sexta-feira, 6 de março de 2009

E esta foi...

... a minha pior semana na escola desde Setembro.
Limitei-me a cumprir o meu horário, não fiquei um minuto a mais na sala de professores do que o estritamente necessário, não fui mais cedo para a escola, não fiquei lá em horas de furo, não prolonguei a minha presença além do toque de saída da última aula.
Obriguei-me disciplinadamente a não o fazer. Cumpri.
E cada vez me sinto pior, essa é que é a verdade.
Passei a dar aulas num Não-Lugar, tal como definido por Marc Augé. Um Não-Lugar é um sítio sem identidade emocional, tipo terminal de aeroporto ou bolsa de valores. É um espaço isento de cor e de afectos. Uma escola não deveria ser apenas um local de trabalho. Uma escola deveria ser um espaço de cooperação, de envolvimento cultural, de partilha, de convivência de formações díspares. Uma escola deveria ser um espaço de comunicação, de abertura de horizontes, de debate de ideias, de transmissão de saberes. Ensina-se pelo exemplo, e os professores deveriam ser pessoas sensíveis e bem-intencionadas, responsáveis e generosas, atentas e cooperantes, optimistas e intervenientes, corajosas e carinhosas. Uma escola deveria ser a antítese de uma fábrica, o contraponto da produção em série, o oposto do cada um por si e Deus por todos. Uma escola deveria criar laços entre as pessoas, ser um espaço solidário e quente, em que os adultos dessem o exemplo aos jovens do que é a responsabilidade e o cumprimento de regras, sim, mas também a lealdade , o carinho, a gratidão, o arrependimento.
E eu entro naquela sala e vejo o "salve-se quem puder". E vejo tantos microcosmos quantas as pessoas presentes. Vejo pessoas incapazes de dar uma mão, de oferecer um ombro, de fazer uma festa, de olhar nos olhos, de identificar ou responder a um pedido de ajuda não-verbal.
A minha escola é um Não-Lugar e nunca senti isso de modo tão dilacerante como esta semana, em que estive frágil e doente, e triste e cansada, e não encontrei motivos de consolo nem razões para me deter, um minuto que fosse a mais, naquele ambiente. Se houve olhares amigos? Houve. De gente que lá se sente tão mal quanto eu, e que esperou pelo extra-laboral para desabafar comigo e me ouvir, em casa, à mesa de um café noite fora e com aulas no dia seguinte, pelo telefone, ou por mail na internet. Aquele edifício depurou-se de identidade e despiu-se de relações significativas. A escola está transformada no oposto do que proclama ser a sua utilidade. A escola é, apenas, um local de trabalho.
E ninguém lamenta mais isso que eu.

23 comentários:

Dr.House disse...

Foi, de facto uma das piores semanas deste ano lectivo. Entrava-se na sala e faltava luz, as pessoas parece que têm uma auréola de escuridão à volta. Penso que é nisto que as escolas se estão a transformar. Mas cabe-nos a nós não deixarmos que isso seja irreversível, fazermos um bocadinho para transformar essa situação.
Estás disposta a isso?

Jade disse...

Não sei, House. De momento faltam-me as forças. Vim algumas vezes com lágrimas nos olhos para casa, e com muita vontade de continuar a conduzir até Lisboa e nunca mais voltar, ou espetar o carro ribanceira abaixo. O que me vale são as pessoas como tu, que ainda vão dizendo coisas importantes, dando sinais de humanidade e sendo solidários com esta treta toda. Mas já reparaste que mesmo nós já pouco falamos a não ser quando viramos costas àquele lugar?
Não sei, House. Não sei se me apetece.
Beijos

Ricardo Santos disse...

Jade, assim não, a tua resposta ao comentário do DrHouse, por mais que nos custe o dia-a-dia, há sempre pessoas muito dependentes de nós, algumas estão próximo e pensamos que lhes somos indiferentes, mas não! e felizmente que o mundo não gira à nossa volta, por mais deprimidos e fartos que estejamos do mundo,
são apenas momentos, dolorosos e eu sei, por ex.tive uma prima que se suicidou aos 21 anos em 1987 e ainda hoje não consegui compreender os pais dela pq. da 1º tentativa disseram que foi atropelada fui visita-la e não me disseram nada e eu mais outra prima minha éramos muito próximos dela ainda penso que se nos tivessem dito, tínhamos conseguido evitar a 2ª vez que foi fatal. Ainda não consegui ultrapassar isso nem sei se conseguirei. Mas também penso que lhes era difícil falar, a mentalidade era diferente e a aparência para a família e Sociedade estava acima de tudo. Adiante...
Por pior que nos sintamos, só temos uma vida e temos que a aproveitar e não provocar sofrimento nas pessoas que gostam de nós, naquele caso ao acabar com o sofrimento causou mais sofrimento para o resto da vida de outros. No teu é bom que desabafes que com os amigos que tens de certeza que cuidam de ti neste momento mais sombrio e Deus de certeza que tem algum de bom à tua espera e eu não acredito em religiões mas em Deus.

Mas tens toda a razão em relação à maioria das escolas e de alguns professores, alunos e pais, infelizmente é o reflexo da falta de educação, valores, disciplina,
respeito, politicas e objectivos da maioria da sociedade. Ainda sou do tempo em que levei réguadas e com a cana na cabeça e tinhamos cá um respeitinho aos professores e aos adultos e só me fizeram bem e eu até era um bom aluno e tive professores espectaculares, por ex. o José Fanha entre outros.

Beijinhos.

Jade disse...

Calma aí, Ricardo. Nem tudo o que eu digo é para ser levado literalmente, ok?
Beijos

Jade disse...

... até porque eu tenho horror a acidentes de viação. Deus me livre. A matar-me só de amor, como aquela música do Djavan (Para mim que estou, jurado p'rá morrer de amor), e com comprimidinhos para dormir...
;-)))

Cris disse...

Tenho uma história, dessa mesma escola, que provavelmente te ajudará a manter o título da pior semana do ano lectivo...

Ora, imagina um dia de vento como os últimos e deliciosos dias. Imagina, que ao chegar à escola, ao sair do carro a porta do carro te foge, mas tu consegues apanhar e segues na tua.

Mas volvidas algumas horas, és chamada por uma funcionária em plena reunião e vais lá fora e vez uma qualquer cena hollywoodesca, tipo o que nós chamaríamos uma verdadeira "barraca armada"!!
Vais à rua, sem saber do que se trata e és apanhada numa confusão imensa, com 4 polícias, muita assistência e testemunhas incluídas a dizerem que a tua porta tinha batido no carro do lado e tinha feito uma mossa imensa.
E que o visado 'dono' do outro carro refere desconhecer que tu és uma colega, quando na realidade vens a descobrir que essa mesma personagem já tinha ido ao CE perguntar quem era a prof dona do carro x.
Quando também vens a descobrir, que todos os envolvidos... tu, o dono do carro e a testemunha... são todos funcionários da mesma escola.

E perguntas, que necessidade havia daquela palhaçada toda? Que se ganhou com aquele circo armado?

Que mundo de cobras é este em que vivemos, que alguém com quem trabalhas não é capaz de te dizer 'Olha, lá! Parece-me que bateste no outro carro. Vê lá!'. Não... É tão mais fantástico correr meio mundo e fazer queixinhas milaborantes...

E claro, que depois também precisas ter sorte com o c*brão do carro que tens ao lado do teu, porque se é a m*rda de um qualquer xpto, com um doentinho anestesiado que vive em função do dito... imagina o resto!

Não foi comigo... mas dá cabo de mim!

Jade disse...

Pois. Eu soube dessa história. (Quem não soube, certo?). É por isso que, para os alunos não cairem em tentações quando os descomponho, e eu não ficar doente a cada risco, o meu JadeMobile anda todo cheio de amolgadelas. Diz a Agustina que muitos carros são, para os homens, o seu membro viril alternativo. A macheza em forma de máquina... alguns são, como se comprova, assumidamente gays.
Beijos

Jade disse...

Gays, não, que eu de Gays gosto tanto como de heteros. São, assumidamente, Bichas Afrontosas. A histeria e os Maneirismos é que me tiram do sério.

Shadow disse...

Eu até vinha cá comentar... (devo referir que era um verdadeiro e senhor comentário)... mas depois de ler "bichas afrontosas" acho que qualquer comentário é inutil. Isso é muito bom lol

Jade disse...

HOMESSA!!! SHADOW: Eu quero o teu senhor comentário! Envia-o JÁ!!! Essa expressão nem é minha, é de um professor gay que eu tive... anda lá, comenta!

cantinhodacasa disse...

"...ou espetar o carro ribanceira abaixo."
Não, Jade Sweet, isso jamais.
Que a escola seja um lugar comum de trabalho, sim, porque todo o processo, a borucracia, o ministério, os pais, os jovens, as crianças, os colegas, tudo vem em cima de nós.
Mas não podemos deixar resvalar-nos para o marasmo, para a solidão, para o desespero.´
Eduquemos nós enquanto tivermos forças. Pensemos que, um dia, alguém vai agradecer os valores que tentámos transmitir.
Por que a sociedade, mais cedo ou mais tarde, vai encarregar-se de tomar conta de tudo.
Sei que por vezes são desabafos da alma.

Beijinho e bom fim de semana

P.S.: Para descarregar algumas das minhas revoltas e frutrações do ensino, e como adoro Flamenco, na próxima dia 14 vou até Lisboa ver o espectáculo "Fuego".
Vai-me fazer bem demais!
Vai ser um fim de semana em cheio e diferente.

Mzinha disse...

Estive até agora para te mandar um comentário, que seria "esta foi a pior semana, mas... na segunda vais pela última vez à escola dizer aquilo que desejas ..." mas a Maya tinha razão (infelizmente): há coisas mais importantes que dinheiro.
PS: nem um no euromilhões, mas saiu o 17....
Já agora esta semana vai ser melhor

Carolina do Mónaco disse...

A Agustina diz mesmo que o carro é o terceiro testículo do homem hihihi!

Jade disse...

Maria, já respondi a isso... modo de expressão, minha querida, modo de expressão.

Mzinha: LOOOOLLLL! Ainda bem que não saíu, já viste o que não se gastaria em tribunais por ofensas verbais e físicas? Toma lá mais uma murraça, PUM!!!???
Antes assim que mais mal. Quanto ao dezassete... o outro é que sabe: dezassete, um-sete, dezassete.

Carolina, quando falei da Agustina, eu sabia que não estava a dizer bem... mas também tinha a certeza de que me irias emendar. A previsibilidade é coisa de gente amiga e a amizade é coisa de gente... rara. Beijos a todas.

Shadow disse...

A previsibilidade é coisa de gente amiga e a amizade é coisa de gente... rara. Beijos a todas.

achei esta frase qlq coisa... Devia concordar com o principio. Alias, concordo. Mas se há coisa que me irrita é que digam que sou previsivel (mesmo quando corrigem e anexam "no bom sentido")

ARggg. Mas a frase é qlq coisa é.

Jade disse...

Shadow, quando escrevi esta frase lembrei-me de ti, que dizias há uns comentários atrás que só faltava terem-me chamado previsível para ser a cereja no topo do bolo num dia para esquecer. Esta previsibilidade a que me refiro aqui é uma coisa distinta. Não é fazeres o que está toda a gente à espera, nada disso. É saberes que alguém vai fazer o que mais ninguém espera, só tu. Porque conheces realmente a pessoa, adivinhas-lhe as atitudes. E isso é uma cumplicidade muito meiga. Quando escrevi a frase também pensei logo: epá, esta saiu-me mesmo bem...
LOL

Shadow disse...

é isso mesmo. Ainda assim não gosto.. ando ha 2 semanas (ou mais) a estrubuchar essa frase.

Ainda assim. E mesmo sabendo que quando um dia não ouvir mais isso vou ficar com um vazio...

Mas. Bem, vou roubar essa frase e afixa.la no tlm a ver se sossego os anti.corpos ;)

selo disse...

Jade,

Adoro o seu blogue, venho aqui sempre que posso. É uma mulher sensível e com uma escrita deliciosa.

Para mim que não sei escrever, mas, gosto de ler, diga-me por favor, que livros um ser humano não deve mesmo deixar de ler antes de "partir para o outro mundo"?

Obrigada,
Beijos.
Teresa

Jade disse...

Teresa,
Fico sem palavras com o seu pedido, faz-me sentir muitíssimo orgulhosa e muito pequenina ao mesmo tempo. Isto de aconselhar livros é uma faca de dois gumes. Daniel Pennac na sua obra (Como um Romance) dá pistas aos professores de literatura e define "Os direitos do leitor". Um deles é não terminar um livro de que não se goste. Por isso, consulte a lista dos meus favoritos, aqui, na lateral da página. O que eu faço é ler muitos livros de autores de que gosto e não repetir más experiências.
Fosse assim em tudo na vida e seria uma mulher feliz.
Boas leituras.
Beijinhos

Teresa disse...

Muito obrigada Jade,

E eu que pensava que deveria terminar a sempre a leitura de um livro, mesmo que estivesse a ser penoso. Achava que o defeito deveria ser meu.

Beijinhos,
Teresa

Mirovich disse...

Da próxima vez que estiver por perto do JadeMobile acho que vou instalar um Chip para quando a sua condutora quiser fazer Km sem azimute, pode sempre dirigir-se e a ser guiada pelo Chip instalado, para este lado da Serra Arrábida.
Podes sempre observar os tubarões, a colecção dos insectos, os carangueijos, os camarões, as raias e as conchas...
já sabes, nem necessitas de te preocupar, o JadeMobile trazer-te-á junto da Serra.
Aqui vai o convite. Vamos subir a Serra no dia 10 de Abril e ao almoço comemos um belo peixe grelhado no carvão?
Já só falta um mês.

Anónimo disse...

Jade,
after talking to you, after reading all those letters you wrote (so deep, so tender, so genuine, so sensitive, so fragile), after learning about the lack of response, after enraging myself against the fact that all your words had gone to waste, after reading this post for the third time, now enlightened by all the info behind it, after knowing all the cruel details, I just leave this comment to say... I know you are not half as tough as you pretend to be, so, if you want me to smack a particular nose, or run over somebody with my car, please, tell me: I'll be more than glad to. I can't stand people who feel no compassion. And I swear to you girl, if I had not seen it with my own eyes, I wouldn't believe that someone could possibly leave texts like those with no response. What shocks the hell out of me is all of this shit being happening to someone like you. Lost my faith in human hearts.

YKW

Jade disse...

Miro, em princípio sim, embora eu seja mais apologista do peixe grelhado que de ver-me grega para lá chegar...

YKW, I lost my faith in human compassion too. I lost my faith in many things the past week, but who cares about our faith, our feelings, our pains, our private hell? Nevermind. Get over it. Copy.
Thanks a lot for your kind words. As usually, you hit the target.

Beijos aos 2