domingo, 10 de maio de 2009

Pseudónimo

E confundi então o tempo, porque o acaso se cruzou comigo pouco depois do relógio dos homens marcar a meia-noite. E a noite a começar virou manhã, e passei horas a fio imersa em poemas e citações e fotografias e palavras e imagens. E disse, milhares de vezes, é só mais este, deixa cá ver só mais isto.
Li a minha vida toda em palavras alheias. Li a tua vida toda também nessas palavras. E o que dói é isso, essa falta de significado a que se dá um sentido que é só nosso, e que julgamos ser único. Enquanto divagava por palavras alheias, e fazia corresponder datas a poemas escolhidos, e vinha aqui ao blogue para confirmar o que me acontecera na mesma data, e verificava que as palavras alheias surgiam como se tivessem sido escritas por alguém sentado no meu ombro, ou, pior, deitado no sofá da minha alma, enquanto isso acontecia, pensava que estava a perder o pé no mar de mim própria.
Passei a noite a ler poemas que pareciam ter sido escolhidos a dedo para mim. E esse sentido que eu lhes dava, que me fazia tremer, que mexia profundamente com o meu maior cepticismo, a certa altura da madrugada, começou a tornar-se muito pesado. Os meus ombros começaram a vergar.
Confundi o tempo. Vivi os dois últimos anos da minha vida pela segunda vez, esta noite, por palavras alheias de poetas consagrados. Vivi todas as emoções, as minhas e as do meu amor perdido, passo a passo, dia a dia. Entrei numa twilight zone, tive uma noite digna de um livro do Stephen King, ou do retrato de Dorian Grey. Cada texto fazia sentido com as minhas vivências, com as minhas emoções. E depois de atribuir a alguns dos blogues autorias, do género, isto só pode ser escrito por fulano ou fulana de tal, isto, nesta data, só pode ter sido postado por alguém que me conhece bem, que sabe que passei por esta ou aquela conversa neste preciso dia. E eriçavam-se-me os cabelos na nuca.
Até que dormi sobre o assunto, confundindo o tempo. Deitei-me quando o meu prédio já tinha todos os sons próprios da manhã, os duches, os passos. Dormi enquanto toda a gente vivia o seu Sábado. Slept my Day Away.
E quando acordei, acordei para a realidade céptica do costume, para conversas com amigos que me abrem sempre os olhos e me mostram que há coincidências que não passam disso, e a vida é outra coisa. E que os poemas que li, horas a fio noite adentro, madrugada afora, cabem em mim porque, de facto, cabem em muita gente, falam com muita gente, tocam muita gente. Por isso são bons poetas, por isso são bons textos. Por isso confundi o tempo durante um fim-de-semana, mas no meio da confusão e da repetição, dos acasos e das coincidências, mal posso esperar, acreditem, e acreditem que este desejo em mim é uma novidade, mal posso esperar pelo dia de amanhã, para esquecer tudo. Tudo o que me cansa, e me obceca, e me algema, e me oprime. Esquecer tudo o que acho que me acontece só a mim e viver o que, de facto, toda a gente vive e eu me recuso a fazê-lo. Estou deserta de acordar cedo, de pôr roupa a lavar, de limpar a casa ao som de um CD aos berros, de falar ao telefone com os meus amigos, de voltar a olhar para o telemóvel sem asco por ele não tocar como eu quero, de ver testes a comer gomas, de cozinhar.
Depois de confundir o tempo, estou deserta de começar a vivê-lo.

2 comentários:

Shadow disse...

Hoje li e comentei vários posts teus. E fi-lo tentando sempre fugir a comentar este.
Durante anos escrevi, nos cadernos, no moleskine, na tela, no blog. Escrevi sobre coisas boas, coisas menos boas e coisas (que achava) más. Há textos de que me orgulho e outros de que, em tempos, me envergonhei. Há os bem escritos e os assustadoramente-mal-escritos. Existem ainda aqueles que nada mais eram que, parvos. Por todas estas razões tantas vezes preferi deixar palavras de alguém e não a confusão das minhas ou a falta delas.
Há muitas coisas que não sei como se dizem, muito menos como se escrevem. E por vezes encontramos pessoas que o fazem com a calma, simplicidade, beleza e (aparente) facilidade digna de ser comparada a uma final dos Jogos Olímpicos de ginástica artística. Citações de personagens de filmes ou livros onde me espelhei ou que me espelharam. Linhas, prosa ou versos de alguém que um dia disseram ou escreveram o que naquele momento viria a sentir.
Fiquei boa em deixar palavras (certas) de outros para mim, para outros. E quem sabe, foi até por isso que um dia feliz ou infeliz me escrevi em Doutoramento e sentenciei a passar de novo os próximos anos a ler o que dizem todos e a escrever sempre segundo alguém, deixando apenas uma ou duas linhas para mim. E de ou sem propósito vou terminar este comentário deixando apenas duas palavras. São essas duas palavras o meu verdadeiro comentário, não são minhas não senhora (o quanto eu ganharia em corpright!) mas são as que espelham, resumem e traduzem tudo aquilo que depois de te “ouvir” aqui quis dizer:
Hakuna Matata!

Jade disse...

Depois de quase quarenta e oito horas do reino do incrível, Shadow, aprendi que as palavras dos outros, ainda assim, só nos tocam se a gente deixar.
Hakuna Matata!