Começo por sublinhar que qualquer taxonomia é redutora, dado que, no meu entender, se trata de uma forma pseudo-científica de rotular estágios de comportamento, e de fazer generalizações que se impingem como absolutas verdades, quais pedra filosofal ou ovo de Colombo. Todos os rótulos são comuns a uma imensidão de sujeitos e marginalizam outros, que têm a sua importância fundamental enquanto indivíduos, e todas as generalizações, assim, coxeiam. Será uma forma simplista de abordagem, mas dado que resultam para um conjunto razoável de exemplos, para esses são eficazes.
A minha taxonomia do amor compreende quatro estágios fundamentais. Nenhum totalmente isento de racionalidade, o que afasta de imediato o conjunto de seres impulsivos que raramente a usam, quando se trata de sentimentos. Eu não me incluo nesse grupo: amo com a cabeça e penso com o coração.
O primeiro estágio é a atração. Não confundir com atração física, porque cada um é como cada qual, e um homem bonito, para mim, não é necessariamente atraente, embora ajude. A atração é algo independente, e considero-a apenas parte da taxonomia porque é aí que tudo começa. Contudo, a maior parte das pessoas passa a sua vida a sentir-se atraída por outras pelas quais não desenvolve qualquer tipo de relação emocional. Sentimo-nos atraídos por pessoas sejamos solteiros, casados, amancebados, céticos, distantes, mal-amados, felizes, infelizes, enfim. A atração é algo que aprendemos a aceitar como natural, e isenta de culpas. Assumimos todos sem pruridos a nossa atração por modelos fotográficos, atores, cantores, escritores, artistas. Com mais pruridos e alguma vergonha quando os mitos são de carne e osso e são nossos vizinhos, colegas de trabalho, professores ou empregados no café que frequentamos. É a hipocrisia vigente, e não me choca que assim seja.
Depois da atração, vem o desejo. O desejo não é tão inocente, já que mexe com a imaginação e rapidamente se transforma em flirt. Por seu lado, o flirt é, na grande maioria dos casos, arriscaria, inócuo. Um jogo um tanto animalesco de conquista, sobretudo, de auto-estima, e algo que se fica pela brincadeira. Um estágio que é satisfatório para ambos os lados e poderá não passar nunca disso, quando as pessoas não pensam sequer no assunto ou, quando pensam nas coisas, como eu, e as relativizam. Eu faço-o de forma castradora, 9 em cada 10 vezes, com belas frases de tipo "Estás parva?", "Não sejas ridícula!", "Pára de pensar em parvoíces e corrige mas é os testes...". A fantasia é uma cena tramada, mas eu, que tenho alma de contadora de histórias, gosto muito de as inventar, neste estágio, o do desejo, mantendo sempre a noção de que ficção é ficção e não passa disso.
As coisas complicam-se no terceiro estágio, a paixão. É o estágio mais perigoso, aquuele em que a razão quase se cala. É nesta fase que a tendência para o impulso e a asneira é latente, e o sujeito se encontra no limbo entre o "que se lixe" e o "que se dane". Ui, as paixões... ou são não-correspondidas e o triste ser sofre em silêncio e bate com a cabeça com força nas paredes, que mais vale uma enxaqueca que uma dor de alma, ou são correspondidas, e é tudo borboletas e passarinhos, arco-íris e bolas de sabão... a não ser que haja terceiros. Aí começa a gestão de danos, os colaterais, e entra, ou não, em ação o raciocínio. Costumo dizer, a meu respeito, que os homens nunca deixam as mulheres (as legítimas, bem entendido, sejam elas esposas, namoradas, uniões de facto ou afins) por outras, a não ser que as legítimas sejamos nós. Eu já fui largada por outras mulheres duas vezes, e jamais um homem deixou a sua relação estável por mim. C'est l(m)a vie. Por outro lado, eu, ser pensante e estupidamente racional, em alturas de grande paixão por homens com algum tipo de compromisso, sou aquela que não consegue dizer "larga-a". Freud explica, e eu acho que isso é a minha profunda convicção de que, se o fizesse, mais cedo ou mais tarde viria o arrependimento, e eu gosto pouco de cobranças e de levar na marmita. Por outro lado, a única vez que deixei um namorado por uma grande paixão, não me arrependi minimamente. Mas tive a sorte de essa grande paixão se transformar num grande amor, coisa que compensa sempre. Foi um ciclo que se fechou, que eu cá não acredito em eternidades a não ser que, como diz Vinicius, a eternidade seja o tempo que dura. Dizem os cientistas que uma grande paixão dura no máximo um ano e meio, o que é triste, porque todas as minhas dores de corno duraram mais do que isso. Se estivermos preparados para essa inevitabilidade, e acharmos que compensa o mal que faz pelo bem que sabe, estamos fadados a ser deuses num curto espaço de tempo, e indigentes o resto da vida. Cada qual fará a sua opção.
Do amor, tenho pouca experiência. Digo que não é eterno nem incondicional. Não sou mãe, mas sou filha, e alguém sábio já me disse algumas vezes que há pessoas que, por mais que queiramos, não se deixam amar, que é impossível amar. Porque não há cá essa coisa de amores não correspondidos. O amor, quando é amor, é uma troca natural sem listas de deve-e-haver. Não há dívida, nem cobrança. É uma relação leve e suave, instintiva e fácil, baseada na confiança e no respeito, no sentimento quentinho de pertença, sem o veneno da posse. Amar é oferecermo-nos de bandeja a alguém que já é nosso. É escolhermos alguém para fazer parte da família que nos é imposta à nascença, e cristalizar esse ser numa teia de relações que não escolhemos como se ele sempre tivesse feito parte dela. Na maioria dos casos, e comigo foi assim, amar significa aceitar o outro como aceitamos pais e filhos: com uma grande dose de compreensão e tolerância, e a certeza de que os seus defeitos, fragilidades e sombras não põem em causa os laços. A mesma certeza, contudo, de que o imperdoável pode, a qualquer momento acontecer, e de que a vida não faz sentido quando é partilhada com alguém que já não nos aquece o espírito nem completa a peça desgarrada do puzzle que somos todos nós. Aí, voltamos ao início. Quero dizer, eu volto. Muitos há que se sentam no sofá da grande sala vazia que são as suas emoções, e se deixam ficar hipnotizados a fazer zapping em frente a um triste qualquer modelo de plasma de última geração.
3 comentários:
Há ainda o ciume. E pior, o ciume de quem não é nosso. De quem nunca será nosso. E como diria a Arizona (na grey), "jealousy is a green-eyed monster and if you ask any one of my kids, they’ll tell you there’s no reasoning with a monster".
O ciúme não é um estágio, acho eu: acompanha, ou não, alguns dos estágios. E sim. Achei piada à citação dado que eu escrevi um post chamado "O Grande Monstro Verde" há uns anos atras. Será que a Arizona anda por aqui a plagiar-me???
Sim, lembro.me bem desse teu texto. E qt ao resto.. Who knows. Hopkins is quoting me... without the qouting part.
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