Graças a um ser raro, que todas as semanas tem a paciência, e os conhecimentos, para me presentear com os episódios da Anatomia de Grey que vão saindo nos States, tenho seguido a sexta temporada como se fosse americana, enquanto por cá se vê a quinta, ou o início da sexta se se tem a sorte de ter TV Cabo, o que não é o meu caso.
Recebo cada episódio com a maior gratidão do Mundo, porque embora isto esteja lentamente a melhorar, desde que deixei a anterior escola, os momentos em que me sinto entre muitos amigos são raros, e reduzem-se às festas de anos de cada um, ou às passagens efémeras de um ou outro cá por casa, ao fim do dia ou para um café depois de jantar. Fora isso, sou eu e a Mzinha quando, no ano passado, éramos muitos, todos os dias.
E isto não é difícil de compreender, mas só é apreendido em toda a sua dimensão quando se passa pelo mesmo. A verdade é que, por muito idiota que possa parecer, cada episódio da Grey é uma hora de sala de estar entre amigos. Porque, como já afirmei em tantas outras vezes, estas personagens encarnam de forma aterradoramente verosímil características muito comuns entre as pessoas de quem gosto e com quem me relaciono. São dark and twisty. Têm medos, inseguranças. Alguns passaram por doenças graves. A maior parte, por relações falhadas. Casaram, descasaram, foram deixados no altar, traídos, trocados pelos melhores amigos, ofendidos, humilhados. Apanharam bebedeiras juntos. Deitaram-se debaixo da árvore de Natal a ver as luzinhas a piscar, ou no chão da casa de banho em luto. Já os vimos rir, chorar, dançar, discutir, andar ao murro, competir, beber copos, acordar em camas estranhas. Já os vimos reprovar em exames, falhar, ter sucesso, ser os maiores, celebrar o Natal, o Ano Novo, o Dia de Acção de Graças. Acompanhamos as suas vidas e já vimos, até, alguns morrer. Não são os meus amigos, mas lembram-me muitos deles que não vejo ou com quem não estou tão frequentemente como gostaria.
Quem me envia os episódios tem, em comum comigo, uma preferência muito forte pela Bailey, a nossa sweet nazi. Acompanhamos o seu modo frontal de dizer as coisas certas nos momentos adequados. Eu, pela parte que me toca, invejo-lhe essa faceta porque, apesar de termos em comum uma agressividade sempre latente, ao contrário de mim nunca a vi perder a razão. Os comentários depois dos episódios, com a pessoa que mos envia religiosamente, estão geralmente relacionados com a nossa vontade comum de que esta personagem seja feliz e encontre um novo amor, como meninas lamechas que no fundo somos.
Mas hoje, o que me marcou num episódio que não vou contar, foi um discurso da Christina, de quem também sempre me senti muito próxima, não na obsessão pelo trabalho, mas na cara sempre séria, na expressão antipática e trocista, na forma arrogante com que olha o Mundo, e na sensibilidade que mostra raras vezes. Talvez por serem tão raras, para mim são muito marcantes. Choro sempre, e hoje não foi excepção. Quando a sensibilidade a invade, quando lhe tocam no ponto certo, a Christina dá os maiores shows de representação que tenho visto nesta série.
Hoje o namorado perguntava-lhe porque não se deixava amar.
Ao que ela respondeu: o Burke foi tirando aos poucos, e sem que eu desse conta, bocadinhos de mim. Até eu deixar de ser a Christina Yang e me transformar na pessoa que ele queria que eu fosse. Perdi-me e passei muito, muito, tempo a recuperar-me, a voltar a ser a Christina. Amo-te. Amo-te mais a ti que o amei a ele. E isso assusta-me horrivelmente. Porque hoje tu tiraste um pedaço de mim. E eu deixei que o fizesses. Mais uma vez. E isso não se vai voltar a repetir. Nunca mais.
Como eu a entendo. E como gostaria de um dia poder afirmar, convictamente, esse nunca mais para mim própria.