quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

No Ouvido

Há uns meses, uma amiga mandou-me este vídeo para o mail. Abominei-o. Tudo nele me irritou, desde a letra, à música, e aos intervenientes, que estão longe de ser por mim apreciados. Depois, o raio da canção passou a tocar na rádio e, à conta de ser demasiado preguiçosa para mudar de emissora, ou optar pelo CD que lá está há meses, foi entrando no ouvido. E agora gosto dela.
Ontem, na Grey, dizia-se que há coisas de que gostamos imediatamente, e há outras que precisamos de conhecer melhor até lhes darmos uma hipótese. Essas são mais importantes, já que nos baseamos no real para as apreciar. E estes dois convenceram-me. Para mim, acordar um dia e aperceber-me de que I love you a little less than before, é o momento mais duro da relação. Pior até do que aquele em que me apercebo que o desamor acontece por parte da outra pessoa. Quando ele nasce em mim, sinto-me uma fraude autêntica. Acho que foi por isso que detestei esta música, de início. Pela minha recusa em deixar de gostar das pessoas de quem gostei muito tempo, por motivos inexplicáveis. Para muitos, este momento traz paz. Contentam-se com recordações de bons momentos passados, bravo, assim é que é. Para mim os bons momentos passados estão lá, mas não são suficientes para me dar paz. A paz alcanço-a eu, sempre, no presente. A viver novos momentos, a sentir-me apaixonada, a levantar-me com um sorriso, como se o futuro estivesse ali ao pé dos chinelos que enfio antes de tomar o pequeno-almoço e ir meter-me no duche. Como se o futuro fosse um par de pantufas que quero mesmo calçar porque são exactamente do meu número e me aquecem os pés.
Fartei-me de ler, nestas férias. Li uma frase que adorei: "Vive o teu dia como se fosse o último, porque mais dia menos dia, acertas". E, por isso, deixo-vos então um vídeo com uma música levezinha. Daquelas que, diz o G. com o ar arrogante de quem percebe de boa música, daqui a um ano já ninguém se vai lembrar. Pois não, G., mas daqui a um ano, sei lá onde vou estar e com quem, sei lá se sequer vou estar...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Cheers

Falar sobre o amor é, cada vez mais, dizer um monte de banalidades pouco originais. Sobre o amor continuam a falar bem os poetas, e apenas os melhores, a inventar-lhe nuances, a adivinhar-lhes metáforas, a colorir-lhe sentidos, e alguns músicos, a surpreender-nos e a arrancar-nos uma lágrima ou um sorriso. Muito raramente. Parece que os verdadeiros hinos ao amor são, cada vez mais, difíceis de encontrar. Talvez porque esteja já tudo dito magistralmente, talvez porque o próprio amor tenha caído em desuso, ou sido transformado num enorme postal da Hallmark, como diz a Lisa Simpson, não sei.
O que eu sei é que hoje me apetece brindar à Amizade. Fomos em excursão ver o primogénito da PêloRusso. Ver o que escondeu aquela barriga nove meses. Ver o que revelava aquele sorriso dela, aquela paciência dela, aquela timidez de menina a corar até à raiz dos cabelos, a chorar facilmente, um poço de ternura que em quase três anos jamais desiludiu alguém.
Fui para lá com o coração apertado, na antevisão do reencontro depois de um momento que, na vida dela, marcou para sempre um “antes” e um “depois”. E foi FORMIDÁVEL. Foi MARAVILHOSO. Depois de uns minutos a babar sobre o ser que dormitava de barriguita cheia, já estávamos todos aos gritos e aos risos (sim, ao pé do pequenito que não dava sinais de desagrado com a confusão instaurada e permanecia angelicamente imperturbável às vozes que se atropelavam). A MissCovilhã juntou-se à festa e aquela sala de estar parecia a sala de professores que eu gostava de ter, tudo a coscuvilhar sem (quase) maldade nenhuma, e a rir, e a barafustar, e a implicar “cala-te, pá, fala mais baixo, olha a criança, não sejas assim, ai, esta rapariga agora só fala de namorados, querias que falasse de quê, de namoradas? Ai, tu, está caladinho que te enfio uma solha, porquê, estás a ficar aflita? Ai, o fulano-de-tal disse-me isto assim-assado; esse gajo também é cá um bufo! Não é nada, que parva, até parece que tu não contas nada a ninguém; ok, eu disse que ele era bufo, não disse que era o único, isso fará de mim uma bufa?” Enfim, reinou o bom ambiente, o disparate, a história, o mexerico.
Pouco tempo antes tinha sentido o sabor amargo de uma rejeição directa. Alguém me disse “tchau” quando me aproximara para conversar um bocadinho antes de sair em férias de Carnaval. O despachanço foi tão óbvio que eu murmurei “Bom Carnaval”, virei costas e saí, magoadíssima, a pensar “Bolas, deves realmente andar a impor a tua presença às pessoas, és mesmo estúpida”. O desejo de Bom Carnaval nem sequer mereceu resposta e eu vim muito chateada para casa. Triste, mesmo. Pensei, já não chega não seres retribuída a nível amoroso, agora até as pessoas com quem gostas de estar te dizem claramente para lhes desamparares a loja? Isto está bonito, Jade…
Estas coisas tocam-me sobremaneira, porque não sou simpática nem agradável com muita gente, e não estou habituada a ser ostensivamente mal-tratada por ninguém. A situação afectou-me imenso, desarmo perante antipatias vindas de sítios inesperados, sou, de facto, uma parvita ultra-sensível à rejeição descarada e à sensação desconfortável de ser uma presença non grata, faz-me sentir um insecto incómodo e repelente.
Os maus sentimentos e a queda a pique de auto-estima evaporaram-se em casa da PêloRusso. Não me podia ter sentido mais bem-vinda, mais contente, mais alegre. Não podia ter vivido um sentimento maior de pertença, de cumplicidade, de comunicação verbal e não verbal. Partilharam-se palavras, mas também gestos, sorrisos, abraços, beijos, toques, piscares de olho, caretas, manguitos, grilas, e mais sorrisos, mais gargalhadas, mais abraços, mais palavras. As mais importantes, “Tinha tantas saudades vossas”, “Voltem mais vezes”, “Eu apareço por lá um destes dias”.
A fundamental, a encerrar muitas das frases ditas, “Amiga”, ou as variantes, “Amiguinhos, Amiguita”. Vim-me embora com o coração a cantar. E fazia-me muita, muita falta, ouvi-lo cantar. Se fechasse os olhos, naquela sala de estar, tenho a certeza de que me conseguiria imaginar numa escola à maneira, num mundo perfeito, num intervalo qualquer, à espera do toque de entrada. Se fechar os olhos, agora, todas aquelas pessoas fazem realmente parte do meu Mundo Perfeito, naquele onde, apesar de achincalhada e censurada com todas as letras, e gozada até mais não, e provocada até aos limites da paciência, serei sempre bem vinda e jamais me dirão “Tchau” sem acrescentar “Minha querida, volta depressa, espero ver-te em breve”.
PêloRusso e Miss, até já.
Aos outros, mais uma vez “Bom Carnaval”. Todos eles me disseram, pelo menos, igualmente. E é também por isso que hoje me sinto grata, e me apetece brindar à Amizade.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Vida Santa

Hoje disseram-me que eu tinha uma vida santa. Assim, na lata.
Uma Vida Santa.
Para começar, eu cá de Santa não tenho absolutamente nada (passando a dupla negativa, esta é enfática, para os puristas). Nem o vocabulário, nem os pensamentos mais íntimos, nem os desejos mais reprimidos. O veneno corre-me nas veias e sobe-me à língua afiada quando eu quero e quando eu não quero.
Vivo a minha vida despida de preconceitos. De tal forma que a minha fama me precede. Os meus alunos dizem que eu tenho uma “mente distorcida”. Que “até as cobras fogem a sete pés” quando eu me aproximo. (Isto não é verdade, mas eu tenho pena, agora que me consigo lembrar, assim, de repente, de duas ou três nas quais tropeço vezes demais). Não, eu sou muita coisa boa, mas santa não sou. Até quando tento fazer cara disso, ninguém acredita. Se alguém fez alguma parvoeira, a principal suspeita sou sempre eu. Se há alguém que se ri a despropósito de coisas que não têm piadinha nenhuma, sou eu. Se alguém aplaude perdas de estribeiras e defende que a agressividade não faz ninguém perder a razão, por muitos palavrões e insultos que venham na explosão, sou eu. Se há alguém que acredita piamente no Pursuit of Happiness No Matter What, e se rebela contra a culpa judaico-cristã e a auto-penitência, o Deus Castigador e a hipocrisia humana, sou eu. Santa, qual santa?
Mas tenho uma vida santa. Mando em mim. Decido tudo no meu tempo extra trabalho. Faço o que me apetece. Vou onde me dá na telha. Durmo às horas que bem entendo. Como o que quero às horas que acho bem. Tenho uma vida santa.
Estão a ver a contradição? Um diabrete metido numa vida santinha? Hoje percebi porque é que me chateio de morte no meu papel no palco da vida. A personagem está metida na peça ao lado. Quando cai o pano não há aplausos, porque ninguém percebeu o que é que a Lady Macbeth está a fazer metida no Midsummer’s Night Dream.
Tenho uma vida santa, cacete. Já comecei a tratar disso. Isto tem que mudar, e rápido. Estou preparada para desempenhar o meu papel. O que se me adequa. Coincidentemente, no dia de S. Valentim ofereci-me uma pulseira Pandora. Gostei da simplicidade do objecto, sem os berloques. Como se a minha vida não tivesse ainda momentos que justificassem os pendentes comemorativos realmente decisivos e, ainda assim, fosse bela na sua nudez. E hoje, quando me disseram que tinha uma vida santa, olhei a minha pulseira e pensei: é hora, Pandora. É hora de abrir a caixa de uma vez por todas.
Vida Santa? Já te digo a Vida Santa...

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sem Assunto

Tomei uma decisão, hoje.
Acordei cedo, passei a manhã na rua a cirandar e fui tomar café com a S. e os pequenos, pouco antes da hora do almoço. Andei à procura de um CD que não encontrei, fiz o carregamento de revistas, livros, cigarros e chocolates da praxe e preparei-me para uma tarde de correcção de testes.
Cometi um erro. Um apenas. E o erro foi ter ligado o computador e vindo à NET. A partir daí, foi uma sequência de emoções contraditórias. Muito desagradáveis, feitas as contas. E agora, são horas de pessoas normais jantarem. Eu não sou normal, de todo, e a última coisa que vou fazer é jantar. Em vez disso, com a TV em pano de fundo, deixo-me imergir no lago negro da fúria. Estou furiosa. Estou irritada. Estou possessa.
Revejo tudo o que me escreveram para o mail nas últimas vinte e quatro horas. Todos os comentários publicados e não-publicados. Releio mails antigos que recebi no auge de uma paixão cuja conta continuo a pagar. Releio sms ancestrais, aquelas que copiei para um ficheiro no computador, por serem “apenas perfeitas” ou muito, muito, cruéis e maldosas. Faço um ponto da situação, no meio das palavras dos que me são queridos e dos outros, cuja existência nada mais é no meu Mundo que a de um mero incómodo de que não nos podemos livrar. Existem, temos pena. Siga a marinha que o exército está cansado, como me escreveram ontem.
E, no meio disto tudo, um desconforto, um desagrado, uma raiva crescente. Abri e fechei o blogue milhares de vezes, hoje. À procura de algo para dizer, de um statement de mudança, de uma piada parva, de um post sobre outro qualquer assunto que fugisse aos últimos, que já chateiam, eu sei. Abri outros blogues à espera de novidades que me inspirassem. Nada.
E pensei numa peça que detesto “Waiting for Godot”, de Beckett. Detesto, suscita-me uma claustrofobia medonha. Depois de me surgir Beckett no pensamento, tomei uma decisão. Enough is enough. Não tenho nada para dizer a não ser coisas deprimentes. Não tenho outro assunto que não se resuma a destilar veneno, amargura, acidez. Por isso, calo-me. Calo-me porque detesto gente que se está sempre a lamentar e não faz nada por si. Detesto pieguices e ultra-sensibilidades. Detesto carpideiras em funerais. Detesto gente má-onda. Detesto pessoas sempre deprimidas. Detesto malta que não se ri. E fui chamada à atenção, para além de tudo o resto, de que me ando a expor demais. E ando mesmo. E se bem que me esteja nas tintas para as fragilidades que essa exposição revele, não me é indiferente que me comece a cansar de escrever demais, de dizer demais, de arriscar demais.
Escrever é bom. Estender a mão ao leitor é bom. Partilhar é bom. Oferecer é bom. Mas ler é melhor. Agarrar a mão que nos estendem é melhor. Receber não será melhor, mas é essencial. E eu resolvi mudar de campo. Generosidade tem limites. Presentes desinteressados também. Ofertas de sorrisos idem. E exposição pessoal, aspas aspas.
Vou calar-me e esperar Godot. Vou calar-me a muitos níveis. Vou calar-me, de facto. Ao ler as palavras que li hoje dei-me conta que quanto mais falo menos ouço. Quanto mais dou, menos recebo. Quanto mais desejo menos tenho. Quanto mais gosto, menos gostam de mim. Pathetic isn’t Charming.
Regressarei quando tiver assunto.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Sobre o Amor

Para além das montras e da publicidade, dos outdoors e das referências radiofónicas, das conversas entre amigos e dos projectos com os alunos, as vésperas de S. Valentim são profícuas em referências ao amor... na blogosfera. Tal é evidente neste cantinho, e em muitos outros que consulto e leio habitualmente. É um pouco como o Natal, ou se adora ou se detesta, mas ninguém lhe fica indiferente.
Uns resmungam contra o consumismo (como eu que, hipócrita e dissimulada, resmungo, resmungo, mas dava um ano da minha vida para receber o swatch alusivo, ou o optimus Hello-Kitty, ou um perfume que ando farta do meu, ou uma lingerie preta que vi em Lisboa no último fim-de-semana...), outros contra datas marcadas para expressar sentimentos (como eu que, hipócrita e dissimulada, resmungo, resmungo, mas dava dois anos da minha vida para receber amanhã uma carta de amor manuscrita e perfumada, ou um ano se fosse um postaleco foleiro ou um e-mail...), outros ainda resmungam contra o romantismo demodé em geral, (e eu, ainda assim, dava quatro, não, cinco anos da minha vida por um girassol solitário, um jantar à luz da lareira no chão da sala ou um cesto de piquenique só com dois copos de pé alto e uma garrafa de vinho tinto). Há muita gente a resmungar, e isso faz-me sentir normal.
Ontem lia um comentário a um post de uma blogger de quem gosto muito. Determinado rapaz dizia que, depois de um desgosto de amor (um verdadeiro desgosto, uma coisa marcante, daquelas situações que marcam um "antes" e um "depois" e te acompanham no resto dos teus dias, mudam o teu modo de pensar, sentir e agir e fazem de ti uma pessoa diferente), o tempo pára. Entendo-o. Ele pretendia dizer, suponho eu, que, quando estás em sofrimento, sentes a ausência de movimento, cria-se uma pausa interior, como se fosses um electrodoméstico permanentemente em stand-by a dispender um mínimo energético para estares simplesmente ligado, mas sem grande função ou utilidade.
Ontem, concordei com ele. Hoje, já não me parece exactamente assim. No meu caso, é ao lado: o tempo não pára, o tempo repete-se. Durante uma pausa, há forçosamente um descanso, um relaxamento, uma quietude que permite acumulação de forças. Durante uma pausa, existe espaço à regeneração. Comigo, o tempo repete-se. Os dias surgem todos iguais, a papel químico, e tu estás permanentemente expectante. Esperas pelo ponto de viragem, pelo instante que foge ao banal, pelo grão de areia na engrenagem. E ele não surge. E tu, em vez de descansares, exasperas-te a cada dia perdido. Todos os dias acordas para o mesmo pesadelo, tens as mesmas conversas, fazes as mesmas coisas, vês as mesmas pessoas, e a repetição milimétrica do tempo não te permite saltar para fora da esfera que te envolve, dos círculos concêntricos que a pedra desenhou quando caiu a pique dentro do teu lago.
O que é realmente muito doloroso nas datas festivas, por mais comerciais ou idiotas que pareçam ser, ou que de facto sejam, é que, queiramos ou não, mesmo que tudo aconteça num breve instante, acabamos por pensar sobre assuntos que passamos os restantes dias - iguais e repetitivos como o tic-tac de um relógio de corda - disciplinadamente a evitar.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Tarde Livre

Quintas-Feiras são dias de tarde livre. Teoricamente, claro. Mas hoje até foi. Os testes por corrigir ficaram a olhar-me acusadoramente de cima da mesa onde foram abandonados com desprezo leviano. O sol brilhou à tarde e arrastou-me corpo e espírito para o reino da indolência. Por volta das três e meia pensei em ir até à escola, a Mzinha está em furo a esta hora e sempre dava uns dedos de conversa, mas também sabia que provavelmente ela estaria a aproveitar esse tempinho para trabalhar, e desisti de interferir nas boas intenções alheias.
Lembrei-me da MissCovilhã, e na forma como ela, quando estava na escola em furo, me desafiava para lá ir ter, só para lanchar no bar. Tive muitas saudades dela, da forma como cobrava a atenção de toda a gente e punha os amigos a andar a toque de caixa para lhe satisfazer os caprichos. Se havia coisa que a tirava do sério era fazer qualquer tipo de refeição sozinha. Qualquer ida ao bar, nem que fosse para comprar uma garrafa de água, para a qual não fosse convidada, era pretexto para uma encenação de um ataque de fúria. E aquilo, às vezes, irritava-me. Mas agora sinto-lhe a falta, sinto a falta das exigências dela nos "tratamentos especiais". Sinto a falta de lhe agrafar os testes a resmungar, de lhe perguntar, de cada vez que me pedia um favor em tom de ordem incontestável, "e batatinhas fritas a acompanhar, não queres?"
Porque, no fundo, aquele mimo de criança caprichosa que ela sempre teve, pedia a nossa presença. Na altura não o sentíamos, mas agora, que ela nos falta, é que damos conta que nos fazia sentir importantes. Agora, que em tarde livre ninguém exige a nossa companhia nem cobra a nossa atenção, e com um suspiro pensamos "Ir à escola? Para quê?", e optamos por ficar a vegetar no sofá de uma sala vazia.

Palavras para quê?


Descobri isto no blogue da Miss K.

Palavras para quê? Vai um cafezinho matinal?


Simple Things are the Easiest to Miss, 2

Desde domingo, em que li o mail do P., tenho andado com uma sensação desconfortável de déjà-vue. Como se as palavras dele fizessem eco no meu vazio. Como se as já tivesse ouvido antes, já antes tivesse chorado esta mesma realidade, como se esta mesma ideia já me tivesse sido murmurada baixinho, só para mim, por outro amigo.
Até que me lembrei. Já sei onde ouvi isto. E se, à primeira, não encaixei, desta vez, lá terá que ser. Apresento-vos o amigo que me avisou e abriu os olhos pela primeira vez. Quando eu não quis ver.
(aproveitem e cliquem em baixo no "Hold Still". A letra é maravilhosa, as vozes deles fantásticas, e o vídeo é feito com uma sequência de fotos a preto-e-branco... (ironias...) que a vocês, não sei, mas a mim, apaixonam-me. E passa-se em Londres, para tornar tudo ainda mais perfeito)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Que treta,

O S. Valentim.
Não chegavam já os últimos dias, tinhamos que estar em vésperas do Dia dos Namorados. Alunos todos contentes, colegas de Línguas a querer fazer projectos e eu, negra como a noite. Sombria. Tudo a vermelho e cor-de-rosa e eu... cinza-pêlo-de-rato. Sim, estou ressabiada. Sim, só me apetece gritar. Um aluno meu dizia-me hoje, ó stôrinha, deixe lá, o S. Valentim é quando um homem quiser. E outro, ó stôrinha, eu escrevo-lhe uma carta, que também ando de coração partido... e também estou encalhado. (Isto depois de eu dizer que considerava um insulto que uma turma de nono ano sem idade para essas "infantilidades" me viesse perguntar a mim, cota e encalhada, o que íamos fazer para comemorar o Dia dos Namorados.). Tive que me rir, embora a cena da carta me tenha atingido como um estalo. A carta. A carta que esperei tanto tempo, via mail ou papel, manuscrita ou em formato digital, uma espécie de postal ou de notícia, reportagem fotográfica ou poema, banda desenhada ou ilustração, A carta.
Até tratei melhor o puto, depois de ele me dizer aquilo.
Combinei com eles assim: a comemoração será a seguinte, eu publico uma lista de presentes que quero pelo S. Valentim e vocês oferecem-mos. Coro de protestos. E eu lá fui obrigada a desistir da ideia, não antes de perguntar, há aqui alguém apaixonado? Levantou-se um dedo. E está feliz? Muito. Muito bem, senhor fulano de tal, para si o TPC é a dobrar, e está neste momento com nível um a Inglês. A recuperação é muuuito difícil. Ao que o pestinha responde, ó stôrinha, eu estou apaixonado é por si... e toma lá mais um estalo, por ouvires a tal frase dita por um fedelho a gozar com a tua cara e a fazer-te estremecer novamente na base.
Claro que me passou o mau humor, mas não a irritação com as ironias.
Andarão os fulanitos a ler a porra deste blogue ou, pior, lêem os meus pensamentos?
Nunca liguei puto a este dia. Nunca fui de presentinhos idiotas, nem de lamechices com data marcada. Mas, este ano, está a custar-me. Não por causa da treta do consumismo ou dos ursos de peluche agarrados a corações kitsch. Está a custar-me porque, ao contrário do costume, está a mexer com a minha sensibilidade ver casais felizes e apaixonados. Um par de mãos dadas. O enlace de dois corpos num abraço. Um beijo suave e rotineiro nos lábios numa despedida breve de quem se vai ver logo à noite. Sou uma pessoa que se alegra verdadeiramente com a felicidade alheia e não estou a gostar mesmo nada deste ser triste e desamparado em que me estou a transformar. Hoje dizia à S, com quem fui tomar um cafézinho, que tenho um medo de morte da amargura e da inveja. Desses venenos que correm nas veias das pessoas solitárias e sem amor. Que tenho medo que agora, convencida finalmente de que andei um ano e muito presa a um fio de esperança numa migalha de retribuição sentimental, convencida de que, de verdade, nada existe "do outro lado do muro", nada mais tenha a que me agarrar que a uma raiva imensa a quem tem o que me falta.
Porque eu não sou mais nem melhor que simplesmente humana, e o nosso sentir molda as nossas atitudes. Tenho muito medo de, devagar e sem dar conta, a começar com este sinal ténue de angústia perante uma data idiota que se aproxima, me transformar enfim no derradeiro lugar-comum que é uma mulher sem amor. Seca. Triste. Má.


(A propósito deste post, quis publicar "A Carta", dos Toranja. Mas na pesquisa que fiz no YouTube dei com este senhor, que adoro, e com esta música, de letra cuja simplicidade perfeita me faz chorar, na sua verdade nua-e-crua, a preto-e-branco, "Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida". Simple Things are the Easiest to Miss.)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O Poeta é um Fingidor

À laia de conclusão do longo post de ontem, hoje, numa manhã repleta de aulas, passou-me várias vezes pela cabeça este verso de Pessoa. Alguém famoso questionou um dia se a poesia seria possível depois de Hiroshima. Nunca percebi esta dúvida. O Poeta é um Fingidor e, para além disso, a poesia pode ser das coisas mais dilacerantes que existem. A poder expressar-se o horror e a violência por palavras, o meio privilegiado é, com certeza, o poema.
Eu própria, que me digo tão genuína e transparente, ando, vejo isso agora, há que tempos a fingir. Finjo que não amo, finjo que não sinto ciúmes, finjo que sou correspondida, finjo que não espero por milagres, finjo que está tudo bem, finjo que sou uma pessoa como as outras, finjo (tão bem) existir, finjo sorrisos, finjo tanto, finjo sempre. Hoje, a lutar interiormente contra as minhas mentiras e os meus fingimentos, a tentar ver as coisas a preto e branco, a tentar sobreviver num mundo com a tal realidade para que me abriram ontem tão bem os olhos, consegui gracejar, manter conversas coerentes, ser agradável, dar aulas, rir-me. Consegui, inclusivamente, convencer pessoas que me conhecem de que hoje é mais um dia igual aos outros, que eu sou a mesma, que nada mudou. Sim, a poesia é possível sempre que haja alguém capaz de fingir que os seus holocaustos não são reais.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Simple Things are the Easiest to Miss


Há coisas que de tão simples nos passam despercebidas porque as complicamos, muitas vezes porque a sua simplicidade óbvia não nos agrada. Este foi um fim-de-semana dedicado ao tema do amor. Inusitadamente, na fase da vida em que me encontro. Não poderia ser mais surreal, mas assim foi, ditado pelos acasos. Tudo começou com a tal proposta indecente, galhofeira e divertida, uma sms recebida na manhã de 6ª feira. Um flirtzinho inocente, inconsequente e recorrente, de tempos a tempos, a lembrar-me de que sou uma mulher.
As sms prolongaram-se ao longo do fim-de-semana, mudando de tom, para coisas mais sérias, dado que somos amigos e entre amigos a brincadeira é deixada para trás quando valores mais altos se levantam. E quando o meu interlocutor se apercebeu do meu real estado de espírito em relação à minha vida emocional, depressa se deixou de parvoeiras e me ligou. Estivémos algum tempo ao telefone, a pôr a conversa em dia. Num dia em que eu vira dois filmes bastante marcantes e, claro, sobre o amor. Vicky Cristina Barcelona e o Estranho Caso de Benjamin Button. Não vou falar da profundidade em que foram cair aquelas duas fitas numa tarde dedicada ao cinema. Quando uma pessoa se sente vazia, qualquer coisinha lhe bate no fundo, e arriscar-me-ia a fazer a elegia de duas películas que, analisadas de forma racional, poderiam nada mais ser que banais. Por isso, passo. Ao telefone, contudo, acabada de chegar do cinema, trazia a cabeça cheia de palavras e emoções, que despejei no tal amigo.
Ele ouviu-me, em silêncio, e disse-me que me ia escrever um mail. Que achava que tinha chegado a hora de me dizer exactamente o que pensava sobre o assunto, mas que teria que ser por escrito, para organizar melhor o discurso, e para não se deixar levar pelas minhas fragilidades, pela minha sensibilidade. Disse-me, apenas, estás a falhar a informação essencial. Não te livras disso, porque estás a fechar os olhos ao óbvio. E hoje, ao abrir o mail dele, respirei fundo e fui confrontada com a minha verdade. Lembrei-me de um livro apadrinhado pela Oprah Winfrey “He’s just not into you”, e sorri, ao verificar que caí, realmente, no verdadeiro lugar-comum.
Dizia ele, a certa altura de um texto brilhante “Esse senhor, minha amiga, está-se nas tintas para ti. Está-se nas tintas para a tua existência, não quer saber dos teus sentimentos. Já lhe deve ter caído a ficha, conhece-te, sabe que, dadas as circunstâncias, o mais provável é aproveitares os concursos para te pores a andar daí. E o que faz ele? Gere o silêncio. Ignora-te quando tu o interrompes, nas tuas subtilezas costumeiras de menina que não quer impor a sua presença mas que sente uma necessidade atroz de presença, de aproximação. Essa necessidade é natural, minha querida, assim é o amor. O que não é natural são as coisas que inventas, as interpretações que fazes de um silêncio que, da parte dele, não tem qualquer interpretação que não a literal: ele não gosta de ti, mulher. Todas as desculpas que dás para o defender são fruto do teu amor, do teu desejo, da tua saudade. Não os projectes nele, porque eu digo-te: nós, os homens, damo-nos ao luxo de ignorar uma pessoa de quem gostamos muito quando ela está perto de nós, é um dado adquirido, uma presença constante. Quando desce a sombra da ausência, minha linda, tudo muda de figura. Perante um countdown, fala muito mais alto o que é verdadeiro, o desejo, a vontade de ter essa pessoa junto de nós o mais possível, seja para a convencer a ficar, seja para aproveitar o que resta. Se o silêncio continua, é porque nada existe: não se verbalizam emoções inexistentes. Ama-o se não tens outro remédio, mas ama-o consciente de que amas alguém que não nutre por ti qualquer tipo de sentimento, nem o de uma leve amizade. Porque tu és uma miúda incomparável. Alguém de quem gostes mesmo pode contar com uma lealdade rara da tua parte, pode dizer-te tudo, pode despir-se de tudo o que não interessa à tua frente. Ele sabe onde encontrar-te, ele sabe como te agradar, como te apaziguar, é tão fácil fazer-te sorrir. E, se não o faz, se não te procura, se não te escreve, não é para te proteger, princesa. Pensa: achas que há alguém no Mundo, para além de ti mesma, que acredite nisso? Pensas que algum homem recusa tocar numa mulher, sentir-lhe o cheiro, dar-lhe um grande beijo, escrever-lhe um texto, responder-lhe a uma carta, se gostar dela, se precisar dela, com uma intenção altruísta? Não. Não. Ninguém o faz, até porque pessoas inteligentes sabem que nenhum sofrimento por amor é maior que o sofrimento de não se ser amado. Desculpa, minha linda, mas a mim, um comum mortal, faz-me muita espécie que uma mulher bonita e inteligente, como tu, se prenda a mentiras mal-enjorcadas e perca a perspectiva das coisas como elas são. Porque às vezes, elas são mesmo a preto e branco.”
Obrigada, P. Um aplauso de pé, para ti.
Os nossos melhores amigos são aqueles que vêem aquilo que nós não queremos ver, e nos apagam as luzes ao fundo do túnel. Mas caminham ao nosso lado, com uma lanterna na mão.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Até já

Vou para Lisboa. Vou para Lisboa ter com a progenitora que está com uma gripe descomunal. Por solidariedade filial, também não me sinto lá grande coisa, mas tendo em conta que ontem tomei duche três vezes, duas das quais vestida, de água fria e em público, não é de admirar.
O sol hoje deu um ar da sua graça e a manhã ficou marcada por uma proposta indecente. (Hallehluia, começava mesmo a acreditar que me tinha transformado num gajo. E dos feiosos. Afinal não.) A proposta foi recusada: quem passa a vida a insultar-me o físico depois não pode querer abébias. Ai, e tal, és tão magrinha... e, depois, pimba, propostas indecentes? Eheheheh, valeu para a auto-estima, mais um bocadinho e convenço-me que tenho pinta para modelo fotográfico... de um catálogo de prevenção a distúrbios alimentares! Anyway, modelo é modelo, top model é top model.
Enfim, agora a sério... hoje era o último dia para entregar OIs e os meus são os seguintes: ir ao cinema pelo menos duas vezes este weekend. Chegar a Lisboa e regressar sem ter problemas no JadeMobile. Estar com os meus amigos pelo menos cinco minutos. Acabar o weekend de alma menos sombria. Aceita-os, Sra Directora?
Bom fim-de-semana, até Domingo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Post-Scryptum a "30 situações em que te apetece..."

... largar um (GRANDA) F*da-ssssssssse!
BEWARE! Deus mastiga, quer dizer, castiga! (ando disléxica para tudo, excepto para o palavrão cabeludo). BLOGGERS AMIGOS: BE AFRAID, BE VERY AFRAID! Pensem duas vezes antes de postar um texto semelhante ao anterior.
Tive um dia, jovens, que ficou marcado na Moleskine como "Inesquecível, tal como tudo na vida que se quer esquecer de imediato".
Uma manhã como as outras. Beijos na boca: zero; Pedidos de casamento: zero; Cartas de Amor: zero; Propostas indecentes: zero; Trabalho: muito; Chatices: q.b; Par de berros a turmas chatas: dentro da mé(r)dia costumeira. Resultado: Confrangedor, mas habitual.
Ao almoço, fui com a Mzinha à cantina, aliciada pela boa fama do frango assado. Alunos a repetir o dito: Mais de cem; Almoço da Jade e da Mzinha: Douradinhos com Batatas Fritas. Resultado: Sem comentários. A pata aqui devia ter desconfiado que isto não augurava nada de bom.
Tarde KAFKIANA. Fui pagar o sêlo do carro e paguei de multa mais de cinquenta por cento do seu valor. Paguei, não, que "o sistema está avariado, vai ter que cá voltar de propósito para pagar a dita multa". (E eu pensei "F*da-se!!! Isto fica em caminho com'ó caraças!...") Adiante... Saí de lá e ao segundo passo abriram as portas do céu na minha cabeça. Entrei a pingar no escritório de advogados onde fui fazer um recado a uma prima. A senhora que lá estava, que deve ser amiga dela, olhou para mim com o ar de quem achava que eu a ia assaltar, deu-me aquilo a que fui e despachou-me o mais depressa possível. Quando saí levei com outra chuvada na tola, para certificar que arrefecia as ideias. (E pensei, F*da-se, ouve lá - para Deus- andas um bocadinho chateado comigo, não?). Vim a casa a tremer como uma ressacada, sequei o cabelo e enfiei-me praticamente debaixo do aquecedor. Quando me achei pronta para outra (no fundo, sou uma ingénua...), saí e levei o carro à inspecção. Ainda pensei, e se fosse primeiro ao StationMarché, mudar a luz que tenho avariada? Nááá... ia perder tempo e às cinco tenho que estar em casa para apoiar a filha de uma amigo meu que tem teste de Inglês amanhã, não há-de ser por isso, cacete! Chego ao Centro de Inspecções e a senhora pede-me coisas que deixara no carro. Volto para trás. Quando se trata de pagar, pergunto, aceita Multibanco? Ela responde, sim, claro. Procuro mentecaptamente o sacanita em todo o lado. NADA. Telefono para a Mzinha, em furo, para me valer e dar lá um saltinho. NADA. Epifania: F*da-sssse! Deixei-o nas Finanças!
Atravesso meia cidade, e lá resgato o estupor. O senhor, muito simpático, já lá tinha colado um post-it com o nome da minha escola, que eu mencionara da primeira vez que lá fôra. Por essa altura, eu já estava por tudo. Mas lá voltei ao Centro de Insppecções.
E é claro que o carro chumbou... por "falta de luzes: reincidente". Fui também reincidente no "F*da-se", claro. (elevado ao expoente do infinito, ou da loucura, escolham)
Estava a contar isto à Mzinha, aos gritos, quando ela chegou a casa. Aos gritos e com uma variedade vocabular muito rica, com variações como p*ta-que-pariu, grande m*rda esta, e mimos do género. Quando levanto a cabeça, ela está perdida de riso a olhar para mim. Ao lado dela, a gaiata a quem eu ia dar explicação, com cara de quem vai virar costas e fugir.
(e agora vou ali já venho, para não me tornar repetitiva, que ao ler isto, só me apetece dizer... pois, é isso)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

30 situações em que te apetece largar um "F*DA-SE!"

Preâmbulo:
A existência não está para graças. A Mzinha, que é a melhor pessoa que eu conheço, e uma das mais calmas, anda fora de si. Hoje disse-lhe, enquanto almoçávamos no nosso restaurante das quartas-feiras, em que somos tratadas como princesas, "Custa-me imenso ver-te assim. Pareces eu, e isso é péssimo e, pior, não sei que te diga..."
Ela chegou a casa tardíssimo, eu tinha parado de trabalhar uns minutos antes. Enumeraram-se as misérias do dia, igual aos últimos, uma treta de todo o tamanho. Depois fui ver os meus blogues favoritos, e dei com um post brilhante d' Apipocamaisdoce. É um blogue muito fashion que me descontrai, e simpatizo com a autora. Fui meter o nariz nos posts mais antigos e dei com um hilariante. Tão hilariante que não conseguia ler muitos dos itens da lista à primeira, em voz alta, à Mzinha. Foi um momento inédito, cá em casa, nas últimas semanas. Um ataque de riso em coro. E a Mzinha disse: escreve lá a tua lista, escreve lá, e lança um desafio aos outros bloggers de quem gostas.
Eu detesto desafios, mas este, opá, dadas as circunstâncias, tinha que ser. Quem quiser aproveitar, força. (Tu, especialmente, Carolina, que nunca dizes palavrões: a Pipoca terminava assim, a lista dela: "Apesar de 95 a 97 por cento destas situaçoes já me terem ocorrido, juro que consegui sempre controlar-me e o máximo que deixei escapar foi um "merda" muito cobardolas.
Mas agora acabou-se! Tenho 25 anos! F*da-se!". A lista dela tem 50 itens, a minha tem trinta, e há dois ou três inspirados nos dela, confesso. A dela está hilariante, a minha... se fizer rir alguém, não é a mim que passei por elas, vos garanto!
1- Quando, nas raras vezes em que te atrasas de manhã, sais à rua e tens dois cm de gelo no pára-brisas do carro;
2- Quando te esqueces da altura do ano em que estás e abres inocentemente a porta da sala aquecida para ir ao quarto;
3- Quando passas tempos sem fim à procura das chaves do carro com os amigos à tua espera no restaurante e as encontras no bolso;
4- Quando sobes dois lanços de escadas na escola carregada que nem uma mula em cima de uns saltos enormes e quando chegas à sala de aula não tens livro de ponto;
5- Quando desces os 2353 degraus do teu prédio para ir ao carro buscar a pasta, chove torrencialmente e quando lá chegas deixaste as chaves do dito em casa (e marimbas na pasta, a maior parte das vezes);
6- Quando vais à bomba de gasolina comprar tabaco com o dinheiro contado seis vezes e quando lá chegas faltam-te 20 cêntimos (e NUNCA marimbas no tabaco, voltas lá segunda vez e o senhor olha para ti com o ar de pena que se oferece a um drogadito em ressaca);
7-Quando as botas lindas que compraste te lixam os pés ao final de dez minutos e acabas o dia a andar como uma debilóide desarticulada;
8- Quando o gajo que te enche todas as medidas te adopta como melhor amiga e confidente e te conta todos os pormenores sórdidos da sua vida amorosa;
9- Quando o tipo que catrapiscas há meses finalmente te convida para ir jantar a casa dele e a tua esteticista adoece e desmarca a depilação, o cabelo e a maquilhagem;
10- Quando tens finalmente o textinho todo pronto, carregas inadvertdamente no cretino de um botão qualquer e transformas três horas de trabalho em asteriscos e quadradinhos;
11- Quando acabaste de escrever o post mais bonito de todos os tempos e quando dás ordem de publicação “This website cannot be displayed”, ou o raio que a parta;
12- Quando toca o despertador uma hora e meia depois de teres conseguido, finalmente, adormecer;
13-Quando ficas sem carro por volta das três da manhã no meio da auto-estrada, e o tipo da assistência em viagem, quando lhe respondes que és professora, comenta: tinha que ser uma dessas profissões esquisitas, e ri-se;
14-Quando te trocam as voltas ao horário da programação e já só apanhas o final do filme que querias tanto ver;
15-Quando descobres que os teus momentos significativos são banais aos olhos das pessoas com quem os partilhaste;
16-Quando olhas para as contas que tens por pagar no multibanco e o prazo expirou no dia anterior, o que te obriga a enfrentares filas de hora e meia se quiseres continuar a ter água para tomar banho;
17- Quando rasgas os collants caríssimos na cadeira da igreja ainda o casamento (de outra, ainda por cima) vai no início e não tens sobresselentes;
18- Quando o perfume que adoras e te foi oferecido no Natal se estilhaça no chão da casa-de-banho em Janeiro e passas a ter um ambientador Armani no WC;
19- Quando vês uma ex-aluna tua casada e mãe de filhos;
20- Quando, na conversa e na risota nostálgica com os teus amigos de sempre, chegam todos à conclusão que determinado episódio se passou vai fazer quinze anos;
21- Quando abres o mail pela centésima vez nesse dia e está na mesma, não tens sms no telemóvel e não há nada de novo na blogosfera;
22-Quando pegas no desodorizante à pressa e ao primeiro spray percebes que pespegaste com o ambientador da casa de banho debaixo dos braços. (O verdadeiro, e não o tal Armani);
23- Quando a seguir a um beijo ardente vem um “desculpa” e a seguir a um “amo-te” vem um “mas…”;
24-Quando te chove em cima da roupinha lavada;
25-Quando o ferro a vapor te vomita em cima da roupinha lavada;
26-Quando a roupinha lavada te cheira a tabaco;
27- Quando dás um gole no café e te apercebes que não lhe puseste a tua dose de açúcar;
28-Quando escorregas a sair da banheira e apanhas um cagaço de todo o tamanho;
29-Quando vais para o quarto às escuras para não acordares a tua colega de casa e dás com o focinho…a) na porta que fechaste para ela não ficar com alergia ao teu ambientador; b) na porta fechada do quarto dela, porque mediste mal as distâncias e fizeste mal as contas.
30- Quando te estatelas ao comprido no meio de um restaurante muito fashion em Marbella, em frente a todos os teus amigos, e enquanto ajeitas o mini-vestido que te subiu até às orelhas, há um micro-segundo de silêncio antes da muito humilhante explosão de riso geral.

(e, se são só 30, meus amigos, acreditem que não é por falta de assunto...)




terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Espiral

Quando temos uma intoxicação alimentar, temos vómitos incontroláveis, e muitas vezes o único objectivo é conseguir chegar a tempo à casa-de-banho, a dois metros do nosso quarto. Declaro, assim, perante as evidências, que sofro de uma intoxicação emocional. O meu corpo expele o veneno que me consome o espírito com explosões de água. E o único objectivo é o mesmo, aquele instante fugidio em que te apercebes do que vai acontecer e sais porta fora para chegar a um WC metafórico e não vomitares as lágrimas em público, no colo do desgraçado mais próximo.
Assim foi hoje. Senti uns ameaços no decorrer da última reunião. Para dizer a verdade, os sintomas de ter as emoções intoxicadas começaram ténues antes da hora de almoço, mas eu fiz o costume, ignorei e não fui ao médico. Resultado: estava a cruzar o portão da escola e as lágrimas corriam-me cara abaixo. Quando me sentei no carro já soluçava.
Em casa, disse à Mzinha que tenho medo que Deus me castigue com um problema realmente grave que justifique as lágrimas que choro agora em vão. Quando dizia no interregno que me sinto inútil, tentava explicar que a minha auto-indulgência me deita para o centro de ciclos viciosos dos quais me é muito difícil sair. É preciso muita força de vontade, e o que é tão fácil pregar aos alunos, organização, disciplina, regras, prioridades, é impossível cumprir longe de alicerces fundamentais que nos acertam o passo quando saímos do caminho e nos deixamos abandalhar. A primeira vez que isso me aconteceu foi quando me faltou o avô. É óbvio, e é aceitável. Coincidiu com a altura em que me foi diagnosticada a condição crónica, com a altura em que entrei para estágio, enfim, todo o universo conspirou, então, para um processo de auto-comiseração.
Numa cama de hospital, e em vias de ficar sem dedos na mão direita, levei o tal coice que me fez andar para a frente. E andei. Durante anos as coisas estabilizaram e saí de casa da minha mãe sem grandes danos colaterais, sem me ir abaixo, sem vacilar. O mundo voltou a desabar há uns anos atrás, tal e qual como agora, sem razão aparente. Num sítio perdido deste distrito, na altura já a morar com a Mzinha, mas sem ainda realmente a conhecer, ela com um horário incompleto que lhe permitia semanas de três dias, eu, com um completo. Passava muito tempo sozinha, sei lá, e fui novamente abaixo. Estatelada no chão (Teia, adorei esta imagem), valeram-me então as amigas da altura e os braços fortes de um homem que amava. Valeu-me, ainda, ter vindo para a Cidade-de-Deus, para junto de alguns, poucos mas muito bons, entes queridos.
E agora, isto. A Mzinha definiu magistralmente a forma como me sinto, ao dizer, sabes aquele stress que se apodera de nós quando já concorremos e não fazemos a mínima ideia do que nos vai acontecer? Assim ando eu. Em permanente stress, ansiedade, impaciência, carência. Só me apetece gritar “Abracem-me e digam-me que vai ficar tudo bem, que eu não estou a aguentar-me à bronca”. Só que é daqueles gritos que não saem, como nos pesadelos. E, então, choro. Choro e entro em ciclos viciosos, abandalho horas de refeição, adio compromissos, ignoro assuntos prementes. Quando me sinto a enlouquecer com falta de afecto, adormeço a mexer no cabelo, como se fosse mãe de mim própria. Mas sou uma mãe descuidada e negligente. Sou a que compra a playstation e não impõe regras. E adormeço a mexer no cabelo para, no fundo, dormir com o inimigo. Para entrar numa esquizofrenia de sentimentos de auto-indulgência e culpabilização atroz.
Estou com uma intoxicação emocional e, desta vez, não tenho quem me valha. Tenho amigos, tenho, poucos e óptimos. Mas, desta vez, tenho também a noção muito clara de que tenho que sair desta sozinha. Talvez porque, de há um ano e tal para cá, me falta o mais importante, algo que não me faltava desde os dezoito anos, falta-me uma figura masculina que me ampare. E sei que é muito possível que esta falta inédita me esteja a mexer com tudo o resto, me esteja a mudar o ser e o sentir, o agir, o querer, o decidir. Esta falta inédita tira-me duma rota, afasta-me dos restantes objectivos, deixa-me à deriva: concorrer para onde, se não tenho amarras? Perseguir que sonhos, sem incentivo, sem feedback, sem alguém que se orgulhe dos meus êxitos ou me abrace quando fracasso? Sim, eu sei, há que procurar tudo isso em nós mesmos.
Mas começo a convencer-me, a sério que começo, que dentro de mim não há nada disso. E que cumprir obrigações e satisfazer necessidades fisiológicas não é definição de existir. Não me lembro de outra fase em que a consciência da minha não-existência fosse tão forte. O que fazemos, Teia, quando para além de estateladas no chão não nos conseguimos mexer? Nem para pegar na porra de um telemóvel? O que acontece Teia, quando a opção de lutarmos por nós próprios nos parece infinitamente inútil? O que fazemos, Teia, quando estateladas no chão, a única coisa que nos ocorre é que antes assim, mesmo estateladas num chão real, que a andar por aí com a ilusão de que existimos?

Três horas

Dormi três horas. Depois de trabalhar que nem uma condenada, e apesar de ter provado (várias vazes) o licor de amora caseiro que a Mzinha trouxe (licor? amora? bolas! eu que não sou nada piegas com o álcool achei que alguém se esqueceu de juntar fosse o que fosse à água ardente...), fui para a cama e não dormi durante muito tempo.
Resultado, hoje, todo o tipo de ideias peregrinas me passaram pela cabeça, quando tocou para a saída: e se em vez de ir ao bar tomar café fosse para casa dormir? e se em vez de ir para casa dormir fosse tratar dos meus assuntos pendentes? e se em vez de ir tratar dos meus assuntos pendentes fosse passear sozinha, tirar umas fotos, ter com uma amiga? E se em vez disso raptasse alguém e fosse antes passear acompanhada? E se em vez de estar para aqui a fazer castelos no ar, fosse mas é para Lisboa esconder-me debaixo das saias da minha mãe? E se em vez de Lisboa fosse mas é para Veneza andar de Gôndola e escrever poesia?
Fui ao bar. Tomei café. Disse umas baboseiras na sala de professores. Tocou para a entrada. Só dou aulas ao fim da tarde. Olhei à volta: se a sala de profes estivesse vazia estaria mais cheia de gente interessante. Outro dia perdido, "dies perdidus", e ainda são só dez horas. O que me recorda, by the way, que estou acordada há tanto tempo quanto aquele que dormi.
Três horas. E se fosse para casa dormir, que o resto é apenas mais tempo perdido? "Diei Perdidi"

Sex-Appeal

Ainda a trabalhar, com o HOUSE como pano de fundo só por descargo de consciência, a rir-me das respostas tortas dele que vou ouvindo, que nem para a televisão olho, para não roubar mais horas ao sono, a maldizer a hora em que me prontifiquei para ajudar uma colega com quem não tenho a confiança suficiente para atirar um “esquece, desenrasca-te que hoje não me apetece”, e a mim, cacete, quem é que ajuda?, enfim, envenenada pela minha própria disponibilidade e simpatia com toda a gente, e feitiozinho de cão comigo mesma, dei comigo a lembrar-me do meu orientador de mestrado, enquanto corrijo a treta do relatório que nunca mais acaba.
Lembrei-me dele, e dum seminário em que falávamos sobre literatura e arte, e discutíamos formas de pop art como a publicidade. A conversa foi dar ao sex-appeal e eu, claro, abstive-me, que essa cena do sex-appeal é um assunto que eu não domino. E eu não gosto de falar sobre coisas que me são estranhas. É claro que ele, no intervalo para café, me veio chatear a tola, “Então, magrinha, está tão caladinha hoje, comeu alguma ervilha que lhe caiu mal?”. Não me desmanchei, ao contrário dos meus colegas que rebolaram logo a rir, e disse-lhe que achava que uma pessoa como eu, de uma naturalidade inconveniente, resposta pronta e genuinidade sarcástica e agressiva, era a última mulher do grupo a poder falar sobre essa teia que é a sensualidade, essa encenação de gestos estudados, olhares significativos, agitar de cabelos e pestanejares lentos, tão próprios dessas mulheres invejáveis que têm a mínima noção do que estão a fazer quando se trata de impressionar e seduzir homens.
E ele disse-me uma coisa que eu nunca mais esqueci. O riso, minha querida, o riso é a expressão da mais profunda sexualidade. Uma mulher que se ri é uma mulher de bem com a sua sensualidade. E você ri-se muito. Ri-se para dar e vender. Aliás, está sempre a rir-se, especialmente de si própria. Não seja parva. Já agora, acrescentou, a sua voz também não é nada feia. É pena é gostar de a estragar com esses cigarros a que não resiste.
Fiquei a olhar para ele com cara de parva e, claro, ri-me. Depois, pior a emenda que o soneto, disse-lhe, ignore esta última gargalhada, ela nunca aconteceu. E foi a vez dele rebentar a rir. Uma tipa já nem rir pode…
E lembrei-me disto quando dei comigo enfastiada até à quinta casa com o estupor do relatório, e ainda assim a rir-me baixinho com o HOUSE: Devo ser realmente uma gaja cheia de sex-appeal, que desperdício… e, agora que penso nisso, a vida de algumas pessoas que eu conheço deve andar muito casta, nunca se riem… mas se formos a ver pelo meu exemplo, se calhar é ao contrário, hummm, estão a surgir-me umas imagens que metem cá um ME-DO!!! Vou ali já venho, dormir sobre o assunto, que já nem vejo vírgulas.