domingo, 8 de fevereiro de 2009

Simple Things are the Easiest to Miss


Há coisas que de tão simples nos passam despercebidas porque as complicamos, muitas vezes porque a sua simplicidade óbvia não nos agrada. Este foi um fim-de-semana dedicado ao tema do amor. Inusitadamente, na fase da vida em que me encontro. Não poderia ser mais surreal, mas assim foi, ditado pelos acasos. Tudo começou com a tal proposta indecente, galhofeira e divertida, uma sms recebida na manhã de 6ª feira. Um flirtzinho inocente, inconsequente e recorrente, de tempos a tempos, a lembrar-me de que sou uma mulher.
As sms prolongaram-se ao longo do fim-de-semana, mudando de tom, para coisas mais sérias, dado que somos amigos e entre amigos a brincadeira é deixada para trás quando valores mais altos se levantam. E quando o meu interlocutor se apercebeu do meu real estado de espírito em relação à minha vida emocional, depressa se deixou de parvoeiras e me ligou. Estivémos algum tempo ao telefone, a pôr a conversa em dia. Num dia em que eu vira dois filmes bastante marcantes e, claro, sobre o amor. Vicky Cristina Barcelona e o Estranho Caso de Benjamin Button. Não vou falar da profundidade em que foram cair aquelas duas fitas numa tarde dedicada ao cinema. Quando uma pessoa se sente vazia, qualquer coisinha lhe bate no fundo, e arriscar-me-ia a fazer a elegia de duas películas que, analisadas de forma racional, poderiam nada mais ser que banais. Por isso, passo. Ao telefone, contudo, acabada de chegar do cinema, trazia a cabeça cheia de palavras e emoções, que despejei no tal amigo.
Ele ouviu-me, em silêncio, e disse-me que me ia escrever um mail. Que achava que tinha chegado a hora de me dizer exactamente o que pensava sobre o assunto, mas que teria que ser por escrito, para organizar melhor o discurso, e para não se deixar levar pelas minhas fragilidades, pela minha sensibilidade. Disse-me, apenas, estás a falhar a informação essencial. Não te livras disso, porque estás a fechar os olhos ao óbvio. E hoje, ao abrir o mail dele, respirei fundo e fui confrontada com a minha verdade. Lembrei-me de um livro apadrinhado pela Oprah Winfrey “He’s just not into you”, e sorri, ao verificar que caí, realmente, no verdadeiro lugar-comum.
Dizia ele, a certa altura de um texto brilhante “Esse senhor, minha amiga, está-se nas tintas para ti. Está-se nas tintas para a tua existência, não quer saber dos teus sentimentos. Já lhe deve ter caído a ficha, conhece-te, sabe que, dadas as circunstâncias, o mais provável é aproveitares os concursos para te pores a andar daí. E o que faz ele? Gere o silêncio. Ignora-te quando tu o interrompes, nas tuas subtilezas costumeiras de menina que não quer impor a sua presença mas que sente uma necessidade atroz de presença, de aproximação. Essa necessidade é natural, minha querida, assim é o amor. O que não é natural são as coisas que inventas, as interpretações que fazes de um silêncio que, da parte dele, não tem qualquer interpretação que não a literal: ele não gosta de ti, mulher. Todas as desculpas que dás para o defender são fruto do teu amor, do teu desejo, da tua saudade. Não os projectes nele, porque eu digo-te: nós, os homens, damo-nos ao luxo de ignorar uma pessoa de quem gostamos muito quando ela está perto de nós, é um dado adquirido, uma presença constante. Quando desce a sombra da ausência, minha linda, tudo muda de figura. Perante um countdown, fala muito mais alto o que é verdadeiro, o desejo, a vontade de ter essa pessoa junto de nós o mais possível, seja para a convencer a ficar, seja para aproveitar o que resta. Se o silêncio continua, é porque nada existe: não se verbalizam emoções inexistentes. Ama-o se não tens outro remédio, mas ama-o consciente de que amas alguém que não nutre por ti qualquer tipo de sentimento, nem o de uma leve amizade. Porque tu és uma miúda incomparável. Alguém de quem gostes mesmo pode contar com uma lealdade rara da tua parte, pode dizer-te tudo, pode despir-se de tudo o que não interessa à tua frente. Ele sabe onde encontrar-te, ele sabe como te agradar, como te apaziguar, é tão fácil fazer-te sorrir. E, se não o faz, se não te procura, se não te escreve, não é para te proteger, princesa. Pensa: achas que há alguém no Mundo, para além de ti mesma, que acredite nisso? Pensas que algum homem recusa tocar numa mulher, sentir-lhe o cheiro, dar-lhe um grande beijo, escrever-lhe um texto, responder-lhe a uma carta, se gostar dela, se precisar dela, com uma intenção altruísta? Não. Não. Ninguém o faz, até porque pessoas inteligentes sabem que nenhum sofrimento por amor é maior que o sofrimento de não se ser amado. Desculpa, minha linda, mas a mim, um comum mortal, faz-me muita espécie que uma mulher bonita e inteligente, como tu, se prenda a mentiras mal-enjorcadas e perca a perspectiva das coisas como elas são. Porque às vezes, elas são mesmo a preto e branco.”
Obrigada, P. Um aplauso de pé, para ti.
Os nossos melhores amigos são aqueles que vêem aquilo que nós não queremos ver, e nos apagam as luzes ao fundo do túnel. Mas caminham ao nosso lado, com uma lanterna na mão.

12 comentários:

Inside me disse...

JSJ

Dá uma abraço meu a esse teu amigo.

Ele foi realmente um AMIGO... e foi claro como água...

Assim vale a pena ter amigos... aqueles que nos dizem as verdades..

Segue em frente agora...

... e não digo mais nada pois ele fê-lo melhor que ninguêm... e acho que entendeste...

Beijos NIPT

Mirovich disse...

Apenas te direi Jade que voto no pensamento do teu amigo te enviou por email,e, é claro que tambem voto em ti.
Beijinho

teia d'aranha disse...

Oh my god! Parabéns a esse teu amigo, Jade! Parabéns pelo discurso revelador de uma capacidade de análise singular e pela amizade genuína que evidencia.

Porque amigo não é quem apenas nos afaga o ego e nos acolhe nos braços, mas é também quem nos abre os olhos e nos sacode até enxergarmos a (dura) realidade.

Beijo

Lunática disse...

Jade, sou seguidora fiel do teu espaço há já algum tempo. No início deixei-me fascinar pela maravilhosa forma da tua escrita. Tens o dom das palavras e acho que deverias realmente aproveitá-lo. Quando muito, não deixes nunca de escrever aqui.
Com o passar do tempo, notei que algo me perturbava seriamente nos teus textos. Quando percebi, constatei que me sentia profundamente descrita/despida por eles. Parecia que estavas a descrever aquilo que eu sentia, mas com adornos linguísticos para os quais não possuo talento. As falsas esperanças, a falta de esperança, os dias menos bons, o inconformismo seguido de conformismo, os ataques de choro, etc, etc.
Este último post,ditou a minha vontade de te saudar. Desde os dois filmes que também vi estes dias e me marcaram muito, talvez pelo estado em que me encontro, senão não passariam de meras histórias banais e hollywodescas, até ao amigo que nos diz: "He's just not into you". Está na hora de deixar de arranjar desculpas para não conseguirmos que os sentimentos sejam recíprocos, que a paixão que desejamos que seja avassaladora...nem sequer paixão seja para as duas partes envolvidas...
Enfim...
Gostava de dizer muito mais, mas como já disse, falta-me o dom da escrita!De qualquer modo, acho que conseguirias descrever mais facilmente aquilo que eu sinto, do que eu própria!

Segue no bom caminho e deixa-te levar pelos piropos inocentes...Nunca se sabe o que poderá estar por detrás deles!

Jade disse...

InsideMe e Miro, obrigada.
Teia... este meu amigo passa a vida na palhaçada. É daquelas pessoas que não leva nada a sério, e por isso tremo de cada vez que, como no Sábado ele diz "Basta. É hora de me ouvires". Sei que vem dali algo de indigesto. Já várias vezes, ao londo deste último ano, ele me avisara "esse senhor não sente nada por ti" e eu, "estás parvo, eu sei disso, porra, porque achas que choro tanto?" e ele calava-se. Mas no fundo, tinha esperança que não, que fossem as circunstâncias, o contexto, a vida, a afastar-nos. Tentava desculpar os seus silêncios, sobretudo a falta de feedback a gestos subtis meus. Pensava, não diz nada para não me magoar mais, para não sofrer mais. O P. demonstrou-me claramente que não é nada disso, é apenas o óbvio. A falta de palavras advém da falta de sentimentos a verbalizar. E agora é encaixar e andar em frente fazendo o mesmo, remetendo-me definitivamente ao silêncio. Beijos

Jade disse...

Lunática, bem vinda. Bom nick, adoro a lua, também tem fases, a tipa! Tinha que ser um astro feminino... adiante. Obrigada pelas tuas palavras. Ultimamente acho que me ando a expor demais, mas vou voltar ao tom casual em breve. Assim que passar esta fase lunar verdadeiramente difícil em que me encontro. Talvez o momento de viragem tenha sido o mail do tal amigo dos piropos. Acho que, inclusivamente foi crucial tanta verdade ter saído de uma boca masculina. Pode ser mesmo o que eu estava a precisar para descer finalmente à terra, depois de tanto tempo a flutuar e a ignorar o óbvio. Beijos, volta sempre

Carolina do Mónaco disse...

Não podia estar mais de acordo com o P.. Não podes evitar amar, mas podes guardar esse sentimento para ti e seguir em frente. Além de não haver amor do outro lado do muro também não há respeito por essa mulher plena que és.
Move on.

Jade disse...

Olá, Carolina. Desculpa não te ter dito nada, mas este fim-de-semana foi a cereja no topo do bolo de uma semana para esquecer. Foi de tal ordem que mal cheguei estive em vias de me vir embora. A minha mãe regressou aos bons velhos tempos, não sei se estás a ver. Enfim, quando algo corre mal parece que contagia e envenena tudo o resto.
Quanto ao assunto que aqui nos trouxe, sabes todos os pormenores do que se passa, e tens toda a razão. Por mais que me custe, tens toda a razão. E custa-me. Muito. Beijos

Carolina do Mónaco disse...

Não peças desculpa Jade, por nada.
Beijinhos.

Isabel disse...

Jade, que bom ter um amigo assim, tão amigo, tão lúcido, tão verdadeiro. Também quero. Eu precisava de uns mails assim!
Bjs

Jade disse...

Isabel, nisso tens razão: por mais indigestos que sejam alguns dos meus amigos, a qualidade deles é inquestionável. Beijos

cantinhodacasa disse...

Jade, há alguns dias que não vinha cá, tenho tido testes para corrigrir, formação, aquele trabalho que nos tira o fim de semana.
Hoje, com mais algum tempo vim aqui visitá-la.
Adorei ler este post. Tem um amigo fantástico.
E como diz num dos comentários ele passa a vida a rir, na palhaçada, mas estes são os que melhor observam o que se passa a seu lado.
Há muitos anos atrás, passei por uma situação semelhante, Jade.
Quantas vezes eu não quis ver o que era claro.
Decididamente eu larguei, mesmo tentando desculpar o que era óbvio.
Custou mas valeu.
A felicidade está nas pequenas coisas da vida e, como já lhe disse, tudo acontece a seu tempo.
O ombro, o acrinho, o beijo, a conversa cumplice há-de chegar. Entretanto Jade, viva a vida.
Beijinho