A minha mãe é uma mãe singular. Não a consigo descrever, por inúmeras razões que se prendem com o seu ser contraditório, cujos genes herdei. Há alturas em que me liberta das suas asas, me deixa esborrachar no chão sozinha e, se preciso for, ainda se ri. Há outras em que lhe chamar coruja ou mãe-galinha é pouco, e me carrega metaforicamente ao colo, ou me empurra violentamente para a frente.
Neste momento, está revoltada. Diz que, se encontrar o meu anjo da guarda, lhe dá uma coça.
Isto porque Janeiro tem sido difícil. Tem sido infernal.
Janeiro? Parece que a estou a ouvir, numa das suas gargalhadas de fúria. A minha mãe sabe rir-se de fúria. Há um ano que a nossa vida se virou de pernas para o ar! E é verdade. Estivémos doentes. Ela mudou de emprego. Eu assumi novas responsabilidades no meu. Passámos ambas as férias de Verão à cabeceira de um ente querido e ainda jovem, a vê-lo definhar de cancro, e a abraçá-lo na sua morte.
Mas Janeiro... bolas. A minha vida em Janeiro: duas vezes por semana para Lisboa, entre cirurgiã plástica da mão e oncológico da mama. E se o fantasma do cancro não se consubstancializou, - até ver, tudo não passou de um susto, mas um daqueles sustos que nos abala os alicerces e nos faz andar nauseados muito depois do alívio, - a hipótese de perder um dedo da mão direita ainda é uma realidade. Uma realidade que, a não acontecer, não me poupa um mês e meio de dores atrozes.
Isto são os meus problemas genuínos. Dores daquelas que te fazem pairar meia maluca pelo quotidiano, e sustos de morte, para que não me queixe de monotonia.
Não contente com isso, Janeiro tem sido um mês de merdices. Eu sou muito dada a merdices, às chaves que ficam em casa quando a única pessoa que tem a sobresselente não está disponível, a avarias na autoestrada quando o telemóvel está sem bateria. Sou muito dada à lei de Murphy.
A par das dores e dos sustos, em Janeiro fiquei, a escasso tempo de uma consulta oncológica de urgência, metida numa área de serviço sem dinheiro para pagar o gasóleo. Com quem me podia valer a mais de cem quilómetros. Pois foi. E o meu cão destruíu o meu telemóvel e, com ele, todos os meus contatos e mensagens bonitas que guardava religiosamente, mesmo antes de mais uma longa viagem, desta feita à cirurgiã das mãos. Pois foi. E o meu carro chumbou na inspeção. Como não podia deixar de ser.
Há escolhas certas na vida, e eu relembro que, desde que fui preterida por outra mulher por uma pessoa que eu achava que não o iria fazer, o meu mundo emocional ruíu e costumo dizer que arrumei as botas. Mas não há dúvida de que, se o meu anjo da guarda anda a dormir, o dele está bem acordado porque, convenhamos, sou o verdadeiro corta-interesse seja para quem for. Feitas as contas, pelo menos sempre é menos um angustiado por minha causa. Não me admira mesmo nada que também tenham, entretanto, desaparecido da minha vida mais alguns seres que achava estarem perto.
Por tudo isso, ando de péssimo humor. Experimentem viver num esquema de dor nível seis ou sete permanentemente, seis semanas consecutivas, apanhar um cagaço de todo o tamanho, e ter milhões de coisas para resolver no entretanto, e venham depois falar-me de más caras. Experimentem continuar, apesar disso, a tentar funcionar, a não esquecer datas de testes, a inteirar-se de reuniões em que não puderam estar presentes, e a desenlear molhos de bróculos dos vossos alunos da direção de turma. Então venham ter comigo. E aí, vou tentar explicar-vos porque é que, se chegar a Fevereiro, vou entrar para a categoria dos heróis.

13 comentários:
Não eras tu que não percebias pq te chamavam "House" em detrimento de Bailey. Aí tens. Neste teu texto.
House, um tipo brilhante. Amargurado. Com razões. Retalhado numa perna. Dor física e emocional constante. Na verdade nunca conheceu o pai biológico, e acabou a conviver bem com isso. Abandonado pelo grande amor. Mesmo a 50% era naturalmente excelente no trabalho, embora falhasse no secundário - na papelada.
House, esse tipo tinha o Wilson. Tu tens 3, no mínimo. Não é o ideal. Mas bolas, as vantagens de se ter um Wilson :-)
E sim querida. Também eu gostava que tu estivesses mais para Bailey. A Nova, casada, feliz, and still a tiny bit nazi, Bailey.
I wish that 4 you. Hope that your guardian angel wishes and works for it too - when the bastard finaly wakes!
Como estou em ressaca, e eu em ressaca sou uma merda, não falei nos meus três, que entretanto viraram quatro ou cinco, mosqueteiros. Tu, Shadow, és do núcleo duro. E estou-te gratíssima, acredita
Não era sobre o "Wilson". Mas sobre ti. Acho que a foto que tão bem escolheste te espelha e espelha tb o que tem sido a tua vida. You're the hero dear of this stoty dear.
And hey, in the movies the suffer the all story till the end, when they are crazy happy (or decide to save the world and get lonely). Choose happy, let someone else save the world, when the time comes :P
F***-*e!! E ao telefone à pergunta "está tudo bem" levo com um "tudo bem"???
Vai à fava, sim?
Se isto não é ser herói, heroína, cocaína ou LCD não sei o que será!
Não te vou dizer "vai correr tudo bem" e merdas do género que isso só agoira (carago, como detesto que me digam isto!!!)
Mas se quiseres bolos já sabes! Bolos! Encho-te de bolos!!!!
Beijus!
Gaja... isto não são coisas para se dizer ao telefone, de rajada. Eu sei que tu percebes. Mais a mais, olha, ninguém tem culpa nem pode ajudar. Se puder, eu peço. Muitos beijinhos!!!
I look up to only a few people in my life. You're one of them. You ARE a hero. And I'm here, for the dragon or the dragonfly...
Thanks, an...ónima. I really really really know you are there. Always. São poucos os que sabem tão bem como tu estar presentes e simultaneamente dar espaço. Muito obrigada.
Não te conheço e estranhamente (depois de soltar um palavrão)sinto uma enorme vontade de te dar colo.
Não quero dizer que precises do meu colo, apenas que é o que ao ler-te de vem à mente.
Beijinhos
Isa... preciso de todos os colos, de todos os que me queiram dar. Isto porque sou incapaz de os pedir e continuo como se nada fosse, com o meu feitio de dragão insuportável, a cuspir fogo pelas ventas. Muito obrigada.
O bom destes maus/péssimos momentos na vida de cada um é levar-nos a acreditar que só pode melhorar...
Tudo irá correr o melhor possível, porque só assim poderá ser!
Beijinho, abracinho e colinho *
Dizem que Deus (interprete-se como se quiser, dependendo da fé que nos move) não nos dá nada que não saiba que conseguimos aguentar. E eu digo que, depois de ler este post, só me apetece mandar Deus e todas as suas representações para o c****** (pardon my french)!
(Não nos conhecemos, se calhar este comentário já não faz sentido mas, ainda assim, o meu colo cibernáutico está aqui, se for preciso...)
Anita... muito obrigada!
T, fiquei sem palavras. Um mês passado deste teu comentário, infelizmente, ainda se aplica tudo o que aqui disseste.
A ambas/os só posso pedir as maiores desculpas por só agora responder, mas não é indiferença, acreditem... é falta de forças.
Beijos enormes e todo o meu carinho.
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