segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Interregno? Interregno, o tanas!

É muito triste a vida de uma mulher quando nem se pode dar ao luxo de parar e deprimir. De bater no fundo do poço, para poder ganhar impulso e voltar a manter a cara acima da linha de água. Mais triste que estar deprimida e exausta é não o poder fazer por falta de tempo. Falta de tempo aliada a centenas de seres em idades parvas a dizer coisas alarves e a rir-se das nossas falhas.

Hoje, quando cheguei à escola, a pergunta não tardou: que olhos são esses, está tudo bem? parece que passaste a noite a chorar...por acaso não, passei foram as quarenta e oito horas antes dela, contam para as estatísticas? De manhã, a minha cara era gémea da de um pargo congelado há três semanas. Ao espelho, enquanto pensava, bonito serviço, mentecapta, e me enchia de base e corrector, e mais pó compacto e mais corrector, preparava-me psicologicamente para uma segunda-feira que, - logo hoje, cacete, és mesmo atrasada mental! - fruto de umas trocas com colegas, prometia nunca mais acabar: aulas das oito e meia às cinco e quarto, com uma hora de almoço, ola-ri-la... só te metes em estopadas, a tua vida não te chega!... Mas eis que, depois dos quarenta e cinco minutos da praxe, entre duche e secador e maquilhagem, vou ao quarto e ... está sol! Ainda a resmungar, lá disse em voz alta, agora é que apareces, palerma (para o sol, bem visto), deve ser para me verem melhor a cara de idiota...

Com um humor muito pior que o do House e a Nazi juntos e nos seus piores dias, lá fui para a escola, a adivinhar tempestades. Mas não. Venceu o cansaço. Às dez da manhã tinha dificuldade em raciocinar mais que cinco minutos. À uma, já só queria um chão qualquer para me deitar. Às três, não sabia já há muito como me chamava. E às cinco... às cinco qualquer pessoa de bom senso me teria proibido de conduzir, para me levar directamente para o hospício mais próximo.

Sobrevivi. À conta de muitos risos e boa-vontade adolescente. Ao meu centésimo desabafo de "Opá, vocês tenham dó de mim e internem-me", os pirralhitos riam-se e diziam, "deve pensar que hoje está pior que o costume, não? Fique sabendo que continua igual, e má como as cobras!!!". E pronto, arrumavam logo o assunto, e eu, que remédio, trabalhava com eles e pensava, é só mais um bocadinho, calma, está quase a acabar.

Quando cheguei a casa, adormeci instantaneamente. Dormi umas horas e levantei-me para... trabalhar! Interregno? Interregno uma ova. Se nem tempo tenho para pensar, que dirá para me chatear... mas ao contrário do que parece, isso não é bom. Não é mesmo nada bom. É por andar a cristalizar m*rdas a toque de caixa que nunca mais saio delas. Valeu o fim-de-semana. Foi deprimente, foi, mas as lágrimas que eu chorei deram espaço a mais uns quantos mesitos, espero eu, de controle e equilíbrio. (a começar na semana que vem, que esta, meus lindos, está apresentada).

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Interregno, 2



Continuo em interregno, mas em tempo responderei aos vossos comentários, que desde já agradeço. Nesta fase dark, deixo-vos um vídeo (o primeiro!) que espelha bem o meu estado de espírito. Eu sou a Grey, a mergulhar na banheira e a largar a mão. Sou eu. Sou eu, "estatelada no chão, à espera que alguém me venha levantar", como dizia a Teia que não se deve fazer. Mas sou também, eu, o Mar, como alguém me escreveu hoje "Verde e calma num dia de sol, profunda nos teus segredos; cinzenta e agitada nos dias frios de Janeiro, profunda nos teus segredos." E quando alguém nos escreve assim, coisas bonitas, tão bonitas que nem as sonhamos em fases destas, que nem nos damos sequer ao luxo de desejar lê-las sobre nós, tal é o sentimento de incapacidade e inutilidade que nos assola, quando alguém nos escreve que somos o mar e nos sentimos a Grey a afundar na banheira, e olhamos pela janela e vemos água... nestes momentos pensamos apenas que nos vamos transformar num líquido transparente e puro. E que havemos de encontrar um qualquer caminho para uma qualquer foz, por um qualquer leito, por mais árido, pedregoso, hostil ou abissal que ele nos pareça agora. Nenhum rio recusa o seu correr. Nenhum mar evita as suas marés.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Interregno

Acordei tarde, hoje. Acordei tarde e pensei, último dia de Janeiro. Outro sonho por água abaixo. Último dia de Janeiro. Podias estar a trabalhar há cinco horas na tua tese. Não estás, nem estarás. Acabou. Esquece, desiste.
Tomei o pequeno-almoço e resolvi ver "As Vinhas da Ira", de John Ford. Não consigo transmitir a profunda impressão que me causou. Tocou-me verdadeiramente fundo. De forma tão verdadeira que me senti esbofeteada por essa verdade, como se a mentira me vestissse desde sempre, como se já nem a soubesse identificar como tal. Não chorei uma lágrima, mas fiquei sem respiração algumas vezes, abri muito os olhos outras, e senti-me swept of my feet, outras tantas. É um filme muito político, acho que se o tivesse visto ainda adolescente teria vivido a minha vida de uma forma totalmente diferente. Não que a tenha vivido mal, vivi-a, apenas, iludida, metida numa redoma de vidro ou numa bola de sabão, nem sei. E não, não é por causa de um filme que vou, agora, viver de outra forma diferente da que conheço. Não o saberia fazer, faltam-me coisas importantes.
Mas, mal abri a net depois disso, depois de ter feito o almoço e almoçado às cinco da tarde, dei com a notícia dos problemas na fábrica Bordalo Pinheiro no Sapo e a primeira coisa que me ocorreu foi... e ainda dizem que não andam a f*der o Zé Povinho!, e surpreendi-me a mim própria, nesta muito estúpida consciência social que nunca tive. Quero dizer, nunca tive nesta dimensão política. Tenho andado metida em politiquices, é verdade. Desde as manifestações contra a PGA, até ao Não Pagamos em que vi, estupefacta, uma colega minha negra das bastonadas que levou mesmo ao meu lado, até todas as greves que já fiz enquanto professora, mas sempre uma outsider dos partidos, e também, principalmente, dos ideais, das campanhas, das lavagens cerebrais panfletárias. Sempre.
Mas chego agora à conclusão que pouco se consegue quando se seguem convicções individuais, mesmo que connosco esteja a razão. Nada se consegue.
E hoje apetece-me um interregno.
Fui confrontada com a minha vida acumulada de desistências. De desistências de coisas importantes e ao meu alcance, que deitei ao lixo por andar preocupada com outras que jamais terei. Fui confrontada com a minha inutilidade, a todos os níveis, como defensora das minhas causas, como empreendedora dos meus objectivos, como filha pródiga, como mãe inviabilizada, como mulher, amante, companheira, de um homem que não me quer, mas sobretudo, com a minha inutilidade comigo mesma.
Depois o meu mundo ruíu o que faltava, pela legenda de uma foto que li noutro sítio qualquer. E estou muito cansada de ser quem sou. Apesar de todas as minhas qualidades, de todas as minhas conquistas, de tudo o que tenho, não tenho tudo, mas ao contrário de muitos, o que me falta é o mais importante. É de facto, o mais importante. E, Pan, a propósito de uma conversa que tivémos aqui há uns tempos, lembras-te da "pergunta para queijo"?, o mais importante, não depende de mim. São as leis da sorte e azar.
Preciso de um interregno. Preciso de renascer, ou apenas de acabar. Há muita gente que mudou de vida depois dos trinta. Serei eu capaz disso quando nunca fui, nunca, mais que uma completa incapaz? É que não se trata de mudar detalhes, ou pormenores, precisaria de acordar outra.
A empregada da minha mãe, que foi sempre muito mais que isso, sempre foi família, tem hoje oitenta e poucos e continua a trabalhar lá em casa. Tiraram-lhe um sinal e veio o resultado: maligno. Recebi essa notícia pelo telefone ao acordar e pensei, uma vida inteira de trabalho duro e pobreza, uma emigração esperançada para África e um retorno na miséria, um filho que está longe, um marido já morto, uma casa fria, e é assim, é assim que vai tudo acabar? Que mundo é este? Que vida é esta?
Depois vi o filme. Agora penso na minha, na minha própria vida. Refém dos meus medos, mas também das minhas realidades, de uma doença semi-incapacitante, dos sonhos perdidos pelo caminho, dos projectos abandonados entretanto, das lutas travadas, das que estão a decorrer neste momento, das oportunidades que nunca cheguei a ter e daquelas que desperdicei.
Não tenho tudo. Mas o que mais me dói é não ter o mais importante.
E hoje só me apetece fugir. Hoje só me apetece desaparecer. Só me apetece um intervalo. Ou um fim. Hoje apetece-me parar.

Imagem


Sentada num braço do sofá, à janela, olha a chuva e é abraçada pela sensualidade da noite escura. Deixa-se estar a fumar, sentindo o letal companheiro entre os dedos, enquanto relembra todas as palavras escritas e lidas nas últimas horas.




Envolve-se mais na manta que lhe aquece o corpo sem lhe resguardar a alma, e sente no tecido toda a proximidade que lhe falta, as suas ausências na pele nua, o tempo que passa grão a grão, na ampulheta.




Olha o pátio vazio, enquanto a música clássica chora baixinho e o aconchego não disfarça tudo em que evita, disciplinadamente, pensar. Surge-lhe uma vaga ideia, uma leve vontade, de pegar no carro e ir madrugada fora, ao sabor de um destino imprevisto. Fazia isso amiúde, há poucos anos atrás, pela serra, em direcção à barragem, ao encontro das piscinas naturais, as estrelas por milagre sempre novo.




A estrada. Afasta a ideia antes que não lhe consiga resistir e fique por aí parada, no meio do nenhures, com todo o tipo de sombras que traz coladas a si a envenenar-lhe os sentidos.




Má ideia, má ideia. Boa ideia é ir deitar-se, abraçada à bonequinha de sempre, de menininha que nunca deixou de ser, com o cheiro da infância e do avô, da mãe e de todos os brinquedos, com o cheiro de casa, o seu cheiro infiel a mil perfumes, o seu cheiro envolvido em sorrisos infantis e sonhos de todas as cores.




Sim, boa ideia, essa do leito frio e gigantesco, onde se pode esticar e ainda assim adormece sempre encolhida, na posição de um feto que goza o supremo privilégio de um lugar seguro e da mais profunda ignorância como verdade absoluta.




Apaga o cigarro e deita um último olhar à noite escura, e ao vidro molhado. Antes de sair da sala, ainda hesita um breve instante, como se uma voz a chamasse. Aguarda. Não há palavras, não há murmúrios, não há sequer um breve sussurrar.




Mas sente-lhe a presença. Sorri. Em voz baixa e meiga, tão baixa e meiga que nem a reconhece, diz, estou bem. Descansa, que estou bem. E, apagando a luz, dirige-se para o quarto, já desacompanhada.
Verdadeira Poesia

(o blogger Kok sugeriu-me que lesse um texto seu que entra em diálogo literário com este meu, o que fiz prontamente. É um texto de Abril, e as semelhanças são poderosas. Esta foi a imagem que ele escolheu para ilustrar o que escreveu então. Além de achar apropriado deixá-la aqui, a assinalar os dois textos gémeos, não pude deixar de sorrir por outra coincidência: esta imagem das gotas de chuva a criar ribeirinhos nos vidros das janelas é-me muito grata, muito querida, muito especial. Thanks, KoK)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Vai haver...

... Missa às Segundas.
Estreia o Dr. House, às Segundas, na TVI. Tenho saudades do Gajo, pá. Gosto dele, da atitude, tal como gosto da Christina e da Nazi às Terças. São quem eu finjo (muito mal) ser.
Gosto, pronto. "Almost dying changes nothing. Dying changes everything".

Auto-Ajuda

Domingo, por motivos que não vêm aqui ao caso, emocionei-me por causa de um blogue. O dito não permite comentários, e como tal escrevi uma carta. Isso acalmou-me, a escrita é uma panaceia, um desabafo. O resultado foi de tal forma satisfatório que pensei, porque não, apostar nisto? Todos nós temos as nossas porras, afirmava H. na sua sabedoria ancestral, vezes sem conta. E a verdade é que me farto de escrever, desde pensamentos e versos soltos na Moleskine, a breves desabafos manuscritos em cadernos sortidos, a histórias de ficção em papéis que tenho à mão, aos posts mais ou menos breves, mais ou menos regulares, aqui no blogue. Os diários, por contraste, aborrecem-me. Quando escrevo, gosto que leiam e os diários íntimos e secretos não me seduzem minimamente.
Então, na Segunda-Feira, comecei a dedicar-me às cartas. A dizer de minha justiça o que me vejo obrigada socialmente a calar, a guardar. E na Terça, achei um piadão à Grey: uma das personagens corria o risco de não voltar a falar e desbobinou às amigas tudo aquilo que nunca lhes tinha dito. Coisas muito cruéis, por sinal.
As minhas cartas estão guardadas numa pasta de seu nome "So, this is Goodbye". E contêm missivas das "palavras que nunca te direi". Passando a pieguice do tema, digo-vos que resulta. Chegar a casa e escrever a alguém aquilo que calaste durante o dia, por motivos puramente sociais e convencionais. Insultares quem te irritou, elogiares quem de direito, desenvolveres outros assuntos que não cabem em locais de trabalho, dirigires-te a alguém que não vês há muito mas cuja imagem te surgiu a despropósito numa qualquer altura do dia, falares do que não podes, ou não deves ou não queres, com quem escolheres. É muito mais giro que um diário, muito mais útil, e ajuda a pôr sentimentos e ideias em perspectiva. Hoje até dei asas à imaginação e escrevi uma resposta a uma das cartas, como se pela voz do destinatário me surgisse... vocês sabem como eu adoro feedback.
É libertador. Sempre fui apologista de que não se deve deixar nada por dizer, e, por enquanto, é engraçado ver que as minhas cartas não são, como no episódio da Grey, escritas fruto da urgência de palavras desagradáveis caladas tempos infinitos. Chego, assim, à conclusão, que calo muito mais a minha doçura que as minhas raivas.

Muito Prazer

A Shadow, a propósito dos posts de ontem, mandou-me para o mail uns excertos escritos por um senhor que eu desconhecia, Afonso de Melo. Shadow, obrigada por nos teres apresentado. Fartei-me de chorar, mas as lágrimas são muitas vezes catárcticas.

Deixem-me apresentar-vos um autor que escreve como as mulheres, com o coração por caneta e a saudade por prontuário.

E SE TU SOUBESSES...
Se tu soubesses o que me vai na alma... se soubesses as vezes em que em ti penso a saber que nem sequer de mim te lembras. E se soubesses que tantas das pessoas que por mim passam, passam porque procuro esquecer-te enquanto tenho de esperar e ter paciência porque, para já, os nossos tempos são diferentes.Queria saber o que se pensa quando se joga tudo o que se tem.E deixa-me contar-te como descobri que a vida sem ternura não é grande coisa e como se consegue viver sem chorar e com os olhos cheios de água. Deixa-me explicar-te como se destroem ilusões e como é difícil recomeçar todas as coisas quando nelas não se acredita. E deixa-me contar-te como foi aquele dia em que um vento de Inverno soprou fantasmas nos sonhos de menino e se fez triste o meu sorriso e como cresceu este silêncio imenso que em mim se sente do princípio ao fim.
Foi aí também que descobri que não se pode contar a ninguém o segredo da dor.
Afonso de Melo – Tantas vezes tu
Shadow, já agora, manda-me, se quiseres, e por mail, se achares melhor, a morada do teu blogue antigo, que pela amostra junta, promete. Também adorei os outros excertos, mas são demasiado longos para os publicar aqui.
Um grande beijinho e (mais uma vez) muito obrigada. Por tudo. É possível que seja uma cena de Sagitários, mas acertaste, mais uma vez em poucas horas, na mouche.


Depois da tempestade...

... mais chuva. A protecção civil dá alerta laranja para todo o país. Não me incomoda, gosto de laranja e toda a gente já percebeu que também gosto de chuva, sempre é um pretexto para perguntar ao Pan, de manhã, tenho uma franja ou transformei-me num caniche de casa até aqui?, ao que ele, normalmente, responde com um ganido triste.
Hoje dormi muito. Deitei-me ainda não eram onze e acho que isso não acontecia desde os meus dez anos. Não dormi lá muito bem, mas hoje já me senti mais equilibrada, mais de pés na terra, sentindo o peso da gravidade a atar-me ao chão. Os dias entraram, novamente, numa monotonia confortável.
A Cidade-de-Deus também tem as suas coisas boas. Aquelas que me fazem hesitar, ponderar ficar por aqui. Há coisas que Lisboa não permite, como os amigos a bater-nos à porta para um café de surpresa (mesmo que dêem com o apartamento vazio, a cidade é pequena, não se perde muito em tentar) ou a ligarem-nos para saber se queremos ir lá jantar a casa, já com o jantar feito. A proximidade de tudo é um conforto. A minha mãe costuma dizer que se sente segura comigo aqui, porque se me sentir mal ou tiver uma crise, em dois minutos tenho cá alguém para me valer, e tem razão.
Outra coisa boa aqui é o tempo. Passa devagar. Permite coisas como almoços em boa companhia, porque sim, porque calha. Hoje foi um desses dias. Em Lisboa tens que planear tudo com antecedência, fazer marcações, perder tempo a procurar estacionamento, a esperar para te sentares, a irritares-te com pormenores. Aqui as coisas só dão para o torto quando tens presssa.
À saída da escola, a entrar para o carro, um amigo meu pára o seu carro gémeo do Jade Mobile no meio da estrada e faz-me sinalefas. Vais para casa? Encolho-lhe os ombros. Detesto as sextas à tarde, o primeiro impacto de uma casa vazia mexe-me com os nervos. Espera aí, gesticula ele. Um micro-segundo depois lá estava eu no seu banco do pendura, toda contente, a dizer "Xim... vamos almoxar e dijer mal de todágente, vamox", e a bater palminhas. Em menos de nada estávamos na Praça da República com o suplemento cultural do Público à frente, a falar dos filmes e das peças de teatro e das exposições. Olha, a cinemateca vai passar o Ginger e Fred do Fellini. O G. emprestou-me este DVD, tenho-o lá em casa. (O G. é a minha cinemateca privada, para que conste, e hoje isso ficou provado).
Numa lojinha pequena de sandes e saladas, e tostas com muitos oregãos, que eu fiz o favor de espalhar pela mesa toda, quando me ri demasiado próximo da dita de frango, lá se passou uma hora de almoço em que, afinal, a conversa foi bem mais interessante que a simples troca de cantigas de escárnio e maldizer.
Ontem estava com um humor canino. Hoje, relembrava a esse meu amigo que, da última vez que tínhamos almoçado só os dois, o deprimido era ele. Lembrávamos a causa da sua neura e ele disse, acreditas que não pensava nisso há que séculos? e eu, tendo em conta que almoçámos em finais de Dezembro, como vês, o que parecia o fim do Mundo pouca importância acabou por ter.
E acrescentei, em voz alta, mas a falar mais comigo que com ele (é assim, a verdadeira amizade), e eu tenho muito a aprender com isso.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Quando os comentários...

... ultrapassam os posts.
A minha amiga Shadow fez um comentário genial a um dos posts de hoje.
É por isso que eu adoro este blogue. É por isso que escrever-vos vale a pena. É por isso que desejo, antecipo, espero, rezo pelo feedback. É por isso, e por isto:
"Mas ainda assim, qual sagitário optimista e alheada da realidade... deixa.me fazer só mais uma citação de "The mexican":
Samantha: I have to ask you a question. It's a good one so think about it. If two people love each other, but they just can't seem to get it together, when do you get to that point of enough is enough?
Jerry: Never."
Enfâse no: when do you get to that point of enough is enough? Never."
Shadow, nem sei o que dizer. Se a parte do inicial do teu comentário, que não citei, me fez rir (um riso fruto da concordância e do cansaço, um risinho venenoso e viperino), esta parte trouxe-me as lágrimas aos olhos. Sabes, (não, não sabes...) era mesmo isto que eu precisava de ouvir. Precisava destas palavras, hoje. O meu anjinho da Guarda falou por teu intermédio.
Obrigada. Obrigada a ti e a outros, por me responderem. Farta de falar para o espaço sideral ando eu.

Just Another...

... depressing post from a depressed person.
Stop right here, if you are feeling good, if you're having the time of your life. Enjoy it, grab your smile, close this page, go away.

Um amigo meu disse-me a meio da semana que se sentia "Black". Perguntei-lhe ontem, are you feeling whiter?, e ele, blacker, honey, blacker, this mother-fucker weather...
A mãe de uma amiga minha ontem desatinou com ela ao telefone, porque está farta da chuva. E ela, mas estás a falar-me assim porquê? e a mãe, mas queres que te fale como? já nem sei o que é o sol...
Bullshit. Num dos dias mais felizes da minha vida, chovia a potes, e a chuva ajudava a tornar tudo ainda mais perfeito. Já fui muito feliz à chuva.

Ainda esta semana, tenho memória de estar a chover, de estar encharcada até aos ossos, e de pensar "Ché bella cosa, la vita". Os estados de extâse, é o que vale, duram em mim o tempo do micro-segundo em que me fazem parar de pensar. Logo a seguir, vem o tal verso do Álvaro de Campos, "Merda, sou lúcido!"
E volto ao filme do Wenders, "enfim, a loucura". A lucidez é o pior de todos os males, estou farta de raciocínios lógicos, de prós e contras, e análises e projecções, e equílibrios instáveis entre sentir e desejar, e pensar e ponderar. Estou fartíssima de me controlar a bem de treta nenhuma, a bem do tempo perdido e desperdiçado sem sorrisos ou emoções.

Chuva, qual chuva? O que empata o mundo é a estupidez humana. Personificada na capacidade que o homem tem de pensar e presumir que com isso ganha alguma coisa.

Leituras

Li isto, no post de hoje de Miss K., no blogue "Life is a Masterpiece": "As histórias de amor, para existirem, têm que ser impossíveis".
Era só o que me faltava, para acabar o dia em beleza. Um dia que começou mal e continuou pior, só podia ser fechado com golden key.
Vou ali já venho, procurar uma árvore e enforcar-me no cachecol. Sometimes, my friends, life really SUCKS!

I'll be back

... for part II.
Retirei-me amuada, mas os amuos passam-me depressa.
Se não tenho escrito é por, tão somente, me encontrar no meio de uma realidade virtual, à conta da privação de sono. Tenho dormido pouco, e sou bicho-preguiça. Há várias noites que não durmo em condições. Quando tal acontece, entro em modo-alternativo. Tudo parece acontecer num mundo paralelo a mim mesma. Tenho dificuldade em concentrar-me no real, e dispendo todas as minhas energias na tarefa árdua de, apenas, existir, de forma estritamente funcional.
Não sei o que dizer, a não ser "tirem-me deste filme", "levem-me a passear", "tentem-me com propostas indecentes e irrecusáveis", "mostrem-me um lugar em que não tenha que trabalhar", "apoderem-se de mim", "acordem-me", "façam-me renascer".

Até lá, até já, que eu ando algures na via láctea, na cauda duma estrela (de)cadente.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Actualização de Última-Hora

Pressionada horrivelmente pelos lobbies vigentes mas, ainda assim, pessoalmente envolvida desde que nasceu na defesa da verdade (seja lá isso o que for), a Jade vê-se obrigada, por este meio, a actualizar a notícia bombástica saída neste pasquim de trazer por casa, no post imediatamente anterior.
Confirma-se: um dos gabarolas ascendeu à posição mui nobre e invejada de Inteligente-Mor, ao resolver, em frente aos olhos do júri (moi-même) o dito-cujo cubo-mágico-não-viciado. Resolveu, sim senhor. Mais: fê-lo em pouco tempo e sob o olhar raivoso e envergonhado do outro gabarola, que até à data ainda não o fez, sendo despromovido à condição de Grande-Amélia.
Os factos são estes, e têm poder.
(ainda que seja extremamente irritante que o Sr. Inteligente-Mor ande para aí inchado que nem um pavão armado, perante as lágrimas de derrota da dita Amélia em pranto, tadita...)
(...)
e ainda acrescento que acho decadente que o post anterior tenha sido dos mais comentados deste blogue. Parece que os meus leitores gostam é de parvoeira breve e colorida, não? Então eu hoje, que tinha um post longo e muitíssimo profundo, resolvi que vou ali, já venho... curtir o amuo. Querem um post lindo de ir às lágrimas? Escrevam-no vocês!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Sabes que a vida vale a pena...

... quando vês dois colegas teus, rapazinhos responsáveis e respeitados, com aquilo a que se chama "mais que idade para ter juízo", aos risinhos, aos gritinhos, aos palavrões e às chapadinhas, em competição por... um CUBO GICO.
(que eu trouxe cá para casa, ainda por resolver, que, ceguinhos como estão, bem eram capazes de ir para casa deles desfazê-lo com uma chave de fendas para amanhã chegarem todos contentes a dizer que o tinham resolvido... em 38 segundos!)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Reunião de Departamento

Extensão. Monotonia. Vozes plácidas. Trocas de argumentos mornos. Atenção desmesurada a pormenores ridículos. Um frio, um frio...
Calça as luvas. Volta a descalçá-las para assinar actas em catadupa. abraça o estojo da Hello-Kitty. Acaricia-lhe as formas. Sente-se tão só. Solitária na vida bem como nas opiniões. Tem vontade de falar. De repetir argumentos revolucionários. Ou infantis e despropositados. Ou simplesmente idealistas, e como tal, advindos de uma mentalidade bota-de-elástico. Pensa um instante: será demasiado jovem ou terá nascido já demasiado velha, com uma mentalidade que caíu em desuso?
Não sabe. Não sabe nada.
Entrevê sorrisos irónicos por parte de alguns colegas. Seria com eles, com os sorrisos, cúmplice, se lhe apetecesse sorrir. Mas só lhe apetece chorar. Desvia os olhos dos colegas para um papel que tem à frente, pedido a uma amiga para disfarçar que, de facto, não tem quaisquer apontamentos a tirar. Ou vontade disso, para que conste.
E as vozes continuam, imperceptíveis, naquela música de fundo que se põe quando se quer estudar.
E pensa, que frio, que frio que eu tenho. Muda de posição na cadeira desconfortável, engole as lágrimas. Alguém diz uma piada e ela ri-se, mecanicamente. De que é que se fala agora? Ah, sim, plano de actividades. Cumprido, pois. Tudo em contexto de sala de aula. Que fome, o que será o jantar? O que tem ela para fazer ao serão? Alguém terá comentado os seus posts no blogue? A mãe terá ligado para o telefone esquecido em casa?
Olha para o relógio, pensa, ainda faltará muito? recrimina-se, pareço os alunos, ainda hoje escreveu um recado a um gaiato por este perguntar duas ou três vezes as horas num espaço de dez minutos. Tem pena que a sua coordenadora não lhe peça a caderneta para escrever um recado à mãe: " A sua educanda sonha acordada nas reuniões de departamento e não dá uma para a caixa". Tem saudades de ser aluna e de lhe dizerem como se deve comportar. Queria que a mãe a obrigasse a entregar os objectivos individuais. Para não se sentir uma traidora, se e quando o fizer.
Tem frio, tem mesmo frio. Recua ao que leu hoje, tenta lembrar-se se escreveu alguma coisa de jeito e suspira quando chega à conclusão que não. Quando dá por si, apercebe-se que tem a cara entre as mãos enluvadas, e abraça o próprio rosto. Que figura, a sua necessidade de carinho e conforto, de toque, de ternura, de algum afecto, de um par de mãos, começa a tornar-se insustentável. Embaraçosa. Levanta de imediato o rosto. Alguém a olha, alguém repara? Não. Valha-nos isso, a suprema contradição de precisar de consolo e, ao mesmo tempo, se sentir tão aliviada por ser apenas transparente.
Parece que está a terminar. Levanta-se. Dirige-se a um colega, faz-lhe duas ou três perguntas. Está de pé, ele sentado. Alguém saíu. O tempo passa e quando dá conta, a reunião parece que afinal continua, porque alguém diz "Prestem lá atenção". Deixa-se estar de pé, e assiste ao resto assim. Tudo lhe parece um filme de que é apenas espectadora.
Agora sim, parece que acabou.
Já em casa, telefona a uma amiga. A mesma que lhe deu a folha onde só rabiscou uns apontamentos e desenhou umas flores. A mesma que se sentou ao seu lado. Ficam muito tempo a conversar. Falam seriamente de avaliação. Revelam receios comuns. Tentam coordenar estratégias. Discutem soluções.
A minha reunião de departamento foi feita ao telefone, em casa, com uma colega de outro departamento presente a acenar em concordância. A minha reunião de departamento, a que contou, a que foi importante, nem foi reunião, nem foi de departamento.
Assim andam as escolas. Assim me arrasto eu, com elas.

Ámen

Recebi esta sms brilhante, de destinatário não menos brilhante, acto-contínuo ao final do episódio de hoje da Grey: "Ámen"
Assim se vive a cumplicidade.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Cor de Fundo

Em sintonia com a CarolinadoMónaco, e a pedido de várias e ilustres famílias, mudei a minha cor de fundo de um Pink-Hello-Kitty para um Green-Jade. Porque sim. Porque não posso ver nada. Porque é fácil. Porque nenhuma mudança é definitiva e todas são refrescantes. E porque à Jade qualquer trapinho fica... a matar!