sábado, 22 de novembro de 2008

Diz-me o que mereces...

Passei o serão de Sexta-Feira muitíssimo bem acompanhada, e a dedicar-me a uma das minhas actividades favoritas, se não a número um do top: deitar conversa fora. As conversas que tenho partilhado com os meus amigos são o melhor que guardo destes últimos tempos. Ou porque regadas a bom vinho tinto e acompanhadas de carne grelhada, ou porque enfeitadas de chávenas de café e chá a esvaziar lentamente, ou porque salteadas de papéis e écrans de portátil, geram sempre grandes sorrisos, sonoras gargalhadas ou lágrimas catárticas. São plenas de emoções e segredos, de piadas cáusticas e corte e costura, de muitos palavrões e muita poesia. Fala-se sobre música, cada vez mais. Sobre filmes, os nossos e os dos outros, os que se viram, os que se fizeram e os que nos incluíram como figurantes ou personagens mais ou menos secundárias. Matam-se e enterram-se em vida pessoas do passado e do presente, recuperam-se e ressuscitam-se outras, acarinham-se muitas, devastam-se inúmeras, dão-se opiniões válidas, advoga-se o diabo outras tantas vezes. Conversar é bom. Conversar é tudo. É mais que agir, a palavra tem poder.
Ontem desfiou-se então um rosário de palavras, com a minha opinião feminina em confronto pacífico com a dele, perturbadoramente masculina. Pensam de forma tão diferente, os dois sexos. E tão complementar que quase parece milagre.
Começou-se pela análise da semana, eu, Moura Guedes, ele, Pulido Valente, o tema, o mesmo, a escola, os colegas, as atitudes, o desânimo. Passou-se para a falta de tempo “temos falado pouco, pá, esta greve da Função Pública hoje calhou que nem ginjas” com os gaiatos a ir para casa por falta de condições logísticas e os professores a ficar, para cumprir horário, trabalhar um pouco no tempo livre inesperado e, claro, conversar bastante, reunidos durante um pouco mais de tempo que os intervalos instantâneos e prontos-a-servir, que boicotam qualquer espécie de interacção mais íntima que não seja discutir assuntos de trabalho prementes e trivialidades.
Depois a longa conversa evoluiu, como sempre entre nós, para assuntos do foro privado. Por mais que falemos das nossas vidas, conseguimos sempre surpreender-nos mutuamente com novas revelações ou detalhes, e filosofamos alegremente noite fora sobre os mais variados assuntos, comigo quase sempre a dizer, espera aí um instantinho que eu vou à bomba comprar tabaco e já venho. Ontem, a meio de uma conversa cujo tema já esqueci, ele sai-se com a frase “O que é isso de merecer? Não és tu aquela que tão bem fala dos acasos e neles acredita mais que em Deus? Ninguém merece nada. As coisas simplesmente acontecem”. E eu, eh lá… fui agarrada. De facto, nunca tinha visto a coisa por esse prisma. E disse, espera aí, que nunca tinha pensado nisso. Preciso de tempo para reflectir. E ele riu-se, e mudámos de assunto.
E aqui estou eu, a tentar perceber onde se encaixa o “Cada um tem o que merece” na rede de acasos que eu assumo como realidade da existência humana. E a resposta é simples, como simples são todas as epifanias que vamos coleccionando ao longo da vida. Tudo o que é verdadeiro é descomplicado. E a resposta é “Não encaixa”, e vai mais um lugar-comum borda fora.
Nada do que nos acontece neste caminho que trilhamos sós (uma frase de Picasso diz que nós somos a única pessoa que nos vai acompanhar a vida inteira, não é elucidativo da condição humana?) é merecido. Nada do que se nos depara é prémio ou castigo. Pouco nesta vida se resume à famosa dualidade de causa-efeito, qualquer consequência dos nossos actos é por demais imprevisível. Esforçamo-nos por trabalhar com toda a disciplina e o computador ganha um vírus que manda tudo para o cacete. Damos todo o amor do mundo a alguém que nos trai. Não fumamos e praticamos exercício físico e eis que surge um cancro no pulmão. Passamos a vida a ajudar os outros e quando precisamos de alguém está toda a gente ocupada. E digam-me, isto é para castigar quem, se fizemos tudo sempre certo? Depois há o reverso da medalha: não estudamos puto e temos uma nota brilhante. Fumamos e bebemos que nem desvairados e morremos aos noventa e muitos, pacificamente, durante o sono. Temos montes de amantes e nunca contraímos SIDA. Passamos a vida a tratar toda a gente abaixo de cão e encontramos o verdadeiro amor. E isto é um merecido prémio? Pois não.
Não há merecimento. Ou melhor, merecimento há, o que não existe é resposta clara, precisa e matemática para ele. Há coincidências. Há alturas em que parece que a+b=c. Que se fizermos assim, ganhamos assado. Mas a fórmula estraga-se assim que a aplicamos mais do que uma vez. O que resultou tão bem à primeira é o desastre total, nas mesmas circunstâncias, à segunda. É verdade. A vida tem pouco de lógica matemática. E isso, no fundo, até me conforta. Porque se bem que no meu caso as coisas tendam a dar para o torto, pelo menos esta convicção troca as voltas às pessoas calculistas. E eu fico contente por ver gente que, convencida que tem o “Toque de Midas”, de repente, se vê confrontada com o “Toque de Merdas”. Só para ter noção da sua própria falibilidade.
Rodam os dados. Há que esperar pelos resultados, aceitá-los e desdramatizar. Não levar a peito o aleatório, não perguntar “Porquê a mim? Mereço isto?” Alguém questiona o resultado do Póker? Não, pois não? Então insulte-se a sorte, “Que treta de resultado este”, e aposte-se noutro cavalo, da próxima vez. Ou no mesmo, porque nunca se sabe.
... dir-te-ei quem és.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Trastes Anónimos

Ontem, num período de insónia que me fez levantar da cama quente e ligar o computador para ir ao mail abrir os fwds antigos que vou acumulando, dei com um comentário de um anónimo que me pareceu inofensivo. Depois de o publicar, recebi outro que iluminou a falta de inocência do primeiro e apaguei ambos. Não me apetece que este blogue seja usado como veículo de mesquinharias e dejectos verbais, de gente que é como anedotas escatológicas: dão vontade de rir, mas metem um nojo imenso. Por isso, não devia sequer responder ao que foi dito, mas desta vez, só desta, vou fazê-lo. E vou fazê-lo porque o conteúdo das mensagens me pôs a pensar que tipo de pessoa impregnada da tristeza que se cola à genuína estupidez passa as suas madrugadas a pensar em meios de me chatear a mim, escondida atrás de um anonimato covarde e reles. Pensei que o grande vazio que traz entre as orelhas não lhe confere sequer a lucidez de perceber que só me magoa ou ofende quem eu respeito e estimo.
O comentário que enviou dizia que o “meu último” (namorado? Foi a minha interpretação) tinha uma miúda nova muito gira, linda de morrer, e doce e meiga, ao contrário de mim própria que sou azeda, ou ácida, ou o diabo-a-sete, não me lembro do mimo exacto. Ora, vamos por partes. Os insultos que me foram dirigidos, passam em branco, mas isso de um qualquer reles vir para aqui mandar bitaites sobre a vida privada dos meus ex, isso é que não.
Primeiro, todos os meus ex (aqueles que têm estatuto para lhes atribuir esse lugar, que são poucos e bons) são pessoas de quem me afastei mas de quem nunca deixei de gostar. Não é por um casal não funcionar enquanto tal que as características que nos apaixonaram um dia deixam de existir, e apesar dos ressentimentos e das mágoas, considero todos eles, todos, seres especiais e únicos, cheios de qualidades positivas e características admiráveis. Continuo a gostar muito de todos eles. Como tal, o comentário de ontem far-me-ia imensamente feliz: a ser trocada, se fosse o caso, que fosse trocada por uma mulher melhor que eu, que os fizesse felizes nos seus caminhos, claro. Ser trocada por uma qualquer débil mental, além de insultuoso, faria a minha infelicidade completamente injustificável e destituída de sentido.
Depois há a questão do “último”. Qual último? Baseado em que conhecimentos da minha vida privada um idiota qualquer me vem falar de últimos? Nas informações deste blogue? Nas ficções que aqui se escrevem sem cometer quaisquer inconfidências sobre a minha vida íntima? Nas personagens que se inventam para exemplificar teorias? Give me a break! Contam-se pelos dedos de uma mão vazia as pessoas que estão ao corrente dos meus amores e desamores, alegrias e desesperos. Não me venham falar de pessoas que não conhecem. Não me venham falar de vidas de seres que existem num mundo que será sempre paralelo a este blogue ou a qualquer publicação semelhante.
Finalmente, a consideração de que a tal nova miúda do meu último seria “linda de morrer”. E quê, isso interessa? A quem? Nenhum dos meus ex é gajo para andar a passear Barbies pela mão. Este comentário apresenta, apenas, a pequenez do seu autor. Por acaso, só por acaso, conheço as actuais de quase todos os meus queridos amigos de quem um dia tenho orgulho em dizer que fui namorada. Todas elas, todas, são mulheres lindíssimas. Ou não fossem eles homens de muitíssimo bom gosto. Nenhuma delas, no entanto, pode ser resumida a tal. E ainda bem, ou mal andariam as coisas para aqueles lados.
Quanto ao resto, aos insultos que me foram dirigidos, assumo tudo. Antes ser assim, que não ser nada. Como tu, anónimo, claro, covarde, vil, venenoso e triste. Remeto-te para o teclado da teiadaranha, com um belo “Fuck you” escrito a vermelho, na tecla enter.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Póker de Dados

Do conceito em questão já se escreveram livros e tratados, poemas e peças de teatro, frases a bâton em espelhos e bilhetinhos em páginas quadriculadas de cadernos da escola primária, já se pintaram graffitis em muros por onde passam comboios; iniciais foram talhadas em troncos de árvores centenárias, statements em Inglês macarrónico foram tatuados em portas de casas-de-banho públicas, mensagens a lápis foram rascunhadas em guardanapos de papel, códigos secretos foram inventados com chaves partilhadas a dois. Fala-se muito de amor. Do conceito já se disse tudo, e nunca li nada que dissesse realmente alguma coisa. Hoje, exausta e levemente triste, fumava um cigarro, relembrava uma frase muito minha, fools are the men who insist in defining love without noticing that it is in fact love that defines them, olhava o fumo subir para um lugar mais alto e pensava, nessa altura, no tal Deus. Eu acredito mais nos Acasos que em Deus. Ou melhor, acredito num Deus rendido aos Acasos, num Deus com dois dados na mão, a gozar o profundo prazer de os atirar e lhes ouvir o som enquanto rolam, assim decidindo muitas das questões fundamentais das nossas vidas mortais. Só assim consigo compreender a Sua coexistência com o absurdo da condição humana. Imagino um ser superior cansado da idiotia dos homens e da sua propensão inata para a asneira e para o abismo. Um Deus desistente a pensar, não aprendes, pois não, seja então a tua sorte a que estes dois dados quiserem. So be it. E assim acontece. Acontece assim, por acaso. Por circunstâncias no limite da lei das probabilidades. Acontece assim, como poderia acontecer da forma diametralmente oposta. São depois os homens que se entretêm a justificar o injustificável, a arranjar razões e motivos para o aleatório. Não foi destino, não foi vontade divina. Foi, apenas, um simples rolar de dados, a ditar um póker de Ases… ou nada.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

E a semana promete...

... ser o pior possível.
Pessimista? Não, sou uma tipa dada às observações das pessoas e dos lugares. A raciocínios lógicos e a tiradas de conclusões acertadas. Uma das minhas frases favoritas, perante uma reacção ou uma atitude por parte de alguém que não conheço é "ah, é assim? está apresentado/a". E esta semana está apresentada.
Bastaram-me dois ou três vislumbres, cinco ou dez minutos no intervalo grande, mais dois ou três no intervalo da tarde, mais uma ou duas bocas ouvidas en passant e eis que o meu sorrisinho mais cínico se colou aos lábios da alma. Postiço, desgostoso, cansado.
Aos quinze minutos do intervalo de vinte já eu suspirava pelo toque de entrada. Passei a tarde mortinha por chegar a casa e virar costas ao Mundo. Entre avaliação de professores, greve de alunos, conversas sobre a derrota do Sporting que se arrastaram até ao infinito, intrigas de bastidores e mesquinhices cortesãs, à hora de almoço olhava já gulosamente para o meu jademobile com propostas indecentes... e uma viagenzinha a Lisboa, não? E levares-me daqui para fora, para um qualquer outro mundo real que este não me serve, não? E a tarde foi para esquecer.
Estou muito fartinha disto. Abri cinquenta vezes o blogue hoje e só respondi ao desafio como deve ser porque devia essa à minha inteligência e aos meus desafiadores. Mas, acreditem, esta semana está apresentada, e eu vou remeter-me ao silêncio. Querem coisas bonitas? Leiam o "Para a Joana" que, com grande orgulho meu, é o grande campeão de comentários até agora.
Porque esta semana, meus amigos, é de fugir. Vamos ainda ver se não literalmente.

Desafio, agora é que é

Como sou estúpida que nem uma porta, lenta que nem uma lesma e não leio, soletro, passou-me ao lado uma parte importante do desafio de há dois dias... é que as perguntas tinham que ser respondidas com nomes de músicas, pois, mas de músicas da banda escolhida previamente. Aqui vão, com as minhas desculpas aos bloggers que me desafiaram, as respostas correctas...
Se bem se lembram, a banda era, claro Pearl Jam
És homem ou mulher? Daughter/Bee Girl
Descreve-te: Soldier of Love/ I’m open/ Deep
O que as pessoas acham de ti? Hard to Imagine
Como descreves o teu último (antes do actual) relacionamento? Other Side/Off he goes.
Descreve o estado actual da tua relação com o teu namorado ou pretendente: Severed Hand/ Why go
Onde querias estar agora? Gone/Leaving Here
O que pensas a respeito do amor? Big Wave/Fatal/"U"
Como é a tua vida? Nothing as it seems/God’s Dice
O que pedirias se pudesses ter só um desejo? Wishlist (batota?) ok, Last Kiss ou Come back
Escreve uma frase sábia: I am Mine/ Hold on / Let me sleep

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Para a Joana

Minha princesa,

Sei que existes algures em mim, apesar de não te ver com os meus olhos escuros, iguais aos teus. Vejo-te com outros olhos, também meus, mais claros e brilhantes, atravessados pelas rugas de um eterno sorriso. Minha querida, és, foste, serás sempre muito desejada. Tão desejada que não ganharás corpo terrestre enquanto não te encontrar o pai que tu mereces, o teu pai, aquele que te reinventa por aí algures, como eu faço, te faz as tranças onde te pendura fitas cor-de-rosa, te adivinha o cheiro, te conta as sardas juntamente com as histórias de fadas, te canta canções enquanto dedilha uma velha viola, para que adormeças.
Filha, minha filha, não imaginas o orgulho que esta mãe tem quando te leva pela mão à escola e te vê entrar, de mochila às costas, a roer uma maçã. Olho para ti e vejo o meu caminho. Vejo as minhas marcas, vejo os meus sorrisos. As tuas lágrimas infantis são as minhas, as tuas gargalhadas ecoam as de toda a família de mulheres que temos ambas, atrás de nós. Amas versos, como a tua bisavó, adoras a lua, como a tua avó, e sonhas acordada, como a tua mãe nunca conseguiu evitar. Cantas com voz desafinada, como todas nós e, ainda assim, continuas a cantar sempre, baixinho e distraidamente.
Tens em ti o melhor de mim, pequenas peculiaridades de que te alimentei os genes no tempo de gestação que levaste a amadurecer. Anos e anos de gestação. Tens sorriso fácil, resposta pronta, humor inconstante, tendência à teimosia e à impaciência, à irritação e à ternura. Cheiras tudo antes de comer. Cheiras ainda muitas coisas que não comes, como livros novos, flores, o pescoço da tua mãe, a almofada e todos os perfumes que há na loja.
Minha querida, temos longas conversas e tu nunca cresces. Por isso és a minha vozinha mais sábia, mais pura, mais genuína. És aquela minha vozinha que sabe sempre de quem gosta e de quem não gosta, não sabendo responder ao meu porquê de outra forma que não seja, porque sim, mãe, porque sim.
Sonhei contigo uma vez há muitos anos. Acordei com um sorriso e escrevi-te numas páginas em branco que ainda guardo. Foste as palavras mais importantes, e foi assim que nasceste. Primeiro um sonho, depois o verbo. E desde aí tens sido criada e acarinhada por mim, alimentada e nutrida nas minhas alegrias, consolada pelos meus alívios. É em silêncio que te afago os cabelos, e te dou o mesmo beijo todas as noites, antes de adormecer. És minha muito antes de simplesmente ser.
Quando um dia leres esta carta, já a vais saber de cor. Até breve, minha vida.
Todo o amor do Mundo desta que é, desde um sempre maior que o teu, a tua
Mãe.

Desafio

Pronto, está bem. Não me façam mais destas coisas, que eu tenho pouco tempo e sou muito insegura, o que me faz perder ainda mais tempo... é um ciclo vicioso. Respondo às perguntas, depois acho que não é bem assim, depois irrito-me, depois volto a tentar... enfim. Mas como o desafio me foi lançado por três bloggers, três, resolvi responder, nem que seja para passar a outro e não ao mesmo. E ainda assim, fiz batota. A foto, por exemplo, remeto para a do perfil, já é mau o suficiente ter que me encarar ao espelho todos os dias, quanto mais ter aqui mais uma foto com cara de parva na minha casinha... esqueçam. E as músicas escolhidas... bem, amanhã já não seriam as mesmas. Beijos a todos os carrascos.
O desafio consistia em publicar uma foto de perfil, seleccionar uma banda ou intérprete e responder a todas as perguntas com o nome de uma música. (Bolas!) E depois passar o desafio a mais quatro bloggers-vítimas.
Foto: esqueçam;
Banda: Pearl Jam;

És homem ou mulher? Woman (John Lennon)
Descreve-te: True Colours (Cindy Lauper)
O que as pessoas acham de ti? Unbelievable (Coyote Ugly OST)
Como descreves o teu último (antes do actual) relacionamento? Eu sei que vou te amar (Tom Jobim). E eu acrescento, qual actual, cacete?
Descreve o estado actual da tua relação com o teu namorado ou pretendente: Pedaço de mim (Simone). E eu adendo, estão a gozar comigo, não? Nem namorado, nem pretendente. Daí a escolha desta música em particular.
Onde querias estar agora? New York, New York (Frank Sinatra)
O que pensas a respeito do amor? Faltando um Pedaço (Djavan)
Como é a tua vida? The Show Must Go On (Queen)
O que pedirias se pudesses ter só um desejo? Kiss me (David Fonseca)
Escreve uma frase sábia: Começar de Novo (Ivan Lins)

Vítimas... as minhas principais vítimas seriam as que me passaram o desafio; os bloggers em quem eu pensei depois, (fui dar uma olhadela às suas páginas), também já foram vítimas e já responderam, por isso... não há mais vítimas. Embirro solenemente com estas cadeias da amizade... até porque os outros bloggers têm respostas muito mais fixes que as minhas, e isso é mau para a auto-estima.
Mas se os meus doutos comentadores, bloggers ou não, se quiserem dar ao trabalho, força! Tenho curiosidade nas respostas de alguns, como a Carolina do Mónaco, o Mirovsky, o Dr. House, a Shadow, a Isa e o Pan, só para citar (e chatear) alguns...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Momento de Pausa

Estou sentada na minha sala, no meu puff, no meu chão. Estou sentada a gozar o meu momento de pausa, aquele breve instante em que páro e digo, agora não. Agora não vês testes, agora não lês livros, agora não dormes para esquecer e desperdiçar mais um pouco da tua mortalidade. Agora páras e finges que o tempo pára contigo, agora apreendes a eternidade num momento efémero e finges que és Deus a observar os homens, a observar-te a ti. És Deus e tens as mãos em concha segurando um puff com uma menina lá sentada, de computador ao colo, coração cheio de sonhos não consubstancializados em desejos específicos. Ela sonha com a frágil força de vontade pouco séria com que vive. Ela sonha sem se atrever nunca a querer, ela sonha filosoficamente, sem racionalizar. Ela espera. Ela pensa sem raciocinar, pensa porque nunca ninguém a ensinou a não pensar, e ela só aprendeu o que lhe ensinaram, é uma nódoa em auto-didáctica. Ela pensa em árvores, em pássaros e em cores. Ela pensa em melodias e em poemas que leu um dia. Ela pensa em gente, em muita gente, em rostos, em sorrisos, em vozes antigas, em álbuns de fotografias a preto e branco. Ela pensa e espera pelo futuro, pela estrada que a puxa, olhando de soslaio a liberdade que continua a ter, tão contra sua vontade, de decidir tudo na sua existência sem ter que prestar contas a ninguém. Num momento de pausa passivo e inerte, ela está sentada sobre as mãos de um Deus que lhe sorri por lhe dar de presente uma vida que ela não sabe bem como usar.

domingo, 9 de novembro de 2008

Coisas Simples

Não era para ser assim. Não era assim que estava escrito. Mas foi assim que aconteceu, este fim-de-semana. Foi assim que aconteceu, a vida a trocar as voltas aos planos feitos. A vida a mudar as perguntas quando finalmente julgávamos ter todas as respostas.
Na Sexta deixei-me ficar, a escrever, a ouvir música, a ver um filme, a emocionar-me com palavras, sons e imagens. A deitar-me com a secreta esperança de acordar bem-disposta como ultimamente não tenho andado, a acreditar no milagre de um feitio bipolar que me arrasta num turbilhão de alegrias e tristezas injustificáveis. E acordei presa a uma doença idiota, que me pregou um susto de todo o tamanho. Novamente. E a irritação foi ainda maior que a dor que me consumia as articulações, mas que vida esta, era só o que me faltava... Em pânico, olho-me ao espelho, para me ver transformada num balão, e ironizar... então é esta a cara que terias num qualquer oitavo mês de gestação duma experiência que nunca terás na tua vida, está visto... e está claro porquê, lá vou ser mãe de alguém neste sufoco de corpo, que só me deixa ficar mal?
Rumei a Lisboa, desistindo da minha presença numa manifestação que não queria perder, com o novo objectivo de me ir enfiar num hospital onde olhassem para mim com os olhos arregalados do costume, cobaia eterna que sou nas mãos de médicos que não têm soluções para me apresentar. Raríssima, sou eu. Um caso raríssimo.
A minha mãe olhou para mim calmamente, e disse com a sua sabedoria ancestral, vamos esperar. E esperámos. E eu desinchei. E as dores foram passando. E eu hoje decidi regressar, não sem antes prometer à progenitora ter juízo e ir-me embora imediatamente se a crise se repetisse. Pus-me a caminho, com o rádio bem alto e a cabeça também levantada, apesar de tudo, a fazer uma lista mental de pessoas que conheço e não conheço, presas de doenças piores que a minha, de gente que manteve sorrisos até à hora da despedida, de seres que jamais baixaram os braços, que seguiram sempre os seus caminhos em frente, até ao fim.
Quando cheguei, e puxei o travão de mão, estava a começar na rádio uma música de que gosto muito e já tinha anoitecido. Por isso, desliguei o carro, debrucei-me e abracei o volante, num gesto muito meu e que repito muitas vezes, e deixei-me ficar no carro, sozinha, em silêncio e às escuras, a ver outros carros passar na estrada lá à frente, com a melodia a preencher o meu mundo inteiro.
E pensei: há algo de poético nisto, há algo de profundamente belo nisto, numa mulher jovem abraçada a um volante a olhar o nada e a ouvir uma música de que gosta. Há algo de belo e poético num momento de solidão sem dor e sem medo, em que nada correu como o planeado, mas em que o alívio sucedeu ao medo, e se regressou ao início depois de um abraço apertado da nossa mãe, e de uma noite bem dormida no nosso quarto de infância, com o cheiro de um tempo em que éramos felizes porque tínhamos ainda em nós o conforto da ignorância.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Ainda (e sempre), Mr. Eddie Vedder

Hoje passeava pelos meus blogues favoritos, cada vez são mais, isto da blogosfera é um mundo e eu adoro este mundo de palavras, eu e as palavras entendemo-nos bem, entendo-me muito melhor com palavras que com pessoas... andava eu, então, a passear por aqui e por ali, e dou com um post da teiadaranha dedicado ao Eddie Vedder. E eu pensei, olha outra, esta é cá das minhas, deixa lá ver o que ela publicou... belo vídeo, boa música. Eu que até conheço umas coisas de Pearl Jam, esta nunca tinha ouvido. E há palavras que nos tocam, que nos prendem, que nos questionam, que nos desafiam, que nos empurram, que nos esbofeteiam. Dizem que os poetas são os grandes artífices da palavra escrita. Eu não sou poeta, mas gostava, mesmo muito, de ter escrito esta canção. Sentindo tudo isto em decalque, por que raio foi outro a expressá-lo desta forma tão violentamente simples que eu jamais conseguiria verbalizar? A letra vai a três cores, porque sim, por motivos que não me apetece explicar agora. Se o Eddie é um dos supremos poetas, (não se escandalizem os intelectuais, o Bob Dylan e o Jim Morrison já são praticamente canónicos), pinte-lhe eu as palavras com cores, por motivos criativos que não vêm ao caso. Desfrutem o poema e vão ao youtube ouvir a melodia... vale a pena.
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One bended knee is no way to be free

LIfting up an empty cup i ask silently

that all my destinations will accept the one that's me

so i can breathe -.



Circles they grow & they swallow people whole

half their lives they say goodnight to wives theyll never know

got a mind full of questions and a teacher in my soul

and so it goes -.




Don't come closer or I'll have to go -.

owning me like gravity are places that pull

If ever there was someone to keep me at home

it would be you-.



Everyone I come across in cages they gought

They think of me & my wandering but I'm never what they thought

got my indignation but I'm pure in all my thought

I'm alive.



Wind in my hair I feel part of everywhere

underneath my being is a road that disappeared

late at night I hear the tress, they're singing with the dead

overhead




Leave it to me as I find a way to be

consider me a satellite forever orbiting

I knew all the rules but the rules did not know me

Guaranteed.

Desencontros

Se há coisa que me oprime e deprime são os desencontros. Ontem foi um dia mau. Em dias maus é quase obrigatório mandar uma sms ao Pan. Isto por dois motivos: porque sou sempre bem-vinda e porque a resposta é sempre apreciada. Há dois tipos de resposta: aquela em que o estado de espírito dele é igual ao meu, e se partilham misérias, e aquele em que o estado de espírito dele é solar, e a resposta me faz, inevitavelmente, sorrir, ou me arranca uma gargalhada, como a de ontem. O Pan tem um sentido de humor nonsense hilariante, justiça lhe seja feita. Ontem desfiava as minhas mágoas com um discurso soturno que terminava neste género ‘ quero sair, ir jantar fora, beber um café, e anda toda a gente desencontrada. Tenho mil e uma coisas por fazer e nem sequer é por andar a descansar ou a divertir-me’. E penso, que raio ando eu a fazer ao meu tempo?
Isto das pessoas andarem desencontradas aflige-me. Não gosto de desencontros no espaço. Não gosto de me atrasar, nem de me antecipar. Gosto de me encontrar com as pessoas, de lhes sentir a presença, de partilhar o prazer da sua companhia. Gosto de estar. Gosto de estar em silêncio com os que amo, ou perdida em discussões sem fim. Gosto de encontrar casualmente caras que não vejo há muito e que me fazem uma falta medonha. Às vezes só me apercebo dessa falta quando as reencontro. A tristeza que me invade quando pronuncio de-sen-con-tro é directamente proporcional à alegria com que soletro este milagre absoluto de vocábulo: reencontro.
Muito piores que os desencontros no espaço são os desencontros no tempo. Não gosto de deixar coisas por dizer, nem de me arrepender do que disse precipitadamente, incomoda-me. Não gosto de deixar de passar oportunidades, e faço isso muitas vezes deliberadamente. Depois venho martirizar-me para casa, mas porque é que não disseste isto, mas porque é que não fizeste aquilo, e suspiro, “és uma rematada imbecil”. Pior ainda é quando me apercebo, demasiado tarde, que determinada situação era uma oportunidade, e era única. Cá está o cliché (com que embirro, já sabem, mas este profundamente cruel e verdadeiro) ’mais vale arrependermo-nos daquilo que fizemos do que daquilo que não fizemos’. Normalmente, porque aquilo que não fizemos evitámos por cobardia, e a sorte é dos audazes. (outro cliché, que deve haver por aí muito audaz de focinho partido…)
Os desencontros no tempo são personificados por pessoas que gostaríamos de ter mais frequentemente ao nosso lado, pessoas com quem gostaríamos de passar muito mais tempo, pessoas que gostaríamos de conhecer melhor, pessoas que gostaríamos de ver mais vezes, pessoas que gostaríamos que fizessem parte do nosso Mundo, e não estão para aí viradas. Porque as encontrámos cedo demais e têm na cabeça planos e projectos, expectativas e desejos pelos quais já passámos um dia e agora não fazem sentido (been there, done that). Ou porque as fomos conhecer tarde demais, e os nossos planos, projectos, desejos e expectativas são déjà-vue nas suas vidas, não cabem no seu espaço atrapalham as suas verdades. Há muita gente nestas circunstâncias no meu mundo. E é terrivelmente injusto, mas docemente nostálgico. É com essas pessoas que me vou reencontrando, muito de vez em quando, e por instantes sempre demasiado breves, na generalidade do tempo perdido. E, nesses momentos, valha-nos isso, no meio do desencontro, o reencontro brilha.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Não gosto

Não gosto, pronto.
Não gosto de pontos finais em discussões em que há milhares de argumentos que se podem usar. Não gosto de meninos mimados, de atitudes de 'eu já não brinco mais', de criançolas que se ofendem com opiniões fundamentadas e levam a peito generalizações. Não gosto que me cortem o barato de debater ideias, que me cortem o prazer de, muito raramente, ser conquistada pelas opiniões dos outros e substituir as deles pelas minhas. Gosto de ser persuadida, gosto de ser convencida por inteligências superiores à minha, gosto que me provem, por a+b que as minhas teorias farsolas são apenas isso, farsolas e falíveis.
Gosto de provocar. Gosto de gerar polémica. Gosto de levar as pessoas ao limite da sua irritação, de usar as palavras que elas usam para lhes demonstrar que estão erradas. Uma vez alguém me escreveu num mail "só as pessoas que me tiram o tapete conquistam o meu respeito, e fazem o género." Subscrevo. Gosto que me tirem o tapete das certezas que tenho enraizadas em mim, que nenhuma certeza é absoluta ou permanente. Gosto que usem as minhas palavras contra mim. Gosto que me demonstrem que não passo de uma fulaninha armada em esperta, gosto que me ponham no meu lugar e me dêem lições de humildade, gosto que me digam o que não quero ouvir e me façam pensar numa resposta ou numa alternativa. Nada do que seja um debate de ideias teóricas me ofende. E neste pequeno particular, gostava que fossem todos como eu. Porque, acreditem, nada na expressão das minhas convicções tem como obscura intenção ofender, agredir ou menosprezar seja quem for. Gosto de pensar e de fazer pensar. E não gosto que me levem isso a mal.
Não gosto, pronto.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Não me peçam definições

Há uns tempos publiquei um post com a minha lista pessoal de trivialidades com as quais embirro. Embirrar é um sentimento inócuo, é um sentimento provocado pela atenção, muitas vezes inconsciente, a um pormenor ou a uma repetição geradores de uma semi-alergia irrisória. Embirramos com coisas pequenas. O meu ex-namorado dizia que eu era “muito” e até, às vezes, “muitíssimo embirrante.” E dizia-o com um sorriso meigo, de quem não está a apontar um defeito monstruoso, mas a sublinhar uma característica trivial. A maior parte das coisas com que embirramos são inexplicáveis. Por isso, embirramos todos com detalhes diferentes e não conseguimos entender as razões alheias para embirrar com coisas que para nós são pacíficas. E embirrar não é, por si só, algo que seja prejudicial a alguém.
Eu embirro muito com lugares-comuns. Isto faz com que muita gente me rotule com a maravilhosa expressão, também ela um cliché com que eu embirro “és do contra”. Hoje, por um motivo que já vou explicar, seleccionei o maravilhoso cliché que me faz imensa comichão “o ódio está a um passo do amor”. Quem se lembrou desta frase iluminada nunca amou e/ou nunca odiou nada nem ninguém. O que é muito triste.
Vamos por partes. Definir o amor é escusado. As tentativas são pobres e muitas vezes ridículas, e se há outra coisa com que eu embirro, é com o ridículo. O amor não se define porque é diferente consoante o sujeito, e diferente dentro do mesmo sujeito, consoante o objecto. Não me venham definir o amor com teorias e clichés. Ai, e tal, o amor é desinteressado. Eu própria já disse e escrevi este mesmo disparate, o amor é desinteressado. Pois, mas nem sempre, nem obrigatoriamente. Como se o desejo de retribuição fosse, de alguma forma, sinal de que o amor verdadeiro não existe... só acredita nisto o supremo egoísta que está habituado a sentar-se confortavelmente num sofá enquanto se deixa, ‘generosamente’, amar. É fácil, para quem não retribui, não admitir cobranças. O amor, em si mesmo, e enquanto entidade teórico-subjectiva, poderá não esperar nada em troca; mas o amor teórico só se consubstancializa nas relações entre as pessoas. É aí que ganha sentido e verdade. É aí que existe. E se há uma relação sentimental, isto é, se há um compromisso emocional entre duas pessoas que, por acaso ou por milagre, defendem amar-se mutuamente, aí, não sejamos hipócritas, esperamos retribuição. O amor, até o mais platónico, vive de pequenas retribuições, de pequenas atenções, de ínfimos detalhes. Eu comparo os amores não-correspondidos, os amores platónicos, à situação do indigente que “anda atrás dos restos”. Mas não sobrevive sem eles. E se embirro inocuamente com o cliché do amor desinteressado, é muito menos inócuo o ódio que tenho à hipocrisia e à cobardia, à incoerência e à inércia, dos que usam a desculpa esfarrapada do “quem ama não pede nada em troca” para justificar a sua própria incapacidade de dádiva.
Depois, há a questão do ódio. Ai, que palavra tão forte, ai eu cá não odeio ninguém, ai o ódio está a um passo do amor. Então eu, pecadora, me confesso: eu cá odeio. Com todas as minhas forças, que não sei sentir nada a meio termo. E já que, de facto, odeio muita coisa, e, graças a Deus, muito menos pessoas, acho que tenho o direito de dizer de minha justiça, porque sei do que estou a falar, que o ódio jamais estará a um passo do amor. Jamais. O ódio é o anti-amor. O ódio é a negação de quaisquer bons sentimentos presentes e futuros, é a negação de todas as qualidades que julgamos básicas num ser humano, num objecto, numa atitude. É o conjunto de ingredientes sórdidos, como o asco, a repulsa, o desprezo, a raiva, a intolerância, todos unidos e fermentados pelo tempo que passa, e levados então ao forno do ressentimento. O ódio é um bolo venenoso. Se no amor o objecto é o grande contemplado, no ódio o sujeito é o grande derrotado. Quando amo alguém, transporto para esse alguém o melhor de mim. Quando odeio alguém, uso o pior de mim contra mim mesma, porque o ódio agride sempre em primeiro lugar quem odeia.
Isto tudo porque hoje um amigo meu me telefonou com o único intuito de me chatear. Como é casado, e somos amigos desde sempre, de cada vez que a coisa anda torta lá em casa e não lhe apetece armar a giga dentro do seio familiar, telefona a descarregar na amiga. E eu dou-lhe exactamente o que ele quer: um par de berros que não afectem a nossa relação, uma discussão que não passe disso nem tenha consequências de maior. De mim sabe que não se divorcia, por maiores que sejam as alarvidades que faça ou diga. É triste, mas os amigos toleram-nos coisas que os cônjuges jamais engolem. Se calhar era uma boa ideia casarmo-nos todos com os nossos melhores amigos… mas, ainda assim, eu costumo dizer, quando há casos dúbios de amizade com alguns homens que me têm atravessado o caminho, “my friend, we are too close to be that close”, somos demasiado íntimos para esse tipo de intimidade... é contraditório, mas é assim, a natureza humana, profundamente paradoxal.
Hoje esse meu amigo dizia que a mulher lhe cobra coisas que não deve cobrar, que não tem esse direito. E eu passei-me da cartola. E disse-lhe que ela tem todos os direitos e mais alguns, perante alguém que jurou amá-la e respeitá-la até que a morte os separe, e não faz nem uma coisa nem outra. E ele veio-me com a história que o amor não é uma troca, eu dou-te isto e tu dás-me aquilo. E eu disse-lhe que o amor não é uma troca, pois não, a não ser quando duas pessoas proclamam amar-se mutuamente. Aí, a dádiva é mútua, e mutuamente desinteressada, boa? A isso de ser um a dar e o outro a receber, sem admitir cobranças, chama-se amor não-correspondido. E este não se compadece de votos matrimoniais. Nem de outros votos, menos convencionais ou tradicionais, mas comummente aceites, como uniões ‘de facto’, namoros assumidos, ou belas histórias de amor em geral.
Calado com estes argumentos, o meu amigo achou sensato perguntar-me como ia a minha vidinha. Eu lá lhe disse, e hoje, por acaso, referi-me a determinada pessoa com a bela frase, ‘estou-lhe com um ódio que nem o vejo bem’. E lá veio o dito cliché, o ódio está a um passo do amor. E eu desfiei a minha lista de palavrões, e depois expliquei-lhe que, neste assunto específico, de facto, não estou com ódio nenhum, mas com uma embirração inócua. E aproveitei para lhe explicar que se o léxico excessivo não tivesse sido um exagero meu, um desabafo de irritação, e fosse mesmo a clara imagem da realidade, a frase dele era estúpida todos os dias. E ficámos amigos na mesma, não antes de ele me chamar, pela milésima vez nesta vida, ‘uma chata do pior’, e eu retorquir, também sem originalidade nenhuma, que ele era ‘um rematado egoísta’ agradecendo-lhe, porém, em silêncio, a inspiração para o post de hoje.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Tears

Sinto-me feliz, hoje. Nem contente, nem alegre, feliz. Foi um dia pleno de emoções fortes e boas notícias. Foi um dia de partilha, de reforço, de vislumbres de amizade sólida, de gente a dar boas notícias, de acasos felizes e coincidências agradáveis.
Dias assim fazem-me repensar aquele momento amargo em que abro os olhos muito cedo, está um frio de rachar e eu penso, com um suspiro, será que tem mesmo, mesmo, que ser? Será que não é hoje o dia em que vou mandar tudo e todos pastar, e fazer a diferença, promover a quebra na rotina das coisas sempre iguais? E nunca é, nunca consigo arranjar a coragem, ou uma desculpa suficientemente boa, para mandar um dia de trabalho às urtigas em prol da minha sanidade mental e existência mais pacífica.
Tenho andado muito em baixo. Sábado foi dia de defuntos e eu não fui a Lisboa dar dois dedos de conversa junto à campa do meu avô. No próximo dia um faz anos que ele morreu, e este mês é sempre muito complicado para mim, as datas trazem recordações, saudades, sentimentos meio-adormecidos no lufa-lufa do resto do ano. É sazonal, há alturas do ano em que a falta dos que já partiram bate mais forte. Os meus Novembros são pouco doces, e os meus Dezembros, bem, no Natal é melhor nem falar. De modo que o tempo tem estado de chuva e a vontade de me levantar da cama não é grande, não.
Por isso, o dia de hoje, em que me levantei como sempre, mas me vou deitar muito diferente, foi um presente do destino a dizer que a monotonia não existe obrigatoriamente num dia que tem tudo planeado para ser igual aos outros. Que os bombons-rajás pequeninos e iguais, trazem recheios diferentes. E assim são as pessoas. Já lhes conhecemos a embalagem, mas às vezes sai-nos um sabor a morango onde esperávamos baunilha, e a surpresa agrada, ou não fosse o morango o nosso favorito.
Hoje fiquei feliz por dar uma oportunidade ao dia porque ele esteve à altura. Não trocava por nada cada minuto dele, não trocava por nada as palavras que disse e ouvi, as que não disse mas disseram os meus olhos e o meu sorriso, as que não me disseram mas ficaram claras nas entrelinhas. Não trocava por nada, mesmo nada, os dois ou três abraços que dei a uma amiga minha, nem as lágrimas nos olhos com que vim para casa. Lágrimas de saudades de um futuro já tão próximo, de um passado em comum, lágrimas de agradecimento por ainda me conseguir comover quando a minha vida não está para grandes emoções ou ternuras há tanto tempo.
É que eu choro muito, mas choro muito pouco por coisas que valham realmente a pena. E o meu avô, de quem sinto tanta falta, e as pessoas que me comovem porque as amo, como as que me cruzaram hoje o caminho, não são causa de lágrimas vãs. E se elas vêm, ao menos que não sejam vãs.

domingo, 2 de novembro de 2008

Admiro

Admiro pessoas calmas.
Admiro essa qualidade suprema que alguns têm de viver a vida sem se sobressaltar com os sobressaltos; aqueles que respiram fundo e contam até dez antes de deixar o que têm mais à mão sair boca fora; os que mantêm um sorriso quando tudo parece correr mal; os que reagem sempre da mesma forma ao infortúnio, com aceitação; os que, no segundo seguinte a tudo ruir, já estão a pensar em soluções.
Admiro pessoas criativas.
Admiro esses cujas mentes não param para pensar em insignificâncias, trivialidades e futilidades, cheios que andam de ideias, de paletas e pincéis, de objectivas e lentes, de canetas e papéis, de barro e plasticina, de cores e matizes, e sombras e luz, e personagens e versos, e peças de teatro e artesanato.
Admiro pessoas arrumadas.
Admiro essa gente organizada e eficaz, que sabe sempre onde está tudo e quando sai de casa deixa a cama feita e a loiça do pequeno-almoço lavada. Esses seres que têm as gavetas sempre impecáveis, os papéis sempre em ordem, as facturas sempre à mão e ordenadas, os livros e os cds em estantes direitinhos e organizados por autor, colecção, banda, tipo, ordem, género. Que não precisam de abrir todos os compartimentos da mala trezentas vezes para localizar a chave e mais duzentas para encontrar o isqueiro.
Admiro pessoas satisfeitas.
Aquelas para a qual a alegria é natural, para as quais a simplicidade é um modo de vida. Aquelas que nunca complicam, aquelas para as quais está sempre tudo bem, que não fazem questão de nada, que vivem desapaixonadamente, que não deixam os seus desejos tornar-se obsessões, que vêem a vida com a curiosidade de quem sabe que há sempre algo de bom em tudo. Aquelas que estão bem consigo próprias e acham as suas conquistas as melhores de todas e os seus fracassos insignificantes e “insignificativos”.
Admiro pessoas activas.
Aquelas cujo tempo dá sempre para tudo e ainda sobra, e andam sempre de um lado para o outro, nunca se queixam e parecem funcionar ao segundo, a toque de caixa, daqui para ali, não param e alcançam tudo aquilo a que se comprometem.
Quando crescer quero ser igual às pessoas que admiro.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Tiritando...

Não sei se é só na Cidade de Deus mas está um frio que não se aguenta. Eu já sou friorenta por natureza, o meu termostato avariou sem remédio juntamente com outros orgãos há anos atrás. Estou acostumada a andar tapada até às orelhas enquanto o resto do Mundo anda descapotável, se não ai, jesus, que se me pára a circulação, fico de dedos brancos e roxos, dores execráveis nas mãos e nos pés, na ponta do nariz e, às vezes, até na língua viperina, o que dá um certo jeito, que assim digo menos asneiras.
Bato os dentes de uma forma tão peculiar que houve até determinado senhor que me passou a chamar "cegonhazita", sem a metáfora maternal da dita, graças a Deus, numa associação livre que ainda hoje me faz rir, quando as oiço, às cegonhas, a tentar imitar D.Jade a bater o dente.
Não há modo de aquecer. Nem com cachecóis, nem com mantinhas, nem com chás, nem com mézinhas. O calor humano também não abunda, mas eis senão quando, de repente e sem aviso, dois raios de sol quentinho...
O primeiro, na voz sonante de um colega meu, a dizer uma frase que em mim acende logo a lareira do bem-estar: "temos que combinar uma patuscada, uma festa, para breve, quais são as tuas disponibilidades?", e eu, totais, ora essa, festa é o meu nome do meio! O segundo, com notícias de alguém que mora no meu antigamente, que reside no meu lugar assim dentro, de alguém que há muito faz parte de uma lista singular de gente presente embora perdida em espaços paralelos àqueles onde me movimento. Alguém que me acompanha em silêncio e que, quando bota enfim discurso, me surpreende pelo modo como parou num tempo partilhado a dois, cristalizou na altura em que gostou de mim, e assim se deixou ficar, cheio desse bom sentimento, enquanto o tempo seguiu em frente e a vida de ambos também.
É bom saber que não sou a única a gostar das pessoas com a mesma intensidade, estejam elas a meu lado ou seguindo trilhos diversos. É bom saber que alguns amores cristalizam, que algumas verdades não mudam, que há alguém coerente na sua forma de gostar. Que para alguém não passamos de bestiais a bestas quando o sol se põe, só porque sim. Ou quando o sol não brilha, e faz um frio de rachar, como hoje.
Há duas ou três pessoas, talvez uma dúzia, que vão estar sempre comigo de pedra e cal, por muitas mágoas que haja a empatar caminho. Há pessoas que vou amar sempre, por mais que pintem a manta. O que é, para mim, surpreendente, é que elas me dêem exactamente o mesmo grau de tolerância em troca. A isso não estou habituada. O quase incondicional, que tanto calor nos dá em dias frios, é o supremo milagre.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Why write?

I write therefore I am.
I don't remember existence without writing. I was not, before I started putting myself into words. Even when I did not know how to write words on paper yet, I already knew how to write them on my mind. And it was then I started living, when I started all the fiction inside.
I write therefore I am.
I write lies which become solemn truth. So, I write therefore I create who I am, inventing what I could be. I write therefore I build me up a character in a lead role of the most outstanding film without a sequel.
I write therefore I am.
I write therefore I am, and while I am, I love. So, I write therefore I love, and I don't remember existence without loving you. I love you, therefore I write. To you. For you. Even when I realise I don't really know who you are. I write and I don't know. Knowledge doesn't exist, because I write, therefore I am, therefore I love and I still don't know. I write to figure out. To figure it out. To figure you out. To make some sense of this outrageous violence which is this love of mine for some big question-mark of a face which is yours.
I write therefore I am.
Even if the words are drawn only in blood and skin, and soul and heart, I write them loudly in silence with my perfect lady-like handwriting. I write them proudly. I sing them like a hymn, a prayer, a whisper, a sigh.
I write therefore I am.
Even when all I publish are foolish things because the wiser ones are tatooed elsewhere.
I write therefore I am.
I write silently therefore I am.
I'm silent. Still, I am.