quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Caíu a ficha

Andava quase há um mês com uma sensação de estranheza. Qualquer coisa não batia certo e eu não conseguia perceber o quê. Era, isso eu sabia, um sentimento peculiar e indistinto e prendia-se com a escola, com o ambiente, uma espécie de comichão de fonte indefinida. Hoje caíu a ficha:
Somos poucos. Almoçamos juntos muitíssimas vezes. Saímos frequentemente depois do sol se pôr. Entramos de manhã cedo. Tratamo-nos pelos nomes próprios. A mim, toda a gente me trata pelo diminuitivo, até a Directora. Por tu, todos e sempre. Comunicamos por mail e sms. Falamos aos fins-de-semana. Sabemos moradas e telefones, nomes de maridos, mulheres, namorados, namoradas, filhos, filhas, netos, netas e animais de estimação de toda a gente. Vamos ao supermercado da vila em excursão, porque não há tempo de fazer compras onde residimos. Assaltamos os cacifos uns dos outros, que estão sempre abertos, em busca de pastilhas e chocolates, agrafadores e tubos de cola. Às vezes passamos o tempo a rir. Outras insultamo-nos de tudo. Há alturas em que já nem nos podemos ver. Outras, temos a sensação que dormimos todos juntos.
Caíu a ficha. O que eu estranho é que aquilo tem a dinâmica de uma grande família. Da grande família que eu nunca tive: pessoas que não são escolhidas por nós, mas que temos que gramar. Pessoas que mesmo que nada nos digam, conhecemos, e conhecemos melhor que muita gente com quem convivemos há anos. Pessoas com quem é impossível mantermos grandes ódios, porque vamos levar com elas durante muito, muito tempo, e isso pesa nas nossas atitudes e nas nossas predisposições inconscientes.
É diferente do que se passava no ano passado. No ano passado era possível darmo-nos apenas com meia-dúzia de escolhidos. Era possível fazermos amigos, ter confidentes, arranjar namorados, criar grupos. Aqui, não. Qualquer relação íntima dá ideia de incesto. O grupo é geral, uma cambada de primos e primas e tios e tias, e mães e pais e irmãos e irmãs. Uma amálgama de gente virada para o trabalho e para as boleias, para os horários dos filhos e dos ginásios, a reunir e a comer bolachas, a esvaziar pacotes de sumo e leite com chocolate à medida que se controla a própria agenda e a dos outros, e se diz, não está na hora de ires buscar o teu filho? ou, hoje vou eu buscar a tua filha e depois aproveitas e jantas lá em casa quando saíres da reunião, ou ainda, e no meu caso, a deixa da semana, o xpto do teu médico já te ligou ou temos que fazer uma excursão a Lisboa para lhe partir as trombas? Enquanto não liga, toma lá um chocolate, que és linda...
E isto, para mim, é do reino do incrível. Mas não deixa de ser um grande consolo. E de me dar alguma paz interior. Uma paz que nunca tive, descontextualizada e desenraizada como sempre estive ao longo de tantos anos nesta terra.
Agora, só tenho que ter cuidado e não ir para a escola de pijama e roupão, já que vou, muitas vezes, dar aulas de chávena de café ainda em punho.

10 comentários:

Shadow disse...

fica, portanto, explicadissimo as tuas reuniões de horas sem qualquer assunto evidente.

Jade disse...

Tal e qual.

Mirovich disse...

O beneficio de um entendimento colectivo, gera dias absorventes e preenchidos dentro e fora do perímetro escolar...

Mzinha disse...

Escola = +- 40 professores (pré ao 9ºano);

A minha família que se junta em jantares e almoços: 30 (fora os primos que estão no Canadá (6)

saldo: -4

Jade disse...

Miro, este comentário, pelo menos, percebi. Já o da pulga...

Mzinha... se já estavas a dormir e te acordei com uma gargalhada... a culpa é tua. Amanhã logo fazemos contas a isso também. Bjs

Jade disse...

É verdade, Miro, não devias estar numa festa de anos? Se bem me lembro, a 29 de Outubro abria a época do festaréu. A Cidade de Deus está ao rubro com a Baja. Baja aqui, a ver se eu deixo...

Shadow disse...

Em relação a este post queria só dizer mais isto "Se vires a luz ao fundo do túnel, certifica-te que não é um comboio." :D

Jade disse...

LLOOOOOOOOLLLLLLLLL! ai, ai, ai, que me doem os maxilares...LOOOOOLLLLLL! Brilhante. Brilhante!

Mzinha disse...

Hahahahaha a gargalhada que eu estive para me levantar e ir perguntar porque é que te estavas a rir daquela maneira, depois de um dia que tu sabes como é que foi(melhor do que eu)
xau
beijinhos

Carolina disse...

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Congrats friend! Hope you're feeling better now.