segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

The Pursuit of Happiness

Num post de ontem, um blogger amigo meu desabafava as culpas de um divórcio.
Como sou solteira, e filha de pais divorciados, este é um assunto de que posso falar apenas de modo indirecto. Do ponto de vista da filha. Ironicamente, do ponto de vista da causa maior da culpa parental.
Não conheço muita gente a sentir-se culpada por um divórcio sem filhos. Quando assim o é, suponho que a separação venha como um alívio ou uma benção, dado que acredito piamente que duas pessoas que um dia se casaram, o fizeram a pensar que seria para toda a vida, jamais adivinhando o inferno que essa decisão poderia trazer, num futuro mais ou menos próximo. E quando o divórcio se dá, enfim, deixa o gostinho amargo de um projecto que foi por água abaixo, deixa a frustração, deixa mágoas, mas não deixa arrependimentos. O arrependimento, aí, vem do momento em que se decidiu casar.
A culpa surge, sempre, quando há filhos. Numa das conversas madrugada dentro que pautaram o fim-de-semana, outro amigo meu dizia que é preciso separar, nas mentalidades, a separação de um casal da separação dos "pais". E que os "pais" jamais se deveriam separar. Isto é, deveriam fazer ver aos filhos que a sua separação enquanto casal não poderia ser encarada como a demissão de um deles enquanto pai. E isto não é fácil, já que as crianças não podem viver em comum com ambos. Terão que habitar apenas com um dos dois. E as pessoas tendem a projectar os problemas que têm com o ex-cônjuge na prole. Entrar em esquemas vingativos, em chantagens baratas, em guerras em que os filhos são usados como soldados por uma das partes contra a outra.
Deveria sentir-se culpado todo o adulto que, num processo de ressabiamento, age como uma criança, prejudicando quem deveria amar e pôr acima de intrigas e questíunculas amorosas, isso sim. Qual é o adulto responsável e íntegro que está livre de se apaixonar por outra pessoa, de amar outra pessoa, de desamar aquela com quem vive? Por que se deve recriminar esse sentimento? O que fazer, quando algo de tão pungente acontece?
Cada um sabe de si, é a minha mais profunda convicção. Na tal dualidade desejo-realidade de que se falava este fim-de-semana à mesa de um bar, eu considero que se deve respeitar com a mesma sensibilidade os que optam por combater o desejo e ficar com o que têm e os que cedem ao desejo de ser mais felizes partindo do ninho. Desde que ambos o façam de forma sólida, estruturada e convicta. Os que ficam ou os que partem, devem fazê-lo de acordo com a sua mais profunda consciência. Não me parece que duas pessoas juntas, apenas porque têm filhos, sejam grande exemplo para essas crianças. Não me parece que estas ganhem grande coisa em viver com duas pessoas que não sabem já o que é o afecto mútuo genuíno. Mas também não me parece bem que duas pessoas que geraram outras se separem à mínima manifestação de conflito, ao menor problema, à mais ínfima contrariedade.
O que eu acho realmente errado, contudo, é viver-se eternamente infeliz, forçando a natureza em espartilhos convencionais. Se eu tivesse filhos queria que eles lutassem pela sua própria felicidade. Esta seria a lição mais importante a transmitir-lhes. Lutar pela sua felicidade de forma digna e honesta. Sem maltratar ninguém, sem atraiçoar ninguém, sem deslealdades ou hipocrisias. Mas tentaria ensiná-los a ser leais, acima de tudo, com eles mesmos. Fazendo questão de dar o exemplo.
A minha mãe sempre o fez comigo. E, se vale de alguma coisa, para os pais divorciados que choram a distância dos filhos neste preciso momento, eu, filha de pais divorciados, digo de minha justiça, por experiência própria: jamais culpei qualquer um dos dois por não viverem juntos. Jamais me senti eu culpada da sua separação. Jamais me senti diminuída. Tenho muito orgulho numa mãe que bateu com a porta a um casamento que não a fazia feliz. Tenho muito orgulho numa mãe que, ainda hoje, procura a felicidade com a mesma força e a mesma garra. Tenho muito orgulho numa mãe que não permitiu que o meu exemplo em casa fosse um casamento para Inglês ver. Que me explicou que duas pessoas só devem ficar juntas quando um sentimento maior o justifica. E que o sentimento de um pai por um filho é intocável, quaisquer que sejam as suas outras opções amorosas.

domingo, 18 de janeiro de 2009

As Asas do Desejo

Quando a loucura chega, enfim, como um bálsamo. Quando, finalmente, perdes a noção da realidade e entras numa bola de sabão, te fechas por fim numa ficção eterna e já nada mais é social, o politicamente correcto morreu como noção e respiras a verdadeira liberdade. Quando a loucura chega, enfim, e os outros escarnecem e comentam, finalmente com razão, olha ao que chegaste, coitadinha, tão funcional que ela era, pobre moça, e tu, que um dia obedeceste a regras e te preocupaste com as mentiras que se diziam a teu respeito e te diminuíam, te angustiaste com as injustiças, choraste com o desamor, agora, que todos comentam a tua triste realidade, não te revoltas mais, não pensas mais nisso, não te incomodas com o que quer que seja, a não ser com a tua mania, o teu sonho, a tua verdade. És Dulcineia, és Cassandra, és Pandora, és simplesmente um moscardo ou uma borboleta, uma árvore ou uma pedra. És uma alternativa à visão comum e ao geralmente aceite como normal.
Quando a loucura chega, enfim, como uma panaceia. Quando não sofres mais, nem te deixas medicar. Quando te entregas a mundos que não existem e não sabes já o que é a solidão. Quando já não sofres, fazes sofrer. Quando tudo na tua vida é a negação absoluta do que deveria ser.
Ontem revi “As Asas do Desejo”, do Wim Wenders, quando cheguei a casa depois de um jantar muito agradável, na companhia de dois amigos. Depois de, com eles, ter escolhido “Notting Hill” para sonhar o mesmo sonho, pela (terá sido quinta, sexta?) vez. Primeiro, a comédia romântica, depois, a filosofia feita imagem. Primeiro, a Julia Roberts “Remember I’m just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her”, depois, o anjo. O anjo que ouve o pensamento dos mortais, dos quais um é “enfim, a loucura”.
Abri os meus blogues favoritos e li-os com todo o interesse do Mundo. Alguns trouxeram-me as lágrimas aos olhos, o derradeiro cansaço, as emoções que engulo. I’m coping, remember? E almejei, de forma egoísta, a loucura. Desejei-a no corpo, na alma. A capacidade de me marginalizar do Mundo, de dar o grito do Ipiranga, de deixar de me tocar com as angústias alheias, de as transpor para a minha própria vida. O desejo de deixar de fazer análises e comparações, de olhar a minha vida pelos olhos dos outros. De passar a sentir o que não existe. De deixar de sentir o real, o que existe, a inexistência, o afastamento, a morte. A alegria dos outros. Os amores alheios. Os sucessos que não são meus.
Enfim, a loucura. Foram muitas, as conversas pela noite fora, nestes dois últimos dias. Falou-se de trabalho, falou-se de literatura, falou-se de amor, de casamento, da dualidade desejo-realidade, de filhos, de divórcio, de optimismo e pessimismo, da capacidade de mudar (achas que é possível, a mudança? Achas que é possível, educar o cérebro? – tudo é possível, quando acreditamos ser capazes. Tudo? Isso soa-me a lugar-comum, e eu detesto clichés. Tudo. É uma questão de tempo e de trabalho. Simplesmente ninguém está para isso.)
Contei-lhes o meu encontro com o médico, o meu encontro periódico com a mortalidade. E vieram as propostas, regadas a vodka laranja e tequillas sunrise, e yoga? E psicanálise? E dança? E que tal tudo junto? E chegava, então, o riso. E mudava-se de assunto, que o riso atrai conversas mais solares. E quando me via, enfim, em casa, sempre de madrugada e sem sono, que o sono pertence aos justos, sorria o sorriso de quem não tem nada, mas tem amigos. Ontem, relembrei, por exemplo, a cena do Notting Hill em que se metem todos no carro para ir salvar o amor da vida de Grant. Quem tem amigos tem tudo. A cena é hilariante, sete pessoas metidas num carro minúsculo, sete opiniões diferentes sobre o caminho mais rápido a tomar, e o condutor aos berros “Eu é que estou ao volante, eu é que decido! James Bond never had to put up with this shit!” Lindo. Um deles a sair do carro para mandar parar o trânsito. Outra de cadeira de rodas, a ser transportada ao colo pelo marido, para não perder o melhor da festa. E lembrei-me dos melhores momentos, das maiores loucuras, dos dias em que “a seita” justificava tudo.
E esta noite sonhei com um rapaz que não conheço. Sonhei com o seu olhar. Lembro-me claramente do olhar e daquele sentimento já perdido de tremor nas pernas e sorriso na alma. Lembro-me do seu rosto. E acho que foi o anjo do Wenders que o criou no meu subconsciente, que me enviou aquele rosto para me fazer adiar o desejo de loucura e alienação. Para me provar que, num tempo de desamor morno, sem sobressaltos, e ultimamente já sem decepções ou tristezas, com momentos cada vez mais raros de nostalgia, com uma atitude de profunda aceitação do vazio, para me provar, dizia eu, que o amor está sempre ao virar da esquina.
Surpreendo-me a mim mesma com o estado de apatia a que consegui chegar. Em que nem o contacto ou as notícias de amores antigos me provocam já, sequer, o mais ligeiro pestanejar. Não me lembro de outra altura da vida em que tenha estado tão desapaixonada. Talvez por isso o tal desejo de enlouquecer de vez, para não ser mais confrontada com a minha própria frieza. Mas olhando o copo meio-cheio, educando o cérebro, como dizia o meu douto amigo, talvez seja assim que se parte de forma realmente sã para a novidade. Assim, sem curar a dentada de um cão com o pêlo de outro, como sempre fiz, conscientemente ou por capricho dos acasos.
Talvez seja assim, desprendida de todas as emoções passadas, olhando para ele como um caminho de não-regresso, que possa avançar no tempo sem ter que me entregar à bênção de simplesmente, enlouquecer.
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Drummond de Andrade
)

sábado, 17 de janeiro de 2009

Hoje (parte 3) O Regresso do Rei

Para concluir, o assunto e a trilogia, que não será transformada em filme mas é, isso sim, causa de milhares de filmes todos os dias, vou então dar a minha opinião sobre o que deveria ser uma avaliação de professores mais justa. Reitero que este texto não é para ser levado muito a sério. Um modelo de avaliação coerente e eficaz é, certamente, dos documentos mais difíceis de construir. Quem o elaborar tem que pesquisar muito, tem que estudar a fundo a realidade do nosso país (isto de se querer espetar um modelo que é eficaz na Finlândia, ou nos EUA, ipsis verbis, no nosso cantinho à beira-mar plantado, é uma cretinice tão evidente que eu pergunto-me que tipo de iluminados pensa que isto é possível), tem que ter acesso à opinião dos soldados rasos sobre o assunto, tem que gerir interesses, tem que respeitar verbas disponíveis, tem que fazer listas de prioridades e objectivos. Este texto não se arroga essa intenção. Mais, lança mesmo essa questão: quem acredita que o modelo de avaliação que nos querem impingir foi fruto de um trabalho sério e demorado, ponha a mão no ar! Não foi. Foi o resultado de uma reunião em que o Sr. Primeiro-Ministro deve ter dito qualquer coisa como: há que apertar o cinto. Arranjem-me um conjunto de medidas em que o país possa poupar muito dinheiro, mas dando a ideia de que somos um governo preocupado com as grandes questões da Educação. Arranjem-me um conjunto de medidas para que a Educação deixe de dar prejuízo económico ao país ao mesmo tempo que se vira toda a opinião pública contra os que fizerem barulho por estar a ser roubados. E façam-me isso para ontem.
E o que digo eu, sem pesquisas, sem estudos, sem inquéritos, sem trabalho científico sério que justifique a minha opinião? Digo o seguinte:

Objectivos Individuais
Há três grandes sectores económicos, o primário (agricultura), o secundário (indústria) e o terciário (serviços). Qualquer coisa anda mal quando se pede a um professor, que ensina pessoas, ou a um médico, que as trata, que defina objectivos individuais, como se produzisse parafusos ou plantasse batatas. Os objectivos requeridos jamais serão individuais. Porque não depende de nós, individualmente, cumpri-los. Todas as profissões têm especificidades. Se se quer avaliar desempenhos, tem que se respeitar as características únicas da classe a avaliar, tem que se identificar os seus traços distintivos. Dizer, “eu vou ter 60% de sucesso em todas as turmas”, não é o mesmo que dizer “eu vou fabricar mais 534 papo-secos”. É que o padeiro não pode fingir que os fez. Nem os papo-secos se recusam a ser fabricados.

Avaliação Entre Pares
Quem avalia tem que saber mais que quem é avaliado. Não me perguntem onde é que isto está escrito, parece-me senso comum. Por isso, quem avalia, é quem ENSINA. Avalia se aquilo que ENSINOU foi assimilado ou não, e com que grau de eficácia. Logo aí, a avaliação entre pares é um paradoxo. O que é que o meu avaliador vai testar? Foi ele que me ensinou o que vai agora avaliar? E se eu não desempenhar bem na sua opinião, que garantias tenho eu que ele sabe mais e melhor acerca dos procedimentos, para me julgar? Que garantias tenho eu que não estou a ser influenciada pela sua ignorância, e que vou mudar os meus procedimentos de acordo com o que ele achou mal, incorrendo no risco de mudar para pior?
Teria que haver confiança, crédito, certeza de que aquela pessoa sabe mais do que tu nos parâmetros que avalia. Os seus conhecimentos teriam que ser reconhecidos formalmente de forma clara. E os ditos conhecimentos não vêm com o estatuto da titularidade, isso é mera nomenclatura, pelos motivos já expostos. A titularidade NÃO FAZ um bom avaliador.
Primeiro, os avaliadores deveriam prestar provas. Fazer exames. Demonstrar conhecimentos científicos e pedagógicos. Os que já têm. Depois, deveriam fazer formação. Um ano é o mínimo indispensável para uma pós-graduação. Que todos deveriam ter. Todos. Científica e Pedagogicamente. Depois, deveriam ser uma classe à parte. Assistir a muitas aulas. Toda a gente sabe que as aulas assistidas são teatrinhos montados para parecer bem. E ainda assim, como não produzimos parafusos, às vezes correm mal. Os alunos são, sempre, a derradeira incógnita. As aulas assistidas deveriam ser um conjunto de aulas combinadas e outras de surpresa. Isso é avaliação de desempenho. Averiguar o professor em acção no seu espaço natural, não duas ou três aulas preparadas para impressionar. As aulas que se dão sem se ter tempo para as preparar, não me venham com hipocrisias, elas existem. As aulas que se dão quando se está com uma gripe descomunal, ou não se dormiu bem, ou temos um filho doente, ou nos morreu o animal de estimação.
Os avaliadores não deveriam ser professores da mesma escola. Não devia ser possível observar aulas de amigos e de ódios de estimação. Que credibilidade tem alguém que olha para uma aula que correu mal a uma pessos de quem se tem uma opinião pessoal formada? Nenhuma. Se é um amigo, é desculpabilizado, se é alguém de quem não se gosta, é a justificação ideal para o entalar de vez. Nós, professores, temos incompatibilidades. Não podemos dar aulas a parentes directos, por exemplo. Então, porque podem os nossos avaliadores avaliar gente com quem vão jantar fora e para os copos, ou pessoas com quem mantiveram relações amorosas, ou com quem já foram casados, ou outros que não suportam porque lhes roubaram o yô-yô quando tinham dez anos, há quarenta ou cinquenta anos atrás? Porque vão avaliar eles pessoas com quem já andaram à pancada, a quem deixaram de falar, de quem dizem mal sempre que podem a quem os queira ouvir,ou por quem têm uma grande paixão, ou de quem são amigos de infância? Não. Não me venham atirar com a ética profissional à cara, todos nós somos gente. De pele e carne, sangue e cor. Não.
Os avaliadores deveriam trabalhar em equipas fora da escola. Conhecer os seus avaliados bem, mas a nível estritamente profissional. Observar os seus avaliados em acção, como se eles fossem ratos de laboratório. Eu acusei os titulares da minha escola de levarem a cabo uma avaliação que está, na teoria, suspensa. Vocês acham que eles se vão esquecer disso, do facto de eu o ter feito publicamente, de os ter deixado sem defesa possível, de lhes ter apontado o dedo, acham que isso não vai pesar quando estiverem a avaliar-me? Em que mundo? E isso significa que tenho medo de ser avaliada? Não. Significa que, à partida, a minha avaliação está comprometida por factores que nada têm a haver com a qualidade do meu desempenho quando se trata de ensinar alunos.
Conclusão (Hallehluia!!!)
Para concluir, digo: sou contra este modelo de avaliação de desempenho.
As escolas não são fábricas e a avaliação é um processo sério e difícil, demasiado complexo para ser levado de ânimo leve e legislado em cima do joelho. Requer estudo, trabalho, preparação e motivação. Requer vocação por parte de quem avalia. A vocação necessária para exercer a justiça da forma mais linear possível.
Ainda assim, este jamais será um processo completamente transparente. É impossível. Mas, por isso mesmo, jogando com tanta variável, acho que é fundamental que se definam estratégias, parâmetros e critérios que dispam o processo da maior quantidade de subjectividade possível. A maior possível E isso não está a ser feito. Por ninguém. E o erro vem de cima. Do topo.
Por isso vou fazer greve. Por isso vou lutar, até ao fim. Até poder. Até ser confrontada, de facto, como acho que vou ser, com a chantagem do “se estás mal, muda-te, muda de vida”. E aí vou quebrar, capitular, e obedecer como os outros. Porque não saberia fazer outra coisa com a mesma paixão com que estou na sala de aula com vinte seres pequeninos e barulhentos a infernizar-me o juízo mas a fazer-me sorrir.

Hoje (parte 2) A Saga Continua

Cheguei agora a casa. Belas horas... mas eu avisei, nos meus objectivos pessoais (deverei eu decalcá-los para a lista de objectivos individuais que me vão obrigar a entregar até 6 de Fevereiro?) de Ano Novo, que ia sair à noite com os amigos mais vezes... e estou a cumprir. (3 pontos na Avaliação, mais 2 e faço linha, mais 10 e faço bingo).
Para quem acabou de chegar, avance para a casa seguinte, sem passar pela partida e receber os dez euros. Este post é continuação do anterior, e acho que amanhã escrevo a conclusão, em jeito de trilogia.
Tinha ficado nas ameaças. São descaradas. Um Governo em maioria absoluta nem se dá ao trabalho de disfarçar intenções absolutistas e fala abertamente em sanções. Os executivos ajoelham. Capitulam. Alguns resistem. Mas poucos. As nossas hierarquias superiores, por nós eleitas, acobardam-se e não nos representam nem nos dão voz. Estou careca de dizer isto à minha chefe, à minha vice, ao contrário de alguns titulares que lhes sorriem pela frente, as avisam do perigo de ter amigos como eu (que as criticam em reuniões sindicais) quando depois, pelas costas, são os primeiros a apoiar denúncias anónimas para a inspecção escolar, sonhando com o dia em que vão conseguir o supremo poder de dirigir uma escola. Bem hajam os pobres de espírito, os tais que chegaram a titulares porque existem, tão somente, nas escolas, a mobilar, há anos demais, ou os outros, piores ainda, ressabiados por não serem titulares e frustrados por não terem o (ridículo) poder de mandar seja em quem for. Uns tristes, todos eles. Curtas ambições, quando a ambição máxima é uma cadeira num gabinete que os livre do contacto com os alunos que desprezam.
E, por isso, digo, de minha justiça: Li en passant o comentário de um anónimo (Qualquer-Coisa Catano) ao texto anterior. Percebi a ideia geral. Não concordo com ela. Mas não a vou rebater. Avisei, logo de início que isto é um texto pouco analítico e nada imparcial. O Sr. Catano fala com a sabedoria que lhe confere a profissão docente, que é a mesma que a minha. Não, não disse que era professor. Mas também não escondeu os tiques, ficou apresentado. E logo ali se vê, no seu comentário, em comparação com o meu, a cisão (cisões) dentro do grupo.
Arrogantes os que põem medos em casas alheias. Quem sou eu para dizer que os meus colegas têm medo de ser avaliados? Quem é o Sr Catano para dizer dos outros o que, com certeza, não afirma sobre si próprio?
Esta questão transformou-se numa comédia de costumes, caíu na mais decadente palhaçada. Sei quem sou e o que valho. A DREA, no ano passado, foi mais vezes avaliar um projecto que estou a desenvolver na escola, que as minhas orientadoras de estágio quando o fiz. Avisavam-me, às vezes, de véspera. Quando começaram a aparecer, eu nem sabia o que iam observar, o que queriam ver, quanto tempo ficariam. E foi sempre pacífico. Nunca pus entraves, nunca tremi das pernas, nunca perdi o sono, nunca pestanejei. Sei para o que me pagam, sei o que devo fazer, sei o que estou a dizer e se me perguntam algo que não sei, meus amigos, ninguém é perfeito, queimem-me em praça pública.
Jamais tive medo de ser avaliada. Venham as avaliações. Se forem más, digam-me onde posso melhorar. Não cometo os mesmos erros muitas vezes. Sou boa aluna, aprendo depressa. E sei que sou boa professora. Não sou excelente, nem sei se sou muito boa, conheço bem melhor. Mas também conheço muito pior.
E a questão que ponho, na avaliação de desempenho, é só uma: se os avaliadores não têm os ditos no sítio, para bater com a porta como deviam, por questões económicas ou de jogos de poder (que as questões de valores são claras e nenhum deles as cumpre), terão os ditos no sítio para atribuir "não satisfaz" aos amigos incompetentes? Terão os executivos, que não levantam a grimpa à ministra, os ditos no sítio para "chumbar" titulares e avaliadores? Não têm. Então eu, que sou contra esta fantochada toda, e NÃO TENHO MEDO DE SER AVALIADA, e até acho que o Bom é justo para alguém como eu, se estivermos a avaliar com isenção, digo aqui, publicamente, que se me derem Bom (que eu mereço) a mim e também derem Bom às nódoas do meu Departamento, vai haver recurso. Repito, vai haver recurso. Porque eu sou boa, e há melhores. Só que eu sei quem são. Os melhores. Os piores, não sei eu quem são, sabe toda a gente. E livrem-se de me meter no mesmo saco com eles.
Quem tem medo da avaliação, afinal?
I'll be back for part three, "The Return of the King"

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Hoje


… apetece-me falar de escola. Já sei que vai ser uma desilusão para a maior parte dos assíduos deste blogue. Para mim, é sempre, quando abro os meus blogues favoritos à procura de novidades, da publicação de uma foto, um poema, um desabafo, uma piada e trás, um texto sério sobre um assunto gasto.
Mas hoje, apetece-me falar sobre escola. Pior, apetece-me falar sobre o modelo de avaliação do desempenho docente. Não lhe vou fazer uma análise. Há textos publicados por gente séria que o faz bem melhor que eu, quer porque conhece a fundo a legislação e suas consequências, quer porque percebe de sociologia e direitos laborais, quer, muito simplesmente, por estar fora do sistema, não ser político ou professor, e ter, por isso, uma isenção que eu nunca terei.
Vou escrever um texto parcial. Preconceituoso. Rotulado. Intolerante. Politicamente incorrecto. Manipulador. Interesseiro. Incómodo. Criticável. E, por isso, absolutamente genuíno. A minha opinião sincera sobre este assunto.
Quando ouvi falar, há muitos anos atrás, em avaliação do desempenho, fiquei literalmente feliz. Por um milésimo de segundo. No milésimo seguinte, pensei… isto vai dar uma bronca de todo o tamanho.
Num Mundo perfeito, ou numa sociedade aceitável, não haveria nada mais justo que premiar a competência através da progressão da carreira. Acontece que nós não estamos em nenhum desses casos.
Quando ouvi falar em avaliação, pensei que seria muito interessante que os colegas que eu admiro fossem premiados. Gente que dá o litro. Gente que pensa muito na melhor forma de ensinar os miúdos. Gente que tenta ser original quase todos os dias. Gente que sabe a sério do que fala. Gente que os alunos temem mas adoram. Gente que dá más notas, se for preciso. Gente que faz participações disciplinares ao mínimo desrespeito. E há muita gente assim. Tanta que não cabe em cotas. Por isso sou contra elas. Pelo menos, na teoria.
Quando ouvi falar em avaliação, pensei que seria muito interessante que os colegas que eu desprezo fossem postos no seu devido lugar. Gente que não faz nenhum. Gente que devia estar em casa, com um atestado por doença mental e é obrigada por um estado hipócrita, a ir para as aulas dizer baboseiras. Pôr alunos a jogar cartas. Fazê-los passar noventa minutos a copiar textos e listas de vocabulário para os manter caladinhos. Falar da sua vida pessoal. Dizer mal dos colegas e dos antecessores que não ensinaram nada. Gente que não tem vocação nem vontade. Gente que nem sequer gosta ou compreende crianças e adolescentes. Gente autoritária que descarrega as suas frustrações na parte mais fraca. E também há dessa gente aos magotes. Para esses, não há cotas. Logo, sou contra as cotas. Pelo menos, na teoria.
Havendo cotas, não deveriam abranger todas as excepções à regra? Porque a senhora ministra defende que as cotas não são uma medida economicista. Nesse caso, são o quê? Dizer que numa escola em que há cinco pessoas excelentes, só duas podem ser assim avaliadas é o quê? A avaliação não se quer um processo justo e isento? Que justiça têm as outras três?
Adiante. A reforma na avaliação foi legislada, e os docentes sublevaram-se. Tardiamente, no meu ponto de vista. Porque antes de se legislar a avaliação, dividiu-se a classe em duas partes. Os titulares e os outros. E, pasme-se. Quem vai avaliar a maioria dos colegas são professores que nunca deram provas da sua própria competência. Chegaram a Titulares por Passagem Administrativa, aquele 10 que depois do 25 de Abril tanta gente obteve. Uns que mereciam 18. Outros que não passsariam nunca do 5. Estão a ver onde quero chegar?
E se há titulares irrepreensíveis, também os há deploráveis. Todos rotulados pela mesma bitola. A maior parte deles, se não todos, avaliadores de pares. Como já disse, no meio da minha atitude desbocada e irresponsável, ouço e vejo muita coisa. E não só na minha escola. Vejo titulares arrependidos de terem concorrido ao lugar porque “agora têm muito trabalho”. Vejo titulares que parecem pavões armados porque, com certeza, nem eles próprios nunca pensaram que com o pouco que sabem e o menos que fizeram toda a vida, algum dia chegariam a ser importantes. Essa importância que agora, que continuam a não saber nadinha, mas a trabalhar um pouquinho mais, toda a gente lhes dá. E vejo titulares profundamente desagradados com o novo estatuto, e muito desconfortáveis por ter que avaliar colegas. Muitos deles com mais habilitações. Outros com maior vocação. Outros, uma completa nódoa. E esses titulares, os humildes, são, sempre, os que mais sabem, os que mais trabalham, os que mais deram e dão à nossa classe.
Os professores manifestaram-se em massa. Fizeram greve em massa. Assinaram moções em massa. O Governo está autista. A avaliação, ao que parece, continua. Sucedem-se ultimatos, chantagens e ameaças. Não me parece bem. Não me parece mesmo nada bem.
(agora vou sair, mas este post chatíssimo ainda não acabou.Cá voltarei)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Grey's Anatomy, III

RTP 2, 4ª temporada. A missa das terças à noite. Imperdível. Ou vês, ou não comungas.
Hoje o verbo inglês que me ocorre, perante o episódio que se me depara é "cope". Significa "lidar com um assunto". Encaixar. Arranjar uma alternativa positiva. Desenrascar. Resolver o assunto e andar para a frente. Cope. É o verbo dos sobreviventes, dos corajosos, dos intervenientes. Burke deixou Christina no altar e pediu a demissão, desapareceu. Perguntam-lhe como está. "Fine". She's coping. Meredith foi acusada de ser responsável pela morte da madrasta, descobriu que a irmã é uma das novas internas. Uma irmã que ela não conhecia. Terminou tudo com Derrick. E como é que ela está? "Fine". She's coping. E a Izzie... perdeu o Denny, apaixonou-se pelo melhor amigo, que entretanto está casado, e não lhe fala, por culpa, por estupidez masculina, por... quê? E como está ela? "Fine", She's coping.
E, não me lixem, eu sei. Eu sei que é uma série, eu sei que não é real, mas caramba, até assusta.
Acaba sempre tudo como não acaba na vida real, eu sei: Afinal o George não fala à Izzie porque a ama a ela, e não à mulher com quem casou. Até aí, pacífico. Mas aparece em casa dela para lho dizer, olhos nos olhos. Pois, é uma série. Afinal o Derrick e a Meredith transformam uma separação numa despedida sem fim. Pacífico, é apenas uma série. Afinal a Christina... a Christina é um caso à parte. É a personificação do suspension of disbelief.
Mas esta gente ensina-me, pelo exemplo ficcional.
Queria ser livre ancorada em ti. Jamais o serei. I'm coping. Gostaria que me mostrasses o mundo real depois de me teres apresentado todo o Universo num breve sonho teu. Mas vives agora em permanente vigília, não sonhas mais. And I'm coping. Queria que me dissesses as deixas que invento para a nossa peça de teatro em milhares de actos, que escrevo de olhos fechados, no escuro, à noite. E não me ofereces mais que o silêncio. And I'm still coping. Queria poder virar a mesa numa reunião sindical, e ter ao lado alguém que partisse os pratos que restassem inteiros, e o que encontrei foi quem levantasse a mesa e arrumasse a sala. And I go on coping. Ambicionaria um mundo em que as minhas verdadeiras amigas, aquelas a que posso dizer tudo, incluindo que estão erradas, sem que daí advenham constrangimentos de parte a parte, morassem no meu prédio. E elas moram longe. And I insist on coping. Queria o cheiro da minha mãe aqui em casa, e o meu médico na mesma cidade, para não apanhar sustos que demoram o tempo de uma viagem infernal a passar. And, even though, I'm coping.
E se me perguntarem, I'm fine.
Simplesmente sei que ninguém aqui me conhece suficientemente bem para responder "You always are. And that's precisely your problem." Como o Derrick sobre a Meredith, personagens fictícias de uma vida tão real.

Correntes da Amizade

Quem se familiariza com a blogosfera, cedo começa a receber aquilo a que, no domínio dos mails, se chama "correntes da amizade", e entre bloggers se dá o nome eufemístico de "desafios". O princípio é o mesmo, excluindo o facto (decadente) das cadeias da amizade mexerem com as superstições das pessoas e mandarem verdadeiras maldições, do género, se não reenviares esta mensagem em três segundos a três mil amigos, tudo na vida te vai correr mal a partir de ontem. E digo que o princípio é o mesmo porque uma pessoa que recebe um desafio se sente, eticamente, obrigada a cumpri-lo, porque esse convite demonstra interesse por parte do blogger amigo na tua resposta, e um escritor que se preze gosta de não decepcionar, de estar à altura.
Tenho visto, no entanto, coisas muito giras propostas. A nova moda são as listas. As listas, por exemplo, de "Eu já..." e de "Eu nunca...". É sempre uma boa desculpa, pelo menos, para um dia de falta de inspiração. Contudo, depois de ler algumas destas listas, suspiro, reduzo-me à minha insignificância, e não me atrevo a publicar a minha. Porque há gente da minha idade, com listas de "Eu já..." completamente imbatíveis, tipo, "Eu já entrevistei as Spice Girls" ou "Eu já virei as costas ao Herman José" ou "Eu já publiquei um livro que vai na oitava edição". E eu sinto-me muito invejosa e pequenina.
A Carolina lembrou-se, no entanto, de uma lista deliciosa. E essa foge ao espírito competitivo existente em cada um de nós. Chama-se, "eu pensava...", e é uma enumeração de ideias que o tempo, a idade, as decepções e as surpresas foram esbatendo. Aqui vai a minha.
Eu pensava que o verdadeiro amor seria sempre correspondido.
Eu pensava que o amor justificava tudo.
Eu pensava que toda a gente queria ser feliz.
Eu pensava que os fins não justificavam os meios.
Eu pensava que os valores e os ideais se sobrepunham a todos os outros interesses do Mundo.
Eu pensava que os professores serviam para ensinar os alunos.
Eu pensava que com 33 anos seria casada e mãe de filhos.
Eu pensava que as mulheres da minha geração não seriam mais machistas que os homens.
Eu pensava que os homens da minha geração se bateriam pela igualdade de oportunidades com as mulheres.
Eu pensava que tinham acabado os casamentos por conveniência no Mundo Ocidental.
Eu pensava que os amigos podiam dizer tudo o que pensam uns aos outros.
Eu pensava que tinha nascido num país democrático.
Eu pensava que o 25 de Abril queria dizer que o nosso povo não aceitava despotismos.
Eu pensava que os políticos representavam os eleitores.
Eu pensava que quem manda sabia mais que quem tem que obedecer.
Eu pensava que a justiça se sobrepunha às embirrâncias e questíunculas pessoais.
Eu pensava que a solidariedade era uma questão de princípio e não de quintais.
Eu pensava que a avaliação de professores estava suspensa na nossa escola.
Eu pensava que quem tem razão vencia discussões.
Eu pensava que bastava ser competente para se subir na carreira.
Eu pensava que não nevava no litoral.
Eu pensava que todos os adolescentes iam sempre gostar de Inglês.
Eu pensava que as boas pessoas eram sempre recompensadas.
Eu pensava que jamais iria fumar.
Eu pensava que iria viver para sempre em Lisboa.
Eu pensava que toda a gente pensava como eu.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Direito ao Contraditório

Em maré de KNUT também a nível da auto-estima, hoje respondo assim a atitudes que não me agradam, a palavras que não mereço, a pessoas que se regojizam em me ver assim-assim e se irritam solenemente quando me sinto bem. É daqui que vêm comentários mesquinhos, águas na fervura da alegria, vozes do anti-climax:





E cada estrunfe que enfie o respectivo barretinho branco.

Secrets

Todos nós temos segredos. Melhor, todos nós somos segredos. Ainda melhor, todos nós não sei, mas falo muito confortavelmente por mim. Há quem diga que sou um poço sem fundo que faz muito eco. Adoro esta frase, o pormenor do eco, que me transforma abruptamente duma pessoa de confiança numa nulidade em questões de subtileza. Não vos digo se corresponde à verdade, será (mais um) segredo.
Mas a verdade é que, acusada de me expor em demasia neste blogue, sorrio abertamente. Acusada de ser uma língua de trapos, quase solto uma gargalhada. Isto porque, no matter what, continuam a escolher-me como confidente privilegiada. Os meus colegas pasmam: “já sabias?”, “como é que sabes isso?”, “mas tu sabes tudo?”. Não. Ouço muito. Vejo muito. Somo dois e dois e não sou das que se surpreendem quando o total é cinco. E tenho telhados de vidro. Há coisas muito minhas que nem às paredes confesso. E, daí, talvez não, talvez, afinal, confesse tudo.
Porque não é que me envergonhe. Não é que tenha esqueletos a apodrecer no armário. É que eu acho que a maior beleza de um ser humano é a capacidade de surpreender. Pela positiva, claro está. Por isso guardo segredos tempos infinitos para os desvendar depois a alguns (que considero) privilegiados. Acho, agora que penso nisso, que não há um segredo meu que ninguém saiba. Todos eles estão partilhados, simplesmente estão partilhados com pessoas diferentes. A um confessei isto, com outra partilhei aquilo, com aquele vi isto, com aqueloutro vivi clandestinamente aquilo, àquela mostrei um outro pormenor guardado, à outra contei uma história já quase esquecida. Ninguém sabe tudo sobre mim, nem eu. Mas reservo-me o direito de ninguém saber mais de mim que eu mesma. E assim, a par dos segredos revelados, vou lançando boatos duvidosos a meu próprio respeito.
É nos segredos partilhados que multiplicamos cumplicidades. Às vezes, esses segredos residem em desabafos que esperamos que as pessoas não repitam em público. Mais uma vez, lá está, não porque sejam mentiras, nem porque sejam humilhantes. Simplesmente, porque não há nada mais belo que a cumplicidade. E matá-la numa mesa de café, à frente de tanta gente, é um pecado maior que simular verdades que não existem. Tenho muitos segredos. Tantos quantos os confidentes cúmplices que vou escolhendo a dedo, e encontrando nos sítios mais inusitados.

Warning

Avisam-se os leitores mais distraídos, avisam-se os leitores mais preguiçosos, avisam-se os leitores mais apressados, e também os mais desligados, avisam-se os mais cépticos, os mais perdidos, os mais ingénuos e inocentes, os mais descrentes das minhas capacidades geniais, que há fotografias e poemas em rodapé neste blogue, depois dos posts. Apre!
(anda um guru das novas tecnologias a oferecer diamantes aos leitores para eles dizerem, ah, não vi...havia mais? Pérolas a porcos, jovens, pérolas a porcos é o que eu vos digo, sem insulto à classe suína...nem aos doutos e distraídos visitantes!)

domingo, 11 de janeiro de 2009

Não Sei

Não sei se foi por ter passado tanto tempo a seleccionar fotografias e a atribuir-lhes títulos mais ou menos criptados para vos oferecer. Não sei se foi por ter vestido a pele do eremita e me ter recolhido à gruta um fim-de-semana inteiro. Não sei se foi por ter mergulhado nas palavras de Auster durante mais tempo do que aquele que dispendi nessa actividade nos últimos meses largos. Não sei se foi por ter feito greve ao trabalho escolar que me estupidifica e me diminui nove em cada dez vezes. Não sei se foi por me ter perdido nas palavras dos meus poetas favoritos, tão sensíveis como sábios. Não sei se foi pelo resultado final, em que olho, com prazer e ternura, para este blogue, que cada vez mais tem a "minha cara" e é a "minha casa". Não sei se foi por este fim-de-semana, no meio de tanta imagem tão cara e significante, e tanta palavra, tão sentida e significativa, me ter lembrado com tanta força do que é ser verdadeiramente feliz. Não sei se é por ter sentido determinada companhia como um espectro amigo aqui ao lado, a olhar por cima do meu ombro e a sorrir com as minhas escolhas. Não sei.
Só sei que estou muito satisfeita comigo própria. E esse é um estado raro. Mas delicioso.

A partir de agora...


...ninguém me pára.

Domino.
Já domino os segredos da importação de imagens. Já sei fazer alguma coisa mais com as novas tecnologias no âmbito do meu cantinho. É, definitivamente, época de KNUT. O livrinho amarelo de reclamações deste serviço público estava cheio de resmunguices de leitores preguiçosos: ai, e tal, os teus textos são muito grandes e não têm bonecos. Pronto, calem-se. Agora já têm ilustrações. Mas explicaram-me, no estágio, que as imagens têm sempre que ser ilustrativas do tema tratado. Por isso, escolhi esta. Porque, como disse ontem, e hoje continua a ser verdade, gosto de raios ténues de luz e esperança por trás das nuvens. Gosto, pronto. E hoje fico por aqui, para o post ser curtinho.
Qualquer dia, quem sabe?, até vos pasmo com a publicação de um... vídeo! Mas hoje já estou demasiado convencida e presunçosa com as minhas novas skills...

sábado, 10 de janeiro de 2009

Gosto

Gosto de dias como o de hoje.
Gosto de amanheceres solarengos depois de semanas a fio chuvosas. Gostos de dias que iniciam novos ciclos, de dias em que, por trás das nuvens, despontam raios ténues, mas multicolores, de esperança e optimismo.
Gosto do sorriso esboçado num rosto ainda húmido de lágrimas. Gosto de dias em que tenho o privilégio de, com um frio polar lá fora, poder ficar em casa sozinha. Sozinha como eu detesto, mas a única condição dos homens verdadeiramente livres.
Gosto de me poder dedicar às minhas grandes paixões. De estar com a televisão a trabalhar baixinho, um murmúrio em pano de fundo, a enganar a falta de companhia, enquanto leio palavras hipnóticas de Auster, enquanto pesquiso novos poetas na Net, enquanto me mimo com um Cappucino quentinho, enquanto descubro novas palavras para vos oferecer aqui, noutra das minhas muitas moradas.
Gosto de dias em que, perdida nos meus pensamentos, descubro com surpresa que nem todos são sombrios. Que há recordações que me fazem sorrir, sonhos que me fazem lutar, desejos que ainda me fazem tremer.
Gosto de estar assim, como tenho estado hoje, completamente perdida sem bússola no seio de mim própria, habitando o canto invisível do quarto fechado, olhando para mim como se estivesse de fora, ao longe, quando de facto estou a observar-me de dentro, e a distância não existe.
E consola-me ver que, olhada de dentro, não estou afinal só. O meu quarto fechado e isolado é, também, um quarto apinhado, e os rostos dos que lá descansam e tomam um chá quente comigo, nesta vaga de frio que nos assola, esses rostos são belos. Tão belos que cada um deles enche o quarto inteiro. E esse consolo, o verdadeiro consolo, é tudo o que é preciso para pôr um pé à frente do outro com firmeza, ao longo da caminhada.
Gosto das dualidades. Gosto do hoje, em que as palavras se sucederam aos silêncios, a companhia à solidão, a leitura à inércia, a música ao dissonante e o sentido ao caos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A Escola perdeu Glamour

É a segunda vez que isto acontece este ano. Mais uma do núcleo duro é destacada. O motivo é bom e feliz, as consequências, nem tanto. Claro que estamos todos a torcer por ela. Claro que estamos todos contentes por saber que vai finalmente para uma escola perto de casa, que vai para junto dos seus, que vai poder normalizar a sua vidinha, que vai deixar de ser nómada, sempre cá e lá, sempre de trouxa às costas.
Mas a escola perde, pela segunda vez este ano, glamour. Desta vez, ainda mais, já que perde a sua professora mais bonita, um incontestável número um no ranking de beleza das mulheres lá do sítio. Por causa dela, a nossa escola sempre foi conhecida por ter "professoras muito giras". Mesmo nas outras escolas, invejosas.
Os nossos alunos estão inconsoláveis. Primeiro a PêloRusso, agora a nossa Miss. Proponho, já que os nossos meninos (os nossos meninos são os professores do sexo masculino), estão a pensar passar ao papel o ranking feminino de mulheres lá do sítio, proponho que o número um fique em branco. Ou continue lá o nome dela. É verdade, eu não me importo de não subir um lugar. (No meu caso, mais lugar menos lugar é indiferente). Só para perpetuar a presença e consolidar ad aeternum o mito. Porque ela merece.
A MissCovilhã fazia parte de um núcleo duro de Gajas com G maiúsculo, de Gloriosas, do qual eu me orgulho de fazer parte, e que está cada vez mais reduzido. Entrámos cinco, ficaram quatro, depois entraram mais duas, e perdemos outras duas. As três ausências notam-se. São recordadas diariamente. Há poucos dias que passem em que não falemos na meia-leca que me ia matando quando atirou com o carro contra um muro à entrada do Algarve, ou na outra cara linda com um olho de cada cor, muito dada ao país irmão e que corava até à raiz dos cabelos. Poucos dias nos restam naquela escola, mas estou certa que não deve haver um que passe sem se falar na MissCovilhã, com as suas peculiaridades, os seus sapatinhos bicudos, o seu sentido de humor escarninho e relativa boa disposição permanente. Mais uma que nos deixa a todos um bocadinho mais vazios.
Vai-se embora com uma pochette nova e um postal cheio de palavras carinhosas. Vai-se embora e deixa os nossos meninos a suspirar de saudades. Vai-se embora e deixa muitos alunos em pranto, e uma turma sem Directora. Vai-se embora e deixa um grupo de cinco mocinhas que gostam de comer crepes e tostas mistas ao fim da tarde em esplanadas, reduzido a quatro. Vai-se embora e, pela terceira vez em três anos, e a segunda este ano, para um grupo restrito que fica, nunca nada vai voltar a ser igual. O riso, agora, já vai acontecer fruto de memórias cristalizadas. Parece que a estou a ouvir, de olhos muito abertos, a dizer de um colega, de forma muito espontânea e um tom de voz que nós as (outras) quatro já imitamos na perfeição "Ai, que ordinarão!!!"
A MissCovilhã vai-se embora ter uma filha. Mas deixa deste lado muita gente orfã da sua presença.
Repito uma parte do que lhe escrevi no postal: Muitas felicidades, e muito saldo no telemóvel.
E um permanente Até já.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Princesas da Disney

Ele há dias... como o de hoje. Correm mal com os alunos. A malta chateia-se a sério com eles e ainda sai da sala a sentir-se culpada. A culpa é um sentimento venenoso. Especialmente quando, no fundo, sabemos que não há motivo para tal. Ou se há, é perfeitamente compreensível. Mas eu sou uma pessoa que tem tendência para se sentir culpada do facto de ter nascido. Sinto-me culpada apenas por dois motivos: 1- Por tudo; 2- Por nada.
E irrita-me esta culpa, porque estou sempre a desculpabilizar os outros. Pelo menos aqueles de quem gosto. Isto só pode significar que gosto mais dos outros que de mim, certo? Enfim, adiante.
Saí de duas aulas chateadíssima com os gaiatos. Depois pensei, será que eles têm razão, que não foram piores que o costume, que estou apenas mal-disposta e com falta de pachorra e descarreguei neles? Depois atrofiei, perdi o sorriso, senti-me falhar.
E apeteceu-me vir para casa, e não falar com ninguém. Vir para casa chatear-me ainda mais, basicamente, com umas leituras que queria fazer e sabia que me iam aborrecer sobremaneira. Acontece que ontem tinha desmarcado um jantar em casa da S., por estar exausta à hora que tinha que lá ir ter, e não tive coragem de voltar a desmarcar o dito compromisso. E lá me arrastei. E foi o melhor que fiz. Claro que a minha sobrinha estava imparável, como de costume. Como lhe ofereci de presente um perfume das Princesas Disney (e, pormenor importante, não dei nada ao irmão mais novo), ganhei a honra de jantar com a coroa que lhe fizeram na creche pelo dia de reis, uma cartolina cheia de lantejolas coladas (o que eu gosto de lantejolas não vem nos livros), enfiada na tola. E depois do jantar ainda permiti que ela me pintasse as unhas de uma mão com um verniz de criança cheio de purpurina, me pintasse os lábios com um gloss que sabia a fairy (já provaste fairy, foi? grasnava a S. a gozar o pratinho, sabendo que com crianças presentes não digo palavrões) e sei lá mais o quê que a pirralha inventou para me transformar em Barbie, ao som do CD das Just Girls. Ah, pois, já sei, encheu-me de perfume das Princesas Disney (não experimentaste na loja, pois não?) e da Pucca (experimenta lá este, dá cá o teu pescoço...)
E enquanto o surreal acontecia, eu pensava, se os meus colegas de escola me vissem agora, não iam acreditar. Nem eu sei bem se acredito no que me está a acontecer...
Cheguei a casa feita num espantalho, mas livre de culpas. Não, não sou má pessoa. Até sou super querida. Um doce, mesmo. Mas só na presença da minha princesinha de quatro anos. A culpa é uma coisa estúpida, quando não tem razão de ser. Foi uma menina pequenina que me ensinou isto hoje.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Ano Novo,... Mudanças, népias.

A Gaja, a dada altura de um comentário que escreveu a um post meu aqui do blogue, dizia, “Se estou a ler um livro, quero ver televisão, se estou a ver um filme já não é bem o filme e eu ia mas era dormir, se estou a comer já me aborrece e eu ia mas era beber café, se estou a beber café, já não é bem o café e eu ia mas era fumar, se estou a fumar, ai que eu vou deixar de fumar de uma vez por todas....e por aí fora...”. Gosto muito da maneira como esta moça trata os assuntos. Para já, tem uma qualidade que me deixa completamente desarmada, que é o sentido de humor. Pessoa que me arranque um sorriso é-me simpática; pessoa que me faça rir é-me completamente empática. O riso é o pai das afinidades supremas. Qual primeira comunhão, qual segunda, comunhão a sério, divinamente humana, é um par de loucos a rir-se da mesma coisa. E se mais ninguém se rir, então, é meio caminho andado para uma cumplicidade sem limites. E a Gaja faz-me rir. Faz-me rir até quando está piursa, temos isso em comum porque, dizem os meus amigos, não há nada mais hilariante que eu furiosa.
Concordo, Gaja, somos as eternas insatisfeitas. Adoro ler, ver televisão, vegetar em frente a um filme, comer, tomar café e fumar, parece é que adoro mais cada uma dessas coisas quando penso, olha agora apetecia-me… do que quando estou, de facto, a fazê-las.
Hoje foi mais um dia a cem à hora. OK, esta imagem está desactualizada, isso era quando eu era miúda, agora é a duzentos à hora. Dormi três horas, o que antecipava um primeiro dia de aulas, no mínimo, aterrador. Mas não. Apesar disso, andei todo o santo dia ligada à ficha, insuportável, com uma energia irritante, sempre a falar pelos cotovelos e em voz alta, a dizer parvoíces e a correr de um lado para o outro, a conversar e a rir-me com os alunos e com os colegas, enfim, chata que só visto. A meio da tarde dizia a uns amigos, vocês mandem-me calar, cacete, que já nem eu me suporto… se isto hoje está assim, amanhã promete… vou estar com uma cachola que é melhor nem me darem os bons-dias.
Claro. A minha preocupação HOJE, no auge da boa-disposição, era a tola com que vou estar AMANHÃ. Há coisas que nunca mudam…

sábado, 3 de janeiro de 2009

E querer muito é poder

Hoje o dia passou devagar, comigo sempre um passo à frente, como de costume. Arrastou-se atrás de mim. Deitada, pensava que tinha que me levantar. Em Lisboa, pensava que tinha que me fazer à estrada. Na estrada, só me queria ver em casa. Agora, que aqui estou, só penso que não tarda tenho que me ir vestir para ir ao espectáculo de Gospel que quero, há tanto tempo, ver, e já dava por perdido.
A maioria dos meus dias é assim. Mentalmente, vivo num tempo paralelo ao que passa. Um pouco mais à frente ou muito, muito atrás, perdida noutras dimensões. E sei que isso não é bom ou saudável, mas não consigo evitar.
Por isso, hoje, para me sentir normal e fazer o que as pessoas normais fazem, deixo aqui algumas resoluções de Ano Novo. Seja lá isso o que for, o Ano Novo. Aliás não são resoluções, são objectivos.
Quero fumar menos;
Quero sair mais de casa com os meus amigos (e vou começar já hoje);
Quero ler mais livros;
Quero trabalhar menos para a escola e mais para os alunos;
Quero escrever a minha dissertação de mestrado, mesmo que vá fora de prazo e já não a defenda em tempo útil;
Quero entrar para o ginásio;
Quero ir mais vezes a Lisboa;
Quero apaixonar-me, embora já não me lembre como é que isso se faz;
Quero ir à discoteca dançar, nem que sejam só duas ou três vezes o ano inteiro;
Quero voltar a ter noites de copos;
Quero voltar a ter noites de Póker de Dados;
Quero ir jantar fora mais vezes por motivo nenhum;
Quero ir mais vezes ao cinema (esta é fácil…);
Quero viver mais tempo no presente;
Quero continuar a escrever muito;
Quero ser muito mais positiva, mas acho que tudo o resto que quero vai ajudar a isso.
Quero acabar o ano a sentir-me viva. E já agora útil. E também bonita. E, se não for pedir muito, semi-realizada. Pronto.