segunda-feira, 27 de abril de 2009

Y.

Hoje, entre os famigerados mini-testes que me ocupam agora o tempo e me dão cabo da paciência, me entristecem sobremaneira ou me fazem virar bicho (quando vários alunos de nono ano traduzem médico por "medic" e eu nem posso culpar a professora do ano transacto, já que os acompanho desde o sétimo ano, só que, suponho, devo dar as aulas em chinês ou russo, e só me apetece escrever-lhes nos testes "Medic? Merdic, meu amigo, merdic..."), já sem ponta de pachorra ou réstia de sentido de humor, de repente, e instigada por uma conversa casual com um colega, em que comentávamos o que ainda nos surpreende nas pessoas, chegando à triste conclusão de que, infelizmente, já pouco do que é hipocrisia, arrogância ou bluff nos surpreende, veio-me à mente um velho conhecido meu. Chamemos-lhe Y.
Ocorreu-me Y. por ser uma pessoa que, em tempos, me surpreendia. Achava graça à sua imprevisibilidade, à sua originalidade, aos seus pontos de vista. Achava-lhes graça, sem muitas vezes os partilhar, mas tinha algum respeito pelas suas opiniões e filosofias, inseridas na convencionalidade das coisas por educação, mas constantemente a fugir-lhes por instinto. Um inadaptado a tentar fazer parte, um outsider almejando a normalidade. Colavam-se-me, assim, as suas necessidades, a sua obsessão pelo "belonging", sem nunca o conseguir, o modo como lutava contra o seu eu rebelde tentando, disciplinadamente, enquadrar-se nas convenções e no politicamente correcto. Agradava-me a sua luta interior: por um lado, a busca da segurança no socialmente aceitável, por outro, a sua propensão para a liberdade, a imaginação, o onírico, o impossível. Tínhamos visões diferentes da vida, divagávamos num emaranhado de teorias, mas, no fundo, a nossa verdadeira utopia era a normalidade, o desejo de a atingir e, assim, de conquistar um lugar numa sociedade em que sempre nos sentíramos aliens.
Isto, como já disse, em tempos idos. Porque Y. evoluíu e deixou-me para trás. Vive agora a sua utopia e, na realização das suas necessidades, na prossecussão dos seus objectivos, no enquadramento que gizou e seguiu, algo se perdeu de irrecuperável.
Y. lembra-me, agora, um país estrangeiro que se visitou na primeira infância e ao qual se regressa já no estado adulto. Reconhecem-se imagens, um ou outro cheiro, identifica-se algo de vagamente familiar, mas, de um modo geral, e à parte a sensação global do que ficou, à parte um certo preconceito ou juízo de valor, uma vaga noção de agrado ou desagrado, tudo é desconhecido, tudo parece novidade.
Y. lembra-me agora aquele primo com quem brincámos quando éramos ambos miúdos e que entretanto emigrou para um país longínquo. Telefona-nos sempre nos anos e no Natal e a voz é a mesma, o timbre conhecido, mas se passarmos por ele na rua já não o conhecemos.
Y. lembra-me, agora, uma cidade muito antiga, caótica e típica, depois de um projecto de requalificação de um qualquer arquitecto obcecado pela modernidade, que lhe muda a essência, a transforma no último grito da moda, a prepara para a eficácia, e na qual caminhamos agora pasmados com a sua grandiosidade, mas nostálgicos do que a diferenciava. Uma cidade em que não nos atrevemos sequer a pegar num carro, desorientados com as novidades do trânsito, a sequência de sentidos proibidos onde anteriormente se circulava livremente, a imensidão de semáforos e sinais de obrigação, o convite à contramão e ao acidente.
Talvez por estar agora tão dentro das suas sonhadas convenções e tradições, Y. tenha perdido a capacidade de sonhar. Quando o encontro, de quando em vez, noto-o tranquilo e bem-disposto. Adaptado, organizado, outra peça da engrenagem do status quo. Não o lamento, mas a verdade é que também não me consigo regozijar sinceramente com a mudança. Talvez seja por não lhe encontrar no olhar curiosidade. Por não lhe encontrar no olhar fluência, riso, esperança. Por lhe adivinhar um pouco de sombra, um quê de escuridão. Quando lhe perscruto o olhar, vem-me ao espírito a imagem de uma janela a dar para um muro branco.
Y. já não sonha, agora vive a sua utopia. E, por mais que eu inveje a sua tranquilidade, reconsidero as minhas próprias opções. Não quero que os meus olhos percam a sua centelha de luz, a sua sombra de tristeza ou a vivacidade do sorriso sincero que fazem quando encontro um amigo. Não quero fazer dos meus olhos uma janela que dá para lugar nenhum. Se é para isso, prefiro não me acomodar, não pertencer, não ficar, não me encontrar. Prefiro deambular perdida no âmago das emoções e enfrentar, de cabeça erguida, o olhar exterior de estranheza com que sou brindada tantas vezes. Não é que seja confortável, mas há um quê de consolo na genuinidade. Aliado a um quê de mágoa pelos nossos companheiros outsiders serem cada vez menos, e conseguirem aquilo que nós continuamos sem alcançar.

6 comentários:

Jade disse...

Uma querida amiga mandou-me um comentário por sms a este texto. Eu lamentava o facto de não haver comentários ao mesmo e ela dizia: todos os Y desta vida se vão envergonhar e esperar pelo próximo post. Minha linda, todos nós temos um pouco de Y. Um desencanto, um baixar de braços, um "quem não os pode vencer, junta-se a eles". O baixar de braços de Y. apenas me toca mais fundo, só isso, por acreditar que lhe estava reservado um destino MAIOR, de que prescindiu conscientemente, a bem da normalidade. E isso, sim, eu jamais faria.

Mzinha disse...

o baixar os braços é o contrário do Y

Carolina do Mónaco disse...

Jade (via sms):" Não queres comentar o meu novo post? É tão lindo e ninguém diz pevide..."
Carolina responde: "Estou a ler agora"
Já li e é lindo, de facto. Revela maturidade e profundidade de sentimento. Atingiste o Y da questão!

Jade disse...

Mzinha, essa foi brilhante. O Y, realmente, é a letra que simboliza uma pessoa de braços erguidos ao céu. Escolhi essa letra porque foi assim que assinou um comentário a um texto antigo meu, comentário esse que pediu para eu não publicar. Mas, de facto, a letra é o contrário da pessoa que escolheu ser.
Carolina, thanks. Tu que sabes e conheces tão bem como eu a pessoa e o seu caminho, fizeste oum comentário que muito me sossegou.
Beijos às duas.

Alexandra disse...

(Aviso: o comentário nada tem a ver com o conteúdo do post.)

Venho só aqui rejubilar (e muito) pelo facto de ter voltado a ter comentários/notícias tuas. Tinha saudades, confesso, porque foste a minha primeira comentadora à séria e és alguém que valorizo imenso. Obrigada. Mesmo. You put a smile on my face. :)
E depois da lavagem, vulgo choradeira, que foi para mim escrever o meu último post, olha que isso era díficil. Por isso, mais uma vez, muito obrigada.

Beijinho enorme****

P.S. Não comento o post em si porque ia dar asneira. É melhor prevenir do que remediar.

Shadow disse...

bem parece que afinal sempre comentei este post ;)