Ontem, no dia do meu aniversário, calhou não ter aulas nem reuniões à tarde, o que é quase inédito e, tendo calhado na data em que foi, é praticamente prova de milagre. Pouco depois do meio-dia, peguei no carro para me vir embora e, ao passar a ponte sobre a ribeira, atravessou-se-me à frente, em vôo baixo, uma garça-real que, diz quem sabe, é espécie ameaçada de extinção. Lembro-me de ter considerado este momento um bom augúrio, ontem, no dia do meu aniversário.
Depois esqueci-me disso, e fui à minha vida. Cumpri alguns compromissos e rituais. A Mzinha tinha-me mandado umas sms a desafiar-me para ir jantar ao nosso restaurante favorito mas, convenhamos, estava um frio do cacete, e disse-lhe que ficava para outro dia. Não estava para aí virada, sou gato de lareira. Por isso, dormi a minha sestinha à tarde. Ainda pensei: fónix, Jade, és mesmo uma triste, não tens melhor para fazer na tarde dos teus anos que te ires enfiar na cama? E disse o gato Garfield, dentro de mim, não, não tens, e quê? É pouco bom, queres ver?
Ronronava eu muito quentinha, já a tarde ia avançada, batem-me à porta e era um amigo, para me dar um beijo de Parabéns. Ouço a Mzinha a falar baixinho "ela está a dormir...", e um cagaçal de todo o tamanho "ACORDA-A! PARABÉNS A VOCÊ!!!" Saltei estremunhada da cama, e a sorte dele foi não me ter, de facto, acordado.
Olhei para o telemóvel, e fiquei pior que estragada. Nenhum, repito, nenhum dos meus amigos mais próximos do ano anterior, a malta aqui do burgo, nem um sequer, me tinha mandado sms. Não havia deles chamadas não-atendidas.
A Mzinha fez uma lasagna deliciosa, e eu disse-lhe várias vezes. "aquela gente... fulano, sicrano, senhora e beltrana, ninguém disse ponta de corno, acreditas nisto?"
A Mzinha não tinha culpa, e eu não adiantei mais. Pus cara alegre e fui atendendo chamadas do resto do pessoal, da malta que está longe, da malta do costume e até... de novos amigos bloggers, que me fizeram surpresas irresistíveis "adivinha quem é..." Brutal! Claro que aproveitava para dizer à Mzinha, já viste isto? Até as amizades feitas na net desencantam o meu número de telemóvel ou me mandam os parabéns pelo blogue e "aquela gente...". Estava piursa.
Depois das dez, refastelada no sofá e na palhaçada com a Mzinha, tocam à porta. E eu, ah, estava a ver... é o Pastorinho, de certeza! Vai levar nas orelhas! E lá me aparece o Pastorito, todo contente, enquanto eu estrebuchava, se não viesses cá nunca mais te falava! Parvo! Estava furiosa...
No meio desta ladainha, que eu não sou boa de assoar, nem falo propriamente baixo entra-me, sala adentro, a restante seita. Todos em peso. Todos sem excepção. Uns a rir, outros a resmungar, outros a dizer, vá lá, chora lá, uma com um bolo na mão, outra com um presente, outro com uma lembrança de uma viagem...
Toda eu me iluminei. Uma luz que veio, indiscutivelmente, de dentro. Abracei-os com força. Nem lhes levei a mal que me cantassem os parabéns. Perdoei-lhes tudo. A Mzinha, metida ao barulho, lá disse que a ideia do restaurante tinha sido da seita e eu, bicho-do-mato, lhes tinha estragado os planos. Mas foi muitíssimo melhor assim. Num milionésimo de segundo, esta sala virou um caos, com tudo a falar ao mesmo tempo, a rir, a contar histórias, a entalar o parceiro do lado, conta lá, vá, conta lá as coisas como elas foram, ou queres que conte eu? a discutir os novos rankings, a elaborar teses políticas, a chatear o próximo por causa dos resultados do futebol, a gritar disparates e a mandar calar toda a gente, à vez, épá, deixa-me falar, que isto assim ninguém se entende... cala-te, tu, ora essa! calam-se todos que quem manda aqui sou eu, porque eu é que sou a... olha-me esta, isso é que era bom, já viste isto? Está com a mania, agora...
O pandemónio do costume. De um costume a que já estava desacostumada, e do qual sentia mesmo falta. Não há nada mais reconfortante, para mim que sou esquisita, que ter um gajo a dizer-me com um ar muito cómico, tu cala-te e desculpa lá estar a mandar-te calar na tua casa mas...
Intimidade. Há coisas que não têm preço, e melhor do que lhes poder perdoar o silêncio, foi tê-los ouvido falar, gritar, rir, provocar, insultar, transformar o éter em som... como se o tempo não tivesse passado.
3 comentários:
És uma parva insegura. E ainda assim a malta gosta de ti =)
Um abraço quentinho e tranquilizador cheio de segurança.
Só o facto de te termos feito sofrer um bocadinho aumentou ainda mais o gozo. E ainda tiveste um presente da DREAlentejo, para compensar um bocadinho aquele Verão manhoso de relatórios.
Aproveita bem este anos, o último em que és trintinha. Para o ano serás uma alegre trintona (Eh,eh,eh). O que vale é que já vais ganhando "Consciência política".
Beijos
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