Quando me irrito a sério com os meus alunos, eles sabem que vem aí o sermão que começa por "Há tantos anos na escola e ainda não sabem como comportar-se numa sala de aula?". Se eles estivessem em pé de igualdade comigo, numa discussão taco-a-taco, poderiam atirar-me muito corretamente um "Há quatro décadas na vida e ainda não sabes comportar-te na maior parte das situações realmente importantes?"
E o meu problema é, exatamente, o problema deles: sei de cor a teoria, e não a ponho em prática.
Consigo papaguear todas as regras do saber viver. Não cumpro nem oitenta por cento.
Deitar cedo e cedo erguer. Comer a horas. Abusar nas frutas e legumes. Não fumar. Praticar exercício físico. Saber ficar calada. Mimar amigos. Ignorar os outros. Não correr atrás de prejuízos. Não chorar o leite derramado. Não procrastinar. Não ter pressa mas não perder tempo. Arranjar uma horita por dia para dedicar a mim mesma. Não abdicar de nenhum princípio mas não entrar em guerras por coisas que não valem a pena. Distinguir verdadeiros problemas de chatices quotidianas. Não me comparar a ninguém e, se tiver mesmo que ser, que seja a alguém melhor. Não esperar por respostas a mensagens, por telefonemas de retorno, por atitudes de arrependimento ou retratamento. Não ter esperança que as pessoas mudem. Ter esperança que eu sou capaz de mudanças em mim própria. Ver o copo meio cheio. Beber muita água. Conviver com quem me quer bem. Evitar quem me faz mal. Virar costas a quem me deixa cair repetidamente. Não olhar para trás. Não dar murros em ponta de faca. Poupar dinheiro para hospitais e viagens. Aceitar que a maioria das pessoas olha para mim sem me ver, e que, quem me vê, acaba sempre por ficar. Não guardar rancores e mágoas, mas praticar o desprendimento emocional.
Têm sido semanas tão, mas tão, duras, que o destino me tem obrigado a cumprir muitas destas regras por pura sobrevivência. Profissionalmente, houve aulas assistidas, houve inspeção geral de educação, houve testes para fazer e corrigir, houve reuniões para presidir e assistir, houve concurso de professores. Emocionalmente, houve amigos que dececionaram em grande. Houve gente a fazer apostas à custa da minha vida e como procederia nos concursos. Houve pessoas a dizer-me que sou ressabiada e competitiva, e que não admito que haja alguém a fazer sombra à minha posição de centro das atenções. Houve pessoas a passar por cima da minha generosidade e da minha preocupação que nem camiões-TIR. Houve desrespeito e falta de consideração. Houve de tudo.
Por isso, eu, que levo na tromba e ainda dou a outra face, eu, que sou resiliente e obstinada e cumpro sempre as minhas obrigações, mesmo que a segundos do final dos prazos, eu, que carrego, tipo Atlas, o mundo às costas, e assumo como minhas culpas que não tenho, eu... passei-me. Passei-me sem ruído nem espalhafato. Passei-me e interditei na minha vida muita gente que nem disso deu ainda conta. Passei-me e virei costas sem olhar para trás, o que é anti-natural em mim, sempre na dúvida, sempre insegura, sempre a achar que podia ou devia ter feito mais.
Respirei fundo, travei lágrimas, engoli em seco e estabeleci prioridades. Preparei aulas assistidas, preparei paineis inspetivos, fiz testes, mas não os corrigi. Sou só uma. Fui ao batizado dos meus sobrinhos, estive presente quando a minha mãe precisou de mim, não descurei do Chico, comprei presentes de aniversário, mas deixei de me dar a certas pessoas, deixei de mostrar-lhes as minhas vulnerabilidades, deixei de lutar contra a invisibilidade, deixei de tentar provar-lhes que sou diferente do que elas me julgam, ou melhor do que aquilo que parece.
Deixei de esperar por palavras, por atos, por sinais. Deixei de me incomodar com problemas alheios. Fingi acreditar em mentiras e não dar por omissões propositadas. Fiz-me de parva. Parti a loiça toda. Soltei todos os demónios da alma. Sinto-me vazia, sem demónios. Sei viver. Os meus alunos sabem as regras. Agora, temos todos que dar o passo entre a teoria e a prática. E lembrar-me que, se morrer amanhã, o importante é que o último dia tenha valido a pena. O que interessa é fazer com que cada possível último dia valha a pena, junto de quem está, porque quem não está, não faz verdadeiramente falta.
5 comentários:
Tenho vontade de imprimir este post e coloca-lo no escritório, sobre a secretária de tão familiar que é.
E ao mesmo tempo lembro.me logo de dois comentários que te deixaram em tempos neste blogue, numa altura como esta... e que trazem aquilo que de melhor um amigo tem. E ainda, talvez te ajudem a perceber que apesar de tudo já mudaste... já não precisas bater no fundo do poço 3 vezes para te achares no direito de ter dor, magoa e razão!
"Só me apetece insultar-te. Ao telefone não tive coragem, mas só me apetece insultar-te. Não conheço ninguém que consiga ser mais parvo que tu, quando se trata de ajudar quem não merece, ou responder à letra quando é preciso. Tu que sabes uma parafernália infindável de palavrões, onde estava essa lista hoje de manhã? Como te deixas insultar dessa maneira? Como não viras costas imediatamente, e ainda dás parte fraca no teu local de trabalho? Não percebo. Alguém te agradeceu? Alguém te pediu desculpas? Alguém quis saber do que se passa na tua vida familiar? Alguém te perguntou se andas bem de saúde? Alguém te telefonou, desde aí, a saber se estás bem?
Não é Deus que não pode contigo, és tu. Não é ajudar que está errado, é deixares-te abusar por pessoas que te dizem as últimas e dormem sempre em paz com a sua consciência. E acho bem que publiques este comentário e o releias muitas vezes na merda de férias da Páscoa que vais ter, que já te conheço e já não prometiam nada de bom, mesmo que hoje tivesse sido um dia igual aos outros.
És uma idiota de todo o tamanho. Nestas alturas, que não são tão poucas quanto isso, envergonhas-me.
Amigo-devidamente-identificado-por-anterior-chamada-telefónica.
(só me apetece dar-te um estalo MAIOR que aquele que levaste hoje de manhã, a ver se acordas de uma vez por todas para o Mundo que te rodeia. Quando é que perdes essa mania de achar que toda a gente, no fundo, é boa gente)"
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"Compreendo o L., mas não concordo com ele. Tou a comentar o teu blog pla primeira vez pq prefiro as nossas conversas. Mas falámos mtas vezes nas ultimas semanas e custa-me. Custa-m os altos e baixos q tens passado. Custa-me que ignores a tua saúde a piorar. Custa-me a tua solidão. Custa-me mto que vás passar pelas consequências do maldito concurso. Custa-me que as tejas já a sofrer tds dias a olharees para as pessoas de quem gostas e a saber que é tudo a prazo. Custa-me falar cntg hoje as 6 da tarde e tares a chorar desde as dez da manha. Custa-me que quem te ofendeu nem tenha percebido que foi por isso que saíste a chorar da escola e nem sonhe que ainda tejas a chorar agora. Custa-me q seja tao facil magoar-te e q nao saibas defender-te e e ninguem te possa ensinar. Custa-me a tua fragilidade e o teu desamparo. Mas o que me custa mais é teres razão, toda a razão do mundo para tares assim, por isso nao concordo com o L. Preferia envergonhar-me de ti do que lamentar-te. E eu tenho tanta pena uqe sejas assim fragil em vez de bruta e má. Tenho tanta pena que nao consigas ultrapassar certas coisas. Tenho tanta pena que as pessoas te tratem mal, te sejam ingratas, injustas, más. Chora hoje tudo, tá bem? só te peço que chores hoje tudo, concursos, injustiças, maldades, dores, os novos sintomas, os problemas familiares, tudo. e que amanhã seja um outro dia bem diferente. vou tentar ir a lisboa ter contigo nestas férias. beijinhos
D."
Também há amigos desses, pois. Valha-me isso.
Magnífico...
JMP
Magnífico...
Murros. No estômago, no meu, e em quem os merece na tromba! Este post é sobre murros... adorei! :)
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