Ultimamente, e quando digo ultimamente refiro-me às últimas semanas, só me passam pela cabeça pensamentos confusos, descoordenados e contraditórios. Não sei se estou em fase de mudança, em fase de pré ou pós-depressão, mas estou, decididamente, numa fase muito parva da minha vida.
Ando numa época de total esquizofrenia sentimental. Parece que cada dia acordo com novas resoluções de ano novo, e já não me posso aturar. É verdade, também, que perdi o rumo à vida, ando de coração vagabundo, e isso não é nada bom. Tenho feito muitas viagens de carro, e esses momentos são ricos em introspecção. A estrada é um símbolo literário poderoso, e não será preciso pensar muito para perceber porquê. A estrada é muito como a vida, um caminho, um objectivo, um percurso. Algo que pode ser levado em velocidade de cruzeiro, a fruir o passeio, ou em plena transgressão dos limites impostos, a pensar no destino. Algo que disfarça o perigo e o imprevisível com uma máscara de monotonia pintada num alcatrão sempre igual. Lisa, negra, ou pedregosa, curvilínea. A ilusão da progressão, a adrenalina da velocidade, a presunção de que controlamos tudo com um volante nas mãos e um depósito cheio. Não controlamos ponta de chavelho, a realidade é essa.
Detesto conduzir. Tenho um medo horrível de andar de carro. Quando digo isto, a maior parte das pessoas olha para mim como se eu tivesse afirmado que não gosto de sexo, ou que não sei quem é o Cristiano Ronaldo. Nunca percebi a vara tuga com os automóveis, as comparações, as competições, sou muit'a bom, faço Lisboa-Portalegre em quase hora e meia, o meu carro vai dos zero aos cem num micro-segundo, tenho muito orgulho nas minhas 4563 multas por excesso de velocidade, sei de cor as matrículas dos carros da brigada, cheiro o sítio dos radares, não sou o supra-sumo da inteligência? Transcende-me, esta cena.
Embora deteste conduzir, e entre em grande ansiedade quando vou ao lado, quando me sento ao volante para fazer as minhas viagens solitárias, sinto que entro, de facto, numa dimensão diferente. Tal não acontece quando dou boleias. Mas quando vou só, invade-me uma sensação semi-hipnótica, não sei, parece que o subconsciente acorda. Lembro-me de coisas perdidas numa memória distante, revejo caras e pessoas que deambulam num passado longínquo, passo a semana a pente-fino, junto peças de puzzles que não conseguiria encaixar de outra forma, faz-se luz muitas vezes, porque será? Tive um professor de mestrado que levava sempre um bloco de notas e um lápis no banco do passageiro, jurando a pés juntos que as ideias mais geniais do seu doutoramento lhe surgiram ao volante. Iria a conduzir a 180? Não me parece.
Esta semana, por motivos que não vêm à história, por uma série de coincidências do reino do absurdo, a short-story que me acompanhou no caminho para Lisboa foi "What if...", "E se..." me fossem concedidos três desejos? Tenho a dizer-vos que nunca consegui, sequer, escolhê-los, o que espelha a triste realidade que é não ter planos de vida definidos, nem sequer sonhos muito importantes a realizar. Senti-me uma nódoa. Que raio de ser humano sou eu, que não saberia definir as três grandes prioridades da sua vida ao génio da lâmpada? O meu cotovelo lateja, qual cicatriz de Harry Potter a pressentir Voldemort.
Não poderia pedir um companheiro. Aquele que eu quero nem o génio da lâmpada me pode dar sem desastrosos efeitos colaterais que transformariam o sonho em pesadelo. Não poderia pedir muito dinheiro, não saberia o que lhe fazer, porque descobri há pouco tempo que se ganhasse o euromilhões e quisesse fazer a minha viagem de sonho, com início em Nova Iorque e direito à Road 66, ao Grand Canyon e New Orleans, teria que a fazer sozinha. Não poderia pedir poder, detestaria ter que tomar decisões, dar o exemplo, liderar pessoas, ora se eu nem em mim mando... não pediria a paz no Mundo, que infelizmente não tenho veia de Miss. Adoraria ser linda, escultural, uma estampa daquelas de fazer virar cabeças, mas que graça tinha olhar-me ao espelho e não me reconhecer? Se fosse linda deixaria, certamente, de ser eu. E se não pudesse ser amada, rica, bonita e poderosa, para que pediria eu saúde? Para viver até aos cem anos sozinha, feiosa e pobre?
Pois é, temos dilema.
A vida é complicada para alguém que a passa acompanhada de todo o tipo de ideias peregrinas, como eu. Mais complicada seria para o desgraçado do Génio que me encontrasse pela frente. Decidi, contudo, evitar lâmpadas mágicas nos próximos tempos. E com isto defini, pelo menos, um objectivo para a minha vida.