Se ontem o meu dia tivesse sido uma temporada do vinte e quatro misturada com a Ally McBeal, o vocabulário seria inapropriado para pessoas sensíveis e toda a gente teria pena da triste protagonista. Foi daqueles dias para esquecer, cheio de imprevistos desagradáveis e trabalho inesperado. Daqueles dias de chatices pequeninas a fazer efeito de bola de neve. Daqueles dias em que apetece mesmo deitar tudo para o espaço.
Hoje foi o contrário, tudo fluiu facilmente. É bom ter uma bolha de oxigénio, já que amanhã vai ser uma correria doida, e quinta e sexta vou com os meus meninos da direção de turma, mais outros tantos espanhóis, para Lisboa, no âmbito de um intercâmbio cultural. Haja energia e paciência. E haja, sobretudo, juízo, que é coisa que eu não tenho, para estar metida em tudo o que é treta na escola.
Na minha antiga escola, a Diretora gostava que eu regressasse. Eu acho que só se muda para melhor, e disse-lhe que a única coisa que ela tem para me aliciar é um horário que não meta noite. Ela diz para eu pensar nisso, que há lugar para mim. E eu tenho pensado. Em dias como o de ontem, iria a concurso sem pensar duas vezes: fizeram-me falta amigos, sobretudo gajas para destilar má-língua. Nesta escola, uma das grandes vantagens foi ontem um enorme problema: não há conversa venenosa em que não esteja presente alguém sensato a meter água na fervura. Ontem, eu queria SANGUE. Queria dizer mata e ter mais três ou quatro muchachas a dizer esfola. Senti muita falta do grupinho de Divas: da Pêlo Russo, da T., Da Mzinha, da Li e da Miss Covilhã. Dos bolos de chocolate que me traziam a casa quando eu estava triste e das tostas de frango que comíamos na esplanada ao entardecer, a dizer mal, sem maldade, de tudo o que mexia.
Hoje, já foi diferente. Há dias bons em que sinto que tenho a camisola da minha escola vestida, e que ela me parece feita à minha medida numa lã angorá muito confortável. Nestes dias, sinto que estou no sítio certo, que os meus alunos são impecáveis, que os meus colegas são família e que é sempre melhor um sítio em que conhecemos toda a gente e sabemos o que podemos esperar de cada um, do que outro em que só falamos com meia-dúzia de pessoas e em que as restantes se dão ao luxo de falar de ti e da tua vida privada como se vivessem na tua casa e soubessem tudo a teu respeito.
Prefiro um sítio em que não me inventem namorados a cada quinze dias, e em que os fatores que me fazem não me apetecer levantar de manhã sejam profissionais e não emocionais. Prefiro um sítio em que o stress advenha de listas de a-fazer, e não de conflitos com este ou aquele.
Por outro lado, esta escola, a minha, deixa-me pouco tempo para viver, para ver pessoas, e pouco espaço mental para que isso me apeteça. Resta saber se, quando vierem os concursos, vou preferir ter uma vida ou ter paz de espírito. A opção não é fácil.
5 comentários:
Desculpa se faço deste comentário algo demasiado pessoal, sem te dar o mérito da escrita e associações metafóricas.
Conhecendo a tua antiga escola pelos teus olhos, te digo, com uma sinceridade que seria cruel, se o assunto fosse outro: quem me dera que a tua antiga escola, que a tua ex-directora, tivesse um lugar para mim. Ali. MEsmo longe de todos e de tudo... Mesmo sem a possibilidade de fazer amigos e de ter de olhar as costas a cada 5 minutos. Mesmo assim, quem me dera, que a cidade seria pior, o dinheiro pouco mais, as pessoas tão "boas" como estas que por aqui me guardam as costas... mas daria aulas. E isso.. cheguei ao ponto onde se tiver de escolher, pago o que tenho, para dar aulas.
... está bom de ver o que vai acontecer ao meu phd não está? Não vai. A não ser que não concorra, como penso concorrer: qualquer lado, é lado. Qualquer lado, é bom.
Dizes tu que para melhor se muda sempre? Eu já digo, porque não mudar, se pior do que o que está não fico?
Divas, aqui...só mesmo tu...e a direção...
Bem, anónima, vou levar isso como um insulto, dada a comparação. O grupo de Divas da outra escola nada tem a ver com o que insinuaste, que fique bem claro. Eram Divas de Divinas, mesmo.
Peço desculpa, então, mas lá porque umas sejam mesmo e outras só se achem, isso não quer dizer que a palavra não se aplique. Diva, divina, deliciosa,maravilhosa, temperamental, maior do que a vida, fabulástica - repito, umas são, outras acham-se e agem como tal. Há dúvidas de que há gente assim, ou tenho de te voltar a pedir desculpa, miss D? Apre!
Sendo assim, estou tentada a desculpar-te. :-)
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