Hoje foi um dia mau.
Um dia mau com um bom momento, aquele em que soube que uma amiga minha me mandou os Magic Beans do Harry Potter, trazidos diretamente de Orlando e partilhados desinteressada e generosamente comigo. Sem ainda os ter provado, psicologicamente comi dois ou três de vómito e de cera das orelhas.
Vim de Lisboa muito cedo, para uma reunião de Departamento. Não vinha muito sossegada nem muito feliz, que as novidades do médico não foram animadoras, embora, diga-se a bem da verdade que, a partir do momento em que ponho um ponto final no meu mal-estar e resolvo agir e passar pelo pesadelo todo de novo, a indiferença abate-se sobre mim como uma couraça, e nenhuma novidade é levada com a marretada emocional que se esperaria.
Ontem chorei no médico, mais por cansaço que por desespero, e ele aconselhou-me a procurar um psiquiatra: o DOC vai rir-se com esta. Mas quando soube que eu ando em terapia há ano e meio, o meu médico de sempre não se riu. Fez um ar muito preocupado, e quase blasfemou contra a direção da minha escola e a minha falta de assertividade. "Mas porque te metes tu em tantos cargos?" Todos os médicos que me acompanham me tratam por tu, este, porque me conhece doente há mais anos dos que os que tinha quando o procurei pela primeira vez.
É difícil alguém que está fora do ensino, como ele está agora, entender. Lá lhe expliquei que não só não me metia como não os podia recusar. Disse-me que não sou deficiente mas também não sou normal, e que a minha doença exige tempo para descanso. Só me deu vontade de rir, entre lágrimas e no meio do pânico que é o atual sistema não deixar ninguém descansar, quanto mais eu, numa escola pequena, com uma direção que não me grama mesmo nada.
Ainda assim, lá vim eu, picar o ponto, passar a manhã na reunião de departamento e a tarde a organizar o que falta para a reunião de EFAs.
Na reunião de departamento, assisti a mais uma cena triste daquelas em que quando a bronca estoira, a culpa é deitada para cima do mexilhão. Fiquei pôdre. Mas será que é assim tão dificil assumir culpas, erros, dizer "epá, bolas, não sou perfeita e meti o pé na poça, sei que agora não há remédio, mas desculpem lá, sou humana". Perco o respeito todo pelos meus congéneres humanos, os cobardes, que atiram para cima dos do lado responsabilidades que lhe cabem, só porque sim, porque podem e porque o dizem com convicção suficiente para não serem contestados.
E depois veio a auto-avaliação do departamento e a coordenadora não quis que ninguém se pronunciasse sobre o que está mal, "não acredito em exorcismos", disse, numa ironia clara à diretora que pediu noutra reunião que exorcisássemos tudo o que correu mal num dado projeto de escola.
E eu, que raramente estou de acordo com a direção, desta vez tive pena. Porque para evitar discussões e palavras mais agrestes, recorreu à hipocrisisa de quem acha que, se os alunos avaliaram os professores do departamento com notas altas, é porque somos perfeitos. Não somos, não sou, e há tanto para dizer sobre o que poderíamos fazer melhor se não fôssemos uma cambada de hipócritas que só estão bem a roer os tornozelos uns dos outros, quando os apanham de costas...
E depois fui falar com a minha diretora, por causa do que o médico disse, e ela foi impecável. Disse-me taxativamente o que me esperava para o ano, e acrescentou que me gostava de ter na escola mas que se quisesse concorrer, a saúde vinha primeiro. Decidi quase imediatamente ficar.
Para acabar o dia em grande, um dos meus melhores amigos foi mandado a mobilidade por valores mais altos se levantarem. Não tenho muitos amigos e homens ainda menos. Depois de falar com ele ao telefone, fiquei a saber mais, e menos irritada mas, ainda assim, vai fazer-me uma falta imensa. Pelo menos sei que, a mudar, será sempre para melhor.
Fui à minha escola antiga procurar consolo e não o encontrei. Tudo tinha planos para hoje à noite e, aqui sozinha com o Chico, resolvi que, não duvidando da amizade de ninguém, o meu lugar é, sem dúvida, onde estou.
Feitas as contas, no dia de hoje, vi bem quem se preocupa, quem está, quem quer saber, quem tem tempo para uma palavra, um carinho e um conforto: venha ele de um telefonema de Aveiro, de uns doces que ainda não chegaram de Vila Real ou de uma mensagem privada no facebook à qual não respondi por nem saber o que dizer.
Ah, e hoje (ou terá sido ontem? já nem sei), escreveram-me uma frase que ficou tatuada no meu ventrículo esquerdo "tem cuidado contigo que a sorte deu-te um corpo demasiado frágil para todos os amigos que carregas dentro dele". Não são muitos, mas são irrepreensíveis. E, à medida que o ciclo se repete, poucos são os que se mantêm, uns deixam de estar e outros passam a estar, sendo o saldo sempre, mas sempre, positivo, porque só faz falta quem... isso.
2 comentários:
A este post vou-te responder por e-mail... embora, talvez não hoje.
"Porque há pessoas para quem tu contas, que te limpam as lágrimas, que te sentem a falta, que te dão um abraço, que lêem fielmente o teu blogue só para estar mais perto, te procuram. És o que os outros acham que tu és, e por isso és banal e dispensável para uns, mas também és especial e o mundo inteiro para outros. Porque a tua ausência, indiferente para alguns, seria dilacerante para outros. Porque és raiz e alicerce de crianças que te amam, de alunos que te admiram, da tua mãe, dos teus amigos, dos que te vêem sem se limitar a olhar-te. E se aceitas a tua inutilidade e banalidade que é o real na vida de muitos, também deves aceitar e assumir a tua importância na vida dos que sobram. És as duas faces da moeda. Somos todos."
Lembras-te disto? Foi algo que te escreveram, numa fase bem má, e que aqui deixaste em post. Sempre gostei desse, deste, texto. Todas as palavras, virgulas e pontos, subscreveria tudo. Subscrevo tudo.
Quanto à escola... continuo por email
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