Hoje disseram-me que eu tinha uma vida santa. Assim, na lata.
Uma Vida Santa.
Para começar, eu cá de Santa não tenho absolutamente nada (passando a dupla negativa, esta é enfática, para os puristas). Nem o vocabulário, nem os pensamentos mais íntimos, nem os desejos mais reprimidos. O veneno corre-me nas veias e sobe-me à língua afiada quando eu quero e quando eu não quero.
Vivo a minha vida despida de preconceitos. De tal forma que a minha fama me precede. Os meus alunos dizem que eu tenho uma “mente distorcida”. Que “até as cobras fogem a sete pés” quando eu me aproximo. (Isto não é verdade, mas eu tenho pena, agora que me consigo lembrar, assim, de repente, de duas ou três nas quais tropeço vezes demais). Não, eu sou muita coisa boa, mas santa não sou. Até quando tento fazer cara disso, ninguém acredita. Se alguém fez alguma parvoeira, a principal suspeita sou sempre eu. Se há alguém que se ri a despropósito de coisas que não têm piadinha nenhuma, sou eu. Se alguém aplaude perdas de estribeiras e defende que a agressividade não faz ninguém perder a razão, por muitos palavrões e insultos que venham na explosão, sou eu. Se há alguém que acredita piamente no Pursuit of Happiness No Matter What, e se rebela contra a culpa judaico-cristã e a auto-penitência, o Deus Castigador e a hipocrisia humana, sou eu. Santa, qual santa?
Mas tenho uma vida santa. Mando em mim. Decido tudo no meu tempo extra trabalho. Faço o que me apetece. Vou onde me dá na telha. Durmo às horas que bem entendo. Como o que quero às horas que acho bem. Tenho uma vida santa.
Estão a ver a contradição? Um diabrete metido numa vida santinha? Hoje percebi porque é que me chateio de morte no meu papel no palco da vida. A personagem está metida na peça ao lado. Quando cai o pano não há aplausos, porque ninguém percebeu o que é que a Lady Macbeth está a fazer metida no Midsummer’s Night Dream.
Tenho uma vida santa, cacete. Já comecei a tratar disso. Isto tem que mudar, e rápido. Estou preparada para desempenhar o meu papel. O que se me adequa. Coincidentemente, no dia de S. Valentim ofereci-me uma pulseira Pandora. Gostei da simplicidade do objecto, sem os berloques. Como se a minha vida não tivesse ainda momentos que justificassem os pendentes comemorativos realmente decisivos e, ainda assim, fosse bela na sua nudez. E hoje, quando me disseram que tinha uma vida santa, olhei a minha pulseira e pensei: é hora, Pandora. É hora de abrir a caixa de uma vez por todas.
Uma Vida Santa.
Para começar, eu cá de Santa não tenho absolutamente nada (passando a dupla negativa, esta é enfática, para os puristas). Nem o vocabulário, nem os pensamentos mais íntimos, nem os desejos mais reprimidos. O veneno corre-me nas veias e sobe-me à língua afiada quando eu quero e quando eu não quero.
Vivo a minha vida despida de preconceitos. De tal forma que a minha fama me precede. Os meus alunos dizem que eu tenho uma “mente distorcida”. Que “até as cobras fogem a sete pés” quando eu me aproximo. (Isto não é verdade, mas eu tenho pena, agora que me consigo lembrar, assim, de repente, de duas ou três nas quais tropeço vezes demais). Não, eu sou muita coisa boa, mas santa não sou. Até quando tento fazer cara disso, ninguém acredita. Se alguém fez alguma parvoeira, a principal suspeita sou sempre eu. Se há alguém que se ri a despropósito de coisas que não têm piadinha nenhuma, sou eu. Se alguém aplaude perdas de estribeiras e defende que a agressividade não faz ninguém perder a razão, por muitos palavrões e insultos que venham na explosão, sou eu. Se há alguém que acredita piamente no Pursuit of Happiness No Matter What, e se rebela contra a culpa judaico-cristã e a auto-penitência, o Deus Castigador e a hipocrisia humana, sou eu. Santa, qual santa?
Mas tenho uma vida santa. Mando em mim. Decido tudo no meu tempo extra trabalho. Faço o que me apetece. Vou onde me dá na telha. Durmo às horas que bem entendo. Como o que quero às horas que acho bem. Tenho uma vida santa.
Estão a ver a contradição? Um diabrete metido numa vida santinha? Hoje percebi porque é que me chateio de morte no meu papel no palco da vida. A personagem está metida na peça ao lado. Quando cai o pano não há aplausos, porque ninguém percebeu o que é que a Lady Macbeth está a fazer metida no Midsummer’s Night Dream.
Tenho uma vida santa, cacete. Já comecei a tratar disso. Isto tem que mudar, e rápido. Estou preparada para desempenhar o meu papel. O que se me adequa. Coincidentemente, no dia de S. Valentim ofereci-me uma pulseira Pandora. Gostei da simplicidade do objecto, sem os berloques. Como se a minha vida não tivesse ainda momentos que justificassem os pendentes comemorativos realmente decisivos e, ainda assim, fosse bela na sua nudez. E hoje, quando me disseram que tinha uma vida santa, olhei a minha pulseira e pensei: é hora, Pandora. É hora de abrir a caixa de uma vez por todas.
Vida Santa? Já te digo a Vida Santa...
15 comentários:
Essa é quase como:
- Tu não tens filhos. É tão diferente!!
É um must, ver meio mundo a dizer ao outro meio mundo, que a sua vida é muito mais fácil, porque o facto de se ter filhos é desculpa para tudo.
Quem não tem filhos, está sempre mais livre para fazer actas, tem toda a disponibilidade, porque não têm encargos.
Querem-me ver piursa, então é dizerem-me, sem saberem quem sou ou como é a minha vida... que o meu tempo é menos importante e que pode ser dedicado a essas coisas, por e simplemente, porque não tenho filhos. Como se o facto de uma pessoa não ter filhos descreve-se a totalidade do seu ser e do que se pode fazer com o seu tempo.
Poupem-me a santa pachorrinha!!
(Sorry! Hoje deu-me mesmo para os desabafos!)
Bem aparecida! :)
CLAP, CLAP, CLAP
(Aplausos de pé, Jade Macbeth em extâse a pedir BIS)
Exactamente. Não quis referir-me ao assunto "filhos" para não ferir susceptibilidades, mas tenho um manancial de veneno a destilar a esse respeito. Desde papás que não podem ter reuniões a desoras porque os filhos de dezoito anos não podem ficar sozinhos em casa sem jantar até outros que nos dizem "compreenderias melhor aluno tal se tivesses filhos..." ah, sim, porquê? Tu precisas de provar tudo para saber que não gostas? Então dá lá uma dentada com força ali naquele cano de esgoto, que eu vou ali já venho...
Tens razão Cris! São tudo boas desculpas, que servem para tudo, desde humilhar os outros até passar-lhes todo o trabalho que não se quer fazer.
Eu tenho filhos. Mas ainda tenho tempo para mim, para as amigas, para o que eu quero.
Jade, cano esgoto, lol!
Essa da vida santa é gira. Têm inveja de tudo estes tugas.
Beijinhos, é bom ter-te de volta.
Na tua cabeça mandas tu, mas, como sabes, há quem precise de desculpas para ser infeliz.
Achei curioso que te referisse a Pandora e à sua famosa caixa, aquela que ela abriu, não resistindo á curiosidade tão feminina.
"A Caixa de Pandora" foi a 1ª peça do Teatro da São Lourenço, escrita por todos nós a partir de um texto que contava, resumidamente, a história. Foi em 1993, numa altura em que nas escolas se respirava um outro clima, em que aos alunos e professores era permitido pensar e construir. A partir dessa altura o nome de Pandora nunca mais me foi indiferente até dei esse nome à cadela que tive nesse ano.
Não deixa de ser significativo que neste dia me tenhas permitido recordar o período mais excitante da minha vida de docente, quando ia para a escola dias e noites a fio, onde alunos, professores e famílias se envolviam para construir, representar, partilhar, viver. Há quantos anos não se vive assim nas escolas? E com que ganhos?
JSJ
... ainda bem que estás de volta...
Pandora("a que possui todos os dons", ou "a que é o dom de todos os deuses")
E tu tens o dom de nos encantar com as tuas palavras... alguns dos teus/nossos pensamentos são por ti descritos tão bem...
... e sabes, a vida dos outros é sempre uma Vida Santa, pois não vivemos os seus problemas.
... bem depois da caixa aberta ... restou a esperança...
... que esta nunca te falte...
Beijos e "Vida Santa" NIPT
Carolina, desculpas para se ser infeliz ou medo de ser mais infeliz ainda, não sei. Quem acha a minha vida santa só pode estar muito mal dos neurónios. Eu, pelo menos, estou doida para me ver livre de tanta santidade.
House, tenho pensado muito em Pandora, ultimamente. Há caixas que estou doidinha por abrir, e não é por curiosidade, é mesmo para deixar sair em liberdade o que lá anda fechado...
E sim, sinto falta de ir trabalhar para uma Escola. Ultimamente vou trabalhar não sei bem para onde...
Beijos
Inside Me,
Não concordo nada que a Vida Alheia seja sempre Santa... e quando a minha é parâmetro de comparação com uma pontinha de inveja, algo está pôdre no Reino da Dinamarca, que eu hoje estou muito Shakespeariana...
Beijos
Gosto muito da pulseira, que também tenho! De inicio apanhei um caracol na praia e enfiei na pulseira singelamente. Assim andou por muito tempo.
No Natal acrescentei mais algumas contas oferecidas pela minha mãe, de outra marca. Sabes que perdeu a magia?! Mas continuo a usá-la. Apesar de já não ser uma pulseira rebelde, o caracol polido lá continua no meio das outras contas.
Vida santa, como se alguem soubesse o que é ter uma vida santa!
Quando alguem diz que os outros têm uma vida santa, apenas querem dizer apenas que "A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha".
Adorei o teu post.E os comentários sobre os filhos, também. Revejo-me em tudo. Ontem disseram-me: "Que problemas é que tu podes ter? Não tens filhos." Se fosse noutros tempos tinha-lhe chamado todos os nomes, tinha-me irritado, mas agora, que estou mais em paz comigo própria, igorei a estupidez dela.
Tenho o mesmo "problema" que tu, também tenho uma vida santa e também tenho andado a pensar comprar uma Pandora, gosto da ideia de ir construindo uma pulseira como se vai construindo a vida.
Bem-vinda
Bjs
Jade, adorei o desfecho do teu comentário:
"Então dá lá uma dentada com força ali naquele cano de esgoto, que eu vou ali já venho..."
Fartei-me de rir para aqui sozinha, qual parva a olhar o ecrã, mas acho que vai virar mais uma das minhas orações secretas! :)
Mundinho pequeno o nosso, não é?! ;)
Vi a mesma "A caixa de Pandora" enquanto espectadora, numa altura em que tive o privilégio de viver nessa escola diferente e tão mais saudável a que o Dr. House se refere. Por ser a primeira peça de Teatro e por lá estarem envolvidos tantos professores e colegas, ficou também de referência no meu cantinho das memórias especiais.
parece.me que te acertaram nos pontinhos todos... só faltou que te chamassem previsivél ;-)
E pronto, lá ia o sagitário ao arame de vez...
Pois é, Carolina, a pulseira que uso, e da qual cada vez gosto mais, é rica em interpretações e tem valor sentimental, apesar de não fazer ainda uma semana no meu pulso.
Miro, essa da galinha da vizinha é perfeitamente compreensível. Acho é que as pessoas olham para a minha galinha e a vêem mais a dar para o pavão quando ela não passa de uma franga (que vou soltar brevemente).
Shadow, é verdade. Mexam-me com tudo, menos com os pontos fracos...
Isabel, há muito que me acostumei que os pais de filhos me tratem como se o facto de não os ter fosse equivalente a não ter um braço ou, pior, a não ter nível para isso. Como se fosse falta de carácter. Mas como isso é estúpido, a estúpida não sou eu. Ainda bem que gostaste do post, que eu fiz questão que o meu regresso fosse, pelo menos, isento de depressões.
Cris... LOL: Eu, que não sou santa, lá inventei mais uma oração: ironias!
Beijos a todos
É caso para dizer: só cada um é que sabe de si, da sua vida e dos seus problemas...
Só cada um é que sabe o que lhe vai na alma...
Bjns
Se há coisa que me irrita é o pessoal (supostamente amigos e tal) que diz "Ah e tal, tu não tás na faculdade não fazes nada. Passas o dia de pé a atender gente."
Há muito boa gente por aí convencida que eu não faço nada na vida só porque trabalho numa loja e não estou na faculdade.
Fossem lá passar um dia a receber nova colecção e eu logo lhes dava a 'santidade'. Entro as 11h, chego sempre mais cedo, saio as 20h, trabalho sábados, por vezes domingos, e horas extra. Nã tou com os amigos quase nunca, nem vejo gente nova nem nada. Não tenho tempo para nada.
Aturo a má-educação das pessoas, a arrogância, as queixas. Faço cara simpática quando não me apetece para não prejudicar a imagem da marca e tudo isso. Um trabalho igual aos outros mas que também tem valor.
Só que muita gente não sabe dar. e isso IRRITA-ME! ARGH!
Beijinhos* (desculpa o desabafo)
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