sábado, 20 de outubro de 2012

Animador

Ontem, ao jantar, um amigo meu dizia que estou completamente diferente. E que tinha sido exatamente isso que um amigo nosso comum lhe dissera há uns dias atrás. E, pasme-se!, não se referia ao meu corte de cabelo boyish.
Há meses, quase meio ano, que sinto essa diferença, nos acordares mais leves, na aceitação própria mais fácil, e nos desesperos (muito) mais espaçados. No modo como caminho pela rua, olho nos olhos das pessoas e até consigo sorrir sinceramente. Num jeito de ser tão, mas tão, mais meigo do que aquele que me acompanhou durante mais de metade da vida e pareço ter conseguido resgatar da infância e adolescência perdidas.
Todavia, durante esses meses, poucos foram os que comentaram ou se aperceberam. Houve até quem não entendesse por que motivo sórdido deixava eu tanto dinheiro no consultório do meu terapêuta. "Ainda andas nisso?". Nunca desmoralizei. Quanto mais não fosse, chorava naquele gabinete o que não chorava em mais lado nenhum, e dizia lá dentro coisas que evitava, sequer, pensar. Continua a ser uma hora sagrada e, sim, ainda ando nisso, e não, não tenho pressa de alcançar objetivos. Agora acredito na possibilidade do equilíbrio. 
Surpreendo-me a sonhar acordada com pessoas que não conheço e que possam estar a sonhar acordadas comigo. Continuo a achar que perdi alguém estupidamente, mas aceito e acarinho a ideia de que a estupidez, pelo menos nesta situação específica, não foi minha. Acredito que com ele é que era, que com ele é que poderia ter sido. Há momentos em que essa certeza me bate diretamente na alma como um raio, e a corta em dois como a uma árvore morta ainda de pé. Mas aprendi que as raízes debaixo da terra servem para alguma coisa, e essas são demasiado profundas para que seja possível arrancar-me àquilo a que me agarro, desde sempre. Dou comigo, finalmente, a tomar iniciativas, a adormecer quando me apetece sem culpas, a ligar para os meus amigos, a ir a espetáculos, a chatear a molécula aos meus colegas para organizarmos um jantar, a pegar no cão e fazer mais de duzentos quilómetros para ele ir ver a avó, a ler antes de adormecer, a dar aulas plenas de gritos e risos, sermões e regras de gramática, como gosto de fazer.
Dou comigo viva, e isso é animador.

6 comentários:

Shadow disse...

Diferente ou não, é verdade é que agora estás! Já não és um autómato, vazio. Estás e estás VIVA. Nota-se e sente-se a todos estes quilómetros que nos separam. E isso é tão, tão diferente, mas mais que isso, bem mais que isso, é tãoooo bom - saber-te assim.

Anita Garcia disse...

Como chegaste à conclusão que precisavas de terapia?
Desculpa a pergunta, mas sigo-te há pouco tempo e não acompanhei o que sucedeu contigo... o facto é que eu acho que ando em "negação" e a achar que sou a super-mulher :-/

Jade disse...

Tive um enorme desgosto de amor que foi a gota de água. Já tinha ido a uma psiquiatra antes, mas só para tomar anti-depressivos, o que fiz durante seis meses. Passado ano e meio, veio a gota de água. Com alguma lucidez, achei que os comprimidos iam apenas camuflar os sintomas, até outra coisa qualquer me deitar de novo abaixo. Como não tive uma vida fácil, achei que a minha fragilidade advinha de algo mais profundo e procurei ajuda. Desta última vez os meus sintomas foram choros compulsivos e frequentes, sono persistente, tremores, tonturas, dificuldade em respirar. Sou professsora e tive medo de ficar sem conseguir controlar-me o suficiente para trabalhar. Da primeira vez os sintomas foram insónias: estive quatro dias sem pregar olho. Foi o desespero e, sobretudo, o medo, que me fizeram reagir. Em seguida envio-te o post que publiquei sobre isso. Muitos beijinhos.

Jade disse...

http://jade-sweet-jade.blogspot.pt/2011/09/se-houver-mais-alguem-com-mesma-duvida.html

Espero que ajude.
Beijinhos

t disse...

Olá.

Mais um post com o qual me identifico...

Também eu continuo a "andar nisso", também ouço o "ainda??" relativamente à terapia e ao que ainda me atormenta. Aprendi, no entanto, a aceitar o meu tempo e a minha hora interior, a aceitar que não tenho que me reger pelo relógio de ninguém a não ser o meu. Acredito que seja isso que me irá levar de volta à felicidade.

E acredito que a "leveza" com que passamos a acordar a dada altura só se alcança assim.

Jade disse...

Muito bem, t. Parabéns a nós!