quinta-feira, 12 de março de 2009

Atónita

Hoje fiquei siderada. Pasmei.
Vejamos, não é que seja arrogante ao ponto de considerar que já nada me surpreende, eu sei que a vida é cheia de surpresas, e são quase todas más. Quando as expectativas são altas, as decepções são duras, e eu decepciono-me muitas vezes. Já há é pouca coisa que me choque. Sim, as pessoas surpreendem-me com frequência mas chocam-me pouco.
Hoje, não foi a questão da surpresa. Foi a questão do completamente imprevisível consubstanciado numa atitude grupal.
Tenho uma turma CEF de Serralharia. Todos rapazes. A maioria corrécios incorrigíveis. Casos perdidos (eu sei que é muito feio dizer isto, desculpem, mas é a minha mais profunda convicção). Quase adultos, cheios de problemas sociais e familiares de toda a ordem e mais alguma. Insolentes, mal-educados, violentos. Enfim, uma turma de que é difícil gostar e à qual é impossível ensinar seja o que for, a não ser maneiras. E ainda assim, não aprendem.
Como estou farta de dizer, ando doente. E com mau feitio. Ora esses meninos têm que ser levados "a bem". E no meu estado de espírito... a coisa vai sempre "a mal". Acontece que desde ontem, e por puro cansaço, a minha irritabilidade se transformou numa enorme tristeza. A chegada dos concursos não é indiferente a tal mudança. Ontem e hoje foram dias muito tristes, daqueles em que te levantas já com vontade de te voltares a deitar, te apetece estar sozinha e que ninguém te chateie, só queres estar deitada no sofá em posição fetal agarrada à boneca de trapos que tem o cheiro da tua mãe, e só te apetece abraçar a nova reencarnação que nesta tens a convicção de que já aprendeste as lições que tinhas a aprender, e estás inocente das culpas que continuas a expiar todos os dias. Tudo em ti é tristeza, fragilidade, cansaço, falta de reacção. (isto é muito desconfortável e raro em alguém que, como eu, reaje sempre, nem que seja ao coice, a tudo o que vai acontecendo).
Bom, a nuvenzinha negra acompanhou-me do acordar até à escola, pairou sobre mim no primeiro bloco e, por altura do intervalo da manhã, começou a chover. Primeiro ao de leve. Abri um guarda-chuva mágico e aguentei-me do bar até à casa-de-banho. A casa-de-banho é a melhor amiga de uma muher triste e fragilizada. A maquilhagem é a segunda melhor amiga dessa mesma mulher.
Quando tocou para a entrada, respirei fundo e fui enfrentar as feras. Fui sem agressividade, sem defesas, sem rede. Fui quase sem conseguir articular uma palavra, tal era o nó na garganta, o tremor na voz e o cansaço espelhado na alma. Lembro-me de subir as escadas a pensar, vais ser trucidada. Vão dar cabo de ti.
E foi então que pasmei.
Estiveram onze rapazes dentro da sala. Foram chegando aos poucos, com a atitude displicente do costume. Um a um, à medida que me olhavam com mais atenção, foram falando mais baixo, abrindo os cadernos, tirando as canetas, perguntando pelo sumário. Lá lhes fui respondendo, a aula foi avançando no meio de um silêncio pouco habitual. Olhavam uns para os outros, e desviaram sempre os olhos de mim, quando uma ou duas lágrimas solitárias me riscaram acidentalmente o rosto.
Nenhum deles, nenhum, me perguntou o que se passava. Nenhum fez qualquer comentário em voz alta. Nenhum me confrontou com os meus olhos vermelhos e inchados, com a minha voz baixa, com as vezes em que o meu espírito se ausentou daquela sala, com as vezes em que me sentei em silêncio à secretária, exausta.
Hoje pasmei, porque uma turma de onze rapazes de fugir me deu a primeira prova de saber ser homenzinhos sensíveis. Fiquei estupefacta com a opção deles, a de fingir não se passava nada, traídos apenas pelo excelente comportamento, do princípio ao fim da aula, tão pouco habitual.
No fim dos noventa minutos, despediram-se "Bom fim-de-semana". E eu agradeci. Estou-lhes grata até agora, por muito mais que o tal bom fim-de-semana.
Não podia ter chorado, afinal, numa turma melhor. Qualquer outra teria feito uma feira de atropelos, e perguntas, e consolos, e abraços. Estes limitaram-se a fingir que não viam e a portar-se no seu melhor. E ensinaram-me que até miúdos sem instrução, casos perdidos, têm momentos de iluminada sabedoria humana. E a última lágrima que chorei hoje foi naquela aula. E acreditem que me senti consolada e me vim embora para casa com a sensação quentinha de quem foi alvo do tipo de solidariedade mais rara de todas, aquela oferecida pela pior turma da escola que infernizas duas vezes por semana e com a qual nunca consegues comunicar.

4 comentários:

Shadow disse...

um beijo

Lyscneider disse...

todos nós por mais serios, frios, calculistas e casos perdidos que sejamos, todos nós quando vemos alguem em baixo, de rastos...no fundo do poço, preferimos não entrar em conflito com esse martir do quotidiano actual.
ninguem gosta de ver alguem que nunca nos faltou ao respeito desfeito em lagrimas... ate mesmo as maiores bestas... que andam por ca neste mundo...

Inside me disse...

Serão incorrigiveis Jade? talvez!

Farão o que fizeram contigo com toda a gente? talvez não!

O respeito, por quem lhes tenta ensinar algo, ou por quem os leva "a bem".

Sim, Jade apesar de tudo pelo que passas e pensares e bem que uma escola não deve ser assim como a vês ... o que fazes não é em vão...

... eles lá no fundo respeitam-te ... e agora sabes isso ... e hoje aos teus olhos eles são diferentes...


Beijos NIPT

Mirovich disse...

Os Rapazes que sabem o quanto a vida às vezes é amarga, respeitam sempre os sentimentos daqueles que os tenta ajudar e ensinar.
Hoje foi a vez dos rapazes, dizerem que tambem sabem sentir e ajudar.