Esta coisa do escrever tem muito que se lhe diga, e quando alguém, a referir-se às artes, falou em 10% inspiration, 90% perspiration, teria alguma razão. É verdade que alguns de nós nascem com jeitinho para encontrar palavras próximas daquilo que querem exprimir, e durante a sua formação, por interesse ou por destino e às vezes por maldição, aprendem e aperfeiçoam técnicas de escrita, dominam regras e convenções e acabam por conseguir escrever textos que mobilizam os outros e os fazem sentir, reconhecer-se, pensar.
Sou, sem sombra de dúvidas, uma dessas pessoas, e estou grata por isso, mas a verdade é que tenho muita dificuldade em arranjar assunto, dado que eu própria me sinto um pouco cansada de escrever sempre sobre as mesmas coisas, e sempre no mesmo tom, intimista e confessional.
Sou muito exigente comigo própria. Leio mais de meia dúzia de blogues com regularidade, não me canso nada deles e, sejamos honestos, os autores não inovam em assunto por aí além. Uns são sobre moda, outros sobre educação, e um ou dois sobre a vida privada e quotidiana dos seus autores, como o meu.
Acontece que eu estou sempre convencida de que a vida dos outros é mais interessante de ler que a minha, e tenho fases em que se passam semanas que eu considero não serem dignas de posts, mesmo dos fraquinhos.
Ultimamente, durante as férias de Verão, houve várias coisas a acontecer, várias coisas que me marcaram, mas aí, em sobra de motivos importantes sobre os quais dissertar, faltaram as palavras. Mentalmente, e com frequência durante aquele limbo entre o adormecer e o estado de vigília absoluta, tentei construir frases, como se de um puzzle de palavras se tratasse, mas a verdade é que continuo sem o mínimo jeito e paciência para montar algo que faça sentido a partir de milhares de peças com infinitas combinações possíveis e desesperantes por pequenas, por desencontradas. Scattered.
Acontece que a escrita é uma das raras coisas que eu levo realmente muito a sério, que me completam e me satisfazem, me consolam e me seduzem. Por isso, hoje, resolvi que sem assunto nem imaginação, teria que escrever aqui qualquer coisa, para dar uso à técnica, praticar a linguagem e desenferrujar dedos e teclado. Dar descanso ao rato, que uso maquinalmente para me alienar em jogos enquanto viajo por outras paragens longínquas de estados de alma mais ou menos sombrios.
Então lembrei-me de uma conversa recente, em que uma amiga me dizia que quando está no fundo do poço, mesmo no fundo, o que não acontece assim com tanta frequência, apesar da tendência humana para sermos todos um bocadinho drama queens, faz listas de coisas que gostaria muito de fazer e começa a fazê-las. Coisas parvas, coisas úteis e life-changers.
Não vou fazer essa lista agora nem aqui, nem me encontro no fundo de um poço, nem me parece que, de momento, precise de listas de a-fazer, para além das que a partir de amanhã me vão inundar a agenda, o espírito, e as enzimas do stress.
Por isso, vou deixar umas palavras sobre o que seria uma lista de "feitos", se disso se tratasse, mas tirando à palavra a conotação de "grandes e importantes conquistas".
Experiências. Novas, renovadas, recuperadas, felizes, infelizes.
Subi, pela primeira vez, a um farol e não pude deixar de me lembrar d'As Aventuras dos Cinco, que o meu avô me lia baixinho para eu adormecer e tinham o efeito contrário. Comi pela primeira vez "Tripa" na praia da Bairra, e achei, pela primeira vez, que algo era doce demais para mim. Conduzi, pela primeira vez, um SAAB, uma banheira monstruosa de carro sem um risco e um grão de pó, numa aflição do arco da velha, e consegui não bater em nada, apesar de ser na Lisboa em hora de ponta. Vi, pela primeira vez, um bom amigo ir-se numa cama de hospital, com um cancro daqueles que nos habituamos a ver em personagens de filmes e julgamos, ou convencemo-nos, que não passam de ficção. Estive numa sala de quimioterapia e fiquei com a certeza absoluta de que o meu voluntariado de eleição seria junto de crianças a passar por este tratamento infame, mas tão importante. Dediquei muito mais tempo a estar com os meus amigos e família, e descobri uma primita chamada Joana, que bem poderia ser a minha Joana, de tão singular criatura que é. Cortei, pela primeira vez, o cabelo à rapaz por iniciativa própria, e a maturidade trouxe-me alguma satisfação pessoal com a imagem do espelho, que considero isenta de todo e qualquer sex-appeal, e ainda assim, agradável, talvez porque esteja mesmo convencida que os meus dias acompanhada por um homem que me faça sentir algo mais que uma bonita amizade, are over. Deixei-me comover e chorei no meio de um concerto com milhares de pessoas à volta, porque no fundo tenho pena de não ter sido talhada para ser feliz aos amores, e por ter perdido pessoas, física e metaforicamente, que sei que não vou recuperar. Conduzi centenas de quilómetros por achar que era mais útil noutro lugar, ou para acompanhar gente que precisava de mim. Tentei com todas as forças fazer os trabalhos de casa que o DOC me marcou, mas tive pouco sucesso, fruto das circunstâncias e de um feitio doentio que me cobra sempre muito mais do que posso pagar. Mexi-me do meu espaço para estar com pessoas que mereciam o esforço enorme para combater a inércia, e valeu sempre a pena. Vi o meu cão crescer e, embora nada fosse o que eu esperava, nem amor à primeira vista, nem à milésima, e muito menos mútuo, começo a ter uma relação com ele de alguma proximidade. Senti, por diversas vezes, crescer o respeito que tenho por mim própria e pelo que sou capaz de fazer. Senti, também, crescer os níveis de aceitação pelos meus limites, descobrindo que não são mais estreitos que os do resto do mundo, e que tenho mais resistência do que pensava ter, se encarar as vicissitudes da vida sem achar que o universo conspira contra mim.
Bem vistas as coisas, o saldo é positivo, e sempre consegui desencantar um texto de uma página em branco e uma alma cheia de nada.
6 comentários:
Gostava tanto que fosses, indecentemente, feliz...
Tu és simplesmente mágica, e única, e especial
Muito obrigada a ambas pela vossa amizade e carinho.
Dizia o Abrunhosa que nem sempre dizemos às pessoas tudo o queríamos ou devíamos - entre nós, sejam cara**inhos ou cara**adas, miminhos ou simples olhadelas furtivas (sim, porque há dias em que nenhuma das duas está própria para consumo), parece-me que não haverá esse problema...
Cala-te, que foi exatamente nesse momento-abrunhosa que me desmanchei toda...
Das listas... sabe Deus o medo que tenho de voltar a cair no mesmo buraco. Ainda me lembro bem dele, da ultima vez, e também da primeira.
Mas com o susto, que sabes que apanhei.. relembrei uma frase do Caio Fernando Abreu que nada me dizia já (Carpe diem o caralho!), e que passou a fazer todo o sentido, d'uma e outra vez. "Tente. Sei lá, tem sempre um pôr-do-sol esperando para ser visto, uma árvore, um pássaro, um rio, uma nuvem...". E desde aí, small things. Que não me atrevo já a aspirar grandes sonhos, e grandes quedas. Mas small things que deixam sorrisos. Como fazer os km necessários, até à cidade de deus, Lx ou outro sitio qlq, para conhecer o meu sobrinho mais peludo, e por sinal mais traquina também! "Tente. Sei lá, tem sempre um pôr-do-sol esperando para ser visto, uma árvore, um pássaro, um rio, uma nuvem."
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