Hoje acordei cedo, preocupada, como agora é novidade, com o sem fim de coisas que tenho por fazer. Lá fui ao supermercado, arrumei compras, tirei da máquina e arrumei loiça, pus dois sacos de cenas na reciclagem, estendi umas quantas peças de roupa, rezando para que não chova e para que o vento que está as seque. Tudo com uma má disposção interior, um veneno poderoso que se escoa em irritação e pensamentos irados, não sei, não estou nada pura.
Dei por mim em pensamentos de revolta.
Sou uma excelente pessoa. Não se riam, que se isto não é a verdade, é a minha verdade. Sou generosa, sou altruísta, sou solidária, sou justa, sou franca, sou leal. Quem conhecem vocês que seja isto tudo nos dias que correm?
Não me meto na vida de ninguém, não comento maliciosamente vidas privadas, não atiro a primeira nem pedra nenhuma, não desfaço no trabalho dos outros, não engraxo chefias, não quero saber de poder, não sou manipuladora, não ligo a aparências, não me impresssionam os grandes luxos, e não sei o que é a inveja podre, só aquela que me permite alegrar-me pelos outros, suspirando inocentemente por não ter o mesmo. E invejo relações e modos de vida, não invejo bens materiais.
Sei, porém, que no meio de tanta qualidade, sou arrogante. Sou arrogante porque a estupidez e a ignorância humana proliferam e me tiram do sério. Sou arrogante porque nasci inteligente e sinto que isso neste país é um pecado capital, e que a mediocridade dominante gosta de pisar, ressabiada, tudo o que seja um bocadinho acima da média. E irrita-me que uma dúzia de gente estúpida consiga levar a sua avante, e fazer de mim idiota, arrastando uma cambada de ovelhas com a velha máxima da "ela tem a mania que é boa mas a gente baixa-lhe a grimpa". Tenho passado a vida a dizer que sim a imbecis para que o resto do mundo deixe de achar que "eu tenho a mania que sou boa", para me camuflar e diluir capacidades e potencialidades em troca de simpatias.
E depois, de vez em quando, acordo assim, envenenada e venenosa, por não me reconhecerem esforços, por não me elogiarem conquistas, por não me verem como eu sou e me aceitarem assim.
Sinto-me completamente sufocada neste momento, nesta sociedade, por tudo aquilo que gosto de fazer, desde ler livros uns atrás dos outros sobre coisas tão diferentes como psicologia, ciência ou história, até ver exposições de arte contemporânea, passando por devorar filmes europeus, até gostar, realmente, de aprender, e dizer bem das ações de formação, ser, dizia eu, mal visto, mal interpretado ou invejado pelos comuns mortais que partilham comigo a nacionalidade. Ser encarado como cagança e elitismo.
Sinto-me completamente sufocada por aquilo que sei fazer bem, como escrever, dar aulas, conquistar simpatias adolescentes, motivá-los, fazê-los gostar de mim, seja motivo de despeito ou escárnio, e criticado à primeira oportunidade.
Hoje estou mesmo, mesmo venenosa. Mais vale acordar tarde, quando posso. Uma sestinha, provavelmente, viria a calhar, para voltar ao meu modo "o mundo é que tem razão, eu não passo de uma idiota, os outros é que são bons."