segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Bom Ano, o camandro!

Hoje foi o dia em que a maior parte do corpo docente se apresentou ao serviço na minha escola. Corpo docente é uma hipérbole descarada. O corpo passou a ser esquelético, como o meu antes das dilatações. É um estafermo de um corpo reduzido a trinta tristes que vão ter que fazer o mesmo trabalho que antigamente era feito por quase cinquenta que, já assim, trabalhavam quase doze horas por dia na escola. E os escravos, ainda por cima, levam com a brilhante sentença "E muita sorte têm vocês por ter emprego", que justificará, em cabeças de inteligência reduzida e chico-espertice dilatada, tudo de mau que por aí venha.
Bom Ano, diziam as pessoas, com um sorriso, como se fosse dia de celebração, renovação de votos e listas de resoluções de ano novo, feitas por ingénuos ou atormentados por sentimentos de culpa de quem vive uma vida em que não se reconhece.
O meu dia de ano novo começou logo com o Chico às dez para as sete da manhã a chatear-me a corneta para, por volta das oito, me destruir em três segundos um par de havaianas que já duravam há uns seis ou sete anos. E como é que isso se faz? Perguntem ao meu cão, que em vez de se entreter a roer-lhes a sola (que a dona é abandalhada e andaria com elas assim mesmo) arrancou a uma delas -para quê ter trabalho? - o disco que suporta em baixo a ceninha de enfiar o dedo. Por falar em enfiar, quem lhe enfiou três ou quatro violentos chapadões no focinho satisfeito fui eu, que de manhã é que se começa o dia.
Furibunda que só visto, cheguei atrasada à boleia que tinha combinado para, fechada a porta do carro, me lembrar que a única coisa que deveria mesmo levar para a escola, a minha pen, ficara em casa. Azarecos. Não arrisquei voltar para trás e levar com uma mijadela ressabiada nas calças de ganga lavadinhas, já agora, para perder mais tempo a mudar de roupa e assassinar o cão.
E eu, que estive todas as santas férias sem dizer palavrões, coisa rara e nunca vista, já tinha dito e repetido toda a lista escabrosa dos que conheço quando cheguei à escola, onde toda a gente me desejou Bom Ano.
Primeiro pensamento instintivo da Jade: "Bom Ano, o caral*inho!"
Primeira reação ponderada pela Jade: Um chapadão nas trombas.
O que realmente aconteceu: Pausa. Sorriso. Pausa. "Bom Ano para ti também", rematando em silêncio "E vai p'ró caral*inho!"

2 comentários:

Gaja disse...

Opá é tão lindo ler-te!!!!!!
Gosto, pronto :)

"assassinar o cão..." ♡

Jade disse...

Agora também acho piada. Na altura, não teve gracinha nenhuma, e juro-te que os instintos assassinos existiram. Ainda bem que me ofereceram um cão: olha se estivesse na ilusão do que isto é e optasse por ter tido um filho... isso, sim, era preocupante!