para que nunca te esqueças
que em cada
pessoa
há uma fraude
e que
eu
não sou diferente,
lembra-te:
por trás de um sorriso rasgado
há cascatas de lágrimas.
atrás de uma voz grave e segura,
há hesitação e gaguez.
um ar calmo e estóico, indiferente e ausente
esconde tempestades, turbilhões e tornados.
lembra-te
que os olhos são os espelhos da alma
e os meus são pretos.
recorda-te
que quando olhas
para mim
não é
a mim
que vês.
para que nunca te esqueças
que a todos
nós
ensinaram o mesmo,
lembra-te
sempre
que há muita miséria
escondida
num sorriso aberto.
se não te esqueceres
que cada pessoa em quem tropeças
esconde sempre qualquer coisa
de triste,
talvez te lembres
de tratar com carinho
todos nós
fraudes
que existem
com toda a
leveza
que conseguem aparentar.
(* à maneira de Ondjaki, escreve-se aqui uma nota de rodapé para sossegar o Pan e enviar uma pista de leitura: fraude, aqui, despe-se de roupas ofensivas e mostra a sua nudez feminina de formas belas e alegres, mas âmago pesado e sofrido. Defrauda aquele que se mostra melhor do que sabe ou pensa ser, e a alegria é, com certeza, melhor que as trevas que nos habitam)
(Pan, obrigada pela inspiração, este poema surgiu da nossa conversa no mundo virtual; House, este hoje é, muito especialmente, dedicado a ti)
terça-feira, 3 de março de 2009
O Mundo que páre, que eu quero apear-me
No outro dia comentava com um colega que, ao chegar a casa depois de um dia de trabalho, tinha dado todo o tempo como perdido, e me tinha resignado a outra noite de televisão e falta de vontade para tudo o resto. Sentia-me, sinto-me muitas vezes, inclusivamente hoje e agora, claustrofóbica na minha pele, na minha vidinha. Por causa disso, nessa tarde em particular, desafiei a Mzinha para a primeira caminhada do ano. E, quando chegámos, jantámos rojões e bebemos vinho tinto. E aquele dia perdido, que não deixou de o ser, apesar de tudo, ganhou sabor e alguma animação, mostrando que as cinco da tarde não são horas de se arrumar as botas e duvidar de boas surpresas.
Ontem li o post da Carolina intitulado “Não me Apetece”. Mais uma lista, desta feita, atribuída por ela à TPM. Respondi-lhe, quem me dera só me sentir assim em TPM. Porque, meus amigos, esta semana está a dar cabo de mim. Primeiro porque estou com uma pseudo-gripe que não desenvolve nem desaparece. E eu estou farta dela até à ponta das amígdalas doridas. Depois porque... bem, Carolina, prometi-te um mail e até já alinhavei um texto, mas está tão, tão, deprimente, que nem o vou enviar. Começo a odiar este teclado pelo qual os meus dedos divagam independentes de mim, só dizem baboseiras, irritam-se contra o cérebro e o coração, dedilham mornas e impacientes frases-feitas, suspiram mágoas e gritam silêncios. Começo a odiar este écran.
Não me apetece, seguindo o teu estilo, escrever, e ainda me apetece menos não escrever e ficar a sós comigo sem expressão ou verbalização. Não me apetece sorrir nem rir, e ainda me apetece menos responder à pergunta “que carinha é essa, estás chateada?”. Não me apetece levantar e trabalhar e ir para a escola, nem me apetece ficar em casa sozinha. Não me apetece sair, nem com os amigos, acreditas? E ainda me apetece menos estar sozinha, que parece que quando fico sozinha, todas as vozes do Mundo falam ao mesmo tempo dentro da minha cabeça. Falam, não, gritam. Não me apetece tomar café nem comer chocolate (estou mesmo doente) nem ver o House nem a Grey (devo estar a morrer). Não me apetece aturar os gaiatos dos outros nem ser mãe dos meus. Não me apetece falar com a minha mãe, nem com os meus colegas, mas o silêncio, o silêncio tira-me do sério.
Não me apetece nada nem o seu contrário. E te garanto, TPM não é. Já viste que triste sina a nossa, quando nada nos apetece? Nem rir de uma piada mesmo perfeita? Nem chorar com tudo o que nos entristece? Nem nos chatearmos com as coisas que nos tiram do sério?
Sabes, Carolina, TPM não é. Só espero que seja da gripe. E que hoje, sem rojões ou vinho tinto num dia que não podia ter sido mais perdido, me possa estirar na cama e adormecer sem passar a limpo (só hoje, Meu Deus, por favor, só hoje!) os apontamentos do dia.
Ontem li o post da Carolina intitulado “Não me Apetece”. Mais uma lista, desta feita, atribuída por ela à TPM. Respondi-lhe, quem me dera só me sentir assim em TPM. Porque, meus amigos, esta semana está a dar cabo de mim. Primeiro porque estou com uma pseudo-gripe que não desenvolve nem desaparece. E eu estou farta dela até à ponta das amígdalas doridas. Depois porque... bem, Carolina, prometi-te um mail e até já alinhavei um texto, mas está tão, tão, deprimente, que nem o vou enviar. Começo a odiar este teclado pelo qual os meus dedos divagam independentes de mim, só dizem baboseiras, irritam-se contra o cérebro e o coração, dedilham mornas e impacientes frases-feitas, suspiram mágoas e gritam silêncios. Começo a odiar este écran.
Não me apetece, seguindo o teu estilo, escrever, e ainda me apetece menos não escrever e ficar a sós comigo sem expressão ou verbalização. Não me apetece sorrir nem rir, e ainda me apetece menos responder à pergunta “que carinha é essa, estás chateada?”. Não me apetece levantar e trabalhar e ir para a escola, nem me apetece ficar em casa sozinha. Não me apetece sair, nem com os amigos, acreditas? E ainda me apetece menos estar sozinha, que parece que quando fico sozinha, todas as vozes do Mundo falam ao mesmo tempo dentro da minha cabeça. Falam, não, gritam. Não me apetece tomar café nem comer chocolate (estou mesmo doente) nem ver o House nem a Grey (devo estar a morrer). Não me apetece aturar os gaiatos dos outros nem ser mãe dos meus. Não me apetece falar com a minha mãe, nem com os meus colegas, mas o silêncio, o silêncio tira-me do sério.
Não me apetece nada nem o seu contrário. E te garanto, TPM não é. Já viste que triste sina a nossa, quando nada nos apetece? Nem rir de uma piada mesmo perfeita? Nem chorar com tudo o que nos entristece? Nem nos chatearmos com as coisas que nos tiram do sério?
Sabes, Carolina, TPM não é. Só espero que seja da gripe. E que hoje, sem rojões ou vinho tinto num dia que não podia ter sido mais perdido, me possa estirar na cama e adormecer sem passar a limpo (só hoje, Meu Deus, por favor, só hoje!) os apontamentos do dia.
Nada nos opostos me atrai
Ler. Escrever. Inventar. Reinventar. Olhar a realidade pelos olhos de uma ficção melhorada. Tudo isto faz parte da minha vida, na mesma intensidade e urgência com que respiro, me alimento, me aqueço. Se as necessidades humanas fossem vícios, que são, no fundo, seria uma viciada na Literatura quotidiana. Na forma como olho pessoas, lugares e situações e as transformo numa grande e alternativa peça de teatro.
Um dia, há já muito tempo, quando vi o ano estremeci, eu e o H. escrevemos uma short-story a duas mãos. H. é, sobre tudo o resto, um escritor. Um grande escritor. Domina um léxico impressionante, daqueles que me obrigava, em segredo, a recorrer ao dicionário. Escrevemos os dois a nossa história, ou melhor, o início dela, desde um passeio ao anfiteatro de Mérida, até ao seu primeiro final, o primeiro de muitos, que a nossa relação foi pródiga em desfechos dramáticos e reinícios mágicos. Estive a relê-la, emocionada. Lembro-me que me mandou a versão final em 2005, numa época em que não nos falávamos há meses, para o mail, onde fui dar com ela agora, num momento em que me encontrava em limpeza da caixa de correio. Lembro-me que, na altura, foi o pretexto para nova reaproximação.
A short-story está tão fantástica como impublicável, infelizmente. É surpreendente o modo como as nossas vozes são perfeitamente identificáveis e, ainda assim, os estilos se completam, interagem, comunicam, tocam. Está lindíssima. Tem pormenores eróticos, escritos por ele, que eu tenho muita dificuldade em arranjar palavras que expressem o que se passa na intimidade entre um homem e uma mulher que não me soem a reles ou debochado, pormenores esses, dizia, sublimes em beleza e exemplares na descrição que é tão difícil conseguir sem se cair na vulgaridade e no obsceno. Tenho muito a aprender.
Reler este conto trouxe-me nostalgia dos Natais Passados mas trouxe-me, sobretudo, uma certeza: há coisas difíceis de suplantar. No outro dia escrevia, numa carta, que era frequente adormecer com ele ao lado a escrever histórias ou a ler vorazmente livros. Também era frequente lermos coisas um ao outro em voz alta, textos dele, textos meus. Acontecia muitas vezes transformarmos as nossas conversas em palestras seguidas de debates infindáveis. Nem quando o tema era Paul Auster eu conseguia brilhar, já que H. é um poço profundo de Cultura Americana e Pós-Modernismo, e tem uma visão da história e da Literatura que eu jamais terei, nem com a idade dele, nem depois disso.
Isto para derrubar outro cliché: os opostos atraem-se. Onde? Não no meu Mundo. Ao ler as palavras de H., apercebi-me de que quero ao meu lado alguém que me compreenda e aceite como igual. Que escreva comigo em duo, não uma short-story, mas um romance Tolstoiano. Quero voltar a partilhar o meu espaço com um escritor de histórias reais, que me leia em voz alta. É difícil, dirão vocês. Uma repetição do passado, avisar-me-ão preocupados. So be it,de facto não sei. Uma coisa é certa, o oposto não me atrai. Pode ser que um dia venha a engolir esta teoria, mas antevejo um futuro companheiro escritor, artista, pensador, filósofo. Um futuro companheiro a viver em muitos mundos, todos paralelos, e a ser muitas personagens, todas protagonistas de um sonho esquizofrénico. É esse companheiro ou nenhum.
Um dia, há já muito tempo, quando vi o ano estremeci, eu e o H. escrevemos uma short-story a duas mãos. H. é, sobre tudo o resto, um escritor. Um grande escritor. Domina um léxico impressionante, daqueles que me obrigava, em segredo, a recorrer ao dicionário. Escrevemos os dois a nossa história, ou melhor, o início dela, desde um passeio ao anfiteatro de Mérida, até ao seu primeiro final, o primeiro de muitos, que a nossa relação foi pródiga em desfechos dramáticos e reinícios mágicos. Estive a relê-la, emocionada. Lembro-me que me mandou a versão final em 2005, numa época em que não nos falávamos há meses, para o mail, onde fui dar com ela agora, num momento em que me encontrava em limpeza da caixa de correio. Lembro-me que, na altura, foi o pretexto para nova reaproximação.
A short-story está tão fantástica como impublicável, infelizmente. É surpreendente o modo como as nossas vozes são perfeitamente identificáveis e, ainda assim, os estilos se completam, interagem, comunicam, tocam. Está lindíssima. Tem pormenores eróticos, escritos por ele, que eu tenho muita dificuldade em arranjar palavras que expressem o que se passa na intimidade entre um homem e uma mulher que não me soem a reles ou debochado, pormenores esses, dizia, sublimes em beleza e exemplares na descrição que é tão difícil conseguir sem se cair na vulgaridade e no obsceno. Tenho muito a aprender.
Reler este conto trouxe-me nostalgia dos Natais Passados mas trouxe-me, sobretudo, uma certeza: há coisas difíceis de suplantar. No outro dia escrevia, numa carta, que era frequente adormecer com ele ao lado a escrever histórias ou a ler vorazmente livros. Também era frequente lermos coisas um ao outro em voz alta, textos dele, textos meus. Acontecia muitas vezes transformarmos as nossas conversas em palestras seguidas de debates infindáveis. Nem quando o tema era Paul Auster eu conseguia brilhar, já que H. é um poço profundo de Cultura Americana e Pós-Modernismo, e tem uma visão da história e da Literatura que eu jamais terei, nem com a idade dele, nem depois disso.
Isto para derrubar outro cliché: os opostos atraem-se. Onde? Não no meu Mundo. Ao ler as palavras de H., apercebi-me de que quero ao meu lado alguém que me compreenda e aceite como igual. Que escreva comigo em duo, não uma short-story, mas um romance Tolstoiano. Quero voltar a partilhar o meu espaço com um escritor de histórias reais, que me leia em voz alta. É difícil, dirão vocês. Uma repetição do passado, avisar-me-ão preocupados. So be it,de facto não sei. Uma coisa é certa, o oposto não me atrai. Pode ser que um dia venha a engolir esta teoria, mas antevejo um futuro companheiro escritor, artista, pensador, filósofo. Um futuro companheiro a viver em muitos mundos, todos paralelos, e a ser muitas personagens, todas protagonistas de um sonho esquizofrénico. É esse companheiro ou nenhum.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Beleza Africana
Materiais para Confecção de um Espanador de Tristezas é o novo livro de poemas de Ondjaki. Só o título me encanta, e o livro não decepciona. Mas eu, que sempre fui, sou, e sempre serei, prosaica, tenho que confessar que o que me apaixonou foram as notas de rodapé que o autor acrescentou a alguns dos seus textos, com a simplicidade costumeira de dizer as coisas mais complexas com a linguagem dos arco-íris e das estrelas cadentes.
Ofereço-vos,
As Mãos*
-
se os dedos forem as asas da mão
se a expressão dos dedos
inexplicar o gesto da mão
-
se o gesto for obra esculpida
sob o suor salgado
dos dedos
e esses dedos
forem asas de outra mão
eu posso ficar preso
num poema
de curto esvoaçar
mas a mão
os dedos e os gestos
-
hão-de sempre
saber
voar.
-
(*gosto das mãos porque além de saberem de esculturas e barros servem para tocar outras mãos.)
-
O Obsceno, A Obscena
-
era que: obsceno, ou obscena, eram palavras bonitas.
eu adoro apreciar um corpo pela obscenidade - fica bonito
até excitar a comoção.
já vi uma boca obscena que era um poema vivo.
uma mão obscena já me desconcentrou a existência.
línguas obscenas trazem paz ao caos de um orgasmo.
-
mais até:
uma vez, uma nuvem obscena fez o arco-íris corar.
o céu ficou lindo.
-
Bagagem*
-
bagagem leve
bagagem-só
bagagem de mostrar
bagagem de guardar
bagagem pra ser
bagagem de trazer
bagagem que nos hão-de entregar
bagagem do tempo
bagagem no vento
bagagem acesa
bagagem apagada
bagagem marcante
bagagem pesada.
-
bagagem errante.
bagagem tua.
-
bagagem de mim
mais a pele nua.
-
(*na vida acostamos e abandonamos portos e cais. para não olvidar uma bagagem convém pegar em catorze alforrecas encantadas e [com elas]atar a bagagem ao pulso - até o ardor não arder mais. [a vida é o peso do ausente sobre o resto da vitória, noves fora o sal das lágrimas. a cicatriz também])
-
-
-
-
Perfeito. Tão perfeito que até parece fácil. Gosto quando os escritores fazem parecer fáceis, naturais, fluentes, transparentes as palavras. São como os ginastas que nos deixam boqueabertos com saltos impossíveis sem parar de sorrir.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
No Ouvido
Há uns meses, uma amiga mandou-me este vídeo para o mail. Abominei-o. Tudo nele me irritou, desde a letra, à música, e aos intervenientes, que estão longe de ser por mim apreciados. Depois, o raio da canção passou a tocar na rádio e, à conta de ser demasiado preguiçosa para mudar de emissora, ou optar pelo CD que lá está há meses, foi entrando no ouvido. E agora gosto dela.
Ontem, na Grey, dizia-se que há coisas de que gostamos imediatamente, e há outras que precisamos de conhecer melhor até lhes darmos uma hipótese. Essas são mais importantes, já que nos baseamos no real para as apreciar. E estes dois convenceram-me. Para mim, acordar um dia e aperceber-me de que I love you a little less than before, é o momento mais duro da relação. Pior até do que aquele em que me apercebo que o desamor acontece por parte da outra pessoa. Quando ele nasce em mim, sinto-me uma fraude autêntica. Acho que foi por isso que detestei esta música, de início. Pela minha recusa em deixar de gostar das pessoas de quem gostei muito tempo, por motivos inexplicáveis. Para muitos, este momento traz paz. Contentam-se com recordações de bons momentos passados, bravo, assim é que é. Para mim os bons momentos passados estão lá, mas não são suficientes para me dar paz. A paz alcanço-a eu, sempre, no presente. A viver novos momentos, a sentir-me apaixonada, a levantar-me com um sorriso, como se o futuro estivesse ali ao pé dos chinelos que enfio antes de tomar o pequeno-almoço e ir meter-me no duche. Como se o futuro fosse um par de pantufas que quero mesmo calçar porque são exactamente do meu número e me aquecem os pés.
Fartei-me de ler, nestas férias. Li uma frase que adorei: "Vive o teu dia como se fosse o último, porque mais dia menos dia, acertas". E, por isso, deixo-vos então um vídeo com uma música levezinha. Daquelas que, diz o G. com o ar arrogante de quem percebe de boa música, daqui a um ano já ninguém se vai lembrar. Pois não, G., mas daqui a um ano, sei lá onde vou estar e com quem, sei lá se sequer vou estar...
Etiquetas:
Gather Your Rosebuds While You May,
Sister Grey
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Cheers
Falar sobre o amor é, cada vez mais, dizer um monte de banalidades pouco originais. Sobre o amor continuam a falar bem os poetas, e apenas os melhores, a inventar-lhe nuances, a adivinhar-lhes metáforas, a colorir-lhe sentidos, e alguns músicos, a surpreender-nos e a arrancar-nos uma lágrima ou um sorriso. Muito raramente. Parece que os verdadeiros hinos ao amor são, cada vez mais, difíceis de encontrar. Talvez porque esteja já tudo dito magistralmente, talvez porque o próprio amor tenha caído em desuso, ou sido transformado num enorme postal da Hallmark, como diz a Lisa Simpson, não sei.
O que eu sei é que hoje me apetece brindar à Amizade. Fomos em excursão ver o primogénito da PêloRusso. Ver o que escondeu aquela barriga nove meses. Ver o que revelava aquele sorriso dela, aquela paciência dela, aquela timidez de menina a corar até à raiz dos cabelos, a chorar facilmente, um poço de ternura que em quase três anos jamais desiludiu alguém.
Fui para lá com o coração apertado, na antevisão do reencontro depois de um momento que, na vida dela, marcou para sempre um “antes” e um “depois”. E foi FORMIDÁVEL. Foi MARAVILHOSO. Depois de uns minutos a babar sobre o ser que dormitava de barriguita cheia, já estávamos todos aos gritos e aos risos (sim, ao pé do pequenito que não dava sinais de desagrado com a confusão instaurada e permanecia angelicamente imperturbável às vozes que se atropelavam). A MissCovilhã juntou-se à festa e aquela sala de estar parecia a sala de professores que eu gostava de ter, tudo a coscuvilhar sem (quase) maldade nenhuma, e a rir, e a barafustar, e a implicar “cala-te, pá, fala mais baixo, olha a criança, não sejas assim, ai, esta rapariga agora só fala de namorados, querias que falasse de quê, de namoradas? Ai, tu, está caladinho que te enfio uma solha, porquê, estás a ficar aflita? Ai, o fulano-de-tal disse-me isto assim-assado; esse gajo também é cá um bufo! Não é nada, que parva, até parece que tu não contas nada a ninguém; ok, eu disse que ele era bufo, não disse que era o único, isso fará de mim uma bufa?” Enfim, reinou o bom ambiente, o disparate, a história, o mexerico.
Pouco tempo antes tinha sentido o sabor amargo de uma rejeição directa. Alguém me disse “tchau” quando me aproximara para conversar um bocadinho antes de sair em férias de Carnaval. O despachanço foi tão óbvio que eu murmurei “Bom Carnaval”, virei costas e saí, magoadíssima, a pensar “Bolas, deves realmente andar a impor a tua presença às pessoas, és mesmo estúpida”. O desejo de Bom Carnaval nem sequer mereceu resposta e eu vim muito chateada para casa. Triste, mesmo. Pensei, já não chega não seres retribuída a nível amoroso, agora até as pessoas com quem gostas de estar te dizem claramente para lhes desamparares a loja? Isto está bonito, Jade…
O que eu sei é que hoje me apetece brindar à Amizade. Fomos em excursão ver o primogénito da PêloRusso. Ver o que escondeu aquela barriga nove meses. Ver o que revelava aquele sorriso dela, aquela paciência dela, aquela timidez de menina a corar até à raiz dos cabelos, a chorar facilmente, um poço de ternura que em quase três anos jamais desiludiu alguém.
Fui para lá com o coração apertado, na antevisão do reencontro depois de um momento que, na vida dela, marcou para sempre um “antes” e um “depois”. E foi FORMIDÁVEL. Foi MARAVILHOSO. Depois de uns minutos a babar sobre o ser que dormitava de barriguita cheia, já estávamos todos aos gritos e aos risos (sim, ao pé do pequenito que não dava sinais de desagrado com a confusão instaurada e permanecia angelicamente imperturbável às vozes que se atropelavam). A MissCovilhã juntou-se à festa e aquela sala de estar parecia a sala de professores que eu gostava de ter, tudo a coscuvilhar sem (quase) maldade nenhuma, e a rir, e a barafustar, e a implicar “cala-te, pá, fala mais baixo, olha a criança, não sejas assim, ai, esta rapariga agora só fala de namorados, querias que falasse de quê, de namoradas? Ai, tu, está caladinho que te enfio uma solha, porquê, estás a ficar aflita? Ai, o fulano-de-tal disse-me isto assim-assado; esse gajo também é cá um bufo! Não é nada, que parva, até parece que tu não contas nada a ninguém; ok, eu disse que ele era bufo, não disse que era o único, isso fará de mim uma bufa?” Enfim, reinou o bom ambiente, o disparate, a história, o mexerico.
Pouco tempo antes tinha sentido o sabor amargo de uma rejeição directa. Alguém me disse “tchau” quando me aproximara para conversar um bocadinho antes de sair em férias de Carnaval. O despachanço foi tão óbvio que eu murmurei “Bom Carnaval”, virei costas e saí, magoadíssima, a pensar “Bolas, deves realmente andar a impor a tua presença às pessoas, és mesmo estúpida”. O desejo de Bom Carnaval nem sequer mereceu resposta e eu vim muito chateada para casa. Triste, mesmo. Pensei, já não chega não seres retribuída a nível amoroso, agora até as pessoas com quem gostas de estar te dizem claramente para lhes desamparares a loja? Isto está bonito, Jade…
Estas coisas tocam-me sobremaneira, porque não sou simpática nem agradável com muita gente, e não estou habituada a ser ostensivamente mal-tratada por ninguém. A situação afectou-me imenso, desarmo perante antipatias vindas de sítios inesperados, sou, de facto, uma parvita ultra-sensível à rejeição descarada e à sensação desconfortável de ser uma presença non grata, faz-me sentir um insecto incómodo e repelente.
Os maus sentimentos e a queda a pique de auto-estima evaporaram-se em casa da PêloRusso. Não me podia ter sentido mais bem-vinda, mais contente, mais alegre. Não podia ter vivido um sentimento maior de pertença, de cumplicidade, de comunicação verbal e não verbal. Partilharam-se palavras, mas também gestos, sorrisos, abraços, beijos, toques, piscares de olho, caretas, manguitos, grilas, e mais sorrisos, mais gargalhadas, mais abraços, mais palavras. As mais importantes, “Tinha tantas saudades vossas”, “Voltem mais vezes”, “Eu apareço por lá um destes dias”.
A fundamental, a encerrar muitas das frases ditas, “Amiga”, ou as variantes, “Amiguinhos, Amiguita”. Vim-me embora com o coração a cantar. E fazia-me muita, muita falta, ouvi-lo cantar. Se fechasse os olhos, naquela sala de estar, tenho a certeza de que me conseguiria imaginar numa escola à maneira, num mundo perfeito, num intervalo qualquer, à espera do toque de entrada. Se fechar os olhos, agora, todas aquelas pessoas fazem realmente parte do meu Mundo Perfeito, naquele onde, apesar de achincalhada e censurada com todas as letras, e gozada até mais não, e provocada até aos limites da paciência, serei sempre bem vinda e jamais me dirão “Tchau” sem acrescentar “Minha querida, volta depressa, espero ver-te em breve”.
PêloRusso e Miss, até já.
Os maus sentimentos e a queda a pique de auto-estima evaporaram-se em casa da PêloRusso. Não me podia ter sentido mais bem-vinda, mais contente, mais alegre. Não podia ter vivido um sentimento maior de pertença, de cumplicidade, de comunicação verbal e não verbal. Partilharam-se palavras, mas também gestos, sorrisos, abraços, beijos, toques, piscares de olho, caretas, manguitos, grilas, e mais sorrisos, mais gargalhadas, mais abraços, mais palavras. As mais importantes, “Tinha tantas saudades vossas”, “Voltem mais vezes”, “Eu apareço por lá um destes dias”.
A fundamental, a encerrar muitas das frases ditas, “Amiga”, ou as variantes, “Amiguinhos, Amiguita”. Vim-me embora com o coração a cantar. E fazia-me muita, muita falta, ouvi-lo cantar. Se fechasse os olhos, naquela sala de estar, tenho a certeza de que me conseguiria imaginar numa escola à maneira, num mundo perfeito, num intervalo qualquer, à espera do toque de entrada. Se fechar os olhos, agora, todas aquelas pessoas fazem realmente parte do meu Mundo Perfeito, naquele onde, apesar de achincalhada e censurada com todas as letras, e gozada até mais não, e provocada até aos limites da paciência, serei sempre bem vinda e jamais me dirão “Tchau” sem acrescentar “Minha querida, volta depressa, espero ver-te em breve”.
PêloRusso e Miss, até já.
Aos outros, mais uma vez “Bom Carnaval”. Todos eles me disseram, pelo menos, igualmente. E é também por isso que hoje me sinto grata, e me apetece brindar à Amizade.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Vida Santa
Hoje disseram-me que eu tinha uma vida santa. Assim, na lata.
Uma Vida Santa.
Para começar, eu cá de Santa não tenho absolutamente nada (passando a dupla negativa, esta é enfática, para os puristas). Nem o vocabulário, nem os pensamentos mais íntimos, nem os desejos mais reprimidos. O veneno corre-me nas veias e sobe-me à língua afiada quando eu quero e quando eu não quero.
Vivo a minha vida despida de preconceitos. De tal forma que a minha fama me precede. Os meus alunos dizem que eu tenho uma “mente distorcida”. Que “até as cobras fogem a sete pés” quando eu me aproximo. (Isto não é verdade, mas eu tenho pena, agora que me consigo lembrar, assim, de repente, de duas ou três nas quais tropeço vezes demais). Não, eu sou muita coisa boa, mas santa não sou. Até quando tento fazer cara disso, ninguém acredita. Se alguém fez alguma parvoeira, a principal suspeita sou sempre eu. Se há alguém que se ri a despropósito de coisas que não têm piadinha nenhuma, sou eu. Se alguém aplaude perdas de estribeiras e defende que a agressividade não faz ninguém perder a razão, por muitos palavrões e insultos que venham na explosão, sou eu. Se há alguém que acredita piamente no Pursuit of Happiness No Matter What, e se rebela contra a culpa judaico-cristã e a auto-penitência, o Deus Castigador e a hipocrisia humana, sou eu. Santa, qual santa?
Mas tenho uma vida santa. Mando em mim. Decido tudo no meu tempo extra trabalho. Faço o que me apetece. Vou onde me dá na telha. Durmo às horas que bem entendo. Como o que quero às horas que acho bem. Tenho uma vida santa.
Estão a ver a contradição? Um diabrete metido numa vida santinha? Hoje percebi porque é que me chateio de morte no meu papel no palco da vida. A personagem está metida na peça ao lado. Quando cai o pano não há aplausos, porque ninguém percebeu o que é que a Lady Macbeth está a fazer metida no Midsummer’s Night Dream.
Tenho uma vida santa, cacete. Já comecei a tratar disso. Isto tem que mudar, e rápido. Estou preparada para desempenhar o meu papel. O que se me adequa. Coincidentemente, no dia de S. Valentim ofereci-me uma pulseira Pandora. Gostei da simplicidade do objecto, sem os berloques. Como se a minha vida não tivesse ainda momentos que justificassem os pendentes comemorativos realmente decisivos e, ainda assim, fosse bela na sua nudez. E hoje, quando me disseram que tinha uma vida santa, olhei a minha pulseira e pensei: é hora, Pandora. É hora de abrir a caixa de uma vez por todas.
Uma Vida Santa.
Para começar, eu cá de Santa não tenho absolutamente nada (passando a dupla negativa, esta é enfática, para os puristas). Nem o vocabulário, nem os pensamentos mais íntimos, nem os desejos mais reprimidos. O veneno corre-me nas veias e sobe-me à língua afiada quando eu quero e quando eu não quero.
Vivo a minha vida despida de preconceitos. De tal forma que a minha fama me precede. Os meus alunos dizem que eu tenho uma “mente distorcida”. Que “até as cobras fogem a sete pés” quando eu me aproximo. (Isto não é verdade, mas eu tenho pena, agora que me consigo lembrar, assim, de repente, de duas ou três nas quais tropeço vezes demais). Não, eu sou muita coisa boa, mas santa não sou. Até quando tento fazer cara disso, ninguém acredita. Se alguém fez alguma parvoeira, a principal suspeita sou sempre eu. Se há alguém que se ri a despropósito de coisas que não têm piadinha nenhuma, sou eu. Se alguém aplaude perdas de estribeiras e defende que a agressividade não faz ninguém perder a razão, por muitos palavrões e insultos que venham na explosão, sou eu. Se há alguém que acredita piamente no Pursuit of Happiness No Matter What, e se rebela contra a culpa judaico-cristã e a auto-penitência, o Deus Castigador e a hipocrisia humana, sou eu. Santa, qual santa?
Mas tenho uma vida santa. Mando em mim. Decido tudo no meu tempo extra trabalho. Faço o que me apetece. Vou onde me dá na telha. Durmo às horas que bem entendo. Como o que quero às horas que acho bem. Tenho uma vida santa.
Estão a ver a contradição? Um diabrete metido numa vida santinha? Hoje percebi porque é que me chateio de morte no meu papel no palco da vida. A personagem está metida na peça ao lado. Quando cai o pano não há aplausos, porque ninguém percebeu o que é que a Lady Macbeth está a fazer metida no Midsummer’s Night Dream.
Tenho uma vida santa, cacete. Já comecei a tratar disso. Isto tem que mudar, e rápido. Estou preparada para desempenhar o meu papel. O que se me adequa. Coincidentemente, no dia de S. Valentim ofereci-me uma pulseira Pandora. Gostei da simplicidade do objecto, sem os berloques. Como se a minha vida não tivesse ainda momentos que justificassem os pendentes comemorativos realmente decisivos e, ainda assim, fosse bela na sua nudez. E hoje, quando me disseram que tinha uma vida santa, olhei a minha pulseira e pensei: é hora, Pandora. É hora de abrir a caixa de uma vez por todas.
Vida Santa? Já te digo a Vida Santa...
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Sem Assunto
Tomei uma decisão, hoje.
Acordei cedo, passei a manhã na rua a cirandar e fui tomar café com a S. e os pequenos, pouco antes da hora do almoço. Andei à procura de um CD que não encontrei, fiz o carregamento de revistas, livros, cigarros e chocolates da praxe e preparei-me para uma tarde de correcção de testes.
Cometi um erro. Um apenas. E o erro foi ter ligado o computador e vindo à NET. A partir daí, foi uma sequência de emoções contraditórias. Muito desagradáveis, feitas as contas. E agora, são horas de pessoas normais jantarem. Eu não sou normal, de todo, e a última coisa que vou fazer é jantar. Em vez disso, com a TV em pano de fundo, deixo-me imergir no lago negro da fúria. Estou furiosa. Estou irritada. Estou possessa.
Revejo tudo o que me escreveram para o mail nas últimas vinte e quatro horas. Todos os comentários publicados e não-publicados. Releio mails antigos que recebi no auge de uma paixão cuja conta continuo a pagar. Releio sms ancestrais, aquelas que copiei para um ficheiro no computador, por serem “apenas perfeitas” ou muito, muito, cruéis e maldosas. Faço um ponto da situação, no meio das palavras dos que me são queridos e dos outros, cuja existência nada mais é no meu Mundo que a de um mero incómodo de que não nos podemos livrar. Existem, temos pena. Siga a marinha que o exército está cansado, como me escreveram ontem.
E, no meio disto tudo, um desconforto, um desagrado, uma raiva crescente. Abri e fechei o blogue milhares de vezes, hoje. À procura de algo para dizer, de um statement de mudança, de uma piada parva, de um post sobre outro qualquer assunto que fugisse aos últimos, que já chateiam, eu sei. Abri outros blogues à espera de novidades que me inspirassem. Nada.
E pensei numa peça que detesto “Waiting for Godot”, de Beckett. Detesto, suscita-me uma claustrofobia medonha. Depois de me surgir Beckett no pensamento, tomei uma decisão. Enough is enough. Não tenho nada para dizer a não ser coisas deprimentes. Não tenho outro assunto que não se resuma a destilar veneno, amargura, acidez. Por isso, calo-me. Calo-me porque detesto gente que se está sempre a lamentar e não faz nada por si. Detesto pieguices e ultra-sensibilidades. Detesto carpideiras em funerais. Detesto gente má-onda. Detesto pessoas sempre deprimidas. Detesto malta que não se ri. E fui chamada à atenção, para além de tudo o resto, de que me ando a expor demais. E ando mesmo. E se bem que me esteja nas tintas para as fragilidades que essa exposição revele, não me é indiferente que me comece a cansar de escrever demais, de dizer demais, de arriscar demais.
Escrever é bom. Estender a mão ao leitor é bom. Partilhar é bom. Oferecer é bom. Mas ler é melhor. Agarrar a mão que nos estendem é melhor. Receber não será melhor, mas é essencial. E eu resolvi mudar de campo. Generosidade tem limites. Presentes desinteressados também. Ofertas de sorrisos idem. E exposição pessoal, aspas aspas.
Vou calar-me e esperar Godot. Vou calar-me a muitos níveis. Vou calar-me, de facto. Ao ler as palavras que li hoje dei-me conta que quanto mais falo menos ouço. Quanto mais dou, menos recebo. Quanto mais desejo menos tenho. Quanto mais gosto, menos gostam de mim. Pathetic isn’t Charming.
Regressarei quando tiver assunto.
Acordei cedo, passei a manhã na rua a cirandar e fui tomar café com a S. e os pequenos, pouco antes da hora do almoço. Andei à procura de um CD que não encontrei, fiz o carregamento de revistas, livros, cigarros e chocolates da praxe e preparei-me para uma tarde de correcção de testes.
Cometi um erro. Um apenas. E o erro foi ter ligado o computador e vindo à NET. A partir daí, foi uma sequência de emoções contraditórias. Muito desagradáveis, feitas as contas. E agora, são horas de pessoas normais jantarem. Eu não sou normal, de todo, e a última coisa que vou fazer é jantar. Em vez disso, com a TV em pano de fundo, deixo-me imergir no lago negro da fúria. Estou furiosa. Estou irritada. Estou possessa.
Revejo tudo o que me escreveram para o mail nas últimas vinte e quatro horas. Todos os comentários publicados e não-publicados. Releio mails antigos que recebi no auge de uma paixão cuja conta continuo a pagar. Releio sms ancestrais, aquelas que copiei para um ficheiro no computador, por serem “apenas perfeitas” ou muito, muito, cruéis e maldosas. Faço um ponto da situação, no meio das palavras dos que me são queridos e dos outros, cuja existência nada mais é no meu Mundo que a de um mero incómodo de que não nos podemos livrar. Existem, temos pena. Siga a marinha que o exército está cansado, como me escreveram ontem.
E, no meio disto tudo, um desconforto, um desagrado, uma raiva crescente. Abri e fechei o blogue milhares de vezes, hoje. À procura de algo para dizer, de um statement de mudança, de uma piada parva, de um post sobre outro qualquer assunto que fugisse aos últimos, que já chateiam, eu sei. Abri outros blogues à espera de novidades que me inspirassem. Nada.
E pensei numa peça que detesto “Waiting for Godot”, de Beckett. Detesto, suscita-me uma claustrofobia medonha. Depois de me surgir Beckett no pensamento, tomei uma decisão. Enough is enough. Não tenho nada para dizer a não ser coisas deprimentes. Não tenho outro assunto que não se resuma a destilar veneno, amargura, acidez. Por isso, calo-me. Calo-me porque detesto gente que se está sempre a lamentar e não faz nada por si. Detesto pieguices e ultra-sensibilidades. Detesto carpideiras em funerais. Detesto gente má-onda. Detesto pessoas sempre deprimidas. Detesto malta que não se ri. E fui chamada à atenção, para além de tudo o resto, de que me ando a expor demais. E ando mesmo. E se bem que me esteja nas tintas para as fragilidades que essa exposição revele, não me é indiferente que me comece a cansar de escrever demais, de dizer demais, de arriscar demais.
Escrever é bom. Estender a mão ao leitor é bom. Partilhar é bom. Oferecer é bom. Mas ler é melhor. Agarrar a mão que nos estendem é melhor. Receber não será melhor, mas é essencial. E eu resolvi mudar de campo. Generosidade tem limites. Presentes desinteressados também. Ofertas de sorrisos idem. E exposição pessoal, aspas aspas.
Vou calar-me e esperar Godot. Vou calar-me a muitos níveis. Vou calar-me, de facto. Ao ler as palavras que li hoje dei-me conta que quanto mais falo menos ouço. Quanto mais dou, menos recebo. Quanto mais desejo menos tenho. Quanto mais gosto, menos gostam de mim. Pathetic isn’t Charming.
Regressarei quando tiver assunto.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Sobre o Amor
Para além das montras e da publicidade, dos outdoors e das referências radiofónicas, das conversas entre amigos e dos projectos com os alunos, as vésperas de S. Valentim são profícuas em referências ao amor... na blogosfera. Tal é evidente neste cantinho, e em muitos outros que consulto e leio habitualmente. É um pouco como o Natal, ou se adora ou se detesta, mas ninguém lhe fica indiferente.
Uns resmungam contra o consumismo (como eu que, hipócrita e dissimulada, resmungo, resmungo, mas dava um ano da minha vida para receber o swatch alusivo, ou o optimus Hello-Kitty, ou um perfume que ando farta do meu, ou uma lingerie preta que vi em Lisboa no último fim-de-semana...), outros contra datas marcadas para expressar sentimentos (como eu que, hipócrita e dissimulada, resmungo, resmungo, mas dava dois anos da minha vida para receber amanhã uma carta de amor manuscrita e perfumada, ou um ano se fosse um postaleco foleiro ou um e-mail...), outros ainda resmungam contra o romantismo demodé em geral, (e eu, ainda assim, dava quatro, não, cinco anos da minha vida por um girassol solitário, um jantar à luz da lareira no chão da sala ou um cesto de piquenique só com dois copos de pé alto e uma garrafa de vinho tinto). Há muita gente a resmungar, e isso faz-me sentir normal.
Ontem lia um comentário a um post de uma blogger de quem gosto muito. Determinado rapaz dizia que, depois de um desgosto de amor (um verdadeiro desgosto, uma coisa marcante, daquelas situações que marcam um "antes" e um "depois" e te acompanham no resto dos teus dias, mudam o teu modo de pensar, sentir e agir e fazem de ti uma pessoa diferente), o tempo pára. Entendo-o. Ele pretendia dizer, suponho eu, que, quando estás em sofrimento, sentes a ausência de movimento, cria-se uma pausa interior, como se fosses um electrodoméstico permanentemente em stand-by a dispender um mínimo energético para estares simplesmente ligado, mas sem grande função ou utilidade.
Ontem, concordei com ele. Hoje, já não me parece exactamente assim. No meu caso, é ao lado: o tempo não pára, o tempo repete-se. Durante uma pausa, há forçosamente um descanso, um relaxamento, uma quietude que permite acumulação de forças. Durante uma pausa, existe espaço à regeneração. Comigo, o tempo repete-se. Os dias surgem todos iguais, a papel químico, e tu estás permanentemente expectante. Esperas pelo ponto de viragem, pelo instante que foge ao banal, pelo grão de areia na engrenagem. E ele não surge. E tu, em vez de descansares, exasperas-te a cada dia perdido. Todos os dias acordas para o mesmo pesadelo, tens as mesmas conversas, fazes as mesmas coisas, vês as mesmas pessoas, e a repetição milimétrica do tempo não te permite saltar para fora da esfera que te envolve, dos círculos concêntricos que a pedra desenhou quando caiu a pique dentro do teu lago.
O que é realmente muito doloroso nas datas festivas, por mais comerciais ou idiotas que pareçam ser, ou que de facto sejam, é que, queiramos ou não, mesmo que tudo aconteça num breve instante, acabamos por pensar sobre assuntos que passamos os restantes dias - iguais e repetitivos como o tic-tac de um relógio de corda - disciplinadamente a evitar.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Tarde Livre
Quintas-Feiras são dias de tarde livre. Teoricamente, claro. Mas hoje até foi. Os testes por corrigir ficaram a olhar-me acusadoramente de cima da mesa onde foram abandonados com desprezo leviano. O sol brilhou à tarde e arrastou-me corpo e espírito para o reino da indolência. Por volta das três e meia pensei em ir até à escola, a Mzinha está em furo a esta hora e sempre dava uns dedos de conversa, mas também sabia que provavelmente ela estaria a aproveitar esse tempinho para trabalhar, e desisti de interferir nas boas intenções alheias.
Lembrei-me da MissCovilhã, e na forma como ela, quando estava na escola em furo, me desafiava para lá ir ter, só para lanchar no bar. Tive muitas saudades dela, da forma como cobrava a atenção de toda a gente e punha os amigos a andar a toque de caixa para lhe satisfazer os caprichos. Se havia coisa que a tirava do sério era fazer qualquer tipo de refeição sozinha. Qualquer ida ao bar, nem que fosse para comprar uma garrafa de água, para a qual não fosse convidada, era pretexto para uma encenação de um ataque de fúria. E aquilo, às vezes, irritava-me. Mas agora sinto-lhe a falta, sinto a falta das exigências dela nos "tratamentos especiais". Sinto a falta de lhe agrafar os testes a resmungar, de lhe perguntar, de cada vez que me pedia um favor em tom de ordem incontestável, "e batatinhas fritas a acompanhar, não queres?"
Porque, no fundo, aquele mimo de criança caprichosa que ela sempre teve, pedia a nossa presença. Na altura não o sentíamos, mas agora, que ela nos falta, é que damos conta que nos fazia sentir importantes. Agora, que em tarde livre ninguém exige a nossa companhia nem cobra a nossa atenção, e com um suspiro pensamos "Ir à escola? Para quê?", e optamos por ficar a vegetar no sofá de uma sala vazia.
Simple Things are the Easiest to Miss, 2
Desde domingo, em que li o mail do P., tenho andado com uma sensação desconfortável de déjà-vue. Como se as palavras dele fizessem eco no meu vazio. Como se as já tivesse ouvido antes, já antes tivesse chorado esta mesma realidade, como se esta mesma ideia já me tivesse sido murmurada baixinho, só para mim, por outro amigo.
Até que me lembrei. Já sei onde ouvi isto. E se, à primeira, não encaixei, desta vez, lá terá que ser. Apresento-vos o amigo que me avisou e abriu os olhos pela primeira vez. Quando eu não quis ver.
(aproveitem e cliquem em baixo no "Hold Still". A letra é maravilhosa, as vozes deles fantásticas, e o vídeo é feito com uma sequência de fotos a preto-e-branco... (ironias...) que a vocês, não sei, mas a mim, apaixonam-me. E passa-se em Londres, para tornar tudo ainda mais perfeito)
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Que treta,
O S. Valentim.
Não chegavam já os últimos dias, tinhamos que estar em vésperas do Dia dos Namorados. Alunos todos contentes, colegas de Línguas a querer fazer projectos e eu, negra como a noite. Sombria. Tudo a vermelho e cor-de-rosa e eu... cinza-pêlo-de-rato. Sim, estou ressabiada. Sim, só me apetece gritar. Um aluno meu dizia-me hoje, ó stôrinha, deixe lá, o S. Valentim é quando um homem quiser. E outro, ó stôrinha, eu escrevo-lhe uma carta, que também ando de coração partido... e também estou encalhado. (Isto depois de eu dizer que considerava um insulto que uma turma de nono ano sem idade para essas "infantilidades" me viesse perguntar a mim, cota e encalhada, o que íamos fazer para comemorar o Dia dos Namorados.). Tive que me rir, embora a cena da carta me tenha atingido como um estalo. A carta. A carta que esperei tanto tempo, via mail ou papel, manuscrita ou em formato digital, uma espécie de postal ou de notícia, reportagem fotográfica ou poema, banda desenhada ou ilustração, A carta.
Até tratei melhor o puto, depois de ele me dizer aquilo.
Combinei com eles assim: a comemoração será a seguinte, eu publico uma lista de presentes que quero pelo S. Valentim e vocês oferecem-mos. Coro de protestos. E eu lá fui obrigada a desistir da ideia, não antes de perguntar, há aqui alguém apaixonado? Levantou-se um dedo. E está feliz? Muito. Muito bem, senhor fulano de tal, para si o TPC é a dobrar, e está neste momento com nível um a Inglês. A recuperação é muuuito difícil. Ao que o pestinha responde, ó stôrinha, eu estou apaixonado é por si... e toma lá mais um estalo, por ouvires a tal frase dita por um fedelho a gozar com a tua cara e a fazer-te estremecer novamente na base.
Claro que me passou o mau humor, mas não a irritação com as ironias.
Andarão os fulanitos a ler a porra deste blogue ou, pior, lêem os meus pensamentos?
Nunca liguei puto a este dia. Nunca fui de presentinhos idiotas, nem de lamechices com data marcada. Mas, este ano, está a custar-me. Não por causa da treta do consumismo ou dos ursos de peluche agarrados a corações kitsch. Está a custar-me porque, ao contrário do costume, está a mexer com a minha sensibilidade ver casais felizes e apaixonados. Um par de mãos dadas. O enlace de dois corpos num abraço. Um beijo suave e rotineiro nos lábios numa despedida breve de quem se vai ver logo à noite. Sou uma pessoa que se alegra verdadeiramente com a felicidade alheia e não estou a gostar mesmo nada deste ser triste e desamparado em que me estou a transformar. Hoje dizia à S, com quem fui tomar um cafézinho, que tenho um medo de morte da amargura e da inveja. Desses venenos que correm nas veias das pessoas solitárias e sem amor. Que tenho medo que agora, convencida finalmente de que andei um ano e muito presa a um fio de esperança numa migalha de retribuição sentimental, convencida de que, de verdade, nada existe "do outro lado do muro", nada mais tenha a que me agarrar que a uma raiva imensa a quem tem o que me falta.
Porque eu não sou mais nem melhor que simplesmente humana, e o nosso sentir molda as nossas atitudes. Tenho muito medo de, devagar e sem dar conta, a começar com este sinal ténue de angústia perante uma data idiota que se aproxima, me transformar enfim no derradeiro lugar-comum que é uma mulher sem amor. Seca. Triste. Má.
(A propósito deste post, quis publicar "A Carta", dos Toranja. Mas na pesquisa que fiz no YouTube dei com este senhor, que adoro, e com esta música, de letra cuja simplicidade perfeita me faz chorar, na sua verdade nua-e-crua, a preto-e-branco, "Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida". Simple Things are the Easiest to Miss.)
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
O Poeta é um Fingidor
À laia de conclusão do longo post de ontem, hoje, numa manhã repleta de aulas, passou-me várias vezes pela cabeça este verso de Pessoa. Alguém famoso questionou um dia se a poesia seria possível depois de Hiroshima. Nunca percebi esta dúvida. O Poeta é um Fingidor e, para além disso, a poesia pode ser das coisas mais dilacerantes que existem. A poder expressar-se o horror e a violência por palavras, o meio privilegiado é, com certeza, o poema.
Eu própria, que me digo tão genuína e transparente, ando, vejo isso agora, há que tempos a fingir. Finjo que não amo, finjo que não sinto ciúmes, finjo que sou correspondida, finjo que não espero por milagres, finjo que está tudo bem, finjo que sou uma pessoa como as outras, finjo (tão bem) existir, finjo sorrisos, finjo tanto, finjo sempre. Hoje, a lutar interiormente contra as minhas mentiras e os meus fingimentos, a tentar ver as coisas a preto e branco, a tentar sobreviver num mundo com a tal realidade para que me abriram ontem tão bem os olhos, consegui gracejar, manter conversas coerentes, ser agradável, dar aulas, rir-me. Consegui, inclusivamente, convencer pessoas que me conhecem de que hoje é mais um dia igual aos outros, que eu sou a mesma, que nada mudou. Sim, a poesia é possível sempre que haja alguém capaz de fingir que os seus holocaustos não são reais.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Simple Things are the Easiest to Miss
Há coisas que de tão simples nos passam despercebidas porque as complicamos, muitas vezes porque a sua simplicidade óbvia não nos agrada. Este foi um fim-de-semana dedicado ao tema do amor. Inusitadamente, na fase da vida em que me encontro. Não poderia ser mais surreal, mas assim foi, ditado pelos acasos. Tudo começou com a tal proposta indecente, galhofeira e divertida, uma sms recebida na manhã de 6ª feira. Um flirtzinho inocente, inconsequente e recorrente, de tempos a tempos, a lembrar-me de que sou uma mulher.
As sms prolongaram-se ao longo do fim-de-semana, mudando de tom, para coisas mais sérias, dado que somos amigos e entre amigos a brincadeira é deixada para trás quando valores mais altos se levantam. E quando o meu interlocutor se apercebeu do meu real estado de espírito em relação à minha vida emocional, depressa se deixou de parvoeiras e me ligou. Estivémos algum tempo ao telefone, a pôr a conversa em dia. Num dia em que eu vira dois filmes bastante marcantes e, claro, sobre o amor. Vicky Cristina Barcelona e o Estranho Caso de Benjamin Button. Não vou falar da profundidade em que foram cair aquelas duas fitas numa tarde dedicada ao cinema. Quando uma pessoa se sente vazia, qualquer coisinha lhe bate no fundo, e arriscar-me-ia a fazer a elegia de duas películas que, analisadas de forma racional, poderiam nada mais ser que banais. Por isso, passo. Ao telefone, contudo, acabada de chegar do cinema, trazia a cabeça cheia de palavras e emoções, que despejei no tal amigo.
Ele ouviu-me, em silêncio, e disse-me que me ia escrever um mail. Que achava que tinha chegado a hora de me dizer exactamente o que pensava sobre o assunto, mas que teria que ser por escrito, para organizar melhor o discurso, e para não se deixar levar pelas minhas fragilidades, pela minha sensibilidade. Disse-me, apenas, estás a falhar a informação essencial. Não te livras disso, porque estás a fechar os olhos ao óbvio. E hoje, ao abrir o mail dele, respirei fundo e fui confrontada com a minha verdade. Lembrei-me de um livro apadrinhado pela Oprah Winfrey “He’s just not into you”, e sorri, ao verificar que caí, realmente, no verdadeiro lugar-comum.
Dizia ele, a certa altura de um texto brilhante “Esse senhor, minha amiga, está-se nas tintas para ti. Está-se nas tintas para a tua existência, não quer saber dos teus sentimentos. Já lhe deve ter caído a ficha, conhece-te, sabe que, dadas as circunstâncias, o mais provável é aproveitares os concursos para te pores a andar daí. E o que faz ele? Gere o silêncio. Ignora-te quando tu o interrompes, nas tuas subtilezas costumeiras de menina que não quer impor a sua presença mas que sente uma necessidade atroz de presença, de aproximação. Essa necessidade é natural, minha querida, assim é o amor. O que não é natural são as coisas que inventas, as interpretações que fazes de um silêncio que, da parte dele, não tem qualquer interpretação que não a literal: ele não gosta de ti, mulher. Todas as desculpas que dás para o defender são fruto do teu amor, do teu desejo, da tua saudade. Não os projectes nele, porque eu digo-te: nós, os homens, damo-nos ao luxo de ignorar uma pessoa de quem gostamos muito quando ela está perto de nós, é um dado adquirido, uma presença constante. Quando desce a sombra da ausência, minha linda, tudo muda de figura. Perante um countdown, fala muito mais alto o que é verdadeiro, o desejo, a vontade de ter essa pessoa junto de nós o mais possível, seja para a convencer a ficar, seja para aproveitar o que resta. Se o silêncio continua, é porque nada existe: não se verbalizam emoções inexistentes. Ama-o se não tens outro remédio, mas ama-o consciente de que amas alguém que não nutre por ti qualquer tipo de sentimento, nem o de uma leve amizade. Porque tu és uma miúda incomparável. Alguém de quem gostes mesmo pode contar com uma lealdade rara da tua parte, pode dizer-te tudo, pode despir-se de tudo o que não interessa à tua frente. Ele sabe onde encontrar-te, ele sabe como te agradar, como te apaziguar, é tão fácil fazer-te sorrir. E, se não o faz, se não te procura, se não te escreve, não é para te proteger, princesa. Pensa: achas que há alguém no Mundo, para além de ti mesma, que acredite nisso? Pensas que algum homem recusa tocar numa mulher, sentir-lhe o cheiro, dar-lhe um grande beijo, escrever-lhe um texto, responder-lhe a uma carta, se gostar dela, se precisar dela, com uma intenção altruísta? Não. Não. Ninguém o faz, até porque pessoas inteligentes sabem que nenhum sofrimento por amor é maior que o sofrimento de não se ser amado. Desculpa, minha linda, mas a mim, um comum mortal, faz-me muita espécie que uma mulher bonita e inteligente, como tu, se prenda a mentiras mal-enjorcadas e perca a perspectiva das coisas como elas são. Porque às vezes, elas são mesmo a preto e branco.”
Obrigada, P. Um aplauso de pé, para ti.
Os nossos melhores amigos são aqueles que vêem aquilo que nós não queremos ver, e nos apagam as luzes ao fundo do túnel. Mas caminham ao nosso lado, com uma lanterna na mão.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Até já
Vou para Lisboa. Vou para Lisboa ter com a progenitora que está com uma gripe descomunal. Por solidariedade filial, também não me sinto lá grande coisa, mas tendo em conta que ontem tomei duche três vezes, duas das quais vestida, de água fria e em público, não é de admirar.
O sol hoje deu um ar da sua graça e a manhã ficou marcada por uma proposta indecente. (Hallehluia, começava mesmo a acreditar que me tinha transformado num gajo. E dos feiosos. Afinal não.) A proposta foi recusada: quem passa a vida a insultar-me o físico depois não pode querer abébias. Ai, e tal, és tão magrinha... e, depois, pimba, propostas indecentes? Eheheheh, valeu para a auto-estima, mais um bocadinho e convenço-me que tenho pinta para modelo fotográfico... de um catálogo de prevenção a distúrbios alimentares! Anyway, modelo é modelo, top model é top model.
Enfim, agora a sério... hoje era o último dia para entregar OIs e os meus são os seguintes: ir ao cinema pelo menos duas vezes este weekend. Chegar a Lisboa e regressar sem ter problemas no JadeMobile. Estar com os meus amigos pelo menos cinco minutos. Acabar o weekend de alma menos sombria. Aceita-os, Sra Directora?
Bom fim-de-semana, até Domingo.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Post-Scryptum a "30 situações em que te apetece..."
... largar um (GRANDA) F*da-ssssssssse!
BEWARE! Deus mastiga, quer dizer, castiga! (ando disléxica para tudo, excepto para o palavrão cabeludo). BLOGGERS AMIGOS: BE AFRAID, BE VERY AFRAID! Pensem duas vezes antes de postar um texto semelhante ao anterior.
Tive um dia, jovens, que ficou marcado na Moleskine como "Inesquecível, tal como tudo na vida que se quer esquecer de imediato".
Uma manhã como as outras. Beijos na boca: zero; Pedidos de casamento: zero; Cartas de Amor: zero; Propostas indecentes: zero; Trabalho: muito; Chatices: q.b; Par de berros a turmas chatas: dentro da mé(r)dia costumeira. Resultado: Confrangedor, mas habitual.
Ao almoço, fui com a Mzinha à cantina, aliciada pela boa fama do frango assado. Alunos a repetir o dito: Mais de cem; Almoço da Jade e da Mzinha: Douradinhos com Batatas Fritas. Resultado: Sem comentários. A pata aqui devia ter desconfiado que isto não augurava nada de bom.
Tarde KAFKIANA. Fui pagar o sêlo do carro e paguei de multa mais de cinquenta por cento do seu valor. Paguei, não, que "o sistema está avariado, vai ter que cá voltar de propósito para pagar a dita multa". (E eu pensei "F*da-se!!! Isto fica em caminho com'ó caraças!...") Adiante... Saí de lá e ao segundo passo abriram as portas do céu na minha cabeça. Entrei a pingar no escritório de advogados onde fui fazer um recado a uma prima. A senhora que lá estava, que deve ser amiga dela, olhou para mim com o ar de quem achava que eu a ia assaltar, deu-me aquilo a que fui e despachou-me o mais depressa possível. Quando saí levei com outra chuvada na tola, para certificar que arrefecia as ideias. (E pensei, F*da-se, ouve lá - para Deus- andas um bocadinho chateado comigo, não?). Vim a casa a tremer como uma ressacada, sequei o cabelo e enfiei-me praticamente debaixo do aquecedor. Quando me achei pronta para outra (no fundo, sou uma ingénua...), saí e levei o carro à inspecção. Ainda pensei, e se fosse primeiro ao StationMarché, mudar a luz que tenho avariada? Nááá... ia perder tempo e às cinco tenho que estar em casa para apoiar a filha de uma amigo meu que tem teste de Inglês amanhã, não há-de ser por isso, cacete! Chego ao Centro de Inspecções e a senhora pede-me coisas que deixara no carro. Volto para trás. Quando se trata de pagar, pergunto, aceita Multibanco? Ela responde, sim, claro. Procuro mentecaptamente o sacanita em todo o lado. NADA. Telefono para a Mzinha, em furo, para me valer e dar lá um saltinho. NADA. Epifania: F*da-sssse! Deixei-o nas Finanças!
Atravesso meia cidade, e lá resgato o estupor. O senhor, muito simpático, já lá tinha colado um post-it com o nome da minha escola, que eu mencionara da primeira vez que lá fôra. Por essa altura, eu já estava por tudo. Mas lá voltei ao Centro de Insppecções.
E é claro que o carro chumbou... por "falta de luzes: reincidente". Fui também reincidente no "F*da-se", claro. (elevado ao expoente do infinito, ou da loucura, escolham)
Estava a contar isto à Mzinha, aos gritos, quando ela chegou a casa. Aos gritos e com uma variedade vocabular muito rica, com variações como p*ta-que-pariu, grande m*rda esta, e mimos do género. Quando levanto a cabeça, ela está perdida de riso a olhar para mim. Ao lado dela, a gaiata a quem eu ia dar explicação, com cara de quem vai virar costas e fugir.
(e agora vou ali já venho, para não me tornar repetitiva, que ao ler isto, só me apetece dizer... pois, é isso)
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