Quintas-Feiras são dias de tarde livre. Teoricamente, claro. Mas hoje até foi. Os testes por corrigir ficaram a olhar-me acusadoramente de cima da mesa onde foram abandonados com desprezo leviano. O sol brilhou à tarde e arrastou-me corpo e espírito para o reino da indolência. Por volta das três e meia pensei em ir até à escola, a Mzinha está em furo a esta hora e sempre dava uns dedos de conversa, mas também sabia que provavelmente ela estaria a aproveitar esse tempinho para trabalhar, e desisti de interferir nas boas intenções alheias.
Lembrei-me da MissCovilhã, e na forma como ela, quando estava na escola em furo, me desafiava para lá ir ter, só para lanchar no bar. Tive muitas saudades dela, da forma como cobrava a atenção de toda a gente e punha os amigos a andar a toque de caixa para lhe satisfazer os caprichos. Se havia coisa que a tirava do sério era fazer qualquer tipo de refeição sozinha. Qualquer ida ao bar, nem que fosse para comprar uma garrafa de água, para a qual não fosse convidada, era pretexto para uma encenação de um ataque de fúria. E aquilo, às vezes, irritava-me. Mas agora sinto-lhe a falta, sinto a falta das exigências dela nos "tratamentos especiais". Sinto a falta de lhe agrafar os testes a resmungar, de lhe perguntar, de cada vez que me pedia um favor em tom de ordem incontestável, "e batatinhas fritas a acompanhar, não queres?"
Porque, no fundo, aquele mimo de criança caprichosa que ela sempre teve, pedia a nossa presença. Na altura não o sentíamos, mas agora, que ela nos falta, é que damos conta que nos fazia sentir importantes. Agora, que em tarde livre ninguém exige a nossa companhia nem cobra a nossa atenção, e com um suspiro pensamos "Ir à escola? Para quê?", e optamos por ficar a vegetar no sofá de uma sala vazia.
2 comentários:
Ó minha Amiga...
Quem diria que haviamos de sentir falta recíproca de todos aqueles pormenores que nos tiravam do sério mas que, no fundo, eram o que alegrava os nossos dias nesta nossa triste e desinteressante vida de "colegas de trabalho"!
Sem os nossos lanches, "cortes e costura" e, sobretudo, sem a tua (vossa) simples presença, as tardes tornaram-se demasiado livres...
só acrecento mais uma coisa,
cada vez mais tenho menos vontade de lá estar (e isto não faz nada o meu género)
Esperemos que isto mude...
Enviar um comentário