terça-feira, 13 de novembro de 2012

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Sim, há dias em que me apetece fugir para longe mas não tenho com quem, e gostava que me agradecessem só para variar, e queria que me reconhecessem as qualidades e o esforço para além de um "como é que tu consegues ter tudo pronto a horas?", e agradava-me não ter responsabilidades reais a juntar àquelas que não são minhas mas assumo. Sim, há dias em que a vida pesa mais um grama que o suportável, a gota de água entorna o copo e o grito fica preso na garganta, apetece chorar, desistir, espernear e o corpo não obedece, imóvel e mudo. Sim, há dias em que as injustiças de que somos alvo superam as de outras vítimas, em que a falta de tempo para parar, espreguiçar e alongar os músculos e a paciência nos tortura, e a esperança se eclipsa totalmente sem que o espetáculo valha a pena. Sim, há dias em que saio à rua tipo serial killer, imaginando maneiras sádicas e atrozes de matar seres cuja existência no meu mundo não faz o menor sentido, ratos de esgoto e baratas ascorosas. Sim, há dias em que as vozes formam um coro indefinido de exigências e cobranças, e o desagradável se avoluma, e me doem mais as mãos do que o costume, levo tempos infinitos em guerras com atacadores e botoões de jeans exatamente quando estou atrasada e os ponteiros do relógio correm em vez de se arrastar. Sim, há dias em que engulo pior, e parece que todo o meu sistema está contra mim, e me olho ao espelho e o cabelo está de meter medo, não tenho roupa que me fique bem, os meus olhos mal se veem de inchados que estão, quando nem me lembro da última vez que chorei alguma coisa que se visse. Sim, há dias em que a ausência dele dói mais, como se tivesse sido ontem que o vi pela última vez sem saber que seria a última vez, e ainda achava que tinha ganho a sorte grande e tudo iria ficar bem. Sim, há dias em que me apetece desancar quem me admira por coisas parvas sem saber que se me conhecesse, então, me punha num pedestal, me lavava os pés com água de rosas e passava o resto da vida a idolatrar-me e a fazer-me feliz. Sim, há dias em que o sol, os cigarros à noite, o café depois de almoço, as palavras de incentivo, as aulas bem dadas, os abraços dos amigos e o meu cão a dormir com uma pata possessiva sobre o meu joelho não chegam para me aquecer o espírito. Sim, há dias em que trato mal toda a gente só para ter desculpa para me sentir ainda pior comigo própria, para sentir o remorso e a culpa de forma acutilante o suficiente para ter a certeza de que estou viva para além das rotinas funcionais em que teimo embrenhar-me para fugir ao descalabro. Sim, há dias em que gostava mesmo muito de ter uma folga desta estupidez toda que me rodeia, que me penetra, que me contagia, que me impede de ir a Nova Iorque e de regressar a Veneza, que me empurra para a frente apesar de adiante a linha ser sempre curva e o meu percurso um círculo permanente. Sim, há dias desses. E são sempre dias com muito mais horas que os restantes, aqueles em que me arrasto sem questionar nada, e tudo é maquinal e automático e muito mais suportável.

3 comentários:

Anónimo disse...

Realmente há dias assim… E é em dias assim que percebemos que em qualquer lado existem vidas em tudo idênticas à nossa, e que apesar de distintas quase se clonam. E é em dias assim que as horas se prolongam em infindáveis minutos e em que tudo se torna numa espera suprema. É contagiante, talvez… Apenas sinto que nas tuas palavras se espelham muitas outras!

Shadow disse...

que bom que é quando encontramos palavras que tão bem expressam o que nos vai cá dentro. Que merda que é, que sejam as tuas, palavras.

Jade disse...

Contudo, aos dois apenas digo que há algum conforto em não estar sozinha nestas palavras.