sábado, 31 de janeiro de 2009

Imagem


Sentada num braço do sofá, à janela, olha a chuva e é abraçada pela sensualidade da noite escura. Deixa-se estar a fumar, sentindo o letal companheiro entre os dedos, enquanto relembra todas as palavras escritas e lidas nas últimas horas.




Envolve-se mais na manta que lhe aquece o corpo sem lhe resguardar a alma, e sente no tecido toda a proximidade que lhe falta, as suas ausências na pele nua, o tempo que passa grão a grão, na ampulheta.




Olha o pátio vazio, enquanto a música clássica chora baixinho e o aconchego não disfarça tudo em que evita, disciplinadamente, pensar. Surge-lhe uma vaga ideia, uma leve vontade, de pegar no carro e ir madrugada fora, ao sabor de um destino imprevisto. Fazia isso amiúde, há poucos anos atrás, pela serra, em direcção à barragem, ao encontro das piscinas naturais, as estrelas por milagre sempre novo.




A estrada. Afasta a ideia antes que não lhe consiga resistir e fique por aí parada, no meio do nenhures, com todo o tipo de sombras que traz coladas a si a envenenar-lhe os sentidos.




Má ideia, má ideia. Boa ideia é ir deitar-se, abraçada à bonequinha de sempre, de menininha que nunca deixou de ser, com o cheiro da infância e do avô, da mãe e de todos os brinquedos, com o cheiro de casa, o seu cheiro infiel a mil perfumes, o seu cheiro envolvido em sorrisos infantis e sonhos de todas as cores.




Sim, boa ideia, essa do leito frio e gigantesco, onde se pode esticar e ainda assim adormece sempre encolhida, na posição de um feto que goza o supremo privilégio de um lugar seguro e da mais profunda ignorância como verdade absoluta.




Apaga o cigarro e deita um último olhar à noite escura, e ao vidro molhado. Antes de sair da sala, ainda hesita um breve instante, como se uma voz a chamasse. Aguarda. Não há palavras, não há murmúrios, não há sequer um breve sussurrar.




Mas sente-lhe a presença. Sorri. Em voz baixa e meiga, tão baixa e meiga que nem a reconhece, diz, estou bem. Descansa, que estou bem. E, apagando a luz, dirige-se para o quarto, já desacompanhada.
Verdadeira Poesia

(o blogger Kok sugeriu-me que lesse um texto seu que entra em diálogo literário com este meu, o que fiz prontamente. É um texto de Abril, e as semelhanças são poderosas. Esta foi a imagem que ele escolheu para ilustrar o que escreveu então. Além de achar apropriado deixá-la aqui, a assinalar os dois textos gémeos, não pude deixar de sorrir por outra coincidência: esta imagem das gotas de chuva a criar ribeirinhos nos vidros das janelas é-me muito grata, muito querida, muito especial. Thanks, KoK)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Vai haver...

... Missa às Segundas.
Estreia o Dr. House, às Segundas, na TVI. Tenho saudades do Gajo, pá. Gosto dele, da atitude, tal como gosto da Christina e da Nazi às Terças. São quem eu finjo (muito mal) ser.
Gosto, pronto. "Almost dying changes nothing. Dying changes everything".

Auto-Ajuda

Domingo, por motivos que não vêm aqui ao caso, emocionei-me por causa de um blogue. O dito não permite comentários, e como tal escrevi uma carta. Isso acalmou-me, a escrita é uma panaceia, um desabafo. O resultado foi de tal forma satisfatório que pensei, porque não, apostar nisto? Todos nós temos as nossas porras, afirmava H. na sua sabedoria ancestral, vezes sem conta. E a verdade é que me farto de escrever, desde pensamentos e versos soltos na Moleskine, a breves desabafos manuscritos em cadernos sortidos, a histórias de ficção em papéis que tenho à mão, aos posts mais ou menos breves, mais ou menos regulares, aqui no blogue. Os diários, por contraste, aborrecem-me. Quando escrevo, gosto que leiam e os diários íntimos e secretos não me seduzem minimamente.
Então, na Segunda-Feira, comecei a dedicar-me às cartas. A dizer de minha justiça o que me vejo obrigada socialmente a calar, a guardar. E na Terça, achei um piadão à Grey: uma das personagens corria o risco de não voltar a falar e desbobinou às amigas tudo aquilo que nunca lhes tinha dito. Coisas muito cruéis, por sinal.
As minhas cartas estão guardadas numa pasta de seu nome "So, this is Goodbye". E contêm missivas das "palavras que nunca te direi". Passando a pieguice do tema, digo-vos que resulta. Chegar a casa e escrever a alguém aquilo que calaste durante o dia, por motivos puramente sociais e convencionais. Insultares quem te irritou, elogiares quem de direito, desenvolveres outros assuntos que não cabem em locais de trabalho, dirigires-te a alguém que não vês há muito mas cuja imagem te surgiu a despropósito numa qualquer altura do dia, falares do que não podes, ou não deves ou não queres, com quem escolheres. É muito mais giro que um diário, muito mais útil, e ajuda a pôr sentimentos e ideias em perspectiva. Hoje até dei asas à imaginação e escrevi uma resposta a uma das cartas, como se pela voz do destinatário me surgisse... vocês sabem como eu adoro feedback.
É libertador. Sempre fui apologista de que não se deve deixar nada por dizer, e, por enquanto, é engraçado ver que as minhas cartas não são, como no episódio da Grey, escritas fruto da urgência de palavras desagradáveis caladas tempos infinitos. Chego, assim, à conclusão, que calo muito mais a minha doçura que as minhas raivas.

Muito Prazer

A Shadow, a propósito dos posts de ontem, mandou-me para o mail uns excertos escritos por um senhor que eu desconhecia, Afonso de Melo. Shadow, obrigada por nos teres apresentado. Fartei-me de chorar, mas as lágrimas são muitas vezes catárcticas.

Deixem-me apresentar-vos um autor que escreve como as mulheres, com o coração por caneta e a saudade por prontuário.

E SE TU SOUBESSES...
Se tu soubesses o que me vai na alma... se soubesses as vezes em que em ti penso a saber que nem sequer de mim te lembras. E se soubesses que tantas das pessoas que por mim passam, passam porque procuro esquecer-te enquanto tenho de esperar e ter paciência porque, para já, os nossos tempos são diferentes.Queria saber o que se pensa quando se joga tudo o que se tem.E deixa-me contar-te como descobri que a vida sem ternura não é grande coisa e como se consegue viver sem chorar e com os olhos cheios de água. Deixa-me explicar-te como se destroem ilusões e como é difícil recomeçar todas as coisas quando nelas não se acredita. E deixa-me contar-te como foi aquele dia em que um vento de Inverno soprou fantasmas nos sonhos de menino e se fez triste o meu sorriso e como cresceu este silêncio imenso que em mim se sente do princípio ao fim.
Foi aí também que descobri que não se pode contar a ninguém o segredo da dor.
Afonso de Melo – Tantas vezes tu
Shadow, já agora, manda-me, se quiseres, e por mail, se achares melhor, a morada do teu blogue antigo, que pela amostra junta, promete. Também adorei os outros excertos, mas são demasiado longos para os publicar aqui.
Um grande beijinho e (mais uma vez) muito obrigada. Por tudo. É possível que seja uma cena de Sagitários, mas acertaste, mais uma vez em poucas horas, na mouche.


Depois da tempestade...

... mais chuva. A protecção civil dá alerta laranja para todo o país. Não me incomoda, gosto de laranja e toda a gente já percebeu que também gosto de chuva, sempre é um pretexto para perguntar ao Pan, de manhã, tenho uma franja ou transformei-me num caniche de casa até aqui?, ao que ele, normalmente, responde com um ganido triste.
Hoje dormi muito. Deitei-me ainda não eram onze e acho que isso não acontecia desde os meus dez anos. Não dormi lá muito bem, mas hoje já me senti mais equilibrada, mais de pés na terra, sentindo o peso da gravidade a atar-me ao chão. Os dias entraram, novamente, numa monotonia confortável.
A Cidade-de-Deus também tem as suas coisas boas. Aquelas que me fazem hesitar, ponderar ficar por aqui. Há coisas que Lisboa não permite, como os amigos a bater-nos à porta para um café de surpresa (mesmo que dêem com o apartamento vazio, a cidade é pequena, não se perde muito em tentar) ou a ligarem-nos para saber se queremos ir lá jantar a casa, já com o jantar feito. A proximidade de tudo é um conforto. A minha mãe costuma dizer que se sente segura comigo aqui, porque se me sentir mal ou tiver uma crise, em dois minutos tenho cá alguém para me valer, e tem razão.
Outra coisa boa aqui é o tempo. Passa devagar. Permite coisas como almoços em boa companhia, porque sim, porque calha. Hoje foi um desses dias. Em Lisboa tens que planear tudo com antecedência, fazer marcações, perder tempo a procurar estacionamento, a esperar para te sentares, a irritares-te com pormenores. Aqui as coisas só dão para o torto quando tens presssa.
À saída da escola, a entrar para o carro, um amigo meu pára o seu carro gémeo do Jade Mobile no meio da estrada e faz-me sinalefas. Vais para casa? Encolho-lhe os ombros. Detesto as sextas à tarde, o primeiro impacto de uma casa vazia mexe-me com os nervos. Espera aí, gesticula ele. Um micro-segundo depois lá estava eu no seu banco do pendura, toda contente, a dizer "Xim... vamos almoxar e dijer mal de todágente, vamox", e a bater palminhas. Em menos de nada estávamos na Praça da República com o suplemento cultural do Público à frente, a falar dos filmes e das peças de teatro e das exposições. Olha, a cinemateca vai passar o Ginger e Fred do Fellini. O G. emprestou-me este DVD, tenho-o lá em casa. (O G. é a minha cinemateca privada, para que conste, e hoje isso ficou provado).
Numa lojinha pequena de sandes e saladas, e tostas com muitos oregãos, que eu fiz o favor de espalhar pela mesa toda, quando me ri demasiado próximo da dita de frango, lá se passou uma hora de almoço em que, afinal, a conversa foi bem mais interessante que a simples troca de cantigas de escárnio e maldizer.
Ontem estava com um humor canino. Hoje, relembrava a esse meu amigo que, da última vez que tínhamos almoçado só os dois, o deprimido era ele. Lembrávamos a causa da sua neura e ele disse, acreditas que não pensava nisso há que séculos? e eu, tendo em conta que almoçámos em finais de Dezembro, como vês, o que parecia o fim do Mundo pouca importância acabou por ter.
E acrescentei, em voz alta, mas a falar mais comigo que com ele (é assim, a verdadeira amizade), e eu tenho muito a aprender com isso.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Quando os comentários...

... ultrapassam os posts.
A minha amiga Shadow fez um comentário genial a um dos posts de hoje.
É por isso que eu adoro este blogue. É por isso que escrever-vos vale a pena. É por isso que desejo, antecipo, espero, rezo pelo feedback. É por isso, e por isto:
"Mas ainda assim, qual sagitário optimista e alheada da realidade... deixa.me fazer só mais uma citação de "The mexican":
Samantha: I have to ask you a question. It's a good one so think about it. If two people love each other, but they just can't seem to get it together, when do you get to that point of enough is enough?
Jerry: Never."
Enfâse no: when do you get to that point of enough is enough? Never."
Shadow, nem sei o que dizer. Se a parte do inicial do teu comentário, que não citei, me fez rir (um riso fruto da concordância e do cansaço, um risinho venenoso e viperino), esta parte trouxe-me as lágrimas aos olhos. Sabes, (não, não sabes...) era mesmo isto que eu precisava de ouvir. Precisava destas palavras, hoje. O meu anjinho da Guarda falou por teu intermédio.
Obrigada. Obrigada a ti e a outros, por me responderem. Farta de falar para o espaço sideral ando eu.

Just Another...

... depressing post from a depressed person.
Stop right here, if you are feeling good, if you're having the time of your life. Enjoy it, grab your smile, close this page, go away.

Um amigo meu disse-me a meio da semana que se sentia "Black". Perguntei-lhe ontem, are you feeling whiter?, e ele, blacker, honey, blacker, this mother-fucker weather...
A mãe de uma amiga minha ontem desatinou com ela ao telefone, porque está farta da chuva. E ela, mas estás a falar-me assim porquê? e a mãe, mas queres que te fale como? já nem sei o que é o sol...
Bullshit. Num dos dias mais felizes da minha vida, chovia a potes, e a chuva ajudava a tornar tudo ainda mais perfeito. Já fui muito feliz à chuva.

Ainda esta semana, tenho memória de estar a chover, de estar encharcada até aos ossos, e de pensar "Ché bella cosa, la vita". Os estados de extâse, é o que vale, duram em mim o tempo do micro-segundo em que me fazem parar de pensar. Logo a seguir, vem o tal verso do Álvaro de Campos, "Merda, sou lúcido!"
E volto ao filme do Wenders, "enfim, a loucura". A lucidez é o pior de todos os males, estou farta de raciocínios lógicos, de prós e contras, e análises e projecções, e equílibrios instáveis entre sentir e desejar, e pensar e ponderar. Estou fartíssima de me controlar a bem de treta nenhuma, a bem do tempo perdido e desperdiçado sem sorrisos ou emoções.

Chuva, qual chuva? O que empata o mundo é a estupidez humana. Personificada na capacidade que o homem tem de pensar e presumir que com isso ganha alguma coisa.

Leituras

Li isto, no post de hoje de Miss K., no blogue "Life is a Masterpiece": "As histórias de amor, para existirem, têm que ser impossíveis".
Era só o que me faltava, para acabar o dia em beleza. Um dia que começou mal e continuou pior, só podia ser fechado com golden key.
Vou ali já venho, procurar uma árvore e enforcar-me no cachecol. Sometimes, my friends, life really SUCKS!

I'll be back

... for part II.
Retirei-me amuada, mas os amuos passam-me depressa.
Se não tenho escrito é por, tão somente, me encontrar no meio de uma realidade virtual, à conta da privação de sono. Tenho dormido pouco, e sou bicho-preguiça. Há várias noites que não durmo em condições. Quando tal acontece, entro em modo-alternativo. Tudo parece acontecer num mundo paralelo a mim mesma. Tenho dificuldade em concentrar-me no real, e dispendo todas as minhas energias na tarefa árdua de, apenas, existir, de forma estritamente funcional.
Não sei o que dizer, a não ser "tirem-me deste filme", "levem-me a passear", "tentem-me com propostas indecentes e irrecusáveis", "mostrem-me um lugar em que não tenha que trabalhar", "apoderem-se de mim", "acordem-me", "façam-me renascer".

Até lá, até já, que eu ando algures na via láctea, na cauda duma estrela (de)cadente.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Actualização de Última-Hora

Pressionada horrivelmente pelos lobbies vigentes mas, ainda assim, pessoalmente envolvida desde que nasceu na defesa da verdade (seja lá isso o que for), a Jade vê-se obrigada, por este meio, a actualizar a notícia bombástica saída neste pasquim de trazer por casa, no post imediatamente anterior.
Confirma-se: um dos gabarolas ascendeu à posição mui nobre e invejada de Inteligente-Mor, ao resolver, em frente aos olhos do júri (moi-même) o dito-cujo cubo-mágico-não-viciado. Resolveu, sim senhor. Mais: fê-lo em pouco tempo e sob o olhar raivoso e envergonhado do outro gabarola, que até à data ainda não o fez, sendo despromovido à condição de Grande-Amélia.
Os factos são estes, e têm poder.
(ainda que seja extremamente irritante que o Sr. Inteligente-Mor ande para aí inchado que nem um pavão armado, perante as lágrimas de derrota da dita Amélia em pranto, tadita...)
(...)
e ainda acrescento que acho decadente que o post anterior tenha sido dos mais comentados deste blogue. Parece que os meus leitores gostam é de parvoeira breve e colorida, não? Então eu hoje, que tinha um post longo e muitíssimo profundo, resolvi que vou ali, já venho... curtir o amuo. Querem um post lindo de ir às lágrimas? Escrevam-no vocês!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Sabes que a vida vale a pena...

... quando vês dois colegas teus, rapazinhos responsáveis e respeitados, com aquilo a que se chama "mais que idade para ter juízo", aos risinhos, aos gritinhos, aos palavrões e às chapadinhas, em competição por... um CUBO GICO.
(que eu trouxe cá para casa, ainda por resolver, que, ceguinhos como estão, bem eram capazes de ir para casa deles desfazê-lo com uma chave de fendas para amanhã chegarem todos contentes a dizer que o tinham resolvido... em 38 segundos!)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Reunião de Departamento

Extensão. Monotonia. Vozes plácidas. Trocas de argumentos mornos. Atenção desmesurada a pormenores ridículos. Um frio, um frio...
Calça as luvas. Volta a descalçá-las para assinar actas em catadupa. abraça o estojo da Hello-Kitty. Acaricia-lhe as formas. Sente-se tão só. Solitária na vida bem como nas opiniões. Tem vontade de falar. De repetir argumentos revolucionários. Ou infantis e despropositados. Ou simplesmente idealistas, e como tal, advindos de uma mentalidade bota-de-elástico. Pensa um instante: será demasiado jovem ou terá nascido já demasiado velha, com uma mentalidade que caíu em desuso?
Não sabe. Não sabe nada.
Entrevê sorrisos irónicos por parte de alguns colegas. Seria com eles, com os sorrisos, cúmplice, se lhe apetecesse sorrir. Mas só lhe apetece chorar. Desvia os olhos dos colegas para um papel que tem à frente, pedido a uma amiga para disfarçar que, de facto, não tem quaisquer apontamentos a tirar. Ou vontade disso, para que conste.
E as vozes continuam, imperceptíveis, naquela música de fundo que se põe quando se quer estudar.
E pensa, que frio, que frio que eu tenho. Muda de posição na cadeira desconfortável, engole as lágrimas. Alguém diz uma piada e ela ri-se, mecanicamente. De que é que se fala agora? Ah, sim, plano de actividades. Cumprido, pois. Tudo em contexto de sala de aula. Que fome, o que será o jantar? O que tem ela para fazer ao serão? Alguém terá comentado os seus posts no blogue? A mãe terá ligado para o telefone esquecido em casa?
Olha para o relógio, pensa, ainda faltará muito? recrimina-se, pareço os alunos, ainda hoje escreveu um recado a um gaiato por este perguntar duas ou três vezes as horas num espaço de dez minutos. Tem pena que a sua coordenadora não lhe peça a caderneta para escrever um recado à mãe: " A sua educanda sonha acordada nas reuniões de departamento e não dá uma para a caixa". Tem saudades de ser aluna e de lhe dizerem como se deve comportar. Queria que a mãe a obrigasse a entregar os objectivos individuais. Para não se sentir uma traidora, se e quando o fizer.
Tem frio, tem mesmo frio. Recua ao que leu hoje, tenta lembrar-se se escreveu alguma coisa de jeito e suspira quando chega à conclusão que não. Quando dá por si, apercebe-se que tem a cara entre as mãos enluvadas, e abraça o próprio rosto. Que figura, a sua necessidade de carinho e conforto, de toque, de ternura, de algum afecto, de um par de mãos, começa a tornar-se insustentável. Embaraçosa. Levanta de imediato o rosto. Alguém a olha, alguém repara? Não. Valha-nos isso, a suprema contradição de precisar de consolo e, ao mesmo tempo, se sentir tão aliviada por ser apenas transparente.
Parece que está a terminar. Levanta-se. Dirige-se a um colega, faz-lhe duas ou três perguntas. Está de pé, ele sentado. Alguém saíu. O tempo passa e quando dá conta, a reunião parece que afinal continua, porque alguém diz "Prestem lá atenção". Deixa-se estar de pé, e assiste ao resto assim. Tudo lhe parece um filme de que é apenas espectadora.
Agora sim, parece que acabou.
Já em casa, telefona a uma amiga. A mesma que lhe deu a folha onde só rabiscou uns apontamentos e desenhou umas flores. A mesma que se sentou ao seu lado. Ficam muito tempo a conversar. Falam seriamente de avaliação. Revelam receios comuns. Tentam coordenar estratégias. Discutem soluções.
A minha reunião de departamento foi feita ao telefone, em casa, com uma colega de outro departamento presente a acenar em concordância. A minha reunião de departamento, a que contou, a que foi importante, nem foi reunião, nem foi de departamento.
Assim andam as escolas. Assim me arrasto eu, com elas.

Ámen

Recebi esta sms brilhante, de destinatário não menos brilhante, acto-contínuo ao final do episódio de hoje da Grey: "Ámen"
Assim se vive a cumplicidade.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Cor de Fundo

Em sintonia com a CarolinadoMónaco, e a pedido de várias e ilustres famílias, mudei a minha cor de fundo de um Pink-Hello-Kitty para um Green-Jade. Porque sim. Porque não posso ver nada. Porque é fácil. Porque nenhuma mudança é definitiva e todas são refrescantes. E porque à Jade qualquer trapinho fica... a matar!

Let it Snow

Há coisas que fazemos contra o nosso feitio. Fazemo-las porque nos ensinaram que era assim que se agia correctamente, porque aprendemos quais as regras a cumprir e tentamos cumpri-las, contra tudo e contra todos, agrade a quem agradar. Mesmo que não nos agrade a nós. Hoje, para cumprir uma regra, acabei por me sentir muito má. Muito parva. Muito adulta. Uma perfeita anormal, por isso mesmo.
Nevou na Cidade de Deus. Pela primeira vez, desde que me lembro, em dia de aulas. No meio do primeiro tempo da manhã. E o que fez D. Jade aos alunos, encantados, excitados, no meio de uma alegria e uma magia própria da idade e da inocência? Mandou-os sentar “imediatamente” e fechar os estores. Digam lá que isto não é absurdo… pois. Ficaram tristíssimos, e eu só não me senti pior porque continuou a nevar, intervalo dentro, e eles lá saíram, todos contentes, para o ar gélido da manhã.
E eu penso: que diabo ganhei eu com isto? Nada. Nem mais respeito, nem mais disciplina, nem mais atenção, nem mais concentração. E, cada vez mais me convenço que há regras que não vale a pena cumprir só porque sim, porque somos ovelhas em rebanho ao sabor da vontade de um pastor.
Esta história é paradigmática. Ontem tive uma conversa com um colega meu pela net, que continuei hoje, na sala de professores. Dizia eu que a falta de auto-estima tem a sua causa numa permeabilidade exagerada às opiniões negativas alheias. Que ninguém nasce a sentir-se mal na sua pele. Que é a opinião alheia que nos molda a opinião própria sobre tudo, através do confronto, da comparação, da análise. Quando somos demasiado perfeccionistas, projectamos em nós mesmos o que os outros consideram fracassos. Olhamo-nos ao espelho social e a imagem que temos é uma assimilação dos diversos feedbacks que os outros nos dão. E se somos exigentes, tendemos a achar que as críticas destrutivas são reais e válidas.
As opiniões alheias. As regras estabelecidas por outros, nas quais não fomos perdidos nem achados. A razão. As razões. Perder a razão. Dizia eu a esse meu amigo, a razão, quando se tem, jamais se perde. Não é por gritarmos, por dizermos palavrões, por sermos incorrectos ou perdermos as estribeiras que perdemos a razão que temos, essa agora. Podemos perder a calma, mas por que havemos de perder a razão?
Por isso, de há uns tempos para cá, decidi ser mais crítica em relação às opiniões alheias. Afastar-me daquele tipo de pessoas que eu sei que me deita abaixo. Erguer uma parede entre a minha sensibilidade e quem dela pretende abusar. A quem me manipula os humores. A quem sabe sempre o que dizer para me deixar feliz ou a sentir-me o ser mais miserável do mundo. Fazer orelhas moucas a comentários desagradáveis ou deliberadamente melífluos. Porque não há nada que mais me deprima e arrase a auto-estima do que me sentir usada, do que me sentir um joguete ou uma marionete nas mãos de seres com intenções duvidosas. Não gosto. Não gosto que se aproximem de mim, me rodeiem e acarinhem, para que a estocada doa mais. Não gosto que me usem para chegar a outras pessoas, para obter informações, para beneficiar da minha ajuda, para abusar da tolerância e disponibilidade que ofereço sempre a quem me trata bem.
Tratar bem e gostar são coisas diferentes. Eu tendo a gostar de quem me trata bem, sem me aperceber que nem toda a gente que me trata bem gosta de mim. E isso acabou. Já vi muito, já ouvi muito, já passei por muito, já chorei demais.
Há que distinguir as regras dos outros das nossas próprias regras, há que distinguir o Eu do Outro. Por isso, da próxima vez que nevar, vou sair porta fora com a minha turma, saltar e dançar no frio do pátio e tentar apanhar os leves flocos com a língua, enquanto me deixo fotografar por um qualquer telemóvel de um aluno em extâse.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Guia Prático da Ciência Moderna

(Parte de um mail que me enviaram e aqui publico, que o verdadeiro professor é aquele que não perde uma hipótese de disseminar o conhecimento...)

Lei das Unidades de Medida: Se estiver escrito 'Tamanho Único' é porque não serve a ninguém, muito menos a ti.

Lei da Gravidade: Se conseguires manter a frieza quando todos à tua volta estão a perder a cabeça, provavelmente é porque não estás a perceber a gravidade da situação.

Lei da Queda Livre: 1. Qualquer esforço para se agarrar um objecto em queda provoca mais destruição do que se o deixássemos cair naturalmente; 2. A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor da carpete.

Lei da Relatividade Documentada: Nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual de instruções.

Lei da Vida: 1. Uma pessoa saudável é aquela que não foi suficientemente examinada; 2. Tudo o que é bom na vida é ilegal, imoral ou engorda.

Lei da Atracção de Partículas: Toda a partícula que voa encontra sempre um olho aberto


(Todas as leis estão empiricamente comprovadas por mim própria.)

The Pursuit of Happiness

Num post de ontem, um blogger amigo meu desabafava as culpas de um divórcio.
Como sou solteira, e filha de pais divorciados, este é um assunto de que posso falar apenas de modo indirecto. Do ponto de vista da filha. Ironicamente, do ponto de vista da causa maior da culpa parental.
Não conheço muita gente a sentir-se culpada por um divórcio sem filhos. Quando assim o é, suponho que a separação venha como um alívio ou uma benção, dado que acredito piamente que duas pessoas que um dia se casaram, o fizeram a pensar que seria para toda a vida, jamais adivinhando o inferno que essa decisão poderia trazer, num futuro mais ou menos próximo. E quando o divórcio se dá, enfim, deixa o gostinho amargo de um projecto que foi por água abaixo, deixa a frustração, deixa mágoas, mas não deixa arrependimentos. O arrependimento, aí, vem do momento em que se decidiu casar.
A culpa surge, sempre, quando há filhos. Numa das conversas madrugada dentro que pautaram o fim-de-semana, outro amigo meu dizia que é preciso separar, nas mentalidades, a separação de um casal da separação dos "pais". E que os "pais" jamais se deveriam separar. Isto é, deveriam fazer ver aos filhos que a sua separação enquanto casal não poderia ser encarada como a demissão de um deles enquanto pai. E isto não é fácil, já que as crianças não podem viver em comum com ambos. Terão que habitar apenas com um dos dois. E as pessoas tendem a projectar os problemas que têm com o ex-cônjuge na prole. Entrar em esquemas vingativos, em chantagens baratas, em guerras em que os filhos são usados como soldados por uma das partes contra a outra.
Deveria sentir-se culpado todo o adulto que, num processo de ressabiamento, age como uma criança, prejudicando quem deveria amar e pôr acima de intrigas e questíunculas amorosas, isso sim. Qual é o adulto responsável e íntegro que está livre de se apaixonar por outra pessoa, de amar outra pessoa, de desamar aquela com quem vive? Por que se deve recriminar esse sentimento? O que fazer, quando algo de tão pungente acontece?
Cada um sabe de si, é a minha mais profunda convicção. Na tal dualidade desejo-realidade de que se falava este fim-de-semana à mesa de um bar, eu considero que se deve respeitar com a mesma sensibilidade os que optam por combater o desejo e ficar com o que têm e os que cedem ao desejo de ser mais felizes partindo do ninho. Desde que ambos o façam de forma sólida, estruturada e convicta. Os que ficam ou os que partem, devem fazê-lo de acordo com a sua mais profunda consciência. Não me parece que duas pessoas juntas, apenas porque têm filhos, sejam grande exemplo para essas crianças. Não me parece que estas ganhem grande coisa em viver com duas pessoas que não sabem já o que é o afecto mútuo genuíno. Mas também não me parece bem que duas pessoas que geraram outras se separem à mínima manifestação de conflito, ao menor problema, à mais ínfima contrariedade.
O que eu acho realmente errado, contudo, é viver-se eternamente infeliz, forçando a natureza em espartilhos convencionais. Se eu tivesse filhos queria que eles lutassem pela sua própria felicidade. Esta seria a lição mais importante a transmitir-lhes. Lutar pela sua felicidade de forma digna e honesta. Sem maltratar ninguém, sem atraiçoar ninguém, sem deslealdades ou hipocrisias. Mas tentaria ensiná-los a ser leais, acima de tudo, com eles mesmos. Fazendo questão de dar o exemplo.
A minha mãe sempre o fez comigo. E, se vale de alguma coisa, para os pais divorciados que choram a distância dos filhos neste preciso momento, eu, filha de pais divorciados, digo de minha justiça, por experiência própria: jamais culpei qualquer um dos dois por não viverem juntos. Jamais me senti eu culpada da sua separação. Jamais me senti diminuída. Tenho muito orgulho numa mãe que bateu com a porta a um casamento que não a fazia feliz. Tenho muito orgulho numa mãe que, ainda hoje, procura a felicidade com a mesma força e a mesma garra. Tenho muito orgulho numa mãe que não permitiu que o meu exemplo em casa fosse um casamento para Inglês ver. Que me explicou que duas pessoas só devem ficar juntas quando um sentimento maior o justifica. E que o sentimento de um pai por um filho é intocável, quaisquer que sejam as suas outras opções amorosas.