domingo, 3 de maio de 2009

Crave, Sarah Kane



"E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não merece menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo até às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti."

Sarah Kane



Há um dia em que chego a casa cheia de coisas por e para dizer, e em que não posso fazê-lo, para variar. Não posso, não porque tenha o tal medo das reacções dos leitores, mas porque fazem parte daquele território nebuloso e denso da minha vida a que chamo pomposamente "privacy". Porque todas as palavras que se atam em nó cego na garganta são para um par de orelhas exclusivo e ausente, porque as calo quando me apetece gritá-las, e ainda assim as substituo pelo silêncio triste de quem sabe que não vale sequer a pena proferi-las. Em vez disso, então, opto por escrever o post anterior, a falar do modo como um blogue pode ser opressor, quando nele a frecha que abrimos da nossa alma começa a ser motivo de cobrança, começa a ser usada em função de expectativas que justificam críticas e censura de lapinhos azuis.
E sai-me, de repente, a sorte grande, pela voz desconhecida de alguém que me liga já de madrugada. Alguém com quem trocara sms, mails, comentários, mas com quem nunca falara antes. Alguém que me liga e diz, depois de "ai, a tua voz é estranha, não estava nada à espera de uma voz assim...", "tens os próximos instantes para provares que és uma ordinarona a sério: diz lá dez palavrões dos piores que conheces. " E eu não consegui. "És uma convencida. Um bluff."
E como é certo e sabido que eu tenho tendência para o abismo, claro que fui completamente conquistada por este ser que só me insulta e me goza, mas também me deixa pérolas como a anterior, um monólogo enviado para o meu e-mail.
Sarah Kane foi uma dramaturga que se suicidou depois de ter escrito quatro peças, pelo que me disse um sagitário banana, arraçado de virgem pura.
Deixei-vos aqui as palavras que Sarah põe na boca de uma das suas personagens masculinas, mas que eu duvido que algum homem, alguma vez na vida, sequer pensasse, quanto mais proferi-las ou escrevê-las. São palavras, algumas, que já me ocorreram, ipsis verbis, em sonhos que gostaria de ver realizados por uma voz muito particular. Quase consigo ouvi-las ditas no seu timbre. Mas a certa altura, o suspension of disbelief quebra-se. Porque há sentimentos que, por muito que sejam ficcionados sob uma voz masculina, serão eternamente femininos. Isto é o que eu gostaria de ouvir, as palavras que nunca me dirás. Mas consolo-me sabendo que foi uma mulher que as escreveu. Seria muito duro saber da existência de um homem capaz de escrever assim à sua amada. Seria dilacerante saber dessa existência, ter que a aceitar, ter que aceitar aquilo em que já não acredito. É um consolo, acreditem, este cepticismo em relação a homens e a palavras. Vejam o que uma mulher é capaz de fazer com elas. E depois não me venham dizer -a mim- que sei escrever muito bem. Isto, sim, é força e genialidade. (E declamado com pronúncia do norte... nem queiram saber, só ouvido)
Com o verde escuro tentei evidenciar as partes que me tocaram mais fundo, pela naturalidade de um quotidiano que nunca tive ou se perdeu em memórias a que me dispenso de regressar, e também algumas frases que me soaram a déja-vue, ou déja-entendue, neste caso, não porque mas tenham dito baixinho ao ouvido, como eu queria, ou escrito numa carta de amor, como eu também teria gostado, mas porque eu própria as inventei também, como a Sarah Kane, na boca da minha personagem masculina favorita. Que é baseada em factos e pessoas reais, mas que não deixa de ser menos inventada por mim, por causa disso.

6 comentários:

Anaísa disse...

Bem...
Fiquei deliciada com as palavras que uma voz masculina, inventada por uma mente feminina, proferiu...
Só nós sabemos o que realmente mais gostamos de ouvir, mas vezes há em que não estamos à espera de ouvir nada em particular e nos dizem pérolas como "...derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris..." ou o comum mas sincero "gosto de ti" ou "és tão especial" e parece que se não nos tivessem dito estas palavras naquele exacto momento que o mundo teria girado de tal meneira que as tuas entranhas estariam do lado de fora...
Só pra dizer que apesar de não podermos culpar o genero masculino por falta de sensibilidade, podemos acusa-lo de falta de sentido de oportunidade... ;)
Nada contra, claro...

Bjinho JADE ;)

Jade disse...

Isa, my precious, estou numa fase em que me é permitido acusar o género masculino de tudo o que me apeteça... Loooollll. Estou a instantes de me tornar daquelas gajas insuportáveis, secas e amargas, que só diz mal dos homens lamentando profundamente o facto de saber que a probabilidade de se apaixonar por uma mulher é nenhuma...
Pois é, Sarah Kane disse tudo. E sabes quem me leu isto ao telefone com pronúncia do norte??? Um filme. Arrepiante.

Anaísa disse...

LOOOOOOOOOOL

Nem todas as pronúncias do norte são como a minha...

hehehe

bjis

Shadow disse...

desde já se avisa que este comentário vai ser longo.

A propósito de Sarah Kane:

A - " há coisas pior que ser gordo e ter 50 anos...
Estar morto e ter 30"
(...)
A - " Derreter-me quando sorris, desintegrar-me quando te ris"
(...)
A - " De alguma maneira, de alguma maneira, de alguma maneira, transmitir algum do esmagador, mortal, irresistivel, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, continuo, infindavel amor que tenho por ti"
(...)
A - "muito antes de ter a oportunidade de te adorar, adorei todos os bocados de ti que consegui ver"
(...)
B – Se tu morresses seria como se removessem os meus ossos. Ninguém saberia porquê, mas eu desfazia-me.
(...)
B – Du bist die Liebe meines Lebens.
(...)
B – Eu tenho um mau mau pressentimento sobre este mau mau pressentimento.
(...)
A – Eu estou tão sozinho, tão fodidamente sozinho.
C – Eu não.
A – Eu ainda não.
(...)

and on... and on... tenho d voltar a ler o Teatro completo de Sarah Kane. Mas a propósito da escrita feminina é preciso não esquecer que as mais belas cartas de amor foram escritas por homens.

E no proposito de homens e sua escrita aqui fica:

corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
porque amo
ouvir-te perguntar quem fala ?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer

al berto

Pi disse...

Muito bom, este texto.Mesmo!
Emocionante.
Desconhecia...

Bj,

Alexandra disse...

Este texto é lindo, brilhante e acho que, a certa altura da vida, aquelas palavras passam pela cabeça de toda e qualquer mulher.
Eu só tenho 18 anos e já passaram pela minha. E não há muito tempo.

Beijinho grande*

P.S. E sim, tu escreves bem! :)