sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sem Assunto

Tomei uma decisão, hoje.
Acordei cedo, passei a manhã na rua a cirandar e fui tomar café com a S. e os pequenos, pouco antes da hora do almoço. Andei à procura de um CD que não encontrei, fiz o carregamento de revistas, livros, cigarros e chocolates da praxe e preparei-me para uma tarde de correcção de testes.
Cometi um erro. Um apenas. E o erro foi ter ligado o computador e vindo à NET. A partir daí, foi uma sequência de emoções contraditórias. Muito desagradáveis, feitas as contas. E agora, são horas de pessoas normais jantarem. Eu não sou normal, de todo, e a última coisa que vou fazer é jantar. Em vez disso, com a TV em pano de fundo, deixo-me imergir no lago negro da fúria. Estou furiosa. Estou irritada. Estou possessa.
Revejo tudo o que me escreveram para o mail nas últimas vinte e quatro horas. Todos os comentários publicados e não-publicados. Releio mails antigos que recebi no auge de uma paixão cuja conta continuo a pagar. Releio sms ancestrais, aquelas que copiei para um ficheiro no computador, por serem “apenas perfeitas” ou muito, muito, cruéis e maldosas. Faço um ponto da situação, no meio das palavras dos que me são queridos e dos outros, cuja existência nada mais é no meu Mundo que a de um mero incómodo de que não nos podemos livrar. Existem, temos pena. Siga a marinha que o exército está cansado, como me escreveram ontem.
E, no meio disto tudo, um desconforto, um desagrado, uma raiva crescente. Abri e fechei o blogue milhares de vezes, hoje. À procura de algo para dizer, de um statement de mudança, de uma piada parva, de um post sobre outro qualquer assunto que fugisse aos últimos, que já chateiam, eu sei. Abri outros blogues à espera de novidades que me inspirassem. Nada.
E pensei numa peça que detesto “Waiting for Godot”, de Beckett. Detesto, suscita-me uma claustrofobia medonha. Depois de me surgir Beckett no pensamento, tomei uma decisão. Enough is enough. Não tenho nada para dizer a não ser coisas deprimentes. Não tenho outro assunto que não se resuma a destilar veneno, amargura, acidez. Por isso, calo-me. Calo-me porque detesto gente que se está sempre a lamentar e não faz nada por si. Detesto pieguices e ultra-sensibilidades. Detesto carpideiras em funerais. Detesto gente má-onda. Detesto pessoas sempre deprimidas. Detesto malta que não se ri. E fui chamada à atenção, para além de tudo o resto, de que me ando a expor demais. E ando mesmo. E se bem que me esteja nas tintas para as fragilidades que essa exposição revele, não me é indiferente que me comece a cansar de escrever demais, de dizer demais, de arriscar demais.
Escrever é bom. Estender a mão ao leitor é bom. Partilhar é bom. Oferecer é bom. Mas ler é melhor. Agarrar a mão que nos estendem é melhor. Receber não será melhor, mas é essencial. E eu resolvi mudar de campo. Generosidade tem limites. Presentes desinteressados também. Ofertas de sorrisos idem. E exposição pessoal, aspas aspas.
Vou calar-me e esperar Godot. Vou calar-me a muitos níveis. Vou calar-me, de facto. Ao ler as palavras que li hoje dei-me conta que quanto mais falo menos ouço. Quanto mais dou, menos recebo. Quanto mais desejo menos tenho. Quanto mais gosto, menos gostam de mim. Pathetic isn’t Charming.
Regressarei quando tiver assunto.

21 comentários:

Sílvia disse...

Espero que tenhas assunto rapidamente =)

bjinho***

Isabel disse...

Estava a comentar o teu post anterior e entretanto publicaste este. Como é óbvio, cada um sabe da sua vida e tu sabes da tua, mas acho que aquilo que os outros te dizem não deve mandar nas tuas decisões. O teu blog é o TEU blog, é o teu espaço de comunicação. Teu e só teu. Só tu podes decidir o que escrever, quando, onde, em que quantidade, etc. Se sentes que deves parar, tudo bem, mas que seja uma decisão tua e não dos outros. Eu sei que também pertenço a esse tal grupo: os outros! E se calhar também estou a meter o nariz onde não sou chamada, mas acho que a blogosfera é um maravilhoso espaço de liberdade e assim deve continuar. Se alguém quer carpir as mágoas, que carpe, se alguém quer exprimir a sua imensa alegria, que exprima. Todos nós temos fases boas e más. E falar sobre as fases más muitas vezes ajuda a ultrapassá-las:)
Bjs

Jade disse...

Olha, se queres que te diga, eu nem sei. Neste momento acho que prefiro nem ter. Bjos

Jade disse...

O comentário anterior era para a Sílvia, que ainda não tinha lido e publicado o da Isabel.
Isabel, concordo com o que disseste em género, número e grau. Falei dos "outros" porque estou atenta às opiniões de quem me lê, mas as decisões que tomo são exclusivamente minhas.
Beijinhos

Mzinha disse...

Só me apetece dizer isto:
"Que as pulgas de mil camelos infestem o cú daquele que estragar o teu dia e que os braços lhe sejam curtos para coçá-lo."

Beijinhos

PS: pensei que a outra oração era pior. (sabes qual é)

Filipe disse...

Leio-te há meses, sem nunca te dizer nada, mas hoje resolvi dar-te um puxão de orelhas... Tu, sem assunto? Oh, minha cara, temos que tratar dessa moral, dessa motivação...
Abraços

Cris disse...

Mzinha,
muito bem dito! :))

Jade disse...

Mzinha e Cris, parece que andamos as três mais católicas do que é costume, já que repetimos duas orações como se fossem mantras...
Filipe, a sério, tens andado por aqui? Que bom... então já deves ter percebido que estou de facto sem assunto. Nada de puxões de orelhas, que as minhas são muito sensíveis.
Beijinhos a todos

cantinhodacasa disse...

eilluveSem assunto, com muito assunto.

"Releio mails antigos que recebi no auge de uma paixão cuja conta continuo a pagar."

Por que ainda continua a pagar esta conta?
Por que não desligar-se de um passado que só a faz sofrer?
Por que quer relembrá-lo?
Auto-comiseração?
Vontade de sofrer?
Não se canse da vida.

Ofereço-lhe este parágrafo:

"Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto. Fernando Pessoa, in "Livro do Desassossego".

Jade disse...

Minha querida, se não voltasse ao Passado, convencer-me-ia de que estou louca, de que o inventei. Esses mails foram das poucas coisas que me fizeram sorrir hoje. Recuei às palavras que já tive, esquecendo por momentos que não me foram escritas hoje.
Beijinhos

Dry-Martini disse...

Deixo-lhe alguns assobios e a frase "Always look on the light side of life..."

XinXin

PS: Os assobios era apenas a deixa para um sorriso .)

fuschia disse...

Jade, entendo o que sentes, lembro-me de quando eu tentava esquecer uma paixão, daquelas que é o homem da nossa vida, daquelas que acabam sem que consigamos dizer as coisas certas nos momentos certos e que nos deixam com tanta coisa cá dentro que levamos meses, anos a destilar, a andar as voltas, a dizer as mesmas coisas. Temos medo de cansar quem nos ouve, porque damos conta que a conversa é sempre a mesma. Porque não nos calamos então? Porque acredito piamente que só esquecemos o que compreendemos, por isso terás que compreender o que aconteceu, mesmo que não tenha acontecido nada, é um momento em que tens de olhar para ti e descobrir as tuas respostas. E isso demora o tempo que demorar. Cá estaremos ;)E embora não vejas agora, se alguma vez te perguntares, sim haverá vida e amor depois disso e eu posso-to dizer sem qualquer sombra de duvida.

Jade disse...

Obrigada Fuschia. Obrigada. Passei o dia de ontem revoltada, irritada, sobretudo. Não verti uma lágrima em 24 horas dedicadas aos namorados, em 24h que, para mim, foram iguais ao costume, no meio de silêncio e solidão. E eu não verti uma lágrima. Hoje fizeste-me chorar. Obrigada. Obrigada por dizeres exactamente aquilo que eu penso e responderes à pergunta fundamental de Wuthering Heights "How can I live without my Life?". Thanks

cantinhodacasa disse...

Jade sweet, na sua idade tive uma grande paixão.
Sofri muito, emagreci, chorei, e muito mais.
Mas tomei a decisão de me desligar dessa relação, por que compreendi que não era o que os meus olhos queriam ver.
Foram alguns anos sem querer relação alguma, e com outros objectivos que decidi tomar .
Hoje penso que foi o que de melhor fiz na minha vida.
Muitos receios e medos me acompanharam ao longo destes anos, após deixá-lo.
Fuschia exprimiu muito bem o que se sente nessas situações.
Eu só quero dizer que a Jade tem de ver algo mais positivo em si e na vida.
As coisas acontecem simplemente.
Beijinho

Jade disse...

Obrigada.
Beijinhos

cuidandodemim disse...

Quem vive se lamentando dos seus próprios recursos, gasta em palavras toda a energia que precisa para transformar a sua vida.
Jade, pareces ser uma mulher de coragem pelo que aqui escreves. É preciso ter muita para se expor, para revelar aquilo que realmente se sente. Por isso permite-me que te diga: vai à luta. Desejo-te boa sorte.
Bjns

Anónimo disse...

Ricardo Santos, Boa noite Jade espero que estejas bem o meu primeiro comentário foi no teu post "Espiral" hoje voltei a "ver" o mar e a sentir emoções/sensações que desde Setembro não sentia, até é um crime falar nisso, mas pensei em ti e em outras pessoas e em mim, mas gostaria que um dia qd puderes dar um sinal de alegria,
Beijinhos, que o vitinho hoje chegou mais cedo.

Inside me disse...

JSJ

Então comandante? Sem assunto? Nem parece teu!

Mas se é por uma boa causa... parece-me bem.

Força não te deixes abater... segue em frente ...

Ouvi hoje num filme:
"desistir... não desistir...
...estás demasiado preocupado com o que foi e com o que há-de ser...
... existe um proverbio que diz o ontem é história... Amanhâ é um mistério ... mas hoje é uma dádiva, é por isso que se diz que é o presente..."

Por isso temos que aproveitar o presente ... e às vezes temos que digerir muita coisa passada ... para sabermos viver o futuro.

Vá força e Fica bem Jade.

Beijos e "sem assuntos" NIPT

Jade disse...

Cuidandodemim, obrigada. Vou à luta, sim. Mas para isso preciso de fazer silêncio. De me calar para me poder ouvir. Não tarda estou de volta.
Ricardo, obrigada. Também já tenho saudades do mar. Um dia destes, em breve, também eu vou procurá-lo, em busca de conselhos. Quanto à alegria, ela surge todos os dias, tenuamente. Espero estar pronta para as palavras dentro em pouco.
InsideMe, obrigada. Preciso mesmo de um momento kit-kat. Não quer dizer que não vá publicando um vídeozito ou uma imagem. Até pode ser que publique as palavras dos outros. É com as minhas que ando zangada.
Beijinhos a todos

Alexandra disse...

Não vou comentar o porquê desta pausa porque não tenho jeito para essas coisas e ando demasiado lamechas para isso, e a coisa ainda corria mal. Deixo aqui apenas um Até Já!
Porque eu sei que vais voltar. Em grande.

Beijinho enooooorme!*

:)

Jade disse...

Thanks for your confidence. I'm not very confident right now, but at least I'm silent. While I'm silent I'm not saying stupid things.
Beijos