Falar sobre o amor é, cada vez mais, dizer um monte de banalidades pouco originais. Sobre o amor continuam a falar bem os poetas, e apenas os melhores, a inventar-lhe nuances, a adivinhar-lhes metáforas, a colorir-lhe sentidos, e alguns músicos, a surpreender-nos e a arrancar-nos uma lágrima ou um sorriso. Muito raramente. Parece que os verdadeiros hinos ao amor são, cada vez mais, difíceis de encontrar. Talvez porque esteja já tudo dito magistralmente, talvez porque o próprio amor tenha caído em desuso, ou sido transformado num enorme postal da Hallmark, como diz a Lisa Simpson, não sei.
O que eu sei é que hoje me apetece brindar à Amizade. Fomos em excursão ver o primogénito da PêloRusso. Ver o que escondeu aquela barriga nove meses. Ver o que revelava aquele sorriso dela, aquela paciência dela, aquela timidez de menina a corar até à raiz dos cabelos, a chorar facilmente, um poço de ternura que em quase três anos jamais desiludiu alguém.
Fui para lá com o coração apertado, na antevisão do reencontro depois de um momento que, na vida dela, marcou para sempre um “antes” e um “depois”. E foi FORMIDÁVEL. Foi MARAVILHOSO. Depois de uns minutos a babar sobre o ser que dormitava de barriguita cheia, já estávamos todos aos gritos e aos risos (sim, ao pé do pequenito que não dava sinais de desagrado com a confusão instaurada e permanecia angelicamente imperturbável às vozes que se atropelavam). A MissCovilhã juntou-se à festa e aquela sala de estar parecia a sala de professores que eu gostava de ter, tudo a coscuvilhar sem (quase) maldade nenhuma, e a rir, e a barafustar, e a implicar “cala-te, pá, fala mais baixo, olha a criança, não sejas assim, ai, esta rapariga agora só fala de namorados, querias que falasse de quê, de namoradas? Ai, tu, está caladinho que te enfio uma solha, porquê, estás a ficar aflita? Ai, o fulano-de-tal disse-me isto assim-assado; esse gajo também é cá um bufo! Não é nada, que parva, até parece que tu não contas nada a ninguém; ok, eu disse que ele era bufo, não disse que era o único, isso fará de mim uma bufa?” Enfim, reinou o bom ambiente, o disparate, a história, o mexerico.
Pouco tempo antes tinha sentido o sabor amargo de uma rejeição directa. Alguém me disse “tchau” quando me aproximara para conversar um bocadinho antes de sair em férias de Carnaval. O despachanço foi tão óbvio que eu murmurei “Bom Carnaval”, virei costas e saí, magoadíssima, a pensar “Bolas, deves realmente andar a impor a tua presença às pessoas, és mesmo estúpida”. O desejo de Bom Carnaval nem sequer mereceu resposta e eu vim muito chateada para casa. Triste, mesmo. Pensei, já não chega não seres retribuída a nível amoroso, agora até as pessoas com quem gostas de estar te dizem claramente para lhes desamparares a loja? Isto está bonito, Jade…
Estas coisas tocam-me sobremaneira, porque não sou simpática nem agradável com muita gente, e não estou habituada a ser ostensivamente mal-tratada por ninguém. A situação afectou-me imenso, desarmo perante antipatias vindas de sítios inesperados, sou, de facto, uma parvita ultra-sensível à rejeição descarada e à sensação desconfortável de ser uma presença non grata, faz-me sentir um insecto incómodo e repelente.
Os maus sentimentos e a queda a pique de auto-estima evaporaram-se em casa da PêloRusso. Não me podia ter sentido mais bem-vinda, mais contente, mais alegre. Não podia ter vivido um sentimento maior de pertença, de cumplicidade, de comunicação verbal e não verbal. Partilharam-se palavras, mas também gestos, sorrisos, abraços, beijos, toques, piscares de olho, caretas, manguitos, grilas, e mais sorrisos, mais gargalhadas, mais abraços, mais palavras. As mais importantes, “Tinha tantas saudades vossas”, “Voltem mais vezes”, “Eu apareço por lá um destes dias”.
A fundamental, a encerrar muitas das frases ditas, “Amiga”, ou as variantes, “Amiguinhos, Amiguita”. Vim-me embora com o coração a cantar. E fazia-me muita, muita falta, ouvi-lo cantar. Se fechasse os olhos, naquela sala de estar, tenho a certeza de que me conseguiria imaginar numa escola à maneira, num mundo perfeito, num intervalo qualquer, à espera do toque de entrada. Se fechar os olhos, agora, todas aquelas pessoas fazem realmente parte do meu Mundo Perfeito, naquele onde, apesar de achincalhada e censurada com todas as letras, e gozada até mais não, e provocada até aos limites da paciência, serei sempre bem vinda e jamais me dirão “Tchau” sem acrescentar “Minha querida, volta depressa, espero ver-te em breve”.
PêloRusso e Miss, até já.
Aos outros, mais uma vez “Bom Carnaval”. Todos eles me disseram, pelo menos, igualmente. E é também por isso que hoje me sinto grata, e me apetece brindar à Amizade.