Sou especialista em dar murros em pontas de faca. Foram anos e anos de experiência, a apurar a actividade até ao limite da excelência… e da inutilidade. Tornei-me mais do que doutorada em murros e em facas. Tudo isto porque sou uma pessoa teimosa e pouco prática, obcecada com a justiça e com os outros, obsessiva nas convicções. A expressão “não vale a pena”, quando dirigida a pessoas ou a desafios, sempre me desgostou muitíssimo. Tenho uma enorme dificuldade em contrariar os meus instintos, e quando gosto ou não gosto realmente de alguma coisa ou de alguém, teimo nas minhas intuições até ao limite do absurdo. Não há impossíveis, não há decepções, não há provas em contrário que me consigam dissuadir. Só o tempo e a repetição me levam a isso, e é um processo lento, longo e muito doloroso. Detesto desistir do que quer que seja. Abomino, repugna-me, nauseia-me, desistir de pessoas de quem um dia gostei ou que admirei muito.
Sou especialista em dar murros em pontas de faca, e continuo a surpreender-me quando, subitamente, dou um que é o último. Nunca sei quando isso acontece. Acontece de repente, sem aviso. Ao centésimo décimo terceiro, ao milésimo segundo, ao quinto, depende. Dependerá de alguma coisa, só não sei exactamente de quê.
Um dia acordo, e digo basta. É apenas assim, como tudo o que é simples. Mudo de ideias. Por uma gota-de-água que transborda o copo, por uma decepção valente ou por nada de concreto. E isso assusta-me, o facto da minha tolerância não se reger por parâmetros fixos. Uma amiga minha dizia-me ontem ao almoço, de determinada pessoa “Tocou-me uma vez, irritou-me, decepcionou-me, chateou-me. A partir daí, por mais que tente, não me toca, não me irrita, não me decepciona nem me chateia mais. Garanto-te que é verdade” E eu invejei-a.
Ponderei a minha própria situação. Como vos disse a um de Abril, e não era mentira, levei uma valente bofetada nesse dia. Foi uma cena inusitada, absurda, inesperada, muitíssimo injusta, e a minha capacidade de reacção falhou redondamente. Mas, a verdade é que, tendo coincidido com um dia em que já deveria estar de férias e tendo-me ausentado depois disso quase duas semanas da escola, deu para assentar ideias, para esfriar o espírito, controlar emoções, pensar racionalmente, tirar conclusões e, depois de tudo isso, deixar o corpo falar. Em Lisboa, foram poucos os dias em que não falei sobre o assunto com a minha Carolina, a minha sábia, terra-a-terra, tolerante e iluminada amiga. Falámos do assunto até o vomitarmos, transpondo a situação concreta para todas as outras fases da vida em que me aconteceram coisas paralelas, pelo mesmíssimo motivo, a minha teimosia, a minha generosidade, algum sentido de missão impossível que veio não sei de onde e só me prejudica. Falámos de imensa gente, e da urgência que havia em mim de auto-preservação, de dignidade, de fazer ver aos outros que sou importante e que, por mais que os ajude com força e atitude de super-mulher, nada justifica que me tratem mal ou me ignorem esforço e trabalho, dedicação ou, simplesmente, como foi o caso, dêem como certa e garantida a minha ajuda voluntária, tomando-a como obrigatória, natural e isenta, por isso, de respeito. E eu só lhe dizia que era tudo muito lindo na teoria, mas que se ia estragar tudo na prática, quando fosse confrontada novamente com este meu feitiozinho da tanga de dar tudo de mim vezes sem conta só para não ter que admitir que há coisas e pessoas que não valem o esforço. Este feitiozinho de merda consubstanciado na expressão "Pôr-me a jeito".
Mas hoje, decorrida já mais de uma semana de regresso às lides, reparo que, afinal, estas três ou quatro últimas semanas não foram em vão. Que vou para a escola mais leve, que as minhas energias estão a ser canalizadas para objectivos concretos, que os meus pensamentos giram em torno de pessoas que me dão valor e acarinham, me apreciam e me procuram, me ouvem e me respondem, me tratam bem e me agradecem, me ajudam sem que eu peça e me vêem quando olham para mim. As minhas preocupações giram em torno de pessoas que as retribuem, e já não se detêm nas que não o fazem. Ultrapassei tristezas e ódios de estimação.
Hoje, quando cheguei a casa, olhei para a agenda e vi que cumpri todos os compromissos da lista. Que os que estão em falta vão ainda muito a tempo. Que tive ainda opoprtunidade de almoçar fora com amigos duas vezes e ainda hoje é quarta-feira. Que fui ao cinema e beber um copo depois disso. Que não falhei a missa das terças. Que cumpri o meu trabalho e ainda ajudei uma colega com o dela (Há coisas que não mudam, mas esta agradeceu-me). Que não foi por isso que não passei um dia inteiro a deitar conversa fora na sala de professores. Que me detive ainda, por largos períodos de tempo, no bar, a conversar e a brincar com os meus alunos. E que aceitei, finalmente, um convite para passar o próximo fim-de-semana no Algarve.
Onde fui eu arranjar, de repente, o tempo todo que me faltava para ter uma vida organizada? É simples, vejo isso agora: o tempo que passava a dar murros em pontas de faca consumia-me muita energia. Derreava-me. Fazia-me arrastar pela vida com um cansaço constante. Desorganizava-me as ideias. Arrumei as facas e pus ligaduras em ambas as mãos. A frase “não vale a pena” tornou-se, subitamente, das minhas melhores amigas. Dizem os velhotes, “o que não tem remédio, remediado está”. E o que é que não vale a pena? Não vale a pena chatearmo-nos com coisas que não podemos mudar, com pessoas que se estão nas tintas para nós, com prazos que não cumprimos, com qualidades que nunca teremos, com atitudes que jamais compreenderemos, com explicações que damos vezes sem conta, como se falássemos chinês. Não vale mesmo a pena. E o tempo de que dispomos multiplica-se, quando assumimos as nossas desistências e nos concentramos nas coisas que queremos levar para a frente. Podemos não ser mais felizes mas somos, certamente, muito menos infelizes. Sem comparação possível. Poupamos palavras, poupamos energias, poupamos preocupações, poupamos, sobretudo, tempo. E o tempo, meus amigos, é o bem mais precioso, porque nunca ninguém há-de saber quando ele, sem avisar, acaba.
Sou especialista em dar murros em pontas de faca, e continuo a surpreender-me quando, subitamente, dou um que é o último. Nunca sei quando isso acontece. Acontece de repente, sem aviso. Ao centésimo décimo terceiro, ao milésimo segundo, ao quinto, depende. Dependerá de alguma coisa, só não sei exactamente de quê.
Um dia acordo, e digo basta. É apenas assim, como tudo o que é simples. Mudo de ideias. Por uma gota-de-água que transborda o copo, por uma decepção valente ou por nada de concreto. E isso assusta-me, o facto da minha tolerância não se reger por parâmetros fixos. Uma amiga minha dizia-me ontem ao almoço, de determinada pessoa “Tocou-me uma vez, irritou-me, decepcionou-me, chateou-me. A partir daí, por mais que tente, não me toca, não me irrita, não me decepciona nem me chateia mais. Garanto-te que é verdade” E eu invejei-a.
Ponderei a minha própria situação. Como vos disse a um de Abril, e não era mentira, levei uma valente bofetada nesse dia. Foi uma cena inusitada, absurda, inesperada, muitíssimo injusta, e a minha capacidade de reacção falhou redondamente. Mas, a verdade é que, tendo coincidido com um dia em que já deveria estar de férias e tendo-me ausentado depois disso quase duas semanas da escola, deu para assentar ideias, para esfriar o espírito, controlar emoções, pensar racionalmente, tirar conclusões e, depois de tudo isso, deixar o corpo falar. Em Lisboa, foram poucos os dias em que não falei sobre o assunto com a minha Carolina, a minha sábia, terra-a-terra, tolerante e iluminada amiga. Falámos do assunto até o vomitarmos, transpondo a situação concreta para todas as outras fases da vida em que me aconteceram coisas paralelas, pelo mesmíssimo motivo, a minha teimosia, a minha generosidade, algum sentido de missão impossível que veio não sei de onde e só me prejudica. Falámos de imensa gente, e da urgência que havia em mim de auto-preservação, de dignidade, de fazer ver aos outros que sou importante e que, por mais que os ajude com força e atitude de super-mulher, nada justifica que me tratem mal ou me ignorem esforço e trabalho, dedicação ou, simplesmente, como foi o caso, dêem como certa e garantida a minha ajuda voluntária, tomando-a como obrigatória, natural e isenta, por isso, de respeito. E eu só lhe dizia que era tudo muito lindo na teoria, mas que se ia estragar tudo na prática, quando fosse confrontada novamente com este meu feitiozinho da tanga de dar tudo de mim vezes sem conta só para não ter que admitir que há coisas e pessoas que não valem o esforço. Este feitiozinho de merda consubstanciado na expressão "Pôr-me a jeito".
Mas hoje, decorrida já mais de uma semana de regresso às lides, reparo que, afinal, estas três ou quatro últimas semanas não foram em vão. Que vou para a escola mais leve, que as minhas energias estão a ser canalizadas para objectivos concretos, que os meus pensamentos giram em torno de pessoas que me dão valor e acarinham, me apreciam e me procuram, me ouvem e me respondem, me tratam bem e me agradecem, me ajudam sem que eu peça e me vêem quando olham para mim. As minhas preocupações giram em torno de pessoas que as retribuem, e já não se detêm nas que não o fazem. Ultrapassei tristezas e ódios de estimação.
Hoje, quando cheguei a casa, olhei para a agenda e vi que cumpri todos os compromissos da lista. Que os que estão em falta vão ainda muito a tempo. Que tive ainda opoprtunidade de almoçar fora com amigos duas vezes e ainda hoje é quarta-feira. Que fui ao cinema e beber um copo depois disso. Que não falhei a missa das terças. Que cumpri o meu trabalho e ainda ajudei uma colega com o dela (Há coisas que não mudam, mas esta agradeceu-me). Que não foi por isso que não passei um dia inteiro a deitar conversa fora na sala de professores. Que me detive ainda, por largos períodos de tempo, no bar, a conversar e a brincar com os meus alunos. E que aceitei, finalmente, um convite para passar o próximo fim-de-semana no Algarve.
Onde fui eu arranjar, de repente, o tempo todo que me faltava para ter uma vida organizada? É simples, vejo isso agora: o tempo que passava a dar murros em pontas de faca consumia-me muita energia. Derreava-me. Fazia-me arrastar pela vida com um cansaço constante. Desorganizava-me as ideias. Arrumei as facas e pus ligaduras em ambas as mãos. A frase “não vale a pena” tornou-se, subitamente, das minhas melhores amigas. Dizem os velhotes, “o que não tem remédio, remediado está”. E o que é que não vale a pena? Não vale a pena chatearmo-nos com coisas que não podemos mudar, com pessoas que se estão nas tintas para nós, com prazos que não cumprimos, com qualidades que nunca teremos, com atitudes que jamais compreenderemos, com explicações que damos vezes sem conta, como se falássemos chinês. Não vale mesmo a pena. E o tempo de que dispomos multiplica-se, quando assumimos as nossas desistências e nos concentramos nas coisas que queremos levar para a frente. Podemos não ser mais felizes mas somos, certamente, muito menos infelizes. Sem comparação possível. Poupamos palavras, poupamos energias, poupamos preocupações, poupamos, sobretudo, tempo. E o tempo, meus amigos, é o bem mais precioso, porque nunca ninguém há-de saber quando ele, sem avisar, acaba.
4 comentários:
Hoje também não há comentário. Fica só um humilde e doído aceno de cabeça a todas as linhas. todas.
beijo
Shadow, havemos de falar em breve, via mail. Podes ter a certeza disso, que eu agora organizo o meu tempo em torno de gente que vale a pena. E tu estás nesse grupo. Entre os mini-testes do demo, esteticistas, aulas de curso em dobro e cafezinhos com amigos, terei certamente tempo para te dar um alô. Espero que ainda antes do fim-de-semana, que esse é na desbunda e no Algarve, que eu mereço. Até já.
"Tocou-me uma vez, irritou-me, decepcionou-me, chateou-me. A partir daí, por mais que tente, não me toca, não me irrita, não me decepciona nem me chateia mais."
Estou a melhorar esta minha capacidade, mas ainda tenho um longo caminho a percorrer...
Anyway é bom ler-te assim mais bem-disposta, mais de bem com a vida. É bom sentirmo-nos assim :)
bjinho****
"E o tempo, meus amigos, é o bem mais precioso, porque nunca ninguém há-de saber quando ele, sem avisar, acaba."
Duas sementes estavam lado a lado, enterradas no solo de um terreno fértil.
Dizia a primeira:
Eu quero crescer! Quero estender as minhas raízes para me manter de pé, e elevar os meus rebentos, furando a negra terra até ver a luz do sol da Primavera. Quero depois elevar-me cada vez mais alto, desfraldando ao vento e fazendo brotar as flores, que dão fruto.
E assim essa semente, decidida a crescer, cresceu sempre mais e mais, e deu muito fruto para a alegria de toda a gente.
A segunda disse:
- Eu tenho medo de crescer. Para estender as minhas raízes e vencer a resistência do solo é preciso muito esforço. Depois tenho medo que venham animais comer os meus rebentos e me matem. E se chegar a ter flores, sempre virá uma criança a apanhá-las e sem flores fico feia. Não. É muito esforço. Prefiro ficar aqui debaixo da terra.
Uma galinha, que andava a esgravatar no solo à procura de comida, descobriu a semente que se recusou a crescer e, num instante, comeu-a.
Que o Tempo e o Sol ilumine o teu pensamento
Bjs de Luz e Paz,
Ricardo Santos <> Joana Mello
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