Reli, há pouquíssimo tempo, esta pérola do Murakami, um dos meus escritores de eleição. O problema de escritores como este é que gostam de se alongar, e escrevem romances de seiscentas e setecentas páginas que, por muito que se goste, não se tem coragem de reler. Mas existem as novelas, e as short stories, e uma biografia, e eu estava com saudades das ambiências oníricas, do limbo entre o real e o não-se-sabe-bem-o-quê, sonho, ficção, loucura, e que interessa, no fundo, o que lhe chamar, pergunto.
Reli o livro sobre o que se pretende que seja um amor eternamente desencontrado e achei muito interessante confrontar-me claramente com o peso da minha idade e experiência(s).
É verdade, e talvez seja bastante mais cruel do que parece à partida, que um livro não se esgota por ser diferente para cada um dos olhares que o recebe. Mesmo que esses olhares sejam da mesma pessoa em diferentes fases da vida. E não me refiro ao óbvio, ao reler de um livro que nos apaixonou aos dez anos e que agora nos traz apenas a nostalgia da inocência e um bocejo entediado - sim, eu sou daquelas hereges que já não tem pachorra nenhuma para o Principezinho, embora respeite os puros de espírito que amam a obra, e que se ri escarninha da Condessa de Ségur, e que acha a coleção "Uma Aventura" francamente pobrezinha - não, dizia eu, refiro-me ao choque que é o mesmo livro me parecer tão diferente meia dúzia (talvez uma dúzia, não sei) de anos depois. Já não era criança, já não era adolescente e já não era o pior de tudo, a jovem adulta que acha que, agora que já trabalha e já vive sozinha, e já não depende de ninguém, é a maior dos bonecos da bola. Nada disso. Já tinha passado todas essas fases. Já era mesmo adulta "a sério". Já sabia o que era morrerem-me. Ninguém sabe nada até ao momento em que descobre o que é morrer alguém que leva consigo um bocado de nós para debaixo da terra.
E, na verdade, o livro que eu tanto tinha amado, e de onde tinha tirado tantas lições sobre o amor eterno, e a resignação ao facto de nem todos nós o podermos viver por motivos insondáveis, ai, que lindo, ai, que romântico, suspiremos e consolemo-nos pensando que a vida já valeu a pena só por o termos conhecido e aproveitado fugazmente, o livro, dizia, que tinha suscitado todos esses sentimentos de heroína trágica que atualmente me parecem completamente idiotas, desta vez despertou introspeções bem diversas.
Murakami começa por falar em filhos únicos e na estranheza que isso foi na infância do protagonista, já que todos os coleguinhas de escola tinham irmãos. Sou filha única e nunca me senti diferente, original ou especial por causa disso. Senti-me, isso sim, e ainda sinto, às vezes, insultada por certa estirpe de idiotas que comenta "Vê-se logo que és filha única" para justificar o meu feitio opinativo, a minha teimosia, ou outro qualquer traço do meu caráter menos bem aceite socialmente. Tenho, felizmente, muitas especificidades de personalidade que não me agradam, e digo felizmente porque são essas que me dão espaço ao progresso. Não sou, de todo, aquela menina hipócrita que responde à pergunta "qual é o teu pior defeito?" com uma virtude do género "sou muito frontal". Não. Os meus defeitos, como os de toda a gente, são defeitos. Existem. E são maus. A diferença é que eu não tenho medo nenhum deles, assumo-os e exponho-os. Sou irascível. Sou impaciente. Sou sarcástica. (O sarcasmo, by the way, está na moda, como se fosse uma coisa muito bonita e admirável. Não é. É a pior forma de superioridade e magoa brutalmente as pessoas, porque lhes passa um atestado de estupidez nem sempre justo ou razoável). Sou muito da "Morena" que canta o Tiago Bettencourt. Há coisas que não me passam por dentro, sou indiferente a muitos sabores e há muito que o amor me deixou de cegar. Sou agressiva. E raramente, embora cada única vez seja uma vez a mais, sou cruel. Nada disto está ligado ao facto de ser filha única. Nem uma só destas tristes marcas. E não tenho dúvidas nenhumas de que se fosse egoísta ou avarenta, ser única cria também não seria razão ou desculpa. Basta assistir às partilhas, às vezes ainda em vida, dos bens paternais, entre irmãos tão amiguinhos e tão próximos, para ver que a inveja, o egoísmo e a avareza são muito comuns e não olham cá a relações familiares. E não me venham dizer que o mimo e o capricho são exclusivos do filho único, que eu conheço tanta gente que tão exemplarmente desdiz essa teoria que é impossível, sequer, tentar defendê-la.
Ser filha única trouxe-me, isso sim, uma solidão intrínseca, uma dificuldade imensa de falar sobre mim, um medo horrível de perder a minha mãe, um sentido de responsabilidade doentio em relação a ela, e uma obsessão em controlar tudo que me leva à loucura, porque, infelizmente, tenho sabedoria suficiente para saber que não controlo ponta de um corno.
E o que é peculiar, no meio do livro do Murakami, é que é uma novela sobre o amor perdido, reencontrado e desencontrado, e eu sobre isso não tenho nada a dizer, porque nem sequer me apetece. O que é peculiar, no livro do Murakami, é que, uns anos depois, dei comigo a debruçar-me sobre as questões da solidão e das coisas boas que ela faz connosco, que das más estamos nós fartinhos, e a ignorar completamente as questões românticas que, verdade seja dita, me aborreceram sobremaneira.
Não sofrerei de histeria siberiana, mas tenho um bug que me diz que, qualquer dia, começo a minha caminhada. (e perdoe-me quem não leu o livro e não entendeu este piscar de olho final)
... a Oeste do Sol.