sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Hábitos e Costumes



Previsibilidade.
Sou uma pessoa previsível. Na maior parte do tempo, cada ser que me rodeia, conheça-me bem ou nem tanto, sabe com o que pode contar, sabe o que esperar, e sabe, principalmente, que não pode esperar muito ou contar comigo por aí além. Não sou dada a passar a mão pelo pêlo, não tenho feitio para grandes lamechices e sou um zero à esquerda quando se trata de exprimir sentimentos nobres. Também os sinto, também os tenho, mas sou pouco efusiva nos afectos, salvo raríssimas excepções.
Claro que há o reverso da medalha. As pessoas de quem gosto sabem que não se passa muito tempo sem que eu lhes telefone a dar ou pedir sinais de vida. Sabem que as procuro, que lhes mando mails, nem que sejam apenas forwards com uma frase “das minhas”, como diz a Mzinha. Que tento não deixar passar em branco os dias dos seus aniversários. Que retribuo chamadas perdidas. Que não me desleixo nas amizades.
É costume. É costume alimentar amizades a quilómetros de distância, é costume ir a casa das pessoas, é costume parar para ouvir a resposta a um “como estás, está tudo bem?”. É costume ter tempo para deitar conversa fora ao telefone, e paciência para estar horas a ouvir alguém desabafar. A ouvir mesmo, e não a fingir que oiço, enquanto penso noutras coisas. Há muita gente que se admira, tempos depois “eu disse-te isso? Eu contei-te isso? Ainda te lembras disso?” Sou assim. Sou previsível. Estou atenta.
Novembro não é um mês agradável. Começa o frio, chove, não há feriados, o tempo aperta, o trabalho cresce exponencialmente e, não sei porquê, há sempre problemas, chatices e surpresas desagradáveis. Há sempre rotinas a descarrilar, merdices a correr mal, cansaço acumulado, pormenores sem fim a anotar na moleskine. É o ponto mais negro da noite, que antecede a madrugada das coisas boas que vêm de seguida, em Dezembro. As férias, o descanso, os mimos, os presentes, as festas, o tempo para ter tempo.
Este Novembro não foi excepção, e a rotina foi a perda do que em mim era rotina e costume, a perda da previsibilidade. Abandonei blogue. Quase abandonei e-mail e telefone. Pus amigos em stand-by. Vivi para o trabalho. Dormi nos intervalos. Não foi nem fácil, nem simpático. Nem sei se foi, sequer, útil. Mas era necessário. Tive que me organizar, que parar, sem de facto o fazer. Tive que recomeçar. Tive que me ambientar a muita coisa nova, e em algo de novo em mim, cá dentro. Uma novidade que se prendeu num olhar em frente, num soltar de amarras, numa recusa em vivências nostálgicas. Fiz um grande esforço. Vivi de forma minimalista, reduzi o meu mundo ao essencial: trabalho, horas de sono e alimentação disciplinada, pouquíssimos ou nenhuns cigarros por dia. Poucas chamadas telefónicas, só à progenitora e ao cumprimento dos aniversários dos amigos. Pouca vida social. Pouca gente à volta. Ninguém a quem prestar contas ou dar justificações. Só a Mzinha e o H., porque uma vive comigo e é como se fosse minha irmã, por isso posso estar em silêncio, ou falar sem parar horas a fio, que não há cobranças nem intromissões, nem desconfortos nem juízos de valor; o outro porque me conhece quase desde sempre, lê nas entrelinhas e me oferece riso e chocolates, me empresta livros e me pergunta por eles, obrigando-me a ler e a evoluir, esteja eu dentro do poço lá no fundo, ou com o melhor dos humores.
E no fim de um Novembro com uma rotina sempre igual, mas tão diferente das rotinas dos últimos anos, sinto-me quase, quase em forma, para regressar à base, voltar a procurar outras pessoas, voltar a conversar e a deitar conversa fora. Sinto-me quase, quase pronta, para sossegar os que me ligaram “que se passa contigo?”, “preocupa-me que não escrevas”, “estás bem?”, “não é nada teu costume”…
Estou quase, quase pronta. O que se passou comigo, não sei. Se estou bem, acho que se não estou, para lá caminho. Sinto-me centrada, ou concentrada. Sinto-me em paz. Tenho andado em stress, mas sem ansiedade. Pouco efusiva, como sou por natureza, mas sem dramas interiores, o que também era costume. Pouco palavrosa, mas com a dose de parvoeira natural e suficiente para ainda me reconhecer. E, na escola onde toda a gente me trata pelo diminuitivo e os putos estão, finalmente, a começar a entender-se com a profe de Inglês, tal como na vida privada, e anormalmente recatada, que tenho levado, a minha pele, aos poucos, começa a servir-me à medida. Começo a sentir-me realmente confortável com ela. E, se Novembro raramente traz algo de bom, este, pelo menos trouxe-me isso: uma pele feita à medida das minhas necessidades.

7 comentários:

Mirovich disse...

Ops, cá está a minha (nossa) amiguinha.
vou ali preparar a paparoca para hoje jantarmos VV, espero que em breve tambem seja o dia em que vou voltar preparar a paparoca para X+VVV.
Já estou pro em culinária (aprendiz de feiticeiro), imagina a mestra que me ensinou.
bjs

Jade disse...

Está quase, quase, caro amigo.
Um beijo que chegue para os 4, alberto incluído.

Shadow disse...

Valeu a pena a espera, para te ler assim.

bj

Jade disse...

Thanks, sweety. Há muito trabalho teu também, para estar hoje neste patamar. Thanks, really.
Bj

Mzinha disse...

olá

Já tinha saudades de um dos teus textos.

(mas desta vez consegui encontrar um lapso)

o mês de novembro não tem feriados, há isso é que tem, o dia 1. (mas tens desculpa, este ano foi ao domingo)

beijinhos

Jade disse...

És terrível... realmente andas a conviver DEMAIS comigo. Dia 1 de Novembro... é como se fosse Outubro. Ehehehheh!

Bjos

Cris disse...

Este é um comentário paralelo ao teu post (muito aguardado ;)) e resultado do comentário da Mzinha.

Esta Sexta iniciei uma formação e no final da manhã passou a folha de presenças, em que cada um dos formandos (professores), tinha de identificar quantas horas da formação assistiu na segunda coluna e na terceira assinar. Eu fui uma das últimas a assinar e a folha vinha de cima a baixo preenchida por todos com 3,5.

Eu lá me deixei rir, pisquei o olho ao colega do lado e, armada aos cucus, lá pus 3h30. :)