Hoje senti o peso de continuar lisboeta. Já estou no interior do país há mais de dez anos e, aos poucos, tenho-me transformado numa espécie de híbrido, com um alargado poder de encaixe aos costumes enraizados desta terra que me dá emprego.
Há muito que me desmarquei duma pseudoculpa inicial, em que tentava mudar as mentalidades de modo subtil ou tinha o cuidado extremo de não parecer arrogante aos olhos dos locais, na sua maioria, diga-se de passagem, sofredores de um orgulho no seu conservadorismo que tem mais de hipocrisia que de tradição. Deixei-me de andar sempre a pedir desculpa por ser diferente, por pensar de forma distinta, por agir de acordo com outros valores. E encontrei o meu lugar aqui, um pouco nas franjas, mas adaptada ao sítio e às gentes. Passo bem por conterrânea e já não é a primeira vez que surpreendo gente, que não me conhece, com um "sou de Lisboa".
Hoje, no entanto, sem companhia para a manifestação, via as notícias da minha terra pela televisão e resolvi dar um salto à daqui: já estava em pulgas com o meu espírito revolucionário em ebulição, e resolvi que queria que se lixasse a falta de alguém com quem partilhar a emoção dos gritos de protesto. Peguei no carro e em dois minutos estava no centro dos acontecimentos. Eu, e mais uma dúzia de gatos pingados! Ia-me dando uma coisa má. Telefonei a uma amiga, e passei o resto da tarde com ela, a resmungar contra o governo e a apatia desta terra. À noite, numa esplanada, soube que, afinal, a manifestação tinha estado muito composta, com centenas de pessoas na rua. E eu, quê? Então eu estive lá e só vi gente nas esplanadas! E ela, pois, eu estava na esplanada e vi-te, mas quando chegaste já tinha acabado há uns bons vinte minutos...
Ora eu cheguei às seis a uma manifestação que tinha sido agendada para as cinco. Fiquei de boca aberta. E ela então explicou-me que nesta terra "as pessoas são pontuais".
E eu calei-me, mas pensei "Na minha terra, uma manifestação que dure meia hora não é nada!".
Tenho saudades da luta contra a PGA, as propinas e a Avaliação Docente. A malta chegava a casa rouca e de rastos, depois de seis ou sete horas de pé e aos berros. Sou de Lisboa. Excuse Me.
4 comentários:
Não sou de Lisboa. Mas ontem, tive vontade de ser... (vindo de quem vem, céus, a gravidade desta afirmação!).
Tive vontade de ser porque fui a uma manifestação, tomar café ates e beber um copo depois. Tomar café antes porque Às 16h50 a manifestação eram 3 esplanadas cheias, à sombra e meio ao sol. Tomar um copo depois porque ia preparada para ficar até ao jantar e... às 18h dava-se a dispersão total.
Uma manifestação imóvel. Composta por menos pessoas do que aquelas para quem tive de falar no ultimo congresso em que estive como oradora. Quase tem piada. Quase tem piada porque me fartei de ouvir pessoas na tv que diziam que era a sua primeira manifestação, algumas com boa idade pré Abril. E eu... sou de geração diferente, geração que saiu à rua contra as provas globais, que saiu à rua contra as propinas, que saiu à rua contra o estatuto de carreira de docente, que saiu à rua de luto pela educação...
Agora... moro numa terra que apesar de ser capital de distrito, não se sai à rua a um sábado àquela hora, que está muito calor. Que isto e aquilo. E que é cidade de semana, ao fim de semana vai-se para aldeia, para a terra.... ou desce-se o monte até à origem.
Fui com uma amiga e, fora ela, não vi uma única pessoa conhecida. Não vi uma única pessoa daquelas que todos os dias se queixa na universidade dos cortes, da cegueira, da injustiça. Não vi U-M-A!
Vim de consciência tranquila. Porque fui para a rua. Por aquilo em que acredito e contra aquilo em que não acredito, apesar de não concordar com o nome que deram à manifestação. Fui... mas ao ligar a tv, queria ter ido ao Porto. Quis ser de Lisboa. Ao ve-los ali aos milhares. Ao ve-los ai noite fora. E fiquei com a profunda certeza que o 25 de Abril só podia ter sido ali, em Lisboa. Que para o resto, estava calor e não se deve sair de casa.
Este teu comentário é um post. Mas a sensação é idêntica, de facto. É claro que aqui e aí há menos gente. Mas, bolas...
Exagerei?! Sorry.
Sim, bolas. E isto: http://ecaequeeessa.blogspot.nl/2012/09/15spt-best-photo.html
Pena de só ter visto isto por foto.
Não exageraste nada. Estava a elogiar a qualidade do dito. Beijo
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