... fight for your memory.
Cá estamos de volta ao consultório da Jade onde se dão dicas (que eu cá não aconselho ninguém), apontam estratégias e apresentam truques para lidar com "things that suck"; e quem sou eu para me achar digna de tal rubrica? Alguém que ganhou legitimidade em desastres inerentes à experiência própria.
O tema de hoje interessará mais a quem levar, anualmente, uma anestesia geral nas ventas e pesar, na maior parte do seu tempo, menos de cinquenta quilos. Soa-vos familiar? Pois.
Se há coisa de que me orgulho é da minha memória. Não é fotográfica, mas é muito boa. Excelente, diria mesmo, para tudo o que é não verbal, imagens, cheiros, caras, atitudes, sorrisos, reacções. Quando se metem as palavras à mistura, a minha memória passa a ser, apenas, muitíssimo aceitável (é a memória e a modéstia). Tenho um vocabulário bastante razoável em duas línguas distintas e jamais esqueço palavras ditas ou escritas que me tenham emocionado ou tocado de algum modo. Contudo, por exemplo, há mais de dez anos que sou incapaz de memorizar um poema, troco-me toda, e com as letras das músicas vai acontecendo o mesmo, de forma gradual.
E esta é a parte da rubrica que toca a todos, meus amigos, que a idade não perdoa ninguém.
Irrita-me solenemente saber perfeitamente qualquer coisa e não a conseguir lembrar. Seja um nome, uma situação, um facto ou uma data, tira-me do sério. De que serve um arquivo se não soubermos em que dossier procurar a informação? A anestesia geral dá-me cabo do juízo, e como sou magrita, as drogas devem subsistir mais tempo no meu sistema. Ando meses à nora, a balbuciar disparates, a calar-me a meio de uma frase, a parar a meio dos corredores, a ausentar-me em corpo presente. Pathetic.
Ao longo destes anos, tentei de tudo para recuperar o meu estado normal o mais rapidamente possível: ampolas, comprimidos, horas de sono-extra, caminhadas, exercício físico. Nada funcionou com a brevidade desejada.
Desta vez, a solução surgiu por acaso, por um daqueles acasos que em nada está ligado ao problema subjacente. Quando regressei a Lisboa, olhei a Moleskine e, no meu registo de leituras, dei conta, escandalizada, que tinha lido dois livros este ano. Dois livros. Ia-me dando uma coisa, e fiquei a olhar para aquilo, estupefacta. Isto nem parece teu... és uma grandessíssima anormal. É claro que sei bem como o desleixo chegou a este ponto. E isso ainda me irrita mais, ao contrário de entrar numa de auto-indulgência parola. Não há justificação possível para isto, para não se fazer o que mais se gosta, a troco de coisa nenhuma. Claro que sei que li imensa coisa avulsa, poemas, textos, histórias, entradas de blogues. Mas eu gosto é de livros, pá...
E deu-me a febre da leitura. Por vergonha, por castigo, por vingança, por afirmação própria... e por puro prazer, fui-me a eles. Em duas semanas li quase quatro vezes o que li o resto do ano inteiro. E não li só para dizer que sim, li MESMO.
Ao fim da primeira semana, comecei a escrever, depois de acabar a minha leitura, as impressões que me ficavam da obra na minha Moleskine. E vi que, à medida que ia lendo mais, ia lendo mais depressa e fixando mais detalhes. Ia fazendo mais associações e intertextualidades. E a concentração chegava por maiores períodos de tempo. Como me disse a Carolina, "estás a criar novas sinapses".
Para além disso, jogo mahjong todos os dias. Todos. Vários jogos. E durmo mais de oito horas. Digo-vos, está a funcionar. E eu estou muito aliviada, porque se há coisa que me deixa muitíssimo insegura é sentir-me intelectualmente diminuída. A memória é o que nos define, o raciocínio, o que nos distingue.
How to fight for your memory? Work out as if you were in a gym, but do it sitting down in a library.