sexta-feira, 17 de abril de 2009

Par ou Ímpar

“Estás aqui para ser feliz” é o outdoor que faz parte da nova campanha da Coca-Cola. O anúncio da televisão é igualmente poderoso, um monólogo de um velhote de cem anos a um recém-nascido. Para mim, a frase-chave de todo o discurso é : “Não percas tempo com disparates, que ele passa muito depressa”.
Desde sempre, ou desde que me lembro, a Coca-Cola é das empresas que mais se preocupa com a qualidade da sua publicidade. Faz anúncios marcantes, mexe com o inconsciente e os desejos das pessoas, sai do comum, inova. Durante muito, muito, tempo, fui adolescente. Durante muito mais tempo que a idade física. Às vezes ainda sou, mas só no que toca à revolta, aos complexos e aos medos. Durante muito tempo fui também adolescente no que essa fase teve de melhor, nas convicções, nos valores, nas paixões. Tudo isso se desvaneceu com a idade, essa capacidade de andar sempre no fio na navalha, no branco impoluto ou no negro absoluto, tudo ganhou uma dimensão infinita de cinzentos, a tolerância foi nascendo em relação a opiniões diferentes, a comportamentos desviantes, a tudo o que é estrangeiro ao meu mundo.
Também desenvolvi, como toda a gente, acho eu, desenvolve até morrer, o espírito crítico. A capacidade de aceitação é directamente proporcional ao reconhecimento do que nos distancia dos outros e, embora os compreendamos melhor, distinguimo-nos mais, julgo eu. Já sou incapaz de ler um livro de um autor consagrado sentindo-me obrigada a admirá-lo, ou envergonhada por não o entender ou apreciar. Não consigo aceitar o que me dizem as pessoas que me são superiores seja no que for (cultura, status, posição hierárquica) apenas por serem quem são. Gosto muito de me sentir acompanhada, de ter cumplicidades, de partilhar interesses e opiniões, mas não faço questão nenhuma, como fazia quando era adolescente, de pertencer a grupos, associações ou rebanhos que ditem as ideias que acham melhores para mim.
E também já não me deslumbro com a publicidade. Mesmo com a que é bem feita, mesmo com a que é poderosa. Por isso, quando me chamaram há uns dias a atenção para o outdoor da Coca-Cola, muito contrafeita e envergonhada, porque ando sensível, cansada e cheia de problemas e chatices, as lágrimas vieram-me aos olhos instantaneamente. “Estás aqui para ser feliz”. Na altura, nem raciocinei, as cinco palavras apenas me atingiram a alma sem passar pelo cérebro. Apenas me agrediram a carne, as entranhas, tudo o que em mim é sangue, é calor, é meiguice, é doçura. Tudo o que em mim é passível de dor.
Porque, por mais que alguns leitores bocejem e se irritem com o facto deste blogue ser deprimente e depressivo, por mais que alguns leitores digam que faço dele um muro de lamentações ou um espaço de vitimização, a puxar à lágrima e à pena, a verdade é que só sabe do que vai no convento quem lá está dentro. E eu acredito, acredito mesmo, que a felicidade, que tanta gente apregoa começar em nós, depende muito mais dos outros que de cada um individualmente.
Sim, é uma questão de olhar para a vida com os olhos da esperança. Sim, é uma questão de se ser positivo, optimista, empreendedor, corajoso. Sim, é uma questão de saber viver. Só que às vezes, saber viver é viver de uma forma com a qual eu não concordo. Às vezes, ser optimista e corajoso está para além das minhas forças. E ser generoso, sentirmo-nos recompensados e felizes com o que damos sem nada receber em troca, não chega. Porque não receber, para mim, é um lucro, o problema está em receber o que não se quer ou se merece.
Não sei se aqui estamos para ser felizes. Continuo a acreditar que aqui andamos para fazer os outros felizes, para os fazer sorrir, rir, sentir, no meio do rat race que é a vida de toda a gente. Acho que anda toda a gente obcecada em ser feliz, e que isso não ajuda ninguém. Se houvesse mais Amélies Poulain, tudo seria mais fácil. O problema, acho eu, ao contrário do que dizia um anónimo a um post de há uns dias atrás, é andarmos desencontrados. As pessoas não recebem na medida do que dão. E isso estraga a engrenagem. Porque as Amélies desta vida (das quais eu fiz parte e ainda faço, mas já muito esporadicamente) acabam por se cansar de não encontrar pela frente pares das suas atitudes e convicções. As Amélies, ímpares que são na forma de agir, acabam por se cansar de ficar, literalmente, ímpares. Não há nada mais solitário que um número ímpar. Aquando da divisão pela metade, sendo a nossa metade aquilo que nos acompanha e nos aquece, nos consola e nos encoraja, sobra sempre um resto. E restos não são uma alimentação saudável. Nem têm piada de espécie nenhuma.

9 comentários:

Mzinha disse...

Quando ouvi o anúncio anuncio pela 1º vez não liguei muito, mas o final fez um clik e quando vi o anúncio com atenção senti um arrepio, e fez-me pensar na vida, como o tempo passa.

PS: e quando o vi pensei em enviar-te uma mensagem.

xau, beijinhos

Sílvia disse...

Tenho que concordar contigo...

Vamos por partes

A primeira vez que vi o anúncio ainda foi na versão em espanhol e já nessa altura me ficou na cabeça. Quando o vi finalmente em português vi-o com mais atenção e foi-me impossível ficar indiferente. Passei o dia a pensar no dito anúncio e nas frases que me ficaram na cabeça: "Não ligues aos disparates, que há muitos"; "a vida é demasiado curta"; e "estás aqui para ser feliz".

Segundo: "a vida é demasiado curta". Sim é verdade, concordo que assim seja. Ainda tenho uma curta vida e sinto que vivi assim a sério muito pouco tempo. Preciso de aprender a aproveitar mais, a não me preocupar em excesso.

Terceiro: "estás aqui para ser feliz". Sim tudo bem e afinal o que é a felicidade? É assim um conceito um bocado abstracto. Eu não posso, nem consigo viver feliz sozinha, penso que ninguém consegue. Por isso e como tu dizes acho que estamos aqui sim, mas muito mais para fazer os outros felizes. Porque, pelo menos para mim, se os outros, neste caso quem me rodeia estiverem felizes é uma garantia de que eu vou estar feliz. Mas lá está preciso que eles estejam do meu lado. Preciso de sentir que me acompanham. Por isso eu, de certeza que sou muito mais feliz a fazer os outros felizes, mesmo que isso implique abdicar de alguma coisa ou alguém...

Desculpa o comentário demasiado longo.

beijinho***

cantinhodacasa disse...

Jade, por vezes senti que os seus post me cansavam. Por vezes senti que a Jade se tornava obsessiva naquilo que escrevia.E muito mais disse mas não é necessário (re)lembrar.
A primeira vez que vi o anúncio, foi num vídeo que recebi por e-mail.
Chorei quando o vi. Pela ternura da velhice, pela ternura de um novo ser que veio ao mundo.
Mas o meu comentário vai para o que escreveu sobre si.
Estou extremamente de acordo com o que sente e diz.
A Jade sabe que eu estou nos 50s, sou uma mulher livre, e apesar de ter tido as minhas paixões, abdiquei de alguns homens, por causa de um. Mas já vai há muito tempo. No entanto, isso fez-me temer a convivência com outros, a preservar-me.
Dei muito do meu carinho e atenção à família para colmatar as necessidades de amor que tive.
A família seguiu o reu rumo. Eu fiquei.
Habituei-me a viver sozinha.
Gosto da vida que tenho. Não me sinto infeliz. Mas é verdade que quem está ímpar, cansa-se de o ficar.
E é nos momentos de fraqueza, de cansaço, de sofrimento pelos outros, que mais desejo a outra metade, que me complete.
A vida é feita para dois.
Hoje a Jade tocou-me.
Hoje senti-me uma Jade.
Beijinho.

teia d'aranha disse...

Jade, cada vez que venho à cata de um novo post... até venho com "medo". Porquê? Porque sei que vou ler algo que me vai dar um "murro no estômago". Este post não foi excepção. E se não me alongo mais é por não saber se "alguém" o vem ler (you know...).

Eu faço tudo, mas mesmo tudo pelos outros. Não olho a horas, a dinheiro gasto em telefonemas ou em combustível para estar junto de quem gosto, para estender a minha mão ou dar um abraço bem forte que anime... Mas dar tudo...sempre e não receber nada ou receber muito pouco, não! Essa história de "Ah, mas não devemos fazer as coisas à espera de retorno..." não é para mim. Não sou a Madre Teresa de Calcutá! Gosto de sentir que os outros têm por mim o mesmo afecto que tenho por eles, que estejam presentes quando também preciso. Digo não às amizades e ao amor descartáveis!

Beijo de mais uma Amélie...

teia d'aranha disse...

Desculpa, mas não pude deixar de voltar porque depois de escrever o comentário pus-me a ouvir uma música e pensei "caramba, a nossa mente tem cada uma! não escolhi a música, foi ao acaso e saíu-me logo esta!"

Não sei se aprecias Ben Harper, mas deixo-te parte da letra e o link do vídeo.


I could have treated you better
But you couldn't have treated me worse
But he who laughs last
is he who cries first

Sometimes I feel I know strangers
better than I know my friends
Why must a beginning
be the means to an end?

The stones from my enemies
these wounds will mend
But I cannot survive
the roses from my friends


http://www.youtube.com/watch?v=dWXgx0GVUSE&feature=related

Beijo

Carolina do Mónaco disse...

Querida Amélie, quando decidires ir a casa do merceeiro mau (destino) trocar-lhe as lâmpadas e os sapatos de mascarilha preta e franja a condizer, conta comigo. Beijinhos

Shadow disse...

tb eu me lembrei de uma musica ao ler.te. Sem fugir ao mea culpa do meu estado de espirito.

Um beijo

http://www.youtube.com/watch?v=r5DHquP1HWU

One is the loneliest number that you'll ever do
Two can be as bad as one
It's the loneliest number since the number one

No is the saddest experience you'll ever know
Yes, it's the saddest experience you'll ever know
`Cause one is the loneliest number that you'll ever do
One is the loneliest number, worse than two

cantinhodacasa disse...

Olá, Jade.
Desculpe intrometer-me mas queria dar um elogio à Teia de aranha.
Gosto do Ben Harper. Não fixo as letras das canções dele mas escuto-as e apanho algumas palavras.
Pena não saber trauteá-las, pois se soubesse de certeza que fixaria as canções.
Mas esta letra é fantástcia e diz muito daquilo que penso sobre os amigos.
Felizmente tenho tido alguns retornos, mas daquelas que menos esperava.
Não sou das pessoas que espera que agradeçam tudo o que faço por elas. Mas há momentos, aqueles que são preciosos, aqueles que por toque, uma palavra, um beijo, são necessários. Mas elas não estão. Ausentam-se. Não lhes interessa.
Por isso concordo que aqueles que nos são desconhecidos são os que melhor conhecemos.
Obrigada Teia por estas palavras do Ben Harper.

Beijinho para todas

Anaísa disse...

Ando a fazer um flah-back aos teus post e a colmatar a meu desaparecimento...
Ao ler este teu post e inevitavelmente o comentários a ele, nao queria ser repetitiva, mas gostava que vissem uma velhinha mas sempre actualizada versão deste "estás aqui pra ser feliz" com um outro slogan...

Aqui fica o link:

http://www.youtube.com/watch?v=xfq_A8nXMsQ

"read the directions even if you don't follow them, do not read beauty magazzines, they will only make you feel ugly..."

;)

bjinho gigante