não ataco logo coisas sazonais, e ando que tempos nesta morrinha, num estado assim-assim a dar para o torto. A primeira coisa a cair é o meu humor. As piadas parvas que são o meu ex-lybris vão logo à vida e a paciência, não sendo nunca uma das minhas melhores qualidades, torna-se inexistente. Fico super sensível ao barulho. Fico extra-sensível à agressividade. Fico ultra-sensível ao desrespeito. Tudo me cai mal e é pretexto para ataques de fúria silenciosa, que quando é assim, torno-me a verdadeira lady, não respondo a provocações, ignoro bocas foleiras, passo por cima de atitudes idiotas. Tudo muito estoicamente. Com um ar indiferente e distraído de quem não ouviu nem deu por nada. (Estás doente? perguntam-me as pessoas mais frequentemente quando estou calada do que quando tenho ataques de tosse ou espirro duzentas vezes com alarido).
Mas fervo. Fervo e são alturas destas que normalmente dão para o torto na minha convivência com o resto do Mundo. Ataco em silêncio à chapada os meus colegas de escola. Dou-lhes murraças no alto da cabeça. Saco da minha pistola desintegradora e mando-os para a quinta dimensão, PUM, tiro mesmo no meio dos olhos, TRÁS, patardo mesmo em cheio no focinho, ZÁS, já foste, bilhete para Marte só de ida, grande imbecil.
Ontem a Mzinha perguntava-me porque não escrevia eu desde Sexta-Feira. Não me apetece, respondi. Tenho uma dor de garganta tão grande que a sinto até aos pés.
Porque não escrevo há tanto tempo? No fim deste post do arco-da-velha, a razão é óbvia: estou doente. E quando estou doente fico agressiva. E se bem que a agressividade faça parte da minha normalidade, quando estou doente, torna-se assassina.
CATRAPUM. Implosão da escola para construir um shopping. Não há nenhum, na Cidade de Deus, e escolas há mais três.
sexta-feira, 6 de março de 2009
E esta foi...
... a minha pior semana na escola desde Setembro.
Limitei-me a cumprir o meu horário, não fiquei um minuto a mais na sala de professores do que o estritamente necessário, não fui mais cedo para a escola, não fiquei lá em horas de furo, não prolonguei a minha presença além do toque de saída da última aula.
Obriguei-me disciplinadamente a não o fazer. Cumpri.
E cada vez me sinto pior, essa é que é a verdade.
Passei a dar aulas num Não-Lugar, tal como definido por Marc Augé. Um Não-Lugar é um sítio sem identidade emocional, tipo terminal de aeroporto ou bolsa de valores. É um espaço isento de cor e de afectos. Uma escola não deveria ser apenas um local de trabalho. Uma escola deveria ser um espaço de cooperação, de envolvimento cultural, de partilha, de convivência de formações díspares. Uma escola deveria ser um espaço de comunicação, de abertura de horizontes, de debate de ideias, de transmissão de saberes. Ensina-se pelo exemplo, e os professores deveriam ser pessoas sensíveis e bem-intencionadas, responsáveis e generosas, atentas e cooperantes, optimistas e intervenientes, corajosas e carinhosas. Uma escola deveria ser a antítese de uma fábrica, o contraponto da produção em série, o oposto do cada um por si e Deus por todos. Uma escola deveria criar laços entre as pessoas, ser um espaço solidário e quente, em que os adultos dessem o exemplo aos jovens do que é a responsabilidade e o cumprimento de regras, sim, mas também a lealdade , o carinho, a gratidão, o arrependimento.
E eu entro naquela sala e vejo o "salve-se quem puder". E vejo tantos microcosmos quantas as pessoas presentes. Vejo pessoas incapazes de dar uma mão, de oferecer um ombro, de fazer uma festa, de olhar nos olhos, de identificar ou responder a um pedido de ajuda não-verbal.
A minha escola é um Não-Lugar e nunca senti isso de modo tão dilacerante como esta semana, em que estive frágil e doente, e triste e cansada, e não encontrei motivos de consolo nem razões para me deter, um minuto que fosse a mais, naquele ambiente. Se houve olhares amigos? Houve. De gente que lá se sente tão mal quanto eu, e que esperou pelo extra-laboral para desabafar comigo e me ouvir, em casa, à mesa de um café noite fora e com aulas no dia seguinte, pelo telefone, ou por mail na internet. Aquele edifício depurou-se de identidade e despiu-se de relações significativas. A escola está transformada no oposto do que proclama ser a sua utilidade. A escola é, apenas, um local de trabalho.
E ninguém lamenta mais isso que eu.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Motivos para sorrir
Na Sexta-Feira passada houve uma Visita de Estudo a Coimbra, no âmbito d' Os Lusíadas. Fui acompanhar os meus 9ºs anos, e uma das turmas, a minha favorita do ano passado, está cheia de marmanjos que passam a vida a infernizar-me o juízo nas aulas, com motivação para tudo excepto para aprender Inglês. São uns castiços, mas são também infernais. E eu chateio-me a sério com eles. E tinha a sensação desconfortável de ter passado de bestial a besta. De ser a professora mais odiada pelos rapazes-líder da turma.
Enganei-me.
Hoje, no hi5, um deles colocou esta fotografia no perfil, com a seguinte legenda "A minha senhora sessora favorita!" (Não sei o que é uma senhora sessora, mas espero que seja uma abreviatura de professora...). Esse aluno, em especial, passou a visita toda a chatear-me a moleirinha para tirar uma foto com ele. Disse-lhe, sempre, que tivesse juízo, que eu só aparecia em fotos, 1- Sozinha, para ninguém me toldar a beleza; 2- Com celebridades; 3- Com alunos dignos desse nome, bem-comportados, trabalhadores e empenhados. Mas, pelos vistos, fui apanhada, enquanto outros dois me moíam a paciência. E só me dá vontade de rir, a cara do loirito, todo contente, posto tipo emplastro atrás de mim.

Há coisas que me enternecem, e Deus sabe que nestes dias ando a precisar muito de ternura. Graxa? É possível. Mas há sorrisos que dizem tudo, e não me canso de olhar para o dele. De vez em quando, consigo lembrar-me porque gosto tanto de ser professora.
quarta-feira, 4 de março de 2009
WTF?*
Estou pior que estragada. Pior que uma barata, como diz a minha mãe. Começou o dia logo torto, levantei-me tarde e doente, cheguei à escola mesmo à conta para tomar um café, abrir pela primeira vez a boca para falar com a senhora do bar e me aperceber que a minha voz... não era minha, era assim uma voz tipo Rod Stewart meets Brian Adams with a-fucking-laryngitis. E eis que toca para a entrada.
Uma aula do reino do incrível, com vinte e quatro alunos em silêncio e, ainda assim, o som a não chegar às últimas filas. Eu, positivamente, piursa, e eles cheios de medo do meu internacionalmente conhecido mau-humor. Lá consegui passar quarenta e cinco minutos sem marcar faltas disciplinares, e siga para Bingo.
Depois, fui almoçar com a Mzinha ao restaurante do costume, e fiz o favor de espetar com o molho gorduroso do bife na minha camisola cinzenta clara. Coisa que, apesar de ser desengonçada em muitos aspectos, raramente me acontece. Por essa altura, já fervia, mas pensava, calminha, que hoje sais às quatro e meia e vais para casa meter-te na cama ou suicidar-te...
Pois, só que cheguei à escola e marcaram-me uma reunião pós-laboral que até apitei. Previsão de chegada a casa: tarde.
Tarde foi o que ficou logo estragado, passei uma tarde de meter medo.
Vim-me embora verde. E a pensar que diabo de palavrão terei eu escrito na testa para ainda levar com gente que me substima, me atira com restos à laia de pérolas, me enche de lugares-comuns muito bem esguelhados, tipo horóscopo, sabem? Aquelas frases lapidares que parecem mesmo dizer-te respeito porque, afinal de contas, cabem em todo o lado e consegues sempre identificar-te com isto ou aquilo. Simplesmente, são mais impessoais que a palavra multidão. Logo a mim, que nem fwds mando no mail sem personalizar com duas ou três larachas os ditos. Pôdre, fico pôdre, viro bicho mau. Epá, não há paciência. Não há humor que resista a isto. Detesto gente parva, mas ainda detesto mais gente que me faz a mim de parva... mais do que aquilo que eu já sou. E que não é pouco. Antes mandarem-me à merda ou ignorarem-me. A isso já estou eu (mais do que) habituada. WTF???
* What the fuck?
terça-feira, 3 de março de 2009
Fraude*
para que nunca te esqueças
que em cada
pessoa
há uma fraude
e que
eu
não sou diferente,
lembra-te:
por trás de um sorriso rasgado
há cascatas de lágrimas.
atrás de uma voz grave e segura,
há hesitação e gaguez.
um ar calmo e estóico, indiferente e ausente
esconde tempestades, turbilhões e tornados.
lembra-te
que os olhos são os espelhos da alma
e os meus são pretos.
recorda-te
que quando olhas
para mim
não é
a mim
que vês.
para que nunca te esqueças
que a todos
nós
ensinaram o mesmo,
lembra-te
sempre
que há muita miséria
escondida
num sorriso aberto.
se não te esqueceres
que cada pessoa em quem tropeças
esconde sempre qualquer coisa
de triste,
talvez te lembres
de tratar com carinho
todos nós
fraudes
que existem
com toda a
leveza
que conseguem aparentar.
(* à maneira de Ondjaki, escreve-se aqui uma nota de rodapé para sossegar o Pan e enviar uma pista de leitura: fraude, aqui, despe-se de roupas ofensivas e mostra a sua nudez feminina de formas belas e alegres, mas âmago pesado e sofrido. Defrauda aquele que se mostra melhor do que sabe ou pensa ser, e a alegria é, com certeza, melhor que as trevas que nos habitam)
(Pan, obrigada pela inspiração, este poema surgiu da nossa conversa no mundo virtual; House, este hoje é, muito especialmente, dedicado a ti)
que em cada
pessoa
há uma fraude
e que
eu
não sou diferente,
lembra-te:
por trás de um sorriso rasgado
há cascatas de lágrimas.
atrás de uma voz grave e segura,
há hesitação e gaguez.
um ar calmo e estóico, indiferente e ausente
esconde tempestades, turbilhões e tornados.
lembra-te
que os olhos são os espelhos da alma
e os meus são pretos.
recorda-te
que quando olhas
para mim
não é
a mim
que vês.
para que nunca te esqueças
que a todos
nós
ensinaram o mesmo,
lembra-te
sempre
que há muita miséria
escondida
num sorriso aberto.
se não te esqueceres
que cada pessoa em quem tropeças
esconde sempre qualquer coisa
de triste,
talvez te lembres
de tratar com carinho
todos nós
fraudes
que existem
com toda a
leveza
que conseguem aparentar.
(* à maneira de Ondjaki, escreve-se aqui uma nota de rodapé para sossegar o Pan e enviar uma pista de leitura: fraude, aqui, despe-se de roupas ofensivas e mostra a sua nudez feminina de formas belas e alegres, mas âmago pesado e sofrido. Defrauda aquele que se mostra melhor do que sabe ou pensa ser, e a alegria é, com certeza, melhor que as trevas que nos habitam)
(Pan, obrigada pela inspiração, este poema surgiu da nossa conversa no mundo virtual; House, este hoje é, muito especialmente, dedicado a ti)
O Mundo que páre, que eu quero apear-me
No outro dia comentava com um colega que, ao chegar a casa depois de um dia de trabalho, tinha dado todo o tempo como perdido, e me tinha resignado a outra noite de televisão e falta de vontade para tudo o resto. Sentia-me, sinto-me muitas vezes, inclusivamente hoje e agora, claustrofóbica na minha pele, na minha vidinha. Por causa disso, nessa tarde em particular, desafiei a Mzinha para a primeira caminhada do ano. E, quando chegámos, jantámos rojões e bebemos vinho tinto. E aquele dia perdido, que não deixou de o ser, apesar de tudo, ganhou sabor e alguma animação, mostrando que as cinco da tarde não são horas de se arrumar as botas e duvidar de boas surpresas.
Ontem li o post da Carolina intitulado “Não me Apetece”. Mais uma lista, desta feita, atribuída por ela à TPM. Respondi-lhe, quem me dera só me sentir assim em TPM. Porque, meus amigos, esta semana está a dar cabo de mim. Primeiro porque estou com uma pseudo-gripe que não desenvolve nem desaparece. E eu estou farta dela até à ponta das amígdalas doridas. Depois porque... bem, Carolina, prometi-te um mail e até já alinhavei um texto, mas está tão, tão, deprimente, que nem o vou enviar. Começo a odiar este teclado pelo qual os meus dedos divagam independentes de mim, só dizem baboseiras, irritam-se contra o cérebro e o coração, dedilham mornas e impacientes frases-feitas, suspiram mágoas e gritam silêncios. Começo a odiar este écran.
Não me apetece, seguindo o teu estilo, escrever, e ainda me apetece menos não escrever e ficar a sós comigo sem expressão ou verbalização. Não me apetece sorrir nem rir, e ainda me apetece menos responder à pergunta “que carinha é essa, estás chateada?”. Não me apetece levantar e trabalhar e ir para a escola, nem me apetece ficar em casa sozinha. Não me apetece sair, nem com os amigos, acreditas? E ainda me apetece menos estar sozinha, que parece que quando fico sozinha, todas as vozes do Mundo falam ao mesmo tempo dentro da minha cabeça. Falam, não, gritam. Não me apetece tomar café nem comer chocolate (estou mesmo doente) nem ver o House nem a Grey (devo estar a morrer). Não me apetece aturar os gaiatos dos outros nem ser mãe dos meus. Não me apetece falar com a minha mãe, nem com os meus colegas, mas o silêncio, o silêncio tira-me do sério.
Não me apetece nada nem o seu contrário. E te garanto, TPM não é. Já viste que triste sina a nossa, quando nada nos apetece? Nem rir de uma piada mesmo perfeita? Nem chorar com tudo o que nos entristece? Nem nos chatearmos com as coisas que nos tiram do sério?
Sabes, Carolina, TPM não é. Só espero que seja da gripe. E que hoje, sem rojões ou vinho tinto num dia que não podia ter sido mais perdido, me possa estirar na cama e adormecer sem passar a limpo (só hoje, Meu Deus, por favor, só hoje!) os apontamentos do dia.
Ontem li o post da Carolina intitulado “Não me Apetece”. Mais uma lista, desta feita, atribuída por ela à TPM. Respondi-lhe, quem me dera só me sentir assim em TPM. Porque, meus amigos, esta semana está a dar cabo de mim. Primeiro porque estou com uma pseudo-gripe que não desenvolve nem desaparece. E eu estou farta dela até à ponta das amígdalas doridas. Depois porque... bem, Carolina, prometi-te um mail e até já alinhavei um texto, mas está tão, tão, deprimente, que nem o vou enviar. Começo a odiar este teclado pelo qual os meus dedos divagam independentes de mim, só dizem baboseiras, irritam-se contra o cérebro e o coração, dedilham mornas e impacientes frases-feitas, suspiram mágoas e gritam silêncios. Começo a odiar este écran.
Não me apetece, seguindo o teu estilo, escrever, e ainda me apetece menos não escrever e ficar a sós comigo sem expressão ou verbalização. Não me apetece sorrir nem rir, e ainda me apetece menos responder à pergunta “que carinha é essa, estás chateada?”. Não me apetece levantar e trabalhar e ir para a escola, nem me apetece ficar em casa sozinha. Não me apetece sair, nem com os amigos, acreditas? E ainda me apetece menos estar sozinha, que parece que quando fico sozinha, todas as vozes do Mundo falam ao mesmo tempo dentro da minha cabeça. Falam, não, gritam. Não me apetece tomar café nem comer chocolate (estou mesmo doente) nem ver o House nem a Grey (devo estar a morrer). Não me apetece aturar os gaiatos dos outros nem ser mãe dos meus. Não me apetece falar com a minha mãe, nem com os meus colegas, mas o silêncio, o silêncio tira-me do sério.
Não me apetece nada nem o seu contrário. E te garanto, TPM não é. Já viste que triste sina a nossa, quando nada nos apetece? Nem rir de uma piada mesmo perfeita? Nem chorar com tudo o que nos entristece? Nem nos chatearmos com as coisas que nos tiram do sério?
Sabes, Carolina, TPM não é. Só espero que seja da gripe. E que hoje, sem rojões ou vinho tinto num dia que não podia ter sido mais perdido, me possa estirar na cama e adormecer sem passar a limpo (só hoje, Meu Deus, por favor, só hoje!) os apontamentos do dia.
Nada nos opostos me atrai
Ler. Escrever. Inventar. Reinventar. Olhar a realidade pelos olhos de uma ficção melhorada. Tudo isto faz parte da minha vida, na mesma intensidade e urgência com que respiro, me alimento, me aqueço. Se as necessidades humanas fossem vícios, que são, no fundo, seria uma viciada na Literatura quotidiana. Na forma como olho pessoas, lugares e situações e as transformo numa grande e alternativa peça de teatro.
Um dia, há já muito tempo, quando vi o ano estremeci, eu e o H. escrevemos uma short-story a duas mãos. H. é, sobre tudo o resto, um escritor. Um grande escritor. Domina um léxico impressionante, daqueles que me obrigava, em segredo, a recorrer ao dicionário. Escrevemos os dois a nossa história, ou melhor, o início dela, desde um passeio ao anfiteatro de Mérida, até ao seu primeiro final, o primeiro de muitos, que a nossa relação foi pródiga em desfechos dramáticos e reinícios mágicos. Estive a relê-la, emocionada. Lembro-me que me mandou a versão final em 2005, numa época em que não nos falávamos há meses, para o mail, onde fui dar com ela agora, num momento em que me encontrava em limpeza da caixa de correio. Lembro-me que, na altura, foi o pretexto para nova reaproximação.
A short-story está tão fantástica como impublicável, infelizmente. É surpreendente o modo como as nossas vozes são perfeitamente identificáveis e, ainda assim, os estilos se completam, interagem, comunicam, tocam. Está lindíssima. Tem pormenores eróticos, escritos por ele, que eu tenho muita dificuldade em arranjar palavras que expressem o que se passa na intimidade entre um homem e uma mulher que não me soem a reles ou debochado, pormenores esses, dizia, sublimes em beleza e exemplares na descrição que é tão difícil conseguir sem se cair na vulgaridade e no obsceno. Tenho muito a aprender.
Reler este conto trouxe-me nostalgia dos Natais Passados mas trouxe-me, sobretudo, uma certeza: há coisas difíceis de suplantar. No outro dia escrevia, numa carta, que era frequente adormecer com ele ao lado a escrever histórias ou a ler vorazmente livros. Também era frequente lermos coisas um ao outro em voz alta, textos dele, textos meus. Acontecia muitas vezes transformarmos as nossas conversas em palestras seguidas de debates infindáveis. Nem quando o tema era Paul Auster eu conseguia brilhar, já que H. é um poço profundo de Cultura Americana e Pós-Modernismo, e tem uma visão da história e da Literatura que eu jamais terei, nem com a idade dele, nem depois disso.
Isto para derrubar outro cliché: os opostos atraem-se. Onde? Não no meu Mundo. Ao ler as palavras de H., apercebi-me de que quero ao meu lado alguém que me compreenda e aceite como igual. Que escreva comigo em duo, não uma short-story, mas um romance Tolstoiano. Quero voltar a partilhar o meu espaço com um escritor de histórias reais, que me leia em voz alta. É difícil, dirão vocês. Uma repetição do passado, avisar-me-ão preocupados. So be it,de facto não sei. Uma coisa é certa, o oposto não me atrai. Pode ser que um dia venha a engolir esta teoria, mas antevejo um futuro companheiro escritor, artista, pensador, filósofo. Um futuro companheiro a viver em muitos mundos, todos paralelos, e a ser muitas personagens, todas protagonistas de um sonho esquizofrénico. É esse companheiro ou nenhum.
Um dia, há já muito tempo, quando vi o ano estremeci, eu e o H. escrevemos uma short-story a duas mãos. H. é, sobre tudo o resto, um escritor. Um grande escritor. Domina um léxico impressionante, daqueles que me obrigava, em segredo, a recorrer ao dicionário. Escrevemos os dois a nossa história, ou melhor, o início dela, desde um passeio ao anfiteatro de Mérida, até ao seu primeiro final, o primeiro de muitos, que a nossa relação foi pródiga em desfechos dramáticos e reinícios mágicos. Estive a relê-la, emocionada. Lembro-me que me mandou a versão final em 2005, numa época em que não nos falávamos há meses, para o mail, onde fui dar com ela agora, num momento em que me encontrava em limpeza da caixa de correio. Lembro-me que, na altura, foi o pretexto para nova reaproximação.
A short-story está tão fantástica como impublicável, infelizmente. É surpreendente o modo como as nossas vozes são perfeitamente identificáveis e, ainda assim, os estilos se completam, interagem, comunicam, tocam. Está lindíssima. Tem pormenores eróticos, escritos por ele, que eu tenho muita dificuldade em arranjar palavras que expressem o que se passa na intimidade entre um homem e uma mulher que não me soem a reles ou debochado, pormenores esses, dizia, sublimes em beleza e exemplares na descrição que é tão difícil conseguir sem se cair na vulgaridade e no obsceno. Tenho muito a aprender.
Reler este conto trouxe-me nostalgia dos Natais Passados mas trouxe-me, sobretudo, uma certeza: há coisas difíceis de suplantar. No outro dia escrevia, numa carta, que era frequente adormecer com ele ao lado a escrever histórias ou a ler vorazmente livros. Também era frequente lermos coisas um ao outro em voz alta, textos dele, textos meus. Acontecia muitas vezes transformarmos as nossas conversas em palestras seguidas de debates infindáveis. Nem quando o tema era Paul Auster eu conseguia brilhar, já que H. é um poço profundo de Cultura Americana e Pós-Modernismo, e tem uma visão da história e da Literatura que eu jamais terei, nem com a idade dele, nem depois disso.
Isto para derrubar outro cliché: os opostos atraem-se. Onde? Não no meu Mundo. Ao ler as palavras de H., apercebi-me de que quero ao meu lado alguém que me compreenda e aceite como igual. Que escreva comigo em duo, não uma short-story, mas um romance Tolstoiano. Quero voltar a partilhar o meu espaço com um escritor de histórias reais, que me leia em voz alta. É difícil, dirão vocês. Uma repetição do passado, avisar-me-ão preocupados. So be it,de facto não sei. Uma coisa é certa, o oposto não me atrai. Pode ser que um dia venha a engolir esta teoria, mas antevejo um futuro companheiro escritor, artista, pensador, filósofo. Um futuro companheiro a viver em muitos mundos, todos paralelos, e a ser muitas personagens, todas protagonistas de um sonho esquizofrénico. É esse companheiro ou nenhum.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Beleza Africana
Materiais para Confecção de um Espanador de Tristezas é o novo livro de poemas de Ondjaki. Só o título me encanta, e o livro não decepciona. Mas eu, que sempre fui, sou, e sempre serei, prosaica, tenho que confessar que o que me apaixonou foram as notas de rodapé que o autor acrescentou a alguns dos seus textos, com a simplicidade costumeira de dizer as coisas mais complexas com a linguagem dos arco-íris e das estrelas cadentes.
Ofereço-vos,
As Mãos*
-
se os dedos forem as asas da mão
se a expressão dos dedos
inexplicar o gesto da mão
-
se o gesto for obra esculpida
sob o suor salgado
dos dedos
e esses dedos
forem asas de outra mão
eu posso ficar preso
num poema
de curto esvoaçar
mas a mão
os dedos e os gestos
-
hão-de sempre
saber
voar.
-
(*gosto das mãos porque além de saberem de esculturas e barros servem para tocar outras mãos.)
-
O Obsceno, A Obscena
-
era que: obsceno, ou obscena, eram palavras bonitas.
eu adoro apreciar um corpo pela obscenidade - fica bonito
até excitar a comoção.
já vi uma boca obscena que era um poema vivo.
uma mão obscena já me desconcentrou a existência.
línguas obscenas trazem paz ao caos de um orgasmo.
-
mais até:
uma vez, uma nuvem obscena fez o arco-íris corar.
o céu ficou lindo.
-
Bagagem*
-
bagagem leve
bagagem-só
bagagem de mostrar
bagagem de guardar
bagagem pra ser
bagagem de trazer
bagagem que nos hão-de entregar
bagagem do tempo
bagagem no vento
bagagem acesa
bagagem apagada
bagagem marcante
bagagem pesada.
-
bagagem errante.
bagagem tua.
-
bagagem de mim
mais a pele nua.
-
(*na vida acostamos e abandonamos portos e cais. para não olvidar uma bagagem convém pegar em catorze alforrecas encantadas e [com elas]atar a bagagem ao pulso - até o ardor não arder mais. [a vida é o peso do ausente sobre o resto da vitória, noves fora o sal das lágrimas. a cicatriz também])
-
-
-
-
Perfeito. Tão perfeito que até parece fácil. Gosto quando os escritores fazem parecer fáceis, naturais, fluentes, transparentes as palavras. São como os ginastas que nos deixam boqueabertos com saltos impossíveis sem parar de sorrir.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
No Ouvido
Há uns meses, uma amiga mandou-me este vídeo para o mail. Abominei-o. Tudo nele me irritou, desde a letra, à música, e aos intervenientes, que estão longe de ser por mim apreciados. Depois, o raio da canção passou a tocar na rádio e, à conta de ser demasiado preguiçosa para mudar de emissora, ou optar pelo CD que lá está há meses, foi entrando no ouvido. E agora gosto dela.
Ontem, na Grey, dizia-se que há coisas de que gostamos imediatamente, e há outras que precisamos de conhecer melhor até lhes darmos uma hipótese. Essas são mais importantes, já que nos baseamos no real para as apreciar. E estes dois convenceram-me. Para mim, acordar um dia e aperceber-me de que I love you a little less than before, é o momento mais duro da relação. Pior até do que aquele em que me apercebo que o desamor acontece por parte da outra pessoa. Quando ele nasce em mim, sinto-me uma fraude autêntica. Acho que foi por isso que detestei esta música, de início. Pela minha recusa em deixar de gostar das pessoas de quem gostei muito tempo, por motivos inexplicáveis. Para muitos, este momento traz paz. Contentam-se com recordações de bons momentos passados, bravo, assim é que é. Para mim os bons momentos passados estão lá, mas não são suficientes para me dar paz. A paz alcanço-a eu, sempre, no presente. A viver novos momentos, a sentir-me apaixonada, a levantar-me com um sorriso, como se o futuro estivesse ali ao pé dos chinelos que enfio antes de tomar o pequeno-almoço e ir meter-me no duche. Como se o futuro fosse um par de pantufas que quero mesmo calçar porque são exactamente do meu número e me aquecem os pés.
Fartei-me de ler, nestas férias. Li uma frase que adorei: "Vive o teu dia como se fosse o último, porque mais dia menos dia, acertas". E, por isso, deixo-vos então um vídeo com uma música levezinha. Daquelas que, diz o G. com o ar arrogante de quem percebe de boa música, daqui a um ano já ninguém se vai lembrar. Pois não, G., mas daqui a um ano, sei lá onde vou estar e com quem, sei lá se sequer vou estar...
Etiquetas:
Gather Your Rosebuds While You May,
Sister Grey
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Cheers
Falar sobre o amor é, cada vez mais, dizer um monte de banalidades pouco originais. Sobre o amor continuam a falar bem os poetas, e apenas os melhores, a inventar-lhe nuances, a adivinhar-lhes metáforas, a colorir-lhe sentidos, e alguns músicos, a surpreender-nos e a arrancar-nos uma lágrima ou um sorriso. Muito raramente. Parece que os verdadeiros hinos ao amor são, cada vez mais, difíceis de encontrar. Talvez porque esteja já tudo dito magistralmente, talvez porque o próprio amor tenha caído em desuso, ou sido transformado num enorme postal da Hallmark, como diz a Lisa Simpson, não sei.
O que eu sei é que hoje me apetece brindar à Amizade. Fomos em excursão ver o primogénito da PêloRusso. Ver o que escondeu aquela barriga nove meses. Ver o que revelava aquele sorriso dela, aquela paciência dela, aquela timidez de menina a corar até à raiz dos cabelos, a chorar facilmente, um poço de ternura que em quase três anos jamais desiludiu alguém.
Fui para lá com o coração apertado, na antevisão do reencontro depois de um momento que, na vida dela, marcou para sempre um “antes” e um “depois”. E foi FORMIDÁVEL. Foi MARAVILHOSO. Depois de uns minutos a babar sobre o ser que dormitava de barriguita cheia, já estávamos todos aos gritos e aos risos (sim, ao pé do pequenito que não dava sinais de desagrado com a confusão instaurada e permanecia angelicamente imperturbável às vozes que se atropelavam). A MissCovilhã juntou-se à festa e aquela sala de estar parecia a sala de professores que eu gostava de ter, tudo a coscuvilhar sem (quase) maldade nenhuma, e a rir, e a barafustar, e a implicar “cala-te, pá, fala mais baixo, olha a criança, não sejas assim, ai, esta rapariga agora só fala de namorados, querias que falasse de quê, de namoradas? Ai, tu, está caladinho que te enfio uma solha, porquê, estás a ficar aflita? Ai, o fulano-de-tal disse-me isto assim-assado; esse gajo também é cá um bufo! Não é nada, que parva, até parece que tu não contas nada a ninguém; ok, eu disse que ele era bufo, não disse que era o único, isso fará de mim uma bufa?” Enfim, reinou o bom ambiente, o disparate, a história, o mexerico.
Pouco tempo antes tinha sentido o sabor amargo de uma rejeição directa. Alguém me disse “tchau” quando me aproximara para conversar um bocadinho antes de sair em férias de Carnaval. O despachanço foi tão óbvio que eu murmurei “Bom Carnaval”, virei costas e saí, magoadíssima, a pensar “Bolas, deves realmente andar a impor a tua presença às pessoas, és mesmo estúpida”. O desejo de Bom Carnaval nem sequer mereceu resposta e eu vim muito chateada para casa. Triste, mesmo. Pensei, já não chega não seres retribuída a nível amoroso, agora até as pessoas com quem gostas de estar te dizem claramente para lhes desamparares a loja? Isto está bonito, Jade…
O que eu sei é que hoje me apetece brindar à Amizade. Fomos em excursão ver o primogénito da PêloRusso. Ver o que escondeu aquela barriga nove meses. Ver o que revelava aquele sorriso dela, aquela paciência dela, aquela timidez de menina a corar até à raiz dos cabelos, a chorar facilmente, um poço de ternura que em quase três anos jamais desiludiu alguém.
Fui para lá com o coração apertado, na antevisão do reencontro depois de um momento que, na vida dela, marcou para sempre um “antes” e um “depois”. E foi FORMIDÁVEL. Foi MARAVILHOSO. Depois de uns minutos a babar sobre o ser que dormitava de barriguita cheia, já estávamos todos aos gritos e aos risos (sim, ao pé do pequenito que não dava sinais de desagrado com a confusão instaurada e permanecia angelicamente imperturbável às vozes que se atropelavam). A MissCovilhã juntou-se à festa e aquela sala de estar parecia a sala de professores que eu gostava de ter, tudo a coscuvilhar sem (quase) maldade nenhuma, e a rir, e a barafustar, e a implicar “cala-te, pá, fala mais baixo, olha a criança, não sejas assim, ai, esta rapariga agora só fala de namorados, querias que falasse de quê, de namoradas? Ai, tu, está caladinho que te enfio uma solha, porquê, estás a ficar aflita? Ai, o fulano-de-tal disse-me isto assim-assado; esse gajo também é cá um bufo! Não é nada, que parva, até parece que tu não contas nada a ninguém; ok, eu disse que ele era bufo, não disse que era o único, isso fará de mim uma bufa?” Enfim, reinou o bom ambiente, o disparate, a história, o mexerico.
Pouco tempo antes tinha sentido o sabor amargo de uma rejeição directa. Alguém me disse “tchau” quando me aproximara para conversar um bocadinho antes de sair em férias de Carnaval. O despachanço foi tão óbvio que eu murmurei “Bom Carnaval”, virei costas e saí, magoadíssima, a pensar “Bolas, deves realmente andar a impor a tua presença às pessoas, és mesmo estúpida”. O desejo de Bom Carnaval nem sequer mereceu resposta e eu vim muito chateada para casa. Triste, mesmo. Pensei, já não chega não seres retribuída a nível amoroso, agora até as pessoas com quem gostas de estar te dizem claramente para lhes desamparares a loja? Isto está bonito, Jade…
Estas coisas tocam-me sobremaneira, porque não sou simpática nem agradável com muita gente, e não estou habituada a ser ostensivamente mal-tratada por ninguém. A situação afectou-me imenso, desarmo perante antipatias vindas de sítios inesperados, sou, de facto, uma parvita ultra-sensível à rejeição descarada e à sensação desconfortável de ser uma presença non grata, faz-me sentir um insecto incómodo e repelente.
Os maus sentimentos e a queda a pique de auto-estima evaporaram-se em casa da PêloRusso. Não me podia ter sentido mais bem-vinda, mais contente, mais alegre. Não podia ter vivido um sentimento maior de pertença, de cumplicidade, de comunicação verbal e não verbal. Partilharam-se palavras, mas também gestos, sorrisos, abraços, beijos, toques, piscares de olho, caretas, manguitos, grilas, e mais sorrisos, mais gargalhadas, mais abraços, mais palavras. As mais importantes, “Tinha tantas saudades vossas”, “Voltem mais vezes”, “Eu apareço por lá um destes dias”.
A fundamental, a encerrar muitas das frases ditas, “Amiga”, ou as variantes, “Amiguinhos, Amiguita”. Vim-me embora com o coração a cantar. E fazia-me muita, muita falta, ouvi-lo cantar. Se fechasse os olhos, naquela sala de estar, tenho a certeza de que me conseguiria imaginar numa escola à maneira, num mundo perfeito, num intervalo qualquer, à espera do toque de entrada. Se fechar os olhos, agora, todas aquelas pessoas fazem realmente parte do meu Mundo Perfeito, naquele onde, apesar de achincalhada e censurada com todas as letras, e gozada até mais não, e provocada até aos limites da paciência, serei sempre bem vinda e jamais me dirão “Tchau” sem acrescentar “Minha querida, volta depressa, espero ver-te em breve”.
PêloRusso e Miss, até já.
Os maus sentimentos e a queda a pique de auto-estima evaporaram-se em casa da PêloRusso. Não me podia ter sentido mais bem-vinda, mais contente, mais alegre. Não podia ter vivido um sentimento maior de pertença, de cumplicidade, de comunicação verbal e não verbal. Partilharam-se palavras, mas também gestos, sorrisos, abraços, beijos, toques, piscares de olho, caretas, manguitos, grilas, e mais sorrisos, mais gargalhadas, mais abraços, mais palavras. As mais importantes, “Tinha tantas saudades vossas”, “Voltem mais vezes”, “Eu apareço por lá um destes dias”.
A fundamental, a encerrar muitas das frases ditas, “Amiga”, ou as variantes, “Amiguinhos, Amiguita”. Vim-me embora com o coração a cantar. E fazia-me muita, muita falta, ouvi-lo cantar. Se fechasse os olhos, naquela sala de estar, tenho a certeza de que me conseguiria imaginar numa escola à maneira, num mundo perfeito, num intervalo qualquer, à espera do toque de entrada. Se fechar os olhos, agora, todas aquelas pessoas fazem realmente parte do meu Mundo Perfeito, naquele onde, apesar de achincalhada e censurada com todas as letras, e gozada até mais não, e provocada até aos limites da paciência, serei sempre bem vinda e jamais me dirão “Tchau” sem acrescentar “Minha querida, volta depressa, espero ver-te em breve”.
PêloRusso e Miss, até já.
Aos outros, mais uma vez “Bom Carnaval”. Todos eles me disseram, pelo menos, igualmente. E é também por isso que hoje me sinto grata, e me apetece brindar à Amizade.
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