Ler. Escrever. Inventar. Reinventar. Olhar a realidade pelos olhos de uma ficção melhorada. Tudo isto faz parte da minha vida, na mesma intensidade e urgência com que respiro, me alimento, me aqueço. Se as necessidades humanas fossem vícios, que são, no fundo, seria uma viciada na Literatura quotidiana. Na forma como olho pessoas, lugares e situações e as transformo numa grande e alternativa peça de teatro.
Um dia, há já muito tempo, quando vi o ano estremeci, eu e o H. escrevemos uma short-story a duas mãos. H. é, sobre tudo o resto, um escritor. Um grande escritor. Domina um léxico impressionante, daqueles que me obrigava, em segredo, a recorrer ao dicionário. Escrevemos os dois a nossa história, ou melhor, o início dela, desde um passeio ao anfiteatro de Mérida, até ao seu primeiro final, o primeiro de muitos, que a nossa relação foi pródiga em desfechos dramáticos e reinícios mágicos. Estive a relê-la, emocionada. Lembro-me que me mandou a versão final em 2005, numa época em que não nos falávamos há meses, para o mail, onde fui dar com ela agora, num momento em que me encontrava em limpeza da caixa de correio. Lembro-me que, na altura, foi o pretexto para nova reaproximação.
A short-story está tão fantástica como impublicável, infelizmente. É surpreendente o modo como as nossas vozes são perfeitamente identificáveis e, ainda assim, os estilos se completam, interagem, comunicam, tocam. Está lindíssima. Tem pormenores eróticos, escritos por ele, que eu tenho muita dificuldade em arranjar palavras que expressem o que se passa na intimidade entre um homem e uma mulher que não me soem a reles ou debochado, pormenores esses, dizia, sublimes em beleza e exemplares na descrição que é tão difícil conseguir sem se cair na vulgaridade e no obsceno. Tenho muito a aprender.
Reler este conto trouxe-me nostalgia dos Natais Passados mas trouxe-me, sobretudo, uma certeza: há coisas difíceis de suplantar. No outro dia escrevia, numa carta, que era frequente adormecer com ele ao lado a escrever histórias ou a ler vorazmente livros. Também era frequente lermos coisas um ao outro em voz alta, textos dele, textos meus. Acontecia muitas vezes transformarmos as nossas conversas em palestras seguidas de debates infindáveis. Nem quando o tema era Paul Auster eu conseguia brilhar, já que H. é um poço profundo de Cultura Americana e Pós-Modernismo, e tem uma visão da história e da Literatura que eu jamais terei, nem com a idade dele, nem depois disso.
Isto para derrubar outro cliché: os opostos atraem-se. Onde? Não no meu Mundo. Ao ler as palavras de H., apercebi-me de que quero ao meu lado alguém que me compreenda e aceite como igual. Que escreva comigo em duo, não uma short-story, mas um romance Tolstoiano. Quero voltar a partilhar o meu espaço com um escritor de histórias reais, que me leia em voz alta. É difícil, dirão vocês. Uma repetição do passado, avisar-me-ão preocupados. So be it,de facto não sei. Uma coisa é certa, o oposto não me atrai. Pode ser que um dia venha a engolir esta teoria, mas antevejo um futuro companheiro escritor, artista, pensador, filósofo. Um futuro companheiro a viver em muitos mundos, todos paralelos, e a ser muitas personagens, todas protagonistas de um sonho esquizofrénico. É esse companheiro ou nenhum.
Um dia, há já muito tempo, quando vi o ano estremeci, eu e o H. escrevemos uma short-story a duas mãos. H. é, sobre tudo o resto, um escritor. Um grande escritor. Domina um léxico impressionante, daqueles que me obrigava, em segredo, a recorrer ao dicionário. Escrevemos os dois a nossa história, ou melhor, o início dela, desde um passeio ao anfiteatro de Mérida, até ao seu primeiro final, o primeiro de muitos, que a nossa relação foi pródiga em desfechos dramáticos e reinícios mágicos. Estive a relê-la, emocionada. Lembro-me que me mandou a versão final em 2005, numa época em que não nos falávamos há meses, para o mail, onde fui dar com ela agora, num momento em que me encontrava em limpeza da caixa de correio. Lembro-me que, na altura, foi o pretexto para nova reaproximação.
A short-story está tão fantástica como impublicável, infelizmente. É surpreendente o modo como as nossas vozes são perfeitamente identificáveis e, ainda assim, os estilos se completam, interagem, comunicam, tocam. Está lindíssima. Tem pormenores eróticos, escritos por ele, que eu tenho muita dificuldade em arranjar palavras que expressem o que se passa na intimidade entre um homem e uma mulher que não me soem a reles ou debochado, pormenores esses, dizia, sublimes em beleza e exemplares na descrição que é tão difícil conseguir sem se cair na vulgaridade e no obsceno. Tenho muito a aprender.
Reler este conto trouxe-me nostalgia dos Natais Passados mas trouxe-me, sobretudo, uma certeza: há coisas difíceis de suplantar. No outro dia escrevia, numa carta, que era frequente adormecer com ele ao lado a escrever histórias ou a ler vorazmente livros. Também era frequente lermos coisas um ao outro em voz alta, textos dele, textos meus. Acontecia muitas vezes transformarmos as nossas conversas em palestras seguidas de debates infindáveis. Nem quando o tema era Paul Auster eu conseguia brilhar, já que H. é um poço profundo de Cultura Americana e Pós-Modernismo, e tem uma visão da história e da Literatura que eu jamais terei, nem com a idade dele, nem depois disso.
Isto para derrubar outro cliché: os opostos atraem-se. Onde? Não no meu Mundo. Ao ler as palavras de H., apercebi-me de que quero ao meu lado alguém que me compreenda e aceite como igual. Que escreva comigo em duo, não uma short-story, mas um romance Tolstoiano. Quero voltar a partilhar o meu espaço com um escritor de histórias reais, que me leia em voz alta. É difícil, dirão vocês. Uma repetição do passado, avisar-me-ão preocupados. So be it,de facto não sei. Uma coisa é certa, o oposto não me atrai. Pode ser que um dia venha a engolir esta teoria, mas antevejo um futuro companheiro escritor, artista, pensador, filósofo. Um futuro companheiro a viver em muitos mundos, todos paralelos, e a ser muitas personagens, todas protagonistas de um sonho esquizofrénico. É esse companheiro ou nenhum.
6 comentários:
Gostava muito tirar os meus dados de póker do saquinho e fazer uma jogatana contigo (pode ser uma negra).
LoooL Quem escreve assim, faz no momento as actas do departamento e em simultaneo pensa nas alegrias do dia.
Jade, este teu post fez-me lembrar o filme "The reader", em que ele lê para ela livros em voz alta, livros que a cativam e a marcam para sempre... Livros que mudam a sua vida.
Viste o filme? Gostaste?
Bjns
Miro... tu queres mesmo ser enxovalhado ao póker, certo? Não se pode falar em H. sem vir à baila o póker, é verdade. Há momentos que guardarei sempre num lugar assim dentro, e o póker era pretexto para conversas infindáveis e copos noite adentro, madrugada afora... nunca mais joguei. Mas levas a tal malha, podes crer. Obrigada pelo elogio.
Cuidandodemim, ainda não vi o filme, mas está na lista. A personagem feminina não sabia ler, o que não é o caso, mas não sei porquê, talvez porque antes de eu saber ler o meu avô me lia As Aventuras dos Cinco, adoro que me leiam em voz alta. H. foi o único homem que o fez até hoje, por iniciativa própria, e quando o fazia eu perguntava-me intimamente se esse não seria o modo do meu avô, por outra voz, me dizer que estava presente.
Beijos
É mm assim que se fala bicho. Já só falta ver a sobrancelha levantada para ter a certeza que estás mesmo aí! Corta os fios de vez, abre a caixa, corre a cortina. So be it!
Concordo contigo. Não percebo porque é que os opostos se atraem. Comigo não é assim. Atraem-me pessoas que tenham afinidades comigo. Gostos em comum, formas de pensar parecidas... para podermos estar em sintonia.
A única vez que senti isso (E ainda sinto) achei-me tão perto da perfeição. Durou pouco tempo, um tempo demasiado curto para conseguir aumentar a minh confiança e auto-estima e, quem sabe, a felicidade, mas o pouco que durou, soube tão bem.
Beijo grande
"A única vez que senti isso (E ainda sinto) achei-me tão perto da perfeição. Durou pouco tempo, um tempo demasiado curto para conseguir aumentar a minh confiança e auto-estima e, quem sabe, a felicidade, mas o pouco que durou, soube tão bem."
Faço minhas as tuas palavras. Só que com mais de dez anos em cima. E, apesar de tudo, sem a certeza de que valeu a pena. Muitas vezes acho que o mal que fez não está^à altura do bem que soube
Enviar um comentário