Hoje é um daqueles dias em que só me apetece fugir de mim própria. Não que as coisas me tenham corrido mal, nada disso. Eu é que me corri mal. Estou cheia de não-presta, de azedumes, de pensamentos negros. Só consigo pensar em todas as deceções do último ano, em todas as dores, em todos os cansaços, em todas as injustiças, em todo o trabalho, em todo o tempo perdido, no resto que sobrou. Hoje estou demasiado cansada para lutar contra mim e esta nuvem negra. Estou irritada, ansiosa, dececionada, triste. Hoje é um daqueles dias em que me apetecia ter dormido o tempo todo, vegetar e não fazer nenhum. Infelizmente não foi possível. E os deveres pesam-me toneladas, e estou muito farta do meu mundo, hoje.
domingo, 4 de dezembro de 2011
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
E, como sempre,
Aqui fica o beijo de saudades ao meu avô, no aniversário da sua partida. Os que amamos continuam sempre vivos e, como diz Saint Exupéry, não passam em vão: deixam um pouco deles, e levam um pouco de nós.
Fazes-me falta, avô. Para onde estiveres vai um grande, grande, abraço, apertado com toda a força que tenho.
Vantagens
Comparando com a escola em que estive anteriormente, considero haver várias vantagens em estar colocada, agora, na minha. A maioria delas prende-se com o facto de ter turmas muito mais pequenas. Os alunos não são mais fáceis: o que têm de bom a nível disciplinar, têm de mau a nível de aproveitamento. São mais desmotivados, muito mais baldas e pouco trabalhadores. Não têm expetativas e estão cheios de vícios. Mas gosto de os conhecer com uma profundidade que seria impossível no contexto anterior. Gosto de conhecer os que não são meus alunos pelo nome. Gosto que esses venham ter comigo, me abordem, me deem os bons dias, sempre, e me sorriam.
Outra coisa a que não estava mesmo nada habituada é ao tipo de relação que tenho com os meus colegas: somos poucos, trabalhamos em equipa e somos solidários. Por uma questão temperamental, sempre fui assim. Mas não estava habituada a que me agradecessem a ajuda que dou, pelo contrário, estava habituada a que essa ajuda fosse dada como adquirida, que ma cobrassem quando não a podia dar, e que ainda me dessem facadas nas costas em retribuição. Por isso, hoje, quando passei os apontamentos de uma reunião a um colega que era o secretário para o ajudar com a ata e por auto-recriação, e ele me agradeceu, olhos nos olhos, a ajuda, estranhei. E essa estranheza por uma atitude tão natural quanto expectável no domínio simples da boa educação e da cortesia, fez-me questionar o quanto, anteriormente , e como diz uma amiga minha, preferia o muito pouco ao nada. Sem dúvida que, pelo menos agora, a minha generosidade é reconhecida em tempo, em vez de ser lamentada postumamente. E isso, para mim, é uma daquelas vantagens que justifica muito de tudo o resto.
domingo, 27 de novembro de 2011
Vícios
Em vez de me ver livre do tabaco, com a agravante de, agora, visualizar os meus pulmões pretos e cheios de porcaria, umas vinte vezes ao dia, desde que vi um video horroroso no you tube, adquiri dois novos vícios: Game of Thrones, uma série cuja primeira temporada vi de uma assentada, tipo Grey; e o jogo do facebook, CastleVille, dentro do género da série. Nos intervalos do trabalho - ou terá sido ao contrário? - passei o fim de semana todo rodeada de maidens, princesses, lords e castles. Nasci para isto, sem dúvida: call me Lady Jade.
(ou, à tuga: leide Jeide, que sempre rima)
(ou, à tuga: leide Jeide, que sempre rima)
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Pride
É que foi uma semana santinha: para além das reuniões canceladas (que me vão lixar a próxima semana toda, mas enfim, quinta é feriado, que se lixe!), hoje a escola não teve alunos por falta de funcionários e passei lá a manhã a adiantar coisas que estavam na lista do a-fazer quase desde Setembro. A formação moodle, agendada para as cinco e meia foi antecipada para as quatro, de modo que estava despachada às sete, a tempo de vir para casa jantar calmamente e beber uma sangria feita pela Mzinha, com frutos silvestres, que estava de estalo. Ai, a canela no fundinho do copo, que delícia!
Assim, julgo que o meu bom humor já não será da moca dos comprimidos: quando as coisas correm bem, a pessoa anda mais leve. E também ajudou, claro, falar dos meus desastres amorosos e ouvir o Doc, há uns tempos, dizer “ a culpa não é tua, devias ter mandado esse gajo tratar-se”… e, desta vez, “mas esses tipos são uns filhos-da-mãe, como podes tomar histórias dessas como exemplo?”, ou algo neste sentido.
A verdade é que são as minhas histórias. Bem ou mal, estou envolvida nelas e não soube, eu também, proceder de modo diferente. O Doc diz-me que não me sei impor, definir um espaço e marcar limites que não podem ser ultrapassados. Eu digo que não sei agir como aquelas tipas que fazem ultimatos e conseguem tudo o que querem dos gajos. Eu dou-lhes liberdade e responsabilizo-os pelas suas ações: jamais vou à procura do prejuízo. Viro costas, se a coisa é mesmo grave. Na maior parte das vezes, engulo em seco e permito que me magoem. Ele diz que não há nada de errado comigo, mas que tenho que aprender a dar coices, mesmo quando tudo está bem. A não fazer concessões no que julgo importante, mesmo quando tenho borboletas no estômago e as pernas a tremer. Eu não sei se sou capaz. Mas também lhe disse que isso não é fundamental agora, não é prioridade, porque depois da última, não acredito que me volte a apaixonar tão cedo. Envolvimentos, então, longe! E o Doc ri-se, faz-me cara de dúvida e aposta no tempo. Eu aposto na sorte, que comigo nunca é muita, e prefiro dedicar-me a outras coisas que me divirtam e me façam rir. E em pessoas que gostem de estar comigo e me mostrem isso.
A verdade é que, assim, ando muito bem humorada e acho que já não é dos comprimidos. Assumir as minhas vontades e os meus limites, conviver com os meus caprichos e as minhas exigências, aceitar que tenho o direito de querer mais e que me deem mais, porque eu também dou e eu também cedo, e eu faço tudo para que não haja dúvidas e confusões e, como tal, dou o exemplo e não peço nada que não retribua, toda esta aceitação, está a fazer de mim uma pessoa muito mais saudável e serena. Quem está, está. Quem não está, estivesse. Esta segurança no que sou e no que dou é novidade para mim. E está a sair-me melhor que a encomenda.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Mas também, convenhamos...
Estive duas semanas sem lá ir. Essas semanas não correram nada bem, entre trabalho, amigos e família, houve chatices e stresses para todos os gostos. Ando com uma memória de Dory. E as pessoas com quem convivo também andam um bocado a dar para o senil. A Mzinha ontem queria fazer um recorte e pediu à funcionária da escola uma cenoura...(???!!!!) quando queria dizer tesoura. Freud explica. Uma aluna minha, muito séria, referiu-se a uma marca de automóvel de luxo como "róis-róis", ficando eu a pensar se estaria a chamar-me roedor, e porquê. Esta deixo para o Jung analisar.
Posto isto, caramba... espero que o Doc não me dê alta, nem desista tão cedo de me tratar.
E a terapia?
Já lá não ia há duas semanas, porque o meu Doc entrou de férias e, na semana passada, ando tão boa da cabeça que aceitei a boleia de uma colega, esquecendo-me de que precisava do JadeMobile para ir à consulta. Entretanto, também me esqueci que os meus comprimidos estavam a acabar e não pedi receita por telefone. O resultado foi que andei dois dias a bater com a cabeça nas paredes, literalmente, que a interrupção dos comprimidos deu-me tonturas e vertigens, estragando-me o radar de morcego que, percebi agora, não é tão mau quanto eu pensava, estando operacional. Voltei aos comprimidos e o efeito foi tipo grande moca de felicidade. (O cancelamento das reuniões também ajudou).
Resultado: hoje fui à consulta armada em chica-esperta, super bem disposta e a pensar que o Doc me ia arregalar os olhos, cair de joelhos e dizer "MILAGRE, MILAGRE! Estás CURADA!". Pois.
Como sou muito honesta, disse-lhe logo que estava sob efeito da pedra, e andava bem-dispostíssima, para que ele não tivesse a tentação de me dar alta logo ali, nos primeiros cinco segundos. Mentalmente, ia-me dando palmadinhas nas costas, muito contente, o tempo a passar, e eu para mim "estás a ver? estás a ver? Hoje não choras, isto é um dia memorável, muito bem, vais no bom caminho, estás mesmo fixe"... enquanto uma das minhas outras personalidades dizia "cala-te, drogada. estás é drogada, grande ursa"... e outra personalidade dizia "tens que parar com os comprimdos mais vezes: o que são uns tombos e a sensação que estás em alto mar no Titanic a afundar depois do bater no calhau de gelo, se depois podes sentir-te tão leve e bem disposta?"... e ainda outra dizia, com escárnio, para o Doc, mentalmente "então, jovem? as férias fizeram-lhe mal, perdeu qualidades, então hoje, não há choro para ninguém? bem feito!".
Passados nem dez minutos, estava a chorar. Uma outra personalidade qualquer resolveu armar-se em parva. Ainda não foi hoje. O Doc não perdeu qualidades. E eu... não as ganhei.
Contudo...
... e como sou uma pessoa muito positiva, fiquei muito contente. (ou então, como diz o meu ser pessimista "alegra-te agora, que isto para a semana vai ser a doer: todas as reuniões canceladas vão ser feitas nessa altura, chiça!)
Será???
Hoje a reunião de Departamento foi cancelada, porque a minha coordenadora estava muito mal-disposta e foi para casa. A Mzinha diz que eu roguei uma praga poderosa aos convocadores de reuniões. Será???
Não quero ninguém doente por minha causa. Pronto. Pode tudo voltar ao normal. Abracadabra.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Finally home
Isto agora começou mesmo a doer. Chegar a casa perto da meia-noite, com uma espertina do piorio e congelada até aos ossos, engolir um balde de sopa de cenoura quente, passar os olhos pelas notícias, e serem mais que horas para me deitar que daqui a pouco começa outro loooongo dia... é dose.
Ainda assim, com montes de cenas por fazer, estou a produzir a uma velocidade razoável e as coisas têm-me saído com qualidade. Se isto de repente não resvalar, há boas hipóteses de me conseguir organizar mais ou menos esta semana.
Pôr as coisas em perspetiva ajuda, e este fim de semana em Lisboa, por conta exclusiva da minha mãe e da minha cama, deu os seus frutos. Contar as coisas da vida, rir da imbecilidade humana, tomar decisões profissionais prementes, e falar em silêncio com o nosso inner self, tem dias que funciona. Quando temos a razão do nosso lado, mesmo que seja apenas a nossa razão, pacificamos. E, se há coisa em que a terapia me tem ajudado, é em deixar de me sentir culpada de quem sou e dar-me ao direito de assumir que as razões dos outros não são motivo para engolir mágoas e aceitar o que não vai bem connosco. Angustiava-me demais com as razões dos outros e preferia convencer-me eu que estava errada, que eu é que não estava a ver as coisas como elas eram, que era uma exagerada. Aos poucos, estou a aprender que, exagerada ou não, se não gosto, não tenho que comer.
Isto devagar e com jeitinho, vai lá. Pela primeira vez em meses, vejo uma ténue hipótese de vir a gostar mesmo a sério de mim própria, e dos que, com as minhas razões, que são minhas e valem o que valem, considero gostarem mesmo de mim. Disseram-me, em tempos, no meio de uma argumentação, "essa é a TUA opinião". Tenho aprendido que, na grande maioria das vezes, é a que mais interessa. Porque é minha. E eu não sou completamente destituída de inteligência, perspicácia e sentido crítico. Pois: é a MINHA opinião. E, por isso mesmo, é a que conta.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Pensando bem...
Prefiro a lontra, que assim com'ássim tem uma camada adiposa que mete respeito e por aqui está frescote. Ou um frialho do caríu, como preferirem.
Páscoa em Vésperas de Natal
Li não sei onde que as amêndoas e as cenouras previnem e combatem o stresse. Bem ensinadinha como sou, já comprei resmas de ambos os produtos. Quer-me cá parecer que me vou transformar num Gigante Coelho da Páscoa Cor de Laranja, por estes dias. (ou numa lontra da Páscoa, que diz que o chocolate também tem resultados muitíssimo animadores e eu... pois)
Já me ando cá a passar…
Mas não sou a única.
Por um acaso infeliz para um dos meus colegas (o filho está doente), o dia para mim acabou por melhorar muitíssimo, já que a reunião a que ele presidia hoje foi cancelada. Pelos motivos que tenho enumerado nos últimos posts, uma tarde livre num dia em que ia estar quinze horas seguidas na escola (sim, leram bem), é motivo para dar vinte pinotes de felicidade. Ora estava eu, muito contente, no intervalo da manhã, a contar isto a uma colega, quando outra se mete na conversa e diz “Com reuniões amanhã e quarta, não percebo tanto contentamento…” Pois não, não era ELA que hoje ia estar quinze horas na escola, é compreensível…
Nem lhe respondi. Ainda a falar com a OUTRA, dizia eu que amanhã vou passar a manhã a prestar declarações em tribunal por causa de um aluno da minha Direção de Turma, que este ano só me saem duques e cenas tristes, e que não ia dar aulas de manhã, ao que a outra respondeu que, com um bocado de sorte, aquilo ainda se prolongava para a tarde e eu tinha o dia todo justificado. Ia rir-me, quando, nova intromissão: “Então e o que é que vou fazer com os teus alunos de nono ano? É que EU é que vou assegurar a TUA turma…”. Não tivesse sido o tom, completamente idiota, com que ela falou comigo, e a coisa tinha sido resolvida no mesmo instante. Mas como eu estou mais do que farta de gente parva, limitei-me a responder calmamente que era a última aula antes do teste, portanto, “assim só por acaso”, seria normal fazer revisões e tirar dúvidas. De resposta, levei com dois encolher de ombros: um da simpática e outro da amiga, por solidariedade, que é um sentimento muito bonito, não fosse estúpido de todo, desta vez.
Primeiro, detesto que me falem com ar de quem estou a dever uma batelada de dinheiro que insisto em não pagar. Segundo, supostamente estamos todas mais ou menos a par, já que a dita mocinha dá também Inglês aos nonos anos, e vamos fazer testes semelhantes e no mesmo dia, coisa que estamos carecas de saber e de fazer, porque as turmas fazem parte do Projeto Mais Sucesso, ou não estivesse eu numa escola de vanguarda. Terceiro, isto vem de uma pessoa a quem eu andei a chagar para me ensinar as melhores técnicas para dar aulas aos miúdos do quinto ano, porque me disponibilizou os materiais todos esperando que eu me desenrascasse a aplicá-los, como se fosse a mesma coisa que no terceiro ciclo, quando não é, nem de longe, o que ela, que dá aulas a ambos os ciclos há dois anos, já deveria ter percebido. Quando lhe perguntei pela quarta ou quinta vez “como é que vocês ensinam isto?” a amiga ainda me respondeu “não tiveste pedagógicas na Faculdade?”. Ao que eu respondi, mentalmente, que sou muito controlada quando a irritação é séria “Senhor, perdoai-lhes que elas não sabem do que falam… havia de ser bonito aplicar as pedagogias do terceiro ciclo aos putos acabados de sair da primária. Ainda se fosse ao contrário…” adiante. Quarto, esta menina específica anda há semanas de trombas comigo. Já lhe perguntei três vezes o que se passa. Nunca é nada. Santa paciência, mas não lhe pergunto o mesmo uma quarta vez. A partir de agora, faço-me de parva e finjo que não é nada comigo. Está chateadinha, tem dois remédios: ou se trata sozinha ou vem falar comigo de uma vez por todas. Se não, que continue a mostrar má cara, que é para o lado que eu durmo melhor.
Já agora, não? Era só o que me faltava. Quarenta e cinco minutos de aula. Um teste de compreensão de leitura e audição na aula seguinte. Que tal, “abram os livros na página xpto e leiam o texto. Respondam às perguntas. Que tipos de perguntas existem? Quais são os pronomes interrogativos? Que significam? Sabem o vocabulário sobre o tema? Há dúvidas?” Qual é o drama? Enfim, se calhar também queria um plano de aula.
Mas como não sou de deixar ninguém pendurado (e numa aflição, pelos vistos, ‘tadinha), avisei os meus alunos de amanhã que lhes vou mandar por mail uma ficha de trabalho para fazerem nos 45 minutos e ma reenviarem para a corrigir. Também a avisei a ela, que nem se dignou a olhar para mim e virou costas. E aí fui eu que encolhi os ombros. E agora vou fazer a fichinha, para não haver mais stresses… e porque não tenho mais nada para fazer, não senhora. (estaria a treinar para Santa, não fosse a quantidade de vezes que já a mandei para sítios muito, muito, feios… tudo mentalmente, claro).
domingo, 20 de novembro de 2011
E ainda acrescento que...
... estou a menos de um mês de entrar em countdown para os "entas".
E depois de um dos piores anos da minha vida, em que mês após mês, tudo oscilou entre o péssimo e o menos mau, entre o pânico e o alívio, entre uma frágil estabilidade e a deceção absoluta, entre a esperança e a completa desilusão, e ainda assim levei tudo à minha frente tipo trator... há que recordar que fui operada, entrei em terapia, houve a suspeita da minha mãe ter cancro, estive várias vezes para cair para o lado, e me deram tudo, mas tudo, o que podia haver para fazer por uma única pessoa numa escola, desde oito turmas de vários níveis a dois cargos, fora as merdas que algumas pessoas que contavam para as estatísticas fizeram, depois disto, dizia, e a meio de um mês que supersticiosamente para mim sempre foi de perdas e danos, acho que está na altura de rodar a baiana e arcar com as consequências, sozinha, como sempre.
A nível pessoal, já me armei de vassoura e pá e comecei a limpeza de Inverno. Fora com o que só dá chatices, só dá preocupações e só nos magoa. Detesto mentiras. Detesto ilusões. Detesto acreditar seja no que for para depois ter que ver que não existe. Detesto que a minha confiança seja traída porque demoro muito tempo a confiar. Assim sendo, fora com tudo o que não é real. E segue-se a escola. Não vou entrar na segunda metade dos meus "intas" em modo de escravatura. Não vou ser mais escrava nem da minha ingenuidade com as pessoas, nem da mesma ingenuidade com as chefias.
Passei o ano inteiro a ser abordada por amigos que não me veem há meses, que telefonam, que escrevem, que insistem, que se preocupam, e a insistir, chamar para o pé de mim, abordar e preocupar-me com outros que, se não fosse eu, nem se lembrariam da minha existência. Para quem servi de segunda opção, companhia fácil, sobresselente ou substituição para quando nada mais existe de interesse maior, seja outras pessoas, outras festas, outros jogos de futebol, outros cafés.
Chega. Eu não sou a única pessoa da escola, nem sou a última hipótese de quem não tem mais nada para fazer ou levou negas do resto do mundo que convidou para sair. A Jade deixou, formal e finalmente, de se por a jeito.
Pelos cabelos!
Estou fartinha desta questão das semanas a fio de escola-casa, casa-escola. Sendo que, em casa, estou menos tempo que na escola. Estou farta das dez horas de reuniões semanais, mais coisa menos coisa. Reuniões que não trazem nada de novo, eficaz, eficiente ou produtivo e que cheiram a estratégia para prender pessoas no local de trabalho a pretextos obscuros.
Não é que a minha vida pessoal tenha algo de emocionante ou extraordinário, longe disso. Cada vez mais parece um deserto de emoções positivas. Só chatices, só desgostos, só decepções. Mas, como na vida de toda a gente, e eu não fujo à regra, a vida privada das pessoas tem uma parte, não muito atraente, é verdade, mas muito importante, que é a parte da organização. É aquela parte em que as pessoas vão ao supermercado, arrumam gavetas, põem roupa para lavar, dão um adianto à semana, passando a ferro ou arrumando a loiça que está na máquina, limpando o pó ao quarto ou tirando os cabelos do lavatório do WC. Aquela parte que nos permite viver mais ou menos civilizadamente. E, depois, há a parte do descanso, da saúde: aquela parte em que a pessoa faz opções, tipo ir ao ginásio ou fazer uma sopa em vez de comer outra vez um prato de cereais. Em que precisa de tempo para ir à farmácia, ou ir buscar o édredon de penas que pôs a limpar a seco há mais de um mês atrás. Aquela parte em que se deita numa cama feita de lavado a ler um livro que nada tenha a ver com escola.
Essas partes da vida têm-me sido roubadas semana após semana. E eu não admito mais isto. Se, ainda assim, levo com todas as chatices de uma vida privada, com problemas profissionais, sacanices de pessoas próximas e partos de amigas do peito, peço imensa desculpa, mas tenho que ter vida para me organizar, conhecer pessoas novas para voltar a acreditar na humanidade, comprar presentes para os novos bebés que aí estão não tarda, e dar os presentes de aniversário e Páscoa, antes do Natal, aos meus sobrinhos.
Lamento, mas isto tem que acabar. Dê lá por onde der. Medidas drásticas impõem-se. Para já, para ontem.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
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