sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Lonesome, not lonely

Dos trinta e tal professores da minha escola pequenina, cerca de um terço mora na cidade onde eu vivo, a vinte e tal quilómetros da vila. Isto faz com que se combinem boleias diárias, para poupar gasóleo, pôr a conversa em dia e preservar o ambiente.
Acontece, porém, que eu levo sempre o meu carro. Porque sou do turno da noite, metade da semana, e é óbvio que ninguém fica especado à minha espera até às dez da noite; e saio cedo, nos restantes dias, já deito escola pelos poros e não também fico especada à espera de ninguém. A sexta-feira seria o único dia em que eu poderia partilhar carro. Acontece que às sextas nunca sei como o meu dia vai acabar, e sou uma moça de venetas. Pode dar-me para vir directamente para casa, mas também pode acontecer que me dê para a vadiagem, ou para ir directa a Lisboa, sei lá, gosto de ter a minha independência ao bater do primeiro segundo do fim-de-semana.
Tenho um colega que é muito bom moço, mas ao qual a emancipação feminina faz um bocado de espécie. Meteu na cabeça que às sextas tinha, porque tinha, que partilhar boleias comigo, apesar da restante dezena de seres que se desloca nas mesmas direcções às mesmas horas, e ficou muito vexado porque eu lhe disse categoricamente que não e, ultraje!, não me justifiquei sequer...
Andou a berrar aos sete ventos que eu tinha mau feitio e, como ninguém lhe ligou pevide, a novidade agora é insinuar que eu tenho uma vida dupla facto que, confesso, me lisonjeia sobremaneira. Por isso, apressei-me a dizer que não era dupla, era tripla como as tomadas. E que ninguém tinha que se meter em nenhuma das três.
Já em desespero, o rapaz perguntou a uma colega "que raio se passava com a Jade"... ao que ela respondeu: "A Jade é o lobo solitário da matilha. Não deixa de ser da matilha, contribui, está presente. Simplesmente só faz o que lhe dá na telha, e não presta contas da vida dela a ninguém."
Sorri. De facto é isso. Sou até muito sociável. Simplesmente escolho a quem contar o quê sobre a minha vida. Não sou um livro aberto, nem tenho que o ser. Uns acham que tenho coisas sórdidas a esconder. Eu chamo-lhe privacidade e independência.
Eu estou convencida de que tenho uma vida. Há quem ache que, no fim das contas, tenho duas. Nesse caso, faço alarde de que são três. E é deixá-los especular. Porque se há coisa que tira do sério as ovelhas de um rebanho, é haver uma que é preta.

5 comentários:

Shadow disse...

Acho essa definição

("A Jade é o lobo solitário da matilha. Não deixa de ser da matilha, contribui, está presente. Simplesmente só faz o que lhe dá na telha, e não presta contas da vida dela a ninguém.")

fantástica, e que te assenta que nem uma luva. Mas isso sou eu, que não te conheço. Quanto à situação em si revejo-me de forma irritante, e embora comece a achar que ser conduzida é um LUXO, o facto do mundo não funcionar à nossa velocidade (devia moldar-se vez e vez sem conta imediatamente sobre o que queremos) é uma pena.

O que também é uma pena é o facto de esse senhor não ser jeitoso nem interessante. Porque se fosse, e tu tivesses 1 neurónio a trabalhar bem, tinhas dito "Ok, anda, esperas é por mim e tanto podes ir parar à CdD - cidade de Deus - como para Lisboa".

cantinhodacasa disse...

Jade, onde é a cidade de Deus?
Tomar?
Please.

Jade disse...

Shadow, eu também adorei a definição, acho um elogio enorme, obrigada a ti também por concordares com ela.

Cantinho... a gargalhada que eu dei! Andamos nisto há mais de um ano, não? Não posso, sorry, não posso.

Beijos às duas

Fuschia disse...

Eu acho que se calhar o coleguita tem pouco com que se entreter por aí e decidiu que havia de levar a Jade para o caminho da luz!

cantinhodacasa disse...

Hei-de descobrir, for God sake!
Kiss