Também tive a minha fase Coldplay, em que trauteava incansavelmente "The Scientist" e "In my Place". Depois, perdi-me de amores pelo "Fix You", vai bem com o meu tom de pele, com a necessidade atroz que tenho de ser necessária. Este último álbum já me diz pouco, mas relembrei a banda ontem, por causa de uma conversa telefónica, que rezou assim, mais coisa, menos coisa, e com algumas liberdades poéticas à mistura, que é óbvio que não me lembro das palavrinhas exactas...
Eu: Quando aprendi a publicar vídeos no blogue, via-os dezenas de vezes. Agora publiquei aquele do Bono, tão lindo, e nunca mais olhei para ele...
Ela, eloquente, provavelmente às voltas com a internet ou o arroz tufado com leite: Hmmmm...
Eu, ignorando o facto de estar a ser ignorada: ...e eu adoro a música, e este vídeo tem legendas. É tão lindo aquele verso "Home... you don't know what it is, when you never had one".
Ela: Brutal é o "in a little while", conheces?
Eu: Não.
Ela: Mereces morrer.
Eu: Não mereço nada, já sei qual é (e canto um bocadinho).
Ela: Sim, é essa. Sabes, essa história de não saber o que é home porque nunca se teve uma, é bem verdade.
Eu: Eu sinto-me assim.
Ela: Não, muito diferente. Tu tiveste e agora, que já não és de Lisboa nem pertences à Cidade de Deus, sentes falta de um espaço com que te identifiques, que reconheças (reconhecer, voltar a conhecer, distinguir o que já se conhece) como tal.
Eu: De um espaço? Não sei se é bem isso. O espaço é secundário, o lugar é irrelevante. Ser uma nómada, uma wanderer, não ajuda, claro, mas se tivesse um ponto de regresso... quero dizer, não um sítio tangível, mas mais um espaço emocional. Não é a questão do apartamento que fui eu que paguei e onde guardo os meus cacos. É a questão das paredes construídas pelo abraço, o tecto de um sorriso, as janelas para um olhar, o chão de um corpo. A pergunta à chegada, a síntese do dia ou o silêncio partilhado. O sofá confortável de um silêncio partilhado, em que te deitas esticada, e te espreguiças feliz. A lareira acesa pelo toque carinhoso, pelo consolo de um ombro. Uma mesa para dois, que pode ser apenas uma toalha esticada no chão. Não é o lugar, é a companhia. Sou pouco ligada às coisas materiais da vida.
Ela, escarninha: Pois, o material e a organização prática das coisas são mesquinharias a que pessoas como tu são superiores.
(risos. Eu penso: ...e depois lixam-se, com tanta superioridade).
E acrescenta: Toda a gente gosta de lugares, de sítios. Deixamo-nos marcar por determinada luz, por formas, cheiros, temperaturas específicas a que regressamos e que associamos a destinos particulares. Simplesmente...
(pausa)
...simplesmente algumas pessoas, nas nossas vidas, são lugares.
(vêm-me de imediato as lágrimas aos olhos. Penso: que frase maravilhosa. Penso em dizê-lo, assim mesmo, "que frase maravilhosa", mas calo-me, porque ela continua).
E quando as pessoas ganham a dimensão de lugares, a que queres regressar uma e outra vez, pessoas que andam pelo Mundo, que não estão, que não pousam, que não são árvores com raízes ou edifícios alicerçados no solo e, no entanto, é ao lado delas que te sentes em paz, que sorris sempre, mesmo que estejas partida em mil, quando essas pessoas existem, pode ser, pode mesmo ser, que sejam elas a tua casa. E aí não pertences a um sítio, pertences a qualquer sítio onde elas estejam. São a tua casa.
(por esta altura, as lágrimas já me corriam cara abaixo, e mantive-me em silêncio, ou disse um "pois" muitíssimo perspicaz, nem sei, pensando que foi exactamente isso que me prendeu tantos anos à Cidade de Deus, de que só digo mal. Nunca foi o espaço físico que amei aqui. Nem o social. E, no entanto, nunca daqui ponderei sair, nunca, durante sete ou oito anos que me pareceram a minha vida inteira, que poucas memórias tenho de quem fui antes disso. Sim, há pessoas que são a nossa casa.)
Ela: Sabes o que tens a fazer?
Eu, com o feitiozinho de merda anti-climax, de não dar parte fraca nem ser piegas em directo (por escrito é uma coisa, ao vivo, nem que seja por telefone, é outra totalmente diferente): Mudar de casa? Arranjar uma casa de férias?
(risos)
Ela: Não. Seguires os teus instintos. E pensares que em qualquer lugar do país vais viver na mesma, vais sorrir na mesma, dizer os mesmos disparates, tudo igual. Podes não estar em casa, podes viver emigrada o resto da tua vida, mas vais vivê-la na mesma.
Desligámos, entretanto. Não sei se é um consolo por aí além, saber que a vida continua, ainda que incompleta de algum modo. Acho que prefiro pensar que, não tendo dinheiro para o meu T3 de sonho, me vou contentar (sem me acomodar, contentar de ficar contente, mesmo), com um T1 maravilhoso que encontre entretanto pelo caminho. Um T1 que me ofereça, finalmente, as noções de settlement e belonging.
Estou com um medo denso do futuro, essa é que é essa.
10 comentários:
Este comentário corre um sério risco de não ser para aceitar. Mas, para já, e como rezava o Estripador, vamos por partes.
Subscrevo, e de que forma!, "the Scientist", "In my place", "fix you"... Mas devo dizer que falta a referência a "Trouble" e "Yellow". Contudo, também eu não morro de amores pelo ultimo álbum. No fundo é o mesmo que o álbum "Takk" dos Sigur rós, marcou-os, marcou-me e a referencia coldplay será sempre "Parachutes" e "X & Y". Ainda assim ao começar a ler este teu post o tico pegou no piano e o teco (qual Cris Martin) foi acompanhou:
Just because I'm losing
Doesn't mean I'm lost
Doesn't mean I'll stop
Doesn't mean I'm across
NR: http://www.youtube.com/watch?v=fvphcWnJBn0
Quanto ao resto, acho extraordinário existir alguém que consegue ser eloquente e comer arroz tufado ao mesmo tempo! Deve ser de facto alguém excepcional e manter por perto. Certamente que alguém assim não te ignora - simplesmente - deve é compreender à primeira tudo o que queres dizer, e mesmo sem teres de fazer as longas descrições e contextualizações a que estás habituada, consegue reproduzir num esquiço a imagem que quiseste passar.
E da mesma forma que existem pessoas que conseguem ser eloquentes na companhia de pão de oregãos, arroz tufado ou ice tea green existem também pessoas que se transformam num lugar onde passamos tanto tempo que as passamos a habitar. São o nosso lugar favorito.
E toda a gente quer poder dizer "Este lugar é meu!" e mais que isso poder corrigir um dia para "Este lugar é nosso." Alguém disse um dia, que o amor é um lugar estranho - aqui entre nós - tinha razão.
Ps: Tal como se previa é estupidamente longo este comentário , lê e experimenta a tecla del, certamente um E-escola também terá uma ;)
Li o teu comentário com um sorriso crescente, e pensei... é desta! É desta que vou ter que a elogiar publicamente. Depois li o PS e "P*TA-QUE-PARIU!!!!" O meu e-escolas, ficas a saber, é um e-escolas com personalidade. Como a dona. E nem eu nem ele admitimos ser achincalhados por gaiatas do norte com a mania de que não são info-excluídas quando só mandam metade dos codecs necessários para ver os filmes fenomenais que gravaram. É mesmo a meter nojo, tipo ligarem de pés no Grande Mar e dizer "Estás a ouvir, estás a ouvir? As ondas dizem assim: Jade! Jade!".
Vai meter nojo para o carago mais velho!!!
Cacete!
PENSAS QUE O MEU E-ESCOLAS FOI COMPRADO NA FEIRA DE ESPINHO????
Vai assinar a Lux-Woman, mulher sem noção de fashion!
Se me queres achincalhar pelo menos sê coerente. Chamar Gaiata em cima e mulher em baixo... estás a ficar (ainda mais) senil ;D
LOOOLLLLL!
Pronto, está bem, desisto, leva lá a bicicleta... e afocinha com ela no Grande Mar. Malta do Pijama... todos iguais!
;D
Posto isto só me cabe dizer...
"OH MEO DEOS..."
LOOOOL
Que loucas...
E relativamente ao post:
EU SOU MUITO MAIS QUE UM T5, na verdade acho que sou um arranha ceus de mil andares com vários T"n" em cada um deles...
Serei UM BOM LUGAR :)???
um assim BOM, TAL COMO TU pra mim??
;)
bjinho
Isa, filhota, a tua ruptura de ligamentos não foi no joelho, pázinha, foi nos neurónios! Será que é da água que se bebe acima do Mondego???
Anyway, thanks... esse delírio SÓ PODE ser da anestesia geral, sua drogadita, mas pelo menos, voltaste a estar aqui diariamente e eu tinha umas saudades tuas que não vêm nos livros... nem do Jorge Amado!
JSJ
In your place...
Ontem depois de ler este post e ainda com a seguinte parte em mente
"E quando as pessoas ganham a dimensão de lugares, a que queres regressar uma e outra vez, pessoas que andam pelo Mundo, que não estão, que não pousam, que não são árvores com raízes ou edifícios alicerçados no solo e, no entanto, é ao lado delas que te sentes em paz, que sorris sempre, mesmo que estejas partida em mil, quando essas pessoas existem, pode ser, pode mesmo ser, que sejam elas a tua casa. E aí não pertences a um sítio, pertences a qualquer sítio onde elas estejam. São a tua casa."
Fiquei a pensar ... e quando os blogs ganham a dimensão de lugares, a dimensão de pessoas.
Sim porque cada vez que te quero ler, "ouvir-te", sentir-te venho aqui! ao teu lugar, ao teu Place, e encontro-te.
Podes estar na cidade de Deus, em Lisboa... ou ires para outro lado qualquer... mas é aqui que te encontrei... que te encontro... e espero encontrar...
...é onde tenho as minhas memorias de ti apesar de não te conhecer pessoalmente, não conhecer a tua voz... este teu Place tomou dimensão de pessoa... e a Jade tomou dimensão de local...
... é aqui que sempre te encontro neste teu Home Place...
http://jade-sweet-jade.blogspot.com/
Beijos NIPT
Sinhá Jadji,
Os efeitos desse pequeno incidente já passaram, aquele delírio foi um delírio consciente...
Mas sim as saudades que não vêm nos livros são bem verdade, pra cima de muitas, e eram ainda mais antes de voltar a viciar-m neste LUGAR Teu...
bjinho grandji ;)
Há momentos em que a eloquência é um defeito.
Lindo.
Pronto.
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