domingo, 8 de abril de 2012

Manifestações do Divino

Não sou religiosa, nem sequer dada a grandes espiritualidades: já passei por ambas as fases e ultrapassei-as, em seu tempo. É bastante difícil, mesmo para quem segue o blogue, fazer uma pequena ideia do que é lidar comigo, se não me conhecer pessoalmente: como toda a gente, sou cheia de idiossincrasias, e como muito pouca gente que eu conheça, de contradições. Uma das mais óbvias, é falar como um carroceiro tendo a educação de uma princesa arrogante.
Digo palavrões cabeludos, do piorio. Mas tenho aversão a pessoas que dão calinadas e pontapés na gramática, ou que não têm maneiras à mesa, ou que são indelicadas com velhotes ou não dão o seu lugar a grávidas, mesmo que não estejam sentadas em bancos especiais, ou à espera em filas próprias nos supermercados. Sou assim, muito incoerente, e já estou habituada a que me julguem por isso.
Isto para chegar onde? Hoje fui jantar com um amigo meu, crente e religioso, porque ele fez anos esta semana e queria pagar-lhe um jantar. Acabámos pr ir beber um copo com um casal amigo nosso, e um dos temas de conversa foi o jejum e abstinência quaresmal. Ora eu, que sou completamente contra fantochadas, disse logo que havia de ser bonito um Deus andar preocupado com o que as pessoas comem a determinados dias da semana, mas não quis ser demasiado indelicada, dado que já há muito deixei de tentar entender a cegueira a que levam política, clubes e religião. Não vale a pena discutir certos assuntos, muito menos quando são levados com uma seriedade que nos faz espécie.
Engraçado ter sido logo a mim que as coisas aconteceram, nem uma hora depois. Saímos do bar e pedi ao meu amigo que parasse numa bomba para ir comprar tabaco. A mais próxima estava fechada, e fomos àquela a que, antes de mudar de casa, eu ia muitas vezes, e já conheço o empregado, em senhor de idade que sofre de gota e é simpático até certo ponto, só até certo ponto, com caras conhecidas, como a minha. Ora chegamos à tal bomba e o meu amigo oferece-se para sair ele do carro e ir buscar-me o maço, ao que eu digo que não, que vou eu. Ele insiste, talvez por causa das horas, talvez por eu estar com um vestidinho curto; mas eu tenho os meus brios, e saio do carro. Ao pé do guichet, um senhor dos seus cinquenta anos, com peso a mais, óculos, e bem bebido. Digo um sonoro boa noite com um sorriso (como, aliás, sempre faço nas lojas: lá está, um fenómeno ilustrativo da tal boa educação que me corre no sangue azul), e peço o tabaco. O outro homem começa, de imediato, com um relambório do arco-da-velha: que eu era muito alegre, que "contaminava" toda a gente com a minha simpatia, que era bem "apalavrada", que como as coisas estavam, a pagar "oitocentos paus" por um maço de tabaco, era preciso pessoas como eu para alegrar as outras, enfim, um sem fim de elogios a que eu ia agradecendo como podia. Despedi-me e entrei no carro em que o meu amigo esperava, em pulgas para saber que raio o outro me tinha dito.
Não foi preciso contar-lhe: em menos de um nada, o homem estava da parte de fora da minha janela. Baixei o vidro e, sem mais nem o quê, ele começou com um discurso de que "estava bêbedo" mas não era "nenhum parvo" e que tinha que dizer ao meu amigo "não sei se o senhor é marido ou amante" (eu fiquei logo perdida de riso) "mas esta senhora, o boa noite desta senhora, é muito especial. Eu nasci no dia de Nossa Senhora de Fátima e sou abençoado por ela, que todo o meu corpo tem placas de metal mas ainda não morri." Antes que eu pudesse abrir o bico, o homem não é de modas: faz-me o sinal da cruz na testa enquanto diz umas palavras que metiam a Virgem ao barulho, e diz que, se eu for a Fátima e comprar uma imagem, serei abençoada para o resto da vida. E que se o vir, de hoje em diante, para fingir que não o conheço.
E eu só pensava, pronto, bonito serviço, vou ser agora gozada até ser velhinha, com este emplastro aqui ao lado a gozar o pratinho.
Pior: o meu amigo ficou impressionado com aquilo, diz que eu tive uma "manifestação do divino". Claro que, comigo, a manifestação do divino tinha que vir de um anjo pinguço. E agora tenho um caramelo a chatear-me que tenho que ir a Fátima comprar uma imagem.
Tendo em conta que amanhã vou almoçar a casa de uns amigos, e que toda a minha família na Páscoa está em parte incerta, pouco se lixando se eu estou viva ou morta no Domingo da Ressurreição, era mesmo só o que me faltava agora, baixar em mim o milagre da Virgem. Isto só a mim, na Cidade de Deus.

5 comentários:

Mzinha disse...

Se quiseres ir na excursão da minha família, ainda há lugar.

entreartes disse...

Pois é minha amiga, acho que nem Freud explica. Mas boa Páscoa - tempo de renascimento.
bjks

Jade disse...

Mzinha: acho que vou passar. Eu e excursões damo-nos muito mal. LOL
Entreartes: thanks.

An...ónima disse...

De amiga para amiga: já fizeste tantas coisas, já foste a tantos sítios, pensaste e experimentaste tanto - vai a Fátima, querida! Se não vem daí mal nenhum de certeza, qual é o mal em experimentar? Quem sabe se a intervenção divina não funciona mesmo a teu favor?

Jade disse...

Já lá estive, ja lá comprei imagens, será que não funciona a retroativos? É que eu não sou religiosa nem espiritual, já supersticiosa...