“A professora para o ano fica connosco?”
Nó na garganta, dor no estômago, lágrimas a aflorar aos olhos, tudo sensações que começam a ser frequentes e banais, como tudo o resto que em mim se repete e banaliza.
“Não, meus amores, o mais provável é ir-me embora. Houve concursos, estou à espera”
“E quem é que lhe deu autorização para concorrer e ir-se embora, diga lá?”
“É a vida… se tivesse escolha, gostava de ficar”
“Vai para o liceu?”
“Nem sei se fico na cidade. É provável que nem isso. Mas mesmo das escolas da cidade onde estive, e só não estive numa, vocês são os alunos de que mais gosto”
“Mentira. A professora não gosta nada de mim…”
“Gonçalo, eu não disse que gosto de todos… estou a generalizar” E lá me ri quando ele escondeu a cara entre as mãos, a fingir tristeza profunda. Um dos meus alunos favoritos de todos os tempos, o Gonçalo.
O irmão saiu em sua defesa: "A professora trata-nos abaixo de cão. É má. É velhaca. Se há pessoa que toda a gente sabe que até sonha com as maiores patifarias para nos fazer, é a professora de Inglês." E toda a gente se riu, incluindo eu.
É verdade. Parto-lhes a cabeça. Chamo-lhes ignorantes, preguiçosos, marretas, totós, estarolas, nabos, tristes, trastes, insuportáveis, de tudo um pouco. No outro dia o Gonçalo dizia que eu lhe tinha chamado “boi”. E eu, estás parvo? Não chamei nada! Nunca chamo nomes de animais aos meus alunos. E ele, não? A stôra disse, "Gonçalo deita a pastilha ao lixo que não gosto de ensinar Inglês a ruminantes!" Tudo a rir, para variar, e eu, isso foi poético, foi uma metáfora! E ele, e a professora também já disse, "Gonçalo, as patinhas não são para pôr em cima da cadeira da frente!" e quando eu respondi que não tinha patas a professora disse, "tens razão, desculpa, Gonçalo, os cascos não são para pôr em cima da cadeira da frente, mesmo com ferraduras All-Star cor-de-rosa!" Acha bem???? Toda a gente a rir, novamente. E eu a insistir… mas não te chamei nenhum nome de animal directamente. Ainda na mesma aula, digo-lhe qualquer coisa rematada com a bela expressão “meu grande urso”, ao que ele me responde “urso não é um nome de um animal?” e eu, a rir, não, é de um brinquedo… eu ia dizer “de peluche", mas tu não me deixaste acabar…”
Hoje, durante a conversa sobre tratá-los mal, lá houve duas ou três alminhas iluminadas que disseram “A stôra adora-nos. Gosta mais de nós que de chocolate”
E é verdade. E por causa de alguns atritos recorrentes na minha vida, infelizmente com adultos, e não com adolescentes, fiquei a pensar que, na verdade, temos que ter muito mais cuidado com o que dizemos às pessoas crescidas que aos cachopitos de palmo e meio. Talvez por estarem naquela fase das hormonas à flor da pele e sensibilidades ao rubro, os miúdos têm mais discernimento emocional que os adultos, quando se trata de fazer-lhes ver que, muitas vezes, a melhor forma que há de dizer “adoro-te, quero que sejas alguém, quero que tenhas sucesso, quero tudo de bom para ti” é dizendo-lhes “Não chega. Falhaste. Erraste. Estás a ser mal-educado e eu não te mereço isso. A tua atitude desagrada-me sobremaneira. Assim não vais longe. Em vez de acusares o teu colega, cala-te, pede desculpa e olha para ti”.
Não sei se só eu procedo desta forma, mas nunca tive amargos dissabores com alunos por ser crua, directa, precisa nas críticas, incisiva nas necessidades que quero ver satisfeitas. Eles irritam-se, barafustam, protestam, argumentam, mas jamais nenhum me disse, a sério e em verdade, “A professora ofendeu-me. A professora não gosta mesmo nada de mim. A professora quer apenas humilhar-me”.
Nó na garganta, dor no estômago, lágrimas a aflorar aos olhos, tudo sensações que começam a ser frequentes e banais, como tudo o resto que em mim se repete e banaliza.
“Não, meus amores, o mais provável é ir-me embora. Houve concursos, estou à espera”
“E quem é que lhe deu autorização para concorrer e ir-se embora, diga lá?”
“É a vida… se tivesse escolha, gostava de ficar”
“Vai para o liceu?”
“Nem sei se fico na cidade. É provável que nem isso. Mas mesmo das escolas da cidade onde estive, e só não estive numa, vocês são os alunos de que mais gosto”
“Mentira. A professora não gosta nada de mim…”
“Gonçalo, eu não disse que gosto de todos… estou a generalizar” E lá me ri quando ele escondeu a cara entre as mãos, a fingir tristeza profunda. Um dos meus alunos favoritos de todos os tempos, o Gonçalo.
O irmão saiu em sua defesa: "A professora trata-nos abaixo de cão. É má. É velhaca. Se há pessoa que toda a gente sabe que até sonha com as maiores patifarias para nos fazer, é a professora de Inglês." E toda a gente se riu, incluindo eu.
É verdade. Parto-lhes a cabeça. Chamo-lhes ignorantes, preguiçosos, marretas, totós, estarolas, nabos, tristes, trastes, insuportáveis, de tudo um pouco. No outro dia o Gonçalo dizia que eu lhe tinha chamado “boi”. E eu, estás parvo? Não chamei nada! Nunca chamo nomes de animais aos meus alunos. E ele, não? A stôra disse, "Gonçalo deita a pastilha ao lixo que não gosto de ensinar Inglês a ruminantes!" Tudo a rir, para variar, e eu, isso foi poético, foi uma metáfora! E ele, e a professora também já disse, "Gonçalo, as patinhas não são para pôr em cima da cadeira da frente!" e quando eu respondi que não tinha patas a professora disse, "tens razão, desculpa, Gonçalo, os cascos não são para pôr em cima da cadeira da frente, mesmo com ferraduras All-Star cor-de-rosa!" Acha bem???? Toda a gente a rir, novamente. E eu a insistir… mas não te chamei nenhum nome de animal directamente. Ainda na mesma aula, digo-lhe qualquer coisa rematada com a bela expressão “meu grande urso”, ao que ele me responde “urso não é um nome de um animal?” e eu, a rir, não, é de um brinquedo… eu ia dizer “de peluche", mas tu não me deixaste acabar…”
Hoje, durante a conversa sobre tratá-los mal, lá houve duas ou três alminhas iluminadas que disseram “A stôra adora-nos. Gosta mais de nós que de chocolate”
E é verdade. E por causa de alguns atritos recorrentes na minha vida, infelizmente com adultos, e não com adolescentes, fiquei a pensar que, na verdade, temos que ter muito mais cuidado com o que dizemos às pessoas crescidas que aos cachopitos de palmo e meio. Talvez por estarem naquela fase das hormonas à flor da pele e sensibilidades ao rubro, os miúdos têm mais discernimento emocional que os adultos, quando se trata de fazer-lhes ver que, muitas vezes, a melhor forma que há de dizer “adoro-te, quero que sejas alguém, quero que tenhas sucesso, quero tudo de bom para ti” é dizendo-lhes “Não chega. Falhaste. Erraste. Estás a ser mal-educado e eu não te mereço isso. A tua atitude desagrada-me sobremaneira. Assim não vais longe. Em vez de acusares o teu colega, cala-te, pede desculpa e olha para ti”.
Não sei se só eu procedo desta forma, mas nunca tive amargos dissabores com alunos por ser crua, directa, precisa nas críticas, incisiva nas necessidades que quero ver satisfeitas. Eles irritam-se, barafustam, protestam, argumentam, mas jamais nenhum me disse, a sério e em verdade, “A professora ofendeu-me. A professora não gosta mesmo nada de mim. A professora quer apenas humilhar-me”.
Quando trato com adultos de quem gosto, e embora sejam raras as vezes em que imponho as minhas vontades e necessidades usando como estratégia a do espelho, “Olha lá para ti… achas que estás a agir bem? Achas que te mereço isto ou aquilo?”, o resultado é quase sempre catastrófico. As pessoas zangam-se seriamente. As defesas são muito superiores ao senso comum, à ponderação e ao razoável. Parte-se logo do princípio que quem nos fala é um agressor, um adversário, alguém que não nos quer bem.
Até tremo, quando tenho que dizer a alguém de quem gosto muito “fizeste mal”, "foste injusto e incorrecto" ou, simplesmente, “não concordo contigo”. Gera-se um mau ambiente que pode ser definitivo e que, em última instância, acaba por me magoar a mim, por achar que, cada vez mais, devo entrar no status quo e só abrir a boca para dizer o que os outros querem ouvir. Ou calar-me, e deixar que as pessoas insistam em fazer de mim o que lhes apetece, vez após vez, sem reacção. Porque a verdade e que, quando crescemos, aprendemos muita coisa. Mas esquecemos a humildade.
Até tremo, quando tenho que dizer a alguém de quem gosto muito “fizeste mal”, "foste injusto e incorrecto" ou, simplesmente, “não concordo contigo”. Gera-se um mau ambiente que pode ser definitivo e que, em última instância, acaba por me magoar a mim, por achar que, cada vez mais, devo entrar no status quo e só abrir a boca para dizer o que os outros querem ouvir. Ou calar-me, e deixar que as pessoas insistam em fazer de mim o que lhes apetece, vez após vez, sem reacção. Porque a verdade e que, quando crescemos, aprendemos muita coisa. Mas esquecemos a humildade.
E agora vou ali já venho, buscar um espelho e ver se, quando é ao contrário, também estrago tudo o que de bom existe, por ouvir verdades dolorosas e achar que, por doerem tanto, foram ditas sem qualquer espécie de amor.
3 comentários:
Ainda hoje disse aos alunos "talvez tenha uma má notícia para dar"
aluno:" vai-se embora?"
Eu: não, talvez vamos ter mais 12 aulas.
Aluno: ha é isso não faz mal mais 12 aulas passam no instante.
O problema é que, sim, vou embora no final, e tento não me lembrar disso, mas claro existe o "nó na garganta, dor no estômago, lágrimas a aflorar aos olhos, tudo sensações que começam a ser frequentes e banais, como tudo o resto"
O que me ri! O quanto me li e ouvi! Num quando do ano passado em que os meus me perguntavam isso...
- A professora para o ano fica connosco? Fica cá na escola pelo menos?!
Nó na garganta, dor no estômago, e o Tico só não se atira do Cérebro abaixo porque o Teco o agarra.
Tico, soluçando: Se vocês soubessem como é esta vida meus amores, se vocês soubessem que nem sei o código postal onde estarei... Se vocês soubessem...
Teco, agarrando o tico, com toda a a força e carinho do mundo, interrompe sorrindo: Nunca se sabe o dia de amanhã. Se pudesse escolher gostaria de ficar, sim.
Eu, após uma pausa para silêncio onde deixo nascer um sorriso: Eh pá! Mas será possível que vocês me tenham em tão baixa conta que achem que mereço levar com tanto cromo por m2 como aqui? como a vossa turma? Não meus amores, "sou alta, linda e muito boa" e certamente para o ano estarei numa escola junto à praia com alunos dignos desse nome! ;)
E sempre que quiser ser feliz me lembrarei deste ano e pensarei: UFA! que já terminou!
Eles, rindo, fazendo beicinho, amuando: Pois Stora, é possivel mas é verdade é que gosta mais de nós que de chocolate.
Tico, tenta soltar-se do teco e atirar-se à força toda. Não consegue, soluça de novo e solta um: Ai!
Teco, engole em seco e abraça o tico, suspira e solta sussurando: Ai não... que me vou desfazer aqui.
Eu: ehehhehehe, talvez, talvez. Mas isso não significa que seja masoquista. Apenas que existem chocolates muito maus e foleiros :D
Mzinha... se há alguém que entende as entrelinhas, és tu! Está quase a acabar, o que é como a comida do chinês: Agri-doce.
Há chocolates foleiros, de facto há, tal como haverá sempre sempre (enquanto nós andarmos por cá) mulheres altas, lindas e muito boas!
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