Hoje, depois de muito tempo de jejum, voltei a abrir a pasta que diz "Dissertação de Mestrado". Primeiro, de forma tímida, a abordar um velho amigo que deixámos afastar-se, por circunstâncias da vida, por preguiça e inércia, embebidos no espírito do "telefono-lhe amanhã", num amanhã que não chega, e o tempo passa, e a distância vence. Depois um dia, certos de que o amigo está furioso connosco, lá arriscamos o tal telefonema, sem saber bem o que dizer, quando não há desculpas plausíveis a não ser, sou assim, mas gosto de ti.
Dei-lhe uns toques, reli algumas partes, pesquisei algumas lacunas, inteirei-me da saúde do meu amigo abandonado. É praticamente impossível recuperar o tempo perdido, tenho essa consciência. Mesmo assim, mesmo que não chegue a completar e a atingir o principal objectivo, tudo o que fizer é lucro: leio, aprendo, escrevo, destupidifico. Analiso textos em Inglês teórico e complexo, raciocino em Português formal, aprendo qualquer coisa de novo, diferente do vocabulário pedagógico que me aborrece sobremaneira.
Enquanto, ao serão, dissecava um ensaio de Fredric Jameson, pensava, será que vale a pena, agora, tão tarde, voltar a dispender energias com isto? Não sei. Depende do que se entender por "valer a pena". Mas gostava que valesse. Que, uma vez na vida, conseguisse chegar ao fim de um objectivo sonhado em conjunto mas atingido só. Já que tanto se perdeu pelo caminho, ao menos o prazer de chegar sozinha a algum lado. Ou aprender qualquer coisa com a luta, se a batalha estiver, como acho que está, perdida à partida.