sábado, 24 de outubro de 2009

Alma presa por uma corda a um pé da mesa

Em dias como o de hoje, sinto-me uma autêntica prisioneira. Detesto sentir-me assim, num calabouço de obrigações, de tarefas por cumprir, de coisas para fazer, de deadlines a respeitar. Detesto. Sou, desde sempre, um espírito livre. Gosto de fazer o que bem me apetece. Tenho uma vida muito privilegiada, no que toca a opções, a decisões, a venetas. Tenho até, aquilo a que chamo muitas vezes, a maldição da independência quase total.
Às vezes penso que se tivesse mais âncoras, que não a do trabalho e a preocupação constante com a única pessoa do meu sangue que existe no meu mundo, que é a minha mãe, se tivesse mais âncoras, dizia, talvez me sentisse mais equilibrada, mais normal. Mas a verdade é que não tenho, e já há muito aceitei a minha alienação do mundo adulto convencional.
E em dias como o de hoje, em que esse mundo adulto me cai em cima da cabeça como um piano de cauda, acabo por me sentir completamente sufocada.
Está sol e eu estou cheia de maus sentimentos.
Tenho coisas para fazer durante todo o fim-de-semana, coisas que me tiram tempo para as minhas sestas e os meus livros, e a minha internet e os meus jogos, e a minha preguiça e os meus amigos.
Talvez por isso, hoje tentei ligar a duas ou três das minhas amigas do núcleo duro da escola anterior. E nenhuma me atendeu o telefone. E com isto, pensei que as mudanças, mesmo que para melhor, trazem sempre com elas perdas irrecuperáveis, que em certos momentos, como agora, nos angustiam. Porque tenho que trabalhar e me apetecia queixar-me disso a quem estivesse na mesma situação. Porque me apetecia regressar a um mundo, não físico, mas emocional, em que o meu local de trabalho fosse também o espaço das minhas amizades femininas. E isso, de facto, já não é.
Nesta escola, as mulheres são simpáticas, são divertidas, são boa-onda, são inteligentes e agradáveis, não me posso queixar, não. Simplesmente, não vejo em nenhuma delas sementes de cumplicidade. Não me parece que lá vá encontrar pessoas que me digam tanto como a Mzinha, a MissCovilhã, a PêloRusso, a Li ou a T. A cumplicidade feminina em nada está relacionada com a empatia. É uma fórmula equilibrada de interesses partilhados e formas de estar na vida. É, sobretudo, uma elo inquebrável que nasce de modos de rejeição idênticos. Nada aproxima tanto as mulheres como um objecto que ambas detestam. E nesta escola é tudo muito morno, muito politicamente correcto, muito superficial.
Sinto falta das minhas meninas, da má-língua, do corte e costura, do modo tão catártico que tínhamos de desabafar irritações e venenos, à mesa de uma esplanada, ou numa sala de professores de sofás dispostos em U. Sinto falta de ter com quem partir a loiça toda, e depois rir-me. Sinto mesmo falta de fazer uma chamada para me queixar da merda das planificações e ter alguém que me atenda na hora, por estar em frente a um computador, a fazer a mesmíssima coisa.
Sinto falta, nestes dias em que a minha alma está presa por uma corda a um canto da mesa, de ouvir alguém resmungar, do outro lado do telefone, contra o mesmo tipo de cárcere.

4 comentários:

teia d'aranha disse...

Se tivesses o meu número e me tivesses ligado, terias eco das tuas queixas e das tuas angústias... E pronto, agora vou ali telefonar a alguém com paciência suficiente para me ouvir lamuriar.

Ah! E para cúmulo... os bilhetes para os U2 já eram! Foudasse!

Mzinha disse...

Para variar este é o meu segundo comentário. (estás tu a pensar, então o 1º?) . Pois o 1º não chegou, só agora é que reparei (esqueci de escrever as letrinhas )

Quantas vezes dissemos "vamos ter saudades disto". O ambiente na escola é bom, mas falta algo especial... as conversas, os risos, as brincadeiras, os lanches,... as amigas...


PS: espero que a minha net não tenha a causa de não teres cumprido as tuas tarefas

beijinhos

Jade disse...

Teia, obrigada, mas só fazia sentido se fosse alguém da mesma escola, percebes? Alguém em sintonia espacial...ehehehheh

Não, Mzinha, a net não é desculpa, e até trabalhei. Muito a custo, e muito menos do que devia, mas ainda fiz umas coisas.

Beijinhos às duas

Pelo Russo disse...

A mim não ligaste tu! Lol! Tenho muitas saudades!!! E ainda estou à espera da resposta à mensagem!! O teu sobrinho já se põe de pé e gatinha a casa toda.. Não há descanso! Podes ligar sempre que quiseres para dizer o que quiseres... e concordo contigo... a empatia que se criou no núcleo duro dos anos anteriores não se repetirá jamais...
Beijos!!