Num post de ontem, um blogger amigo meu desabafava as culpas de um divórcio.
Como sou solteira, e filha de pais divorciados, este é um assunto de que posso falar apenas de modo indirecto. Do ponto de vista da filha. Ironicamente, do ponto de vista da causa maior da culpa parental.
Não conheço muita gente a sentir-se culpada por um divórcio sem filhos. Quando assim o é, suponho que a separação venha como um alívio ou uma benção, dado que acredito piamente que duas pessoas que um dia se casaram, o fizeram a pensar que seria para toda a vida, jamais adivinhando o inferno que essa decisão poderia trazer, num futuro mais ou menos próximo. E quando o divórcio se dá, enfim, deixa o gostinho amargo de um projecto que foi por água abaixo, deixa a frustração, deixa mágoas, mas não deixa arrependimentos. O arrependimento, aí, vem do momento em que se decidiu casar.
A culpa surge, sempre, quando há filhos. Numa das conversas madrugada dentro que pautaram o fim-de-semana, outro amigo meu dizia que é preciso separar, nas mentalidades, a separação de um casal da separação dos "pais". E que os "pais" jamais se deveriam separar. Isto é, deveriam fazer ver aos filhos que a sua separação enquanto casal não poderia ser encarada como a demissão de um deles enquanto pai. E isto não é fácil, já que as crianças não podem viver em comum com ambos. Terão que habitar apenas com um dos dois. E as pessoas tendem a projectar os problemas que têm com o ex-cônjuge na prole. Entrar em esquemas vingativos, em chantagens baratas, em guerras em que os filhos são usados como soldados por uma das partes contra a outra.
Deveria sentir-se culpado todo o adulto que, num processo de ressabiamento, age como uma criança, prejudicando quem deveria amar e pôr acima de intrigas e questíunculas amorosas, isso sim. Qual é o adulto responsável e íntegro que está livre de se apaixonar por outra pessoa, de amar outra pessoa, de desamar aquela com quem vive? Por que se deve recriminar esse sentimento? O que fazer, quando algo de tão pungente acontece?
Cada um sabe de si, é a minha mais profunda convicção. Na tal dualidade desejo-realidade de que se falava este fim-de-semana à mesa de um bar, eu considero que se deve respeitar com a mesma sensibilidade os que optam por combater o desejo e ficar com o que têm e os que cedem ao desejo de ser mais felizes partindo do ninho. Desde que ambos o façam de forma sólida, estruturada e convicta. Os que ficam ou os que partem, devem fazê-lo de acordo com a sua mais profunda consciência. Não me parece que duas pessoas juntas, apenas porque têm filhos, sejam grande exemplo para essas crianças. Não me parece que estas ganhem grande coisa em viver com duas pessoas que não sabem já o que é o afecto mútuo genuíno. Mas também não me parece bem que duas pessoas que geraram outras se separem à mínima manifestação de conflito, ao menor problema, à mais ínfima contrariedade.
O que eu acho realmente errado, contudo, é viver-se eternamente infeliz, forçando a natureza em espartilhos convencionais. Se eu tivesse filhos queria que eles lutassem pela sua própria felicidade. Esta seria a lição mais importante a transmitir-lhes. Lutar pela sua felicidade de forma digna e honesta. Sem maltratar ninguém, sem atraiçoar ninguém, sem deslealdades ou hipocrisias. Mas tentaria ensiná-los a ser leais, acima de tudo, com eles mesmos. Fazendo questão de dar o exemplo.
A minha mãe sempre o fez comigo. E, se vale de alguma coisa, para os pais divorciados que choram a distância dos filhos neste preciso momento, eu, filha de pais divorciados, digo de minha justiça, por experiência própria: jamais culpei qualquer um dos dois por não viverem juntos. Jamais me senti eu culpada da sua separação. Jamais me senti diminuída. Tenho muito orgulho numa mãe que bateu com a porta a um casamento que não a fazia feliz. Tenho muito orgulho numa mãe que, ainda hoje, procura a felicidade com a mesma força e a mesma garra. Tenho muito orgulho numa mãe que não permitiu que o meu exemplo em casa fosse um casamento para Inglês ver. Que me explicou que duas pessoas só devem ficar juntas quando um sentimento maior o justifica. E que o sentimento de um pai por um filho é intocável, quaisquer que sejam as suas outras opções amorosas.

